Cristo, Rei do Universo – Ano “C” Jeremias
6,1-6;2Samuel 5,1-3:Ungiram Davi como rei de
Israel Salmo
122,1-5 - Na casa está entronizada a justiça de Deus!
Colossenses 1, 11-20 – Recebeu-nos no reino de seu Filho Lucas 23, 35-43 – Senhor, lembra-te de mim, quando entrares no teu reinado
SOMENTE TEU É O PODER, A HONRA E A GLÓRIA!
À
luz da liturgia com o tema “Cristo, o Rei do Universo”, e do modelo de
relações existentes refletimos sobre nossas atitudes nos diversos âmbitos
em que nos movemos, e perguntamos: Como são as relações de poder em nossa
casa? Baseiam-se na dominação/subserviência, ou na promoção da mútua
liber-dade responsável entre os familiares? Como são as relações de poder
na família? Valemo-nos da
autoridade para impor uma certa maneira de exercer autoridade?
Justificamos, em nome da “autoridade”, abusos de poder, maltrato físico ou
verbal, quando protagonistas da violência intrafamiliar comum em tantos
lares? As relações entre os membros da Igreja seguem o modelo cristão ou
seguem o modelo autoritário, repressivo, impositivo, excludente, próprio
do "príncipe deste mundo"? Na sociedade civil lutamos por novas relações
de poder, segundo o modelo de Jesus, o anti-rei, o anti-poder, que os
evangelhos apresentam (“meu reino não acompanha os modelos deste
mundo...”; - pronunciava Jesus diante de Pilatos - Jo 19, 36). Por que não é deste mundo um
reino preferencial para o
sem-poder, o pobre, o excluído, o cativo e o oprimido)? Por que nos
prendemos aos modelos autoritários ou nos declaramos impotentes e
indiferentes e renunciamos à luta em favor da causa de
Deus? Erich Fromm (Medo à Liberdade, Zahar) expõe que “frente a angústia que produz no ser humano a consciência de estar separado do resto da criação, adotamos duas atitudes igual-mente patológicas: dominar os outros, ou aceitar depender de alguém, entregando-lhe nossa liberdade. Em ambos os casos, a pessoas busca, através destes mecanismos, dissolver a barreira que as separa do resto do universo”. O pecado fundamental do ser humano é, pois, um pecado de “poder mal administrado”, mal assumido. E esta é a origem de todos os outros pecados: a avareza, a ganância, que conduz a uma ordem econômica injusta; a soberba, que impede ver com clareza erros e pecados; a mentira, que leva a manipular ou a deixarmos manipular; o sexo utilizado como instrumento de poder, para "possuir", oprimir; o medo, que impede de levantar-nos e caminharmos com nossos próprios pés (Serviço Bíblico Latino-Americano).
Durante a Idade Moderna, tempo em que se inicia a Reforma Protestante, a base do poder absoluto do rei foi formada por duas classes sociais de elite: a nobreza e a burguesia... e pela Igreja... No entanto, neste mesmo período, percebemos grandes transformações na organização religiosa do cristianismo, a partir da Reforma Protestante, e a formação de novas doutrinas da Igreja. Aqui influenciam Lutero (os dois reinos), e noutro sentido Calvino (a soberania de Cristo). Apesar da quebra da unidade da Igreja, dividido a partir de então em ênfase diferentes, a religião continuou a ter um papel importante na formação cultural da sociedade européia. Conseqüentemente, foi utilizada para apoiar ou justificar o “poder real” (Cláudio B. Recco, Folha de S.Paulo, 14/08/03). Apesar dessa importân-cia, os principais teóricos do absolutismo se utilizariam do discurso racional, de origem renascentista. Machiavelli, mais cedo, defende a utilização de todos os meios ao alcance dos governantes para a centralização do poder; Thomas Hobbes defende o absolutismo necessário para a organização social, superando o "egoísmo intrínseco ao homem", o qual leva-o à defesa do interesse próprio, e não da sociedade.
No século 17, Jacques Bossuet, bispo católico francês, estabe-lece a relação entre o poder do rei e o poder de Deus. Na Inglaterra, o rei Henrique 8º optava pelo rompimento com a Igreja de Roma e pela organização de uma nova igreja oficial, a Igreja da Inglaterra, protestante, que é comandada diretamente pelo rei, que, apoiado pelo Parlamento, controlava o poder político e religioso ao mesmo tempo, consolidando o absolutismo do monarca. Na França, o calvinismo ortodoxo, (escolástico!), serviu de base para a organização do grupo que fez oposição ao absolutismo real. O Contrato Social diria que quando o Estado não cumpre o seu papel de manter a segurança o povo pode então quebrar o contrato para garantir sua sobrevivência. Para J-J Rousseau é sua função de garantir a sobrevivência contra a anarquia e manter a ordem social. Quando falham outras formas aparecem os Estados paralelos. Mas Rousseau trataria também da importância da família e da educação como base de uma sociedade organizada no sentido da dignidade social e humana.
Jesus se recusa a ser coroado rei ao estilo do "mundo" logo
após a multiplicação dos pães e dos peixes (Jo 6,15). A tentação do poder,
entendido no estilo dos sistemas opressores persegue Jesus. E desde o
deserto até a cruz Jesus rechaça este modelo denunciando-o com toda
clareza: o poder procede do diabo, pertence ao “príncipe deste
mundo”. Jesus não cai em suas
armadilhas. O custo desta resistência não só valente, mas lúcida, é a
morte. Na cruz Jesus derrota total e radicalmente o demônio do poder
concebido como violência e pressão por uma parte e como dependência,
submissão e alienação, por outra dependência (Leonardo Boff).
No entanto, os Evangelhos mostram, ainda, com clareza, porque e como Jesus reconcilia com o Pai: não porque esse Deus, que é “pai maternal”, seja um deus rancoroso, mas porque se havia perdido o rumo da autêntica unidade com Deus e com o universo inteiro. A unidade que não se impõe pelo medo, escondida em posições de poder (dominante ou subserviente), mas superando os medos, a covardia, com o atrevimento de nos apresentarmos tal como somos diante de Deus, em total pobreza, mas sem esperança de transformação, quando atrelados aos esquemas deste mundo. A unidade que está sob escudos protetores, doutrinários, impede a visão do rosto de Deus na justiça e na busca da paz. Então, Jesus Cristo assume a condição de rei e mártir da causa de Deus. Os cristãos proclamam que Cristo é o “alfa” e o “omega” dos tempos (éons); que Cristo é o Senhor da História. E como Calvino afirmou: em Cristo se encontra a soberania de Deus.
Assim,
o senhorio de Cristo é libertador de toda forma de opressão e submissão.
Desde a liberdade de espírito, que devolve à filiação divina obscurecida
por nossos medos, fragilidades e pecados, à liberdade para a verdadeira
unidade dos cristãos. Cristo Rei é, pois, o anti-rei aos olhos do “mundo”.
É incrível que seja também anti-rei na Igreja. É o Cordeiro degolado (Ap
5,12) que nos reconcilia com Deus e nos leva, não de regresso ao Paraíso
Perdido, às utopias negativas sobre o julgamento e a destruição do mundo,
mas à utopia da esperança na Nova Jerusalém, do “novo céu e uma nova
terra”, na qual não haverá joelhos dobrados, como se exige, às realezas
deste mundo. Utopia dos homens e mulheres de pé, altivos servidores de
Deus, prontos para a insubmissão e inconformismo aos determinismos de toda
ordem: religiosos, políticos, econômicos, sociais; das culturas de todos
os tempos, nos ensinam as rezas aos “príncipes deste mundo”. Diante da
soberania do Cristo insubmisso e discordante da lógica do poder só se pode
exclamar: Salve, Rei do Universo!
------- Pastor
da Igreja Presbiteriana Unida
Comentário ao Lecionário | V-I-S-I-T-E! | |