  
PÁSCOA
– 5º. DOMINGO – ANO
“C”
Atos 11,1-8 –
Diziam deles: eles se amam
tanto!
Salmo 148 –
Louvai-o, céu dos céus
Apocalipse 21,1-6 – ... a quem tem sede, darei água
da Fonte da Vida
João: 13,31-35: “Amai-vos os uns aos outros,
assim como eu vos amei”...
DE NADA ADIANTA FALAR E LOUVAR COMO OS
ANJOS...
Só
podemos compreender a
trajetória humana e sua relação com o amor quando nos damos conta dos
outros e de sua existência.
Mesmo os distantes e desconhecidos. Quando perguntamos sobre
crianças mortas em Beslam, ou Columbine, ou mortas quando esquecidas
dentro de um carro, ou desnutridas, depauperadas pela fome das mães que
nem leite produzem mais, numa favela de nossa cidade ou no Afeganistão;
quando uma bomba explode numa feira de Bagdá ou quando um jovem
enlouquecido pelo sistema competitivo imposto a uma nação e cultura, numa
universidade da Virgínia, mata pessoas inocentes, estamos perguntando
sobre o quê? Sobre o ódio, sobre o amor? Seres humanos adoecem num
ambiente de desconfiança e de medo, de manipulação econômica e cultural,
sob exploração ou instrumentalizados para finalidades inomináveis. O quê
está por trás disso é ódio ou é amor? O evangelho, no entanto, recomenda o
conselho de Jesus Cristo para a entrega sem medo ao amor, confiantemente,
incondicionalmente, gratuitamente: Amai-vos uns aos outros, assim como
eu vos amei. Há outra saída para quem tem fé?
João
é o evangelista que tratou com mais profundidade esse momento de exortação
sobre o sentido do amor. Preferiu outros símbolos e outras palavras, já
que se conheciam consideravelmente as palavras recorrentes nos evangelhos
anteriores. Sabemos que para João a hora da entrega ao martírio de Jesus é
a hora da glorificação do Amor! Deus é amor (1João 4,16). Por isso
não estão presentes os indícios de tragédia, como ressaltaram os demais
evangelistas. Jean-Yves Leloup sugere que, na tradição cristã para a
transmissão da fé, o
valor da palavra amor (ahavah), como elemento chave da revelação,
indica que o amor é a luz de Deus revelada neste mundo, não apenas uma
representação de palavras, que é trabalho para o exegeta. É uma questão de
representação do mundo, do homem e suas culturas. O mitzvah
(heb.=exercício ou mandamento)
do ahavah (heb.=amor), no encontro de culturas do Judaísmo e
do Cristianismo, sob o helenismo mediterrânico, no Oriente ou no Ocidente,
leva imediatamente à compreensão da integridade humana. Trata-se da
inteireza do homem e da mulher.
Há
pouco espaço, aqui, mas o helenismo não bíblico traz-nos outras
concepções: Eros, como nostalgia da forma humana inicial perdida,
da unidade já não existente no ser humano. Phileo é outra forma
grega do amor, o da amizade. Platão diria: “tudo para mim é um espelho,
quero conhecer-me, mas só me conheço através do olhar do outro. Um
princípio onde o alter, o outro, é indispensável. Paulo,
“helenizando” a fé cristã, exalta as qualidades de agape, o
amor que assume todas as
realidades humanas, que integra, faz sujeitos inteiros e não-divididos.
Enfim, o caldo delicioso que resulta das receitas que nos foram passadas
desde o início da criação (bereshit) nos convida ao sentido
libertador do amor. Agape é superabundância e plenitude. Principalmente, é gratuidade,
capacidade de entender a Graça que vem no próprio amor de Deus, no
exercício do perdão, da reconciliação, do cuidado, da misericórdia, da
compaixão, da solidariedade e da salvação.
Do
evangelho uma palavra de Jesus ressalta-se acima das outras. “Amai-vos
uns a outros como eu vos
amei”. João a coloca
na boca de Jesus. Por que? Os
sentimentos mais puros se nos vêm à mente quando pensamos no amor. O amor
sem limite da mãe, o amor compartilhado entre um homem e uma mulher, o
amor simples e espontâneo vivido na amizade, o amor mártir destinado a dar
vida aos demais. O contrário também existe, indubitavelmente. Mas o amor é
também uma palavra corrompida, inclusive pelo abuso, ao querer-se mascarar
muitas coisas que não têm nada a ver com o sentido verdadeiro.
Qualquer
pessoa que leia um jornal, por menos sensibilidade que tenha, sentirá
angústia diante do panorama desenhado. As notícias sobre os horrores que
estão sobre nós são muitas, ocupando parte preciosa do nosso tempo,
tomamos conhecimento de guerras, terrorismo, violência doméstica,
narcotráfico, enquanto observamos pobreza e injustiça em níveis que
extravasam a compreensão. E não nos indignamos com isso. Como negar que,
às vezes, fazem-nos cair no pior dos pessimismos e pensar, lugar comum,
que não há amor: “este mundo não tem solução”. Carlos Brandão diz,
interpretando Humberto Maturana, que o que não é amor é doença! Uma luz
adoecida. A ausência de amor identificaria o ódio, a ganância, o temor, o
impulso de competir não se sabe com o quê. O amor não é uma vocação
individualista que renegue a gratuidade, a partilha, a cooperação, a
confiança, “em nós” e “entre nós” (Aprender o Amor, Papirus, 2005).
A partir dessa conceituação, por exemplo,
concretamente, com responsabilidade social, como prevenir danos
biográficos psicosociais na infância, adolescência e juventude? Drogas,
violência, deserção escolar, trabalho precoce, prostituição
infanto-juvenil, gravidez de adolescentes, AIDS, mendicância (moradores de
rua), delinqüência, legislação repressiva, antecipação da maioridade
penal, e outros? Estas ameaças em que sentido podem colocar em risco
severo o projeto de Deus de vida plena para o mundo? Desde a perspectiva
da infância e da juventude, como o serviço cristão poderá atender às
demandas, em permanente responsabilidade cristã das igrejas e das pessoas
em relação às crianças, adolescentes e jovens? Como interpelar a
sociedade, e a própria igreja, sobre sua responsabilidade na reconstrução
das relações entre homens e mulheres, atores ativos, inclusive, da
violência intra-familiar, a partir do reconhecimento mútuo como seres
humanos iguais em dignidade, em liberdade e em responsabilidade? A
violência contra a mulher, a criança, discriminação por causa do sexo ou
gênero, constitui um chamado ao serviço libertador de pessoas, famílias,
grupos de gênero, entre as propostas de serviço ao outro e à outra com as
quais o cuidado, imperativo
de Jesus Cristo, se identifica (Mt25,38-45: Senhor, quando foi que te
vimos...)?
Precisamente, as palavras do evangelho de hoje são
determinantes: versam sobre a batalha do amor. São palavras corrompidas pelo uso.
Frases que se recolhem em letra de canções, como as de Tom Jobim e
Vinícius de Morais. “Eu
sei que vou te amar, / Por toda a minha vida...” E é verdade que são
belas, e nos sensibilizam muito, tantas vezes. Quantas palavras, por serem
tão surradas e tão usadas em nossa vida, ficam estreitas, ou rasas, ou
refletem ambigüidades para expressar uma idéia ou sentimento verdadeiro!
Algumas vezes a causa é a moda sempre em mudança, outras é o descuido e,
às vezes, a intenção de expressar com a mesma palavra uma variedade de
coisas que não chegam a aproximarem-se de seu sentido original.
Tendo possibilidade de olhar para nossa gente e os
povos ao redor, percebemos quão
longínquas estão as culturas, as situações políticas, econômicas e
sociais, do mapa espiritual do projeto amoroso de Deus. Mas não precisamos
ir longe. Os abismos das desigualdades são como um soco no estômago. Mal
abrimos as portas de nossas casas, olhamos ao redor e constatamos quão
distantes estão as perspectivas de se ter qualidade e a dignidade de vida
iguais às que estamos
acostumados, minoria dos cidadãos e cidadãs que somos, favorecidos pela
formação educacional e profissional que garantem, por bons empregos,
qualidade de vida urbana, educação, acesso médico qualificado e hospitais.
Para nós e nossos filhos. [Só no Brasil, 60 milhões de brasileiros vivem
“abaixo da linha de pobreza”, como se convencionou
falar].
Situações duras e difíceis de assimilar vistas das
janelas dos espectadores privilegiados que somos. E nem isso faz
sentir-nos afortunados. Somos induzidos a competir, e como o treinador/pai
da jovem nadadora australiana, enchemos de tapas nossos filhos, para
vencerem, custe o que custar. O sucesso consumista é abstrato, quem
sabe... mas é muito concreto em nosso cotidiano cego e insano. Que culpa
temos, se não fazemos por melhorar a vida da maioria ao nosso redor? Estas
situações de dificuldade, de pobreza e de injustiça, de exclusão,
refletiriam a falta de amor ao nosso semelhante? Será que a chama enferma de um
amor que não é amor, mas ódio racial, religioso, político; intolerância,
inveja, ganância, mercantilização de valores essenciais; medo,
desconfiança do outro – que em primeira mão é nosso inimigo potencial
– nos impede de compreender o
imperativo divino (“The Divine Imperative as Gift and Demand”, Emil Bruner)?
Derval
Dasilio
Pastor da Igreja Presbiteriana
Unida
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