Cristo, Rei do Universo – Ano “C”

Jeremias 6,1-6;2Samuel 5,1-3:Ungiram Davi como rei de Israel

Salmo 122,1-5 - Na casa está entronizada a justiça de Deus!

Colossenses 1, 11-20 – Recebeu-nos no reino de seu Filho

Lucas 23, 35-43 – Senhor, lembra-te de mim, quando entrares no teu reinado

 

               SOMENTE TEU É O PODER, A HONRA E A GLÓRIA!


Quantas vezes, dentro da Igreja, reproduzimos os modelos de "reinado" do mundo, e não os do reino de Deus em Jesus Cristo! Quantas vezes estabelecemos relações de poder autoritárias ao invés de fraternas! Quantas vezes entramos em concordância com os poderes dos sistemas –  religião, política, economia –, enquanto agimos contrariamente ou quando nos omitimos sobre a pregação da justiça! O modelo de "reinado" que o “Cordeiro degolado” que tira o pecado do mundo, nos apresenta  interpela e chama à conversão. Interessante! As origens dessa comemoração, no Calendário Cristão, com indicações litúrgicas, são encontradas na época do ocaso das monarquias, e ainda antes, sob influências como Hobbes e Machiavelli, com o objetivo de opor-se aos regimes repu-blicanos que emergiam sob a influência da Revolução Francesa. Suas origens são controversas, reconhecemos. No entanto, os textos com que celebramos esta festa nos mostram como as Escrituras Sagradas refletem a concepção de Cristo como "Rei". Nesse sentido as igrejas protestante e católica têm sido manipuladas pelos interesses políticos do momento? De que maneira se beneficiaram da organização do "absolutismo" hobbesiano, ou maquiavélico (o fim justifica os meios), e pelo humanismo de J-J Rousseau, este um calvinista abrigado na Suíça protestante?

 

À luz da liturgia com o tema “Cristo, o Rei do Universo”, e do modelo de relações existentes refletimos sobre nossas atitudes nos diversos âmbitos em que nos movemos, e perguntamos: Como são as relações de poder em nossa casa? Baseiam-se na dominação/subserviência, ou na promoção da mútua liber-dade responsável entre os familiares? Como são as relações de poder na família? Valemo-nos  da autoridade para impor uma certa maneira de exercer autoridade? Justificamos, em nome da “autoridade”, abusos de poder, maltrato físico ou verbal, quando protagonistas da violência intrafamiliar comum em tantos lares? As relações entre os membros da Igreja seguem o modelo cristão ou seguem o modelo autoritário, repressivo, impositivo, excludente, próprio do "príncipe deste mundo"? Na sociedade civil lutamos por novas relações de poder, segundo o modelo de Jesus, o anti-rei, o anti-poder, que os evangelhos apresentam (“meu reino não acompanha os modelos deste mundo...”; - pronunciava Jesus diante de Pilatos  - Jo 19, 36).  Por que não é deste mundo um reino  preferencial para o sem-poder, o pobre, o excluído, o cativo e o oprimido)? Por que nos prendemos aos modelos autoritários ou nos declaramos impotentes e indiferentes e renunciamos à luta em favor da causa de Deus?

 

Erich Fromm (Medo à Liberdade, Zahar) expõe que “frente a angústia que produz no ser humano a consciência de estar separado do resto da criação, adotamos duas atitudes igual-mente patológicas: dominar os outros, ou aceitar depender de alguém, entregando-lhe nossa liberdade. Em ambos os casos, a pessoas busca, através destes mecanismos, dissolver a barreira que as separa do resto do universo”.  O pecado fundamental do ser humano é, pois, um pecado de “poder mal administrado”, mal assumido. E esta é a origem de todos os outros pecados: a avareza, a ganância, que conduz a uma ordem econômica injusta; a soberba, que impede ver com clareza erros e pecados; a mentira, que  leva a manipular ou a deixarmos manipular; o sexo utilizado como instrumento de poder, para "possuir", oprimir; o medo, que impede de levantar-nos e caminharmos com nossos próprios pés (Serviço Bíblico Latino-Americano).

 

Durante a Idade Moderna, tempo em que se inicia a Reforma Protestante, a base do poder absoluto do rei foi formada por duas classes sociais de elite: a nobreza e a burguesia... e pela Igreja... No entanto, neste mesmo período, percebemos grandes transformações na organização religiosa do cristianismo, a partir da Reforma Protestante, e a formação de novas doutrinas da Igreja.  Aqui influenciam Lutero (os dois reinos), e noutro sentido Calvino (a soberania de Cristo). Apesar da quebra da unidade da Igreja, dividido a partir de então em ênfase diferentes, a religião continuou a ter um papel importante na formação cultural da sociedade européia. Conseqüentemente, foi utilizada para apoiar ou justificar o “poder real” (Cláudio B. Recco, Folha de S.Paulo, 14/08/03). Apesar dessa importân-cia, os principais teóricos do absolutismo se utilizariam do discurso racional, de origem renascentista. Machiavelli, mais cedo, defende a utilização de todos os meios ao alcance dos governantes para a centralização do poder; Thomas Hobbes defende o absolutismo necessário para a organização social, superando o "egoísmo intrínseco ao homem", o qual leva-o à defesa do interesse próprio, e não da sociedade.

 

No século 17, Jacques Bossuet, bispo católico francês, estabe-lece a relação entre o poder do rei e o poder de Deus. Na Inglaterra, o rei Henrique 8º optava pelo rompimento com a Igreja de Roma e pela organização de uma nova igreja oficial, a Igreja da Inglaterra, protestante, que é comandada diretamente pelo rei, que, apoiado pelo Parlamento, controlava o poder político e religioso ao mesmo tempo, consolidando o absolutismo do monarca. Na França, o calvinismo ortodoxo, (escolástico!), serviu de base para a organização do grupo que fez oposição ao absolutismo real. O Contrato Social diria que quando o Estado não cumpre o seu papel de manter a segurança o povo pode então quebrar o contrato para garantir sua sobrevivência. Para J-J Rousseau é sua função de garantir a sobrevivência contra a anarquia e manter a ordem social. Quando falham outras formas aparecem os Estados paralelos. Mas Rousseau trataria também da importância da família e da educação como base de uma sociedade organizada no sentido da dignidade social e humana.


Convém recordar em que consistiam as esperanças messiâ-nicas do povo judeu no tempo de Jesus: uns esperavam um novo rei, ao estilo de Davi. Outros, um chefe militar que fosse capaz de derrotar o poderio romano; e outros como um novo Sumo Sacerdote que purificaria o Templo. Nestes três casos se esperava um messias triunfante, poderoso, atuando na política, na economia e na religião. Poderíamos dizer que Jesus é o anti-rei segundo os modelos dos sistemas opressores: não quer dominar as demais pessoas, pelo contrário, quer promover, convocar, “suscitar o poder” de cada ser humano, de modo que cada um assuma responsavelmente o peso e a alegria da liberdade. Jesus não recorre à violência de nenhum tipo, nem sequer à violência divina, não recorre ao Deus dos Exércitos e suas milícias celestiais – não há nenhuma batalha espiritual em jogo, em éons superiores – pois isso seria perpetuar as regras do jogo do “príncipe deste mundo” (Jo 12,31), o dono de "todos os reinos deste mundo e sua glória". E por isso, pode dá-los a quem quiser (Lc 4,6: dou-te autoridade sobre quem eu quiser, disse o diabo...).

 

Jesus se recusa a ser coroado rei ao estilo do "mundo" logo após a multiplicação dos pães e dos peixes (Jo 6,15). A tentação do poder, entendido no estilo dos sistemas opressores persegue Jesus. E desde o deserto até a cruz Jesus rechaça este modelo denunciando-o com toda clareza: o poder procede do diabo, pertence ao “príncipe deste mundo”.  Jesus não cai em suas armadilhas. O custo desta resistência não só valente, mas lúcida, é a morte. Na cruz Jesus derrota total e radicalmente o demônio do poder concebido como violência e pressão por uma parte e como dependência, submissão e alienação, por outra dependência (Leonardo Boff).

 

No entanto, os Evangelhos mostram, ainda, com clareza, porque e como Jesus  reconcilia com o Pai: não porque esse Deus, que é “pai maternal”, seja um deus rancoroso, mas porque se havia perdido o rumo da autêntica unidade com Deus e com o universo inteiro. A unidade que não se impõe pelo medo, escondida em posições de poder (dominante ou subserviente), mas superando os medos, a covardia, com o atrevimento de nos apresentarmos tal como somos diante de Deus, em total pobreza, mas sem esperança de transformação, quando atrelados aos esquemas deste mundo. A unidade que está sob escudos protetores, doutrinários, impede a visão do rosto de Deus na justiça e na busca da paz. Então, Jesus Cristo assume a condição de rei e mártir da causa de Deus. Os cristãos proclamam que Cristo é o “alfa” e o “omega” dos tempos (éons); que Cristo é o Senhor da História. E como Calvino afirmou: em Cristo se encontra a soberania de Deus.

 

Assim, o senhorio de Cristo é libertador de toda forma de opressão e submissão. Desde a liberdade de espírito, que devolve à filiação divina obscurecida por nossos medos, fragilidades e pecados, à liberdade para a verdadeira unidade dos cristãos. Cristo Rei é, pois, o anti-rei aos olhos do “mundo”. É incrível que seja também anti-rei na Igreja. É o Cordeiro degolado (Ap 5,12) que nos reconcilia com Deus e nos leva, não de regresso ao Paraíso Perdido, às utopias negativas sobre o julgamento e a destruição do mundo, mas à utopia da esperança na Nova Jerusalém, do “novo céu e uma nova terra”, na qual não haverá joelhos dobrados, como se exige, às realezas deste mundo. Utopia dos homens e mulheres de pé, altivos servidores de Deus, prontos para a insubmissão e inconformismo aos determinismos de toda ordem: religiosos, políticos, econômicos, sociais; das culturas de todos os tempos, nos ensinam as rezas aos “príncipes deste mundo”. Diante da soberania do Cristo insubmisso e discordante da lógica do poder só se pode exclamar: Salve, Rei do Universo!

 

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                                                  Derval Dasilio

                             Pastor da Igreja Presbiteriana Unida

                                  Comentário ao Lecionário

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        Blog: www.derv.wordpress.com

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