![]() 7º Domingo do Tempo Comum – Ano “C”
Gênesis 45,3-11; 15 – O
que fazer diante da catástrofe da fome? Salmo 37,1-11; 39-40 –
Entrega teu caminho ao Senhor 1 Coríntios 15, 45-50 - A
imagem do homem terrestre será a imagem do homem
celeste Lucas,
6,27-38 – Sede misericordiosos, como também o vosso Pai é
misericordioso. O AMOR É UM TAPA NA CARA DO EGOÍSMO DE
TODOS Crentes de hoje, seduzidos pela idolatria
das igrejas de mercado, pelo comércio da graça e da salvação, perdem-se do
Deus de José. Persiste, ainda, a história romântica do jovem moralmente
exemplar, no feitio dos contos orientais das Mil e Uma Noites. No
principal episódio da história de José do Egito, no entanto, uma
constatação de crise social desponta na contribuição de José a uma
sociedade pagã, idolátrica, falseadora do sagrado, manipuladora do
sobrenatural, mistério povoado de demônios; de forças malignas imperando
sobre as realidades do mundo. José é um intérprete do Deus da Bíblia, de
utopias, sonhos possíveis, revelações divinas. Está envolvido com uma
situação concreta e inadiável. Esta situação depende de um intérprete das
intenções salvadoras de Deus. É José o leitor da realidade ameaçadora. O sonho de
salvação será interpretado. Haveria fome, guerra, privações, todas as
conseqüências da falta de planejamento econômico. Disputas políticas que
trazem catástrofes nacionais e internacionais nascem num cenário desses. O
texto de Gênesis sugere que a salvação de Israel também depende da
salvação do Egito, a grande potência mundial desse tempo. Genesis 45,3-11;
15 – A morte de Jacó dá lugar ao protagonismo pleno do filho. Este
retira-se com serenidade, não antes sem “abençoar” o continuador da
caminhada de salvação, nas Escrituras, um sonhador como ele. Jacó sonha,
luta com um anjo (malach), que quer dizer mensageiro, anjos são
agentes de Deus. No sonho, uma vocação se reconhece: hine makon iti (eis
que há um lugar em mim). Um lugar no próprio Deus, onde cabe uma vocação
para a libertação, como a de Moisés (Ex 33,21).
José conhecia somente um Deus, certamente o
Deus de Abraão (El Shaddai?). Recorre a ele, antes de tudo. Só Deus
poderia orientar, no sentido das saídas salvadoras para a crise que
imergiria a sociedade comandada pelo Faraó no caos econômico e social e
suas repercussões globais. José aponta para Deus, que lhe dirá o que fazer
diante da catástrofe da fome. Representa, para cristãos e as cristãs de
hoje, a não submissão às forças cegas mascaradas no sagrado controlado por
sacerdotes neopagãos, metidos em política e economia, vestidos com um
falso domínio de forças sagradas e espirituais, aludindo a mundos
espirituais extra-terrenos, onde se travariam supostas batalhas
espirituais mas, na realidade, voltados para o imediatismo materialista da
religião propositista, retributivista, sacrificial, sem salvação.
Mas a sociedade está imersa em magia
cultual. Há uma crise em caminho. A sociedade inteira está em perigo.
Porém, encontra-se fortemente estimulada pela idolatria do momento. Um
certo consumismo religioso se denuncia por si mesmo. Os adivinhos e
feiticeiros, sacerdotes da idolatria, dominam o cenário. Lideranças
religiosas, sempre muito influentes no sistema político administrativo,
agem como feiticeiros capazes de controlar as forças do sagrado,
apresentando “homens de deus” para assessorar o governo. São “detentores
de segredos misteriosos”, respondem pelas divindades do mundo
sobrenatural, participam do poder terreno; lideram milhões de fiéis, são
consultores políticos do Faraó (cf. Ted Haggard, o casal de bispos Estevam
Hernandes Filho e Sônia Haddad Moraes Ernandes; evangélicos envolvidos na
operação sanguessuga, etc.). Mas José é apenas um sonhador, ele sonha as
utopias de salvação Do mundo!
1 Coríntios 15, 45-50 - Paulo continua
empenhado em sua reflexão sobre a ressurreição dos mortos. 1Cor 15,35-58
traz alguns argumentos sobre o modo da nossa ressurreição corporal. No
texto de hoje, Paulo recolhe algumas interpretações judaicas que
identificam o Adão do primeiro capítulo do Gênesis como o criado à imagem
de Deus e, portanto, como ser celestial; em troca, o texto do capítulo 2
corresponde ao Adão tirado do barro e, portanto, um ser terreno e mortal.
Jesus Cristo é o Adão espiritual a quem devem assemelhar-se os cristãos. É
preciso salientar que os judeus não entendiam o espiritual como imaterial,
mas como algo dinâmico, ativo, que anima e promove a vida. Os cristãos,
pelo contrário, conhecem as duas facetas, enquanto nascemos como o Adão
terrestre, pecador e corruptível, mas também chamados a ser semelhantes ao
Adão espiritual, que é Cristo. Ele que anima e dá vida em abundância.
Lucas, 6,27-38 - Continuamos com o “sermão
da planície”. Depois de uma primeira parte de bem-aventuranças e “ais”,
Jesus inicia a segunda parte. Convidando a todos os que o escutam a
cultivar um amor misericordioso e universal para chegar a ser como o Pai
que está nos céus. Se havia chamado os pobres de bem-aventurados sem
exigir-lhes nenhum comportamento ético prévio, agora, se quiserem
continuar a sê-lo, devem revestir-se do modo de ser cristão, e da ética
correspondente. Para isso, é preciso, segundo Jesus, atender a alguns
princípios fundamentais. Em primeiro lugar, o amor aos inimigos. O
AT vê no ódio aos inimigos algo natural (Sl 37). Jesus pelo contrário une
o amor aos inimigos com o amor ao próximo. Os pais apostólicos da Igreja
Antiga viram no perdão aos inimigos, a grande novidade da ética cristã. O
filósofo judeu Lapide escreveu: “alegrar-se da desgraça do outro, odiar
aos inimigos, devolver o mal pelo mal, são atos proibidos; entretanto,
exige-se a generosidade e o socorro oferecido ao inimigo necessitado”. Mas
o Judaísmo ignora o amor aos inimigos como princípio moral.
Este imperativo é o único nos três
capítulos do sermão da montanha, que não tem nem um paralelismo claro nem
uma analogia com a literatura rabínica. Constitui, em termos teológicos,
uma “propriedade jesuânica”. A novidade de Jesus supera, portanto, a Lei
de Talião - “olho por olho e dente por dente” -, que regeu por vários
séculos a justiça de Israel. Também supera a fórmula vétero-testamentária
e neotestamentária do “amarás o próximo como a ti mesmo”, pois já inclui
os inimigos. Isto não significa que estamos isentos de ter inimigos,
inclusive os que, ao estilo de Jesus lutam contra a injustiça, a
intolerância, a corrupção, a violência, etc. Trata-se de não assumir
atitudes condenatórias, mas de abrir os espaços e possibilidades para que
os “inimigos” encontrem o caminho da conversão e reconciliação; que vejam
o amor do Pai e o testemunho vivo de como é agradável viver como irmãos.
A “regra de ouro” da convivência humana
está aqui (6,27-38). Esta regra era já conhecida no mundo judeu. A
novidade de Jesus é mudar seu sentido de reciprocidade pela busca sincera
e inesgotável de “tratar bem ao outro”, como gostaríamos que nos tratassem
também a nós. A prova maior de “tratar bem” é fazê-lo com os inimigos, que
significa o amor por todos aqueles que com suas obras fazem do mundo um
caos de violência que se reflete na negação dos direitos fundamentais daa
pessoa humana. A tolerância para com os “diferentes”, ou aqueles que
pensam diferente; a compreensão para os que escolhem caminhos de
diversidade cultural, etc. Isto precisa ser concretizado religiosamente
orando e rezando por aqueles que nos perseguem, e bendizendo os que nos
amaldiçoam. Amar, bendizer, orar pelos “inimigos” não significa perder o
sentido da crítica, da denúncia ou da repreensão.
Um segundo princípio é: “Se alguém lhe dá
um tapa numa face, ofereça também a outra; se alguém lhe toma o manto,
deixe que leve também a túnica. Dê a quem lhe pede e, se alguém tira o que
lhe pertença, não peça que o devolva” (vv. 29-30). Trata-se de ser manso,
mas não “idiota”, tonto. Jesus não pretende reduzir-nos à passividade, ao
conformismo ou à resignação. Por quanto tempo os poderosos utilizaram a
“resignação cristã” para silenciar as vozes que exigiam seus direitos?
Luther King, depois de aprender com Gandhi, ensinou a resistência
não-violenta. Não se trata de renunciar aos nossos direitos, nem de
calar-nos frente às injustiças, mas de renunciar à violência como meio
absoluto para resolver as diferenças e os conflitos, também. Renunciar às
nossas comodidades ou às nossas prendas mais apreciadas para dá-las aos
que mais necessitam. Neste sentido, Jesus supera o conceito de partilha
que se tinha até então, visto que já não basta apenas repartir o “pão com
o faminto...”, mas também entregar-lhe tudo, inclusive até a vida. Ensina
a dedicação ao outro. Sua ética chega ao absurdo da gratuidade além da
misericórdia (hesed/xáris). O que Jesus pede é que a iniciativa do
amor, do perdão, da bênção, parta dos cristãos. É o testemunho o que mais
rápida e eficazmente pode mudar os que odeiam, os que fazem o mal e
amaldiçoam. Bem disse Mt 5,16: “assim também que a luz de vocês brilhe
diante dos homens, para que eles vejam as boas obras que vocês fazem, e
louvem o Pai de vocês que está no céu”. O v. 35 é um precioso resumo de
tudo o que foi dito até o momento. No v. 36 encontramos um terceiro
princípio para viver de modo cristão: “Sejam misericordiosos, como é
misericordioso o Pai de vocês”. Lucas fala de misericórdia e Mateus fala
de perfeição. A misericórdia se apresenta como um elemento constitutivo do
ser cristão, porque ela é também de Deus. (Cf. Serviço Bíblico
Latino-Americano – 7o Domingo do TComum / Orkut – Lecionário Litúrgico).
------- Texto
e pesquisa: Derval Dasilio |
|
Clic na imagem para ler comentários anteriores Webdesigner: Eveline Coordenador: Derval Dasílio Respeite os direitos autorais |