PÁSCOA    6º. DOMINGO –  ANO “C”

Atos 16,9-15 –  Deus chamava Paulo para o Ocidente

Salmo 67 – A terra deu o seu fruto, e Deus a abençoa

Apocalipse 21,22; 22,15 – Na visão, não vi nenhum templo por lá

Evangelho: João 14,23-29  -  O amor que  transformar o mundo

 

A DIFÍCIL PAZ QUANDO SE DISPUTA LIXO NA PERIFERIA...

                        “Se paz, a mais doce, me deres gozar...” (Hino tradicional)

 

Para a linguagem bíblica, a palavra paz tem que ver com a salvação. A mensagem de paz de Jesus é a verdadeira mensagem de salvação, porque nos fala de reconciliação conosco mesmos, com Deus e com os demais. Todos passamos a ser conscientes de nossos próprios conflitos interiores e exteriores confrontados com o dom de Jesus Cristo. Dizia Paulo, “praticamos o mal que não queremos e deixamos de fazer o bem que queremos”. Pois, ante esta ruptura interior, Jesus nos manifesta um amor incondicional por parte de Deus; amor  que acolhe nossa realidade ferida e destroçada, de valores desintegrados, pulverizados, e nos dá uma nova oportunidade. Uma sinalização das primeiras comunidades cristãs é a comunhão de vida dos irmãos. É esta a recomendação que Jesus deixa para seus discípulos: transmitir a Boa Notícia da paz em meio de um mundo de tribulações. Porque a Paz que Jesus nos deixa não é como a paz que o mundo dá ou quer...

 

A lição é esta: não se pode expulsar Deus da realidade humana. Afirmar a divindade de Cristo é fácil,  reconhecê-lo disputando lixo, procurando emprego, casa pra morar, como vemos em nossas cidades, na periferia, sem família, sem escola, sem educação, sem saúde, é que são elas (Paráfrase: “... quando é que te vimos catando lixo?” – Mateus 25,44). Trata-se de uma exigência absurda? Teremos que conviver com esse “resíduo” social durante muito tempo, sem indignar-nos, declarando que estamos em paz  com a nossa fé? A experiência de Deus, também nos testemunhos dos primeiros discípulos do Senhor, é acompanhada de uma certeza estranha: que Deus era a cara de Jesus, que se empenhava em reivindicar o nome e a honra do Deus da Bíblia. Jesus está vivo, não puderam enterrá-lo e mantê-lo na morte os poderes da religião e a violência política. Deus está com o Ressuscitado, sentou-o à Sua direita, deu-lhe autoridade, confirmando a veracidade e o valor de Sua vida, de Sua Palavra, de Sua Causa. Jesus tinha razão, e não a tinham os que pensavam tê-lo expulso deste mundo desprezando e exterminando sua Causa. Deus está em Jesus; Deus respalda a Causa do Crucificado.“Deus estava em Cristo”, dirá Paulo (2Cor 5,19).

 

Não estamos ante uma desconexão com as palavras de Jesus, registradas por João. Profeta da Paz, Jeremias, na voz do Senhor, transmitia sua experiência de Deus: “Eu lhes revelarei abundância de Paz”. Abre sua alma, o emissário do Senhor, a uma visão nova de restituição da Paz: saúde, justiça, vida digna e abundante, são promessas do Altíssimo. Mesmo preso e tachado de traidor, o profeta proclama o evangelho: novas alegres de perdão entre os povos, as raças, os gêneros; gozo e alegria para uma terra desolada. “As nações”, ensina, “desfrutarão  de todo bem e de toda a Paz que Deus haverá de trazer” (cf. Jeremias 33.8-9).  E Jesus nos disse, um dia: “Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus” (Mateus 5.9).  

 

A paz do mundo se baseia no poder, no domínio dos mais fortes e submissão dos mais fracos. No entanto, a Paz de Jesus não é assim. Implica num compromisso exigente dos discípulos. Nasce do amor e por isso procura a  defesa de condições de vida digna para os desfavorecidos, despojados, despossuídos. Nesse sentido, é uma paz que não recorre  ao conflito quando a dignidade das pessoas está em jogo. Por isso, a mensagem de paz do evangelho não cai bem neste mundo, quando denuncia a injustiça, a marginalização, a exclusão e o poder que faz com que uns vivam à custa de outros. Os mensageiros dessa Paz vivem no meio do conflito, procurando os caminhos do Espírito, os caminhos do entendimento. Por isso, a mensagem essencial contida na Paz de Cristo é  a reconciliação.

 

O nome dessa Paz é “shalom”! Tendo a possibilidade de olhar para nossa gente e os povos ao redor, percebemos quão  longínquas estão as culturas, as situações políticas, econômicas e sociais, do mapa espiritual do projeto de Deus. Nosso ego social investido da paixão narcísica pela cultura do excesso: ser mais moderno que o moderno, ter mais que quem já tem tudo; estar mais na moda que a própria moda; ser mais jovem que os próprios jovens. Platão já se preocupava com essa “raça de ferro”, nada espartana, com poucas afinidades com a “raça de ouro” dos tempos míticos, dotada de qualidades e virtudes invejáveis,  em seu tempo, enquanto se preocupava com o antigo mundo helênico  agora inevitavelmente fadado à ruína, tanta corrupção havia, já aprovada socialmente. Já havia um tal de “jeitinho” em caminho, como denunciava Plínio, o Velho, na Antiguidade (Sebastien Charles, Tempos Hipermodernos).

 

Jurandir Freire, etnopsiquiatra, diz: “Meu pressuposto ético, fizeram-me escolher como objeto de estudo um grupo de pessoas, sujeitos que estão submetidos à violência, seja ela de que ordem for. Minha opção fundamental é a violência da discriminação contra o negro, o drogado, e contra os pobres, maltratados e ofendidos pela sociedade e poderes públicos. Como se pode perceber, há um pano de fundo comum, algo constante e recorrente, que é a lembrança do extermínio (cultural) - o horror da intolerância por excelência. Tenho como máxima a frase do Sartre:‘Perdoa, mas não esquece o mal praticado’. A lembrança do extermínio é a centelha que constitui o modo produtor de toda a minha investigação. Eu acho que a própria escolha dos objetos reflete essa minha preocupação. Trata-se, no fundo, de entender que ela deve servir para melhorar o convívio humano, para exercitar a tolerância, a liberdade. Que é o que eu acho que existe agora no Brasil e que se traduz por isso que eu chamei de cultura do narcisismo. Contrapondo cultura do narcisismo e solidariedade social”.

 

Há conseqüências mais imediatas para uma consciência de transcendência do amor. Alcança-nos o amor quando compreendemos e lutamos pela dignidade,  amparo, cuidado, respeito àquilo que é direito de cada um (dignitatis). É por esse aspecto que devemos ver que a crise brasileira pode ser superada. O processo, porém, dará bastante trabalho, porque parte de uma geração inteira  já se perdeu. Há milhões de crianças de rua, há a massa de desempregados e milhões de pessoas que vivem na miséria absoluta. Esses são irrecuperáveis? Como falar em ética e testemunho cristão para quem é criado no meio das opressões, neste país que Hobsbawn denunciava como um monumento à negligência social?

 

É um pouco triste dizer que a maioria de nós está surda à voz do Crucificado, que desde a sua cruz nos lança um convite para tomar consciência de que vivemos num tempo de urgência para a Paz. Ironicamente, muitos cristãos sentem-se alheios sobre a dor no mundo, enquanto os acontecimentos ao redor nos jogam na cara os conflitos que começam a ser vistos na porta de nossas casas, as guerras diárias contra o narcotráfico e o crime organizado, a vida violenta nas ruas das nossas cidades, e viram os olhos para o outro lado, como se não tivéssemos nada a ver com isso, porque  “Jesus já nos deu a paz eterna!”. Que paz? Em minha cidade tem uma funerária famosa com esse nome: Paz Eterna. Eduardo Galeano fala até de um  “turismo” do depois (O Teatro do Bem e do Mal, L&PM Pocket, p.20), enterros celestiais, mas com preços bem terrenos: “por 2,5 mil dólares você pode ter seu túmulo no Vale do Silêncio”,anunciavam nos EUA. Os foguetes levarão seus clientes partindo do Cabo Kennedy. A empresa Earthview (um nome de funerária bem sugestivo...), por 5,6 mil dólares oferecia um vídeo do lançamento, enquanto garantia um epitáfio. Os primeiros escolhidos: “Que vista magnífica, daqui!”; “Meu espírito está livre, finalmente, para elevar-se...”. 

 

Só o nosso egoísmo justifica o alheamento sobre a necessidade de paz no mundo, quando não abrimos espaço em nossa devoção diária para a leitura da Bíblia; para a meditação profunda sobre as intenções de Deus; para oração, o clamor intercessório e a nossa oferta espiritual na compaixão e na misericórdia por irmãos e irmãs em um mundo que sofre. A violenta turbulência do cotidiano, a consciência dolorosa das diferenças e dos abismos sociais reclamam de nós atitudes espirituais e ações concretas em favor da Paz.         

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                              Derval Dasilio

                              Pastor da IgrejaPresbiteriana Unida

 

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