5o DOMINGO DA QUARESMA – ANO “C" TRIBUTO PERFUMADO AO AMOR DE DEUS
Isaías
43, 16-21 – Eis que eu farei coisas novas, e as darei ao meu
povo.
Salmo 32 – Bem-aventurado aquele
a quem o Senhor não atribui iniqüidade
Filipenses 3, 4b-14 – Por causa
de Cristo eu entreguei
tudo....
João
12,1-8 – Maria ungiu os pés de Jesus com um litro de perfume
Esse
aspecto é o que no texto merece maior atenção, no texto de João: “Então
Maria levou quase um litro de perfume de nardo puro e muito caro. Ungiu
com ele os pés de Jesus e os enxugou com seus cabelos. A casa inteira se
encheu com o perfume” (12,3). O gesto de Maria é reconhecimento pelo
dom da vida que Jesus comunica. De fato, Jesus ressuscitou Lázaro,
dando-lhe vida além das expectativas humanas. É o amor que responde ao
amor que dá vida (agape). Maria encarna, dessa forma, a comunidade
reconhecida e agradecida. O perfume derramado recorda o que fez a noiva do
Cântico dos Cânticos (cf. Ct 1,12; 7,6): a comunidade reconhece em Jesus o
doador da vida e aquele que se dispõe a dar a vida por uma causa. A missão
do Pai.
O nardo tem um perfume muito
precioso e muito íntimo. Na Bíblia, o perfume é também tributo sepulcral
antecipado, aroma de vida perante sinais de morte, ou de corrupção; é símbolo de unidade
fraterna (Sl 133), símbolo de amor (Ct 1,3.12-13; 4,14). O perfume difunde
e dilata seu odor: desde o frasco, o corpo, a casa (e até mais além).
Escutando a densidade das coincidências de linguagem dessa perícope com o
Cântico dos Cânticos, vários Pais da Igreja Antiga contemplaram essa
mulher como representando o papel da amada diante do Messias esposo (como
Natanael com respeito ao “rei de Israel”, 1,50).
Judas Iscariotes reage diante de tal desperdício de dinheiro
(trezentas moedas de prata) e de perfume. Com a desculpa de que essa
enorme soma poderia ser dada aos pobres, revela que não aderiu ao espírito
de partilha nem sabe reconhecer o amor gratuito de Deus em Jesus. Judas é
chamado de ladrão porque, em nome da opção pelos pobres, só faz aumentar
seu patrimônio e ganância: ele roubava aquilo que, por direito, pertencia
a todos. Jesus quer ser reconhecido como aquele que doa a vida porque ama.
Maria quer expressar a intensidade do seu amor com um
presente de qualidade, caro; Judas não entende a linguagem do amor, só
entende a do interesse.Graça vendida, caridade com retribuição. O
amor sabe ser grato e servir. Uma lição de gratuidade e
despreendimento, Maria
simboliza o amor e o reconhecimento que as pessoas têm para
com Jesus, aquele que dá sua vida gratuitamente a todos que se dispõem a
receber o amor.
Lázaro,
Marta e Maria representam a comunidade de Jesus, antes mesmo de ser a
comunidade de fé: eles são irmãos, ou seja, vivem aquilo que a comunidade
do Discípulo Amado considera ser o valor absoluto: o amor que gera
relações fraternas na comunidade. Nesse clima acontece uma refeição,
símbolo da partilha da vida e dos sentimentos (eucaristia). E Jesus
está presente. Cada um dos três irmãos simboliza um aspecto do
discipulado: Lázaro representa o discipulado que se caracteriza pela
intimidade e partilha com Jesus (está sentado à mesa). Pelo testemunho
conduz mais pessoas a Jesus. Marta resume todas os ministérios que existem
na comunidade, pois em comunhão (koinonia) se “serve à mesa”. Este
é também um texto eucarístico.
Isaías
43, 16-21 - O exílio, a dura
luta pela sobrevivência e a lembrança da catástrofe que se abateu sobre
Judá fazem o povo reler a sua história e perceber que os reis serviram
apenas para explorar e oprimir os pobres, a ponto de conduzir a nação ao
cativeiro. Diante dessa realidade, a comunidade do Segundo Isaías anuncia
o verdadeiro sentido da aliança de Yahweh. A unção do espírito não é
exclusividade do rei, mas pertence ao povo; como uma grande promessa de
vida: Assim diz o Deus Yahweh, que criou o céu e o estendeu; que firmou
a terra e tudo o que ela produz; ele dá respiração ao povo que nela habita
e o espírito aos que sobre ela caminham (42,5). Comparemos: Agora,
escute, Jacó, meu servo; preste atenção, Israel, meu escolhido. Assim diz
Yahweh, que o fez, que o formou no ventre e o auxilia: Não tenha
medo, meu servo Jacó, meu querido, meu escolhido. Vou derramar água no
chão seco e córregos na terra seca; vou derramar meu espírito sobre seus
filhos e a minha bênção sobre seus descendentes. Crescerão como planta
junto à fonte, como árvores na beira dos córregos. Um vai dizer: “Eu
pertenço a Yahweh”. Outro se chamará com o nome de Jacó; outro
ainda escreverá na palma da mão: “De Yahweh”. E como sobrenome
tomará o nome de Israel (cf.44,1-5).
De maneira muito próxima e
com palavras carinhosas, o grupo profético retoma a experiência de um Deus
que declara seu amor e chama seu povo pelo nome. Chamar pelo nome e
sobrenome, e marcar o corpo são sinais da entrega e pertença do povo a
Yahweh. O Deus do Segundo Isaías sente-se como o “servo” amado e escolhido
para cumprir uma missão: “Vejam o meu servo, a quem eu sustento: ele é
o meu escolhido, nele tenho o meu agrado. Eu coloquei sobre ele o meu
espírito, para que promova o direito entre as nações” (42,1).
No Segundo Isaías, a
palavra “servo” refere-se ao próprio profeta (50,4-11), a Ciro (42,1-9) e
a Yahweh (43,23-24). Mas, na maioria das vezes, acredita-se que o servo é
o povo (40-48). E é com esse povo que Deus quer fazer uma aliança. Vejamos
a diferença: a Aliança é com todo o povo e não com o rei. Entre Deus e seu
povo se estabelece uma relação de muito carinho: o povo se vê como o servo
escolhido e amado de Yahweh. É uma tentativa de resgatar a tradição mais
antiga de Israel, na qual Yahweh
estabelece a sua aliança com o povo (Jos 24), e derrama o seu
espírito sobre pessoas ou grupos (Dt 1,13-17) escolhidos para conduzir a
todas e todos pelos caminhos da justiça e da solidariedade (Jz 3,10). (Shigeyuky Nakanose, O Segundo
Isaías 40-55, Paulus).
O
texto do Segundo Isaías é característico, assim como sua teologia. Tem
sido, o autor, chamado com freqüência o “profeta do novo êxodo”
(35, 6; 41, 18ss) e o texto que comentamos mostra isso claramente. Por que
não recordar aquilo que acaba de se trazer à memória? A memória (shemah
) é fundamental em Israel (Salmo 78), e por isso é importante a
história. Certamente porque o que vem “é novo”, já não estamos
diante de um rio que seca para que um povo passe, mas diante de um deserto
que se enche de água para que o povo beba; o novo é o caminho no
deserto (35, 8-10; 40, 3-4), e a água é a vegetação nesse lugar (35, 6-7;
41, 18-19). O deserto é – para o tempo do êxodo – um lugar terrível
(“enorme, amedrontador”, Dt 1, 19; 8, 15), lá, Deus tirou água da rocha, e
lhes deu alimento do céu; o que agora vai se realizar – e realiza – é
enormemente superior, faz “empalidecer” o “antigo”
evento. Os acontecimentos que narra nos lembram o que nos diz
que não devemos recordar, é algo que “está se fazendo”, agora. (Serviço
Bíblico Latino-Americano).
Filipenses
3, 4b-14 - Dentro desta unidade, Paulo põe os filipenses em estado de
alerta, colocando-se ele mesmo como exemplo (vv. 2-17), e criticando
abertamente a posição dos adversários (vv. 18-21). Dentro da primeira
unidade, uma primeira parte (vv. 2-3) alerta sobre os adversários, que
parecem judeus/cristãos que querem insistir na circuncisão e nas leis religiosas, judaicas. Sem respeitar
culturalmente a diversidade, exigindo que os cristãos helênicos, que
provinham do mundo grego, deviam primeiro tornar-se judeus para poder
gozar das bênçãos de Deus. O que fez Paulo mudar, dando um novo enfoque à
sua vida, como cristão, foi o “conhecimento de Cristo Jesus”.
A
linguagem usada por Paulo é polarizada: “perder/ganhar”, mas, sobretudo,
esportiva. Paulo pretende (cf. linguagem da 1Cor 13 sobre o amor gratuito,
onde impera o cuidado e a entrega) “ganhar a Cristo é ser encontrado por
ele”. As imagens das competições esportivas são familiares a Paulo (1Cor
9, 24-27; 2Cor 4, 8-9), servem como um exemplo a mais para destacar algo
que já começou mas não se concluiu, ainda. Contudo Paulo não pretende que
aquelas imagens sejam suficientes, ele não corre com suas próprias forças,
não espera atingir a meta com sua “justiça” pessoal. Só a terá alcançado
quando ele mesmo tiver sido
alcançado por Cristo. Paulo sabe que colabora com a obra de Deus. Serve-o
dedicando seu amor à causa de Cristo. Mas Paulo sabe que não são suas
forças que lhe permitem alcançar a meta (é característico de Paulo
conhecer/ser conhecido, ganhar/ser encontrado, alcançar/ser alcançado).
Mas a justificação – meta
final: salvação – somente poderá vir por iniciativa de Deus. Graça,
gratuidade, entrega, misericórdia, sofrer-junto. Não à lei, sim à fé. O
“sim” de Deus necessita do “sim” do homem.
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Texto
final: Derval Dasilio
Pesquisa:
Serviço Bíblico Latino-Americano; Shigeyuky
Nakanose,Segundo Isaías 40-55, Paulus); Shökel, Bíblia do Peregrino,
Paulus; Tradução Ecumênica da Bíblia, Paulus –T E B
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