4o DOMINGO DA QUARESMA – ANO “C"
 

Josué 5,9-12 –  Importa celebrar a libertação em todo tempo

Salmo 32 – A  totalidade do mundo é alcançada pela misericórdia de Deus

2Coríntios 5,16-21 – Deus estava em Cristo reconciliando o mundo com Deus

Lucas 15,1-3; 11b-32 – A gratuidade ilimitada do Pai

 

GRATUIDADE E  LIBERTAÇÃO EM TODO TEMPO

Uma recordação importantíssima, a primeira celebração da Páscoa ocorre em Guilgal, festa de libertação. Um marco, para assinalar que a partir de agora acabam os milagres, os feitos extraordinários no deserto. O maná, por exemplo, alimento concreto, cede lugar à fé em Yahweh, na experiência de cada dia.  O trabalho cotidiano, a luta diuturna pela vida, encontram na fé  o alicerce da esperança. Fatos que fogem à normalidade não fazem sentido. A luta é agora. A conquista da Terra Prometida se dá na experiência que o povo israelita, povo bíblico, de um Deus que age na história. É bem provável que o autor deuteronomista tenha encontrado na Páscoa de Guilgal a oportunidade de um memorial em ação de graças, uma liturgia comemorativa da libertação, porque os tempos do deserto, da escravidão, foram vencidos. Uma Páscoa libertária! Uma festa de unidade, ecumênica, uma vez que os povos do deserto que se juntaram aos israelitas também celebravam a Páscoa. Alegria, Deus cumpriu sua promessa. Deus é conseqüente, não um ídolo exigente de adoração. A historicidade desse fato, assim, torna-se secundária, irrelevante. Importa celebrar a atualidade da Aliança: Deus cumpre suas promessas, enquanto promove a libertação dos que têm fé.

Aparentemente silenciada, desde o Caribe, e toda América Latina, a esperança da ressurreição permanece na memória e na experiência da escravidão, como uma força libertária, em toda parte. Libertação do colonialismo, inclusive o teológico eurocêntrico, faz parte da fé dos povos latino-caribenhos. A África está na vida e nos costumes, na linguagem e no patoi das plantações, no Caribe; na América Latina, nos nomes e nas palavras, freqüentemente conectada em suas taxonomias, identificando plantas e produtos agrícolas, na secreta  estrutura sintática da fala comum, nas histórias contadas às crianças, na prática religiosa e nas crenças, na vida espiritual, nas artes, no artesanato, na música e nos ritmos da escravidão e das sociedades pós-emancipadas. A esperança é um gemido, um código secreto com o qual todos os textos ocidentais precisam ser re-lidos, o bumbo que marca o compasso dos ritmos e corpos que se movimentam nessa história, sambando, rumbando; dançando o merengue e a salsa, na festa da libertação (cf. Leslie R. James, A Esperança e a questão de uma Nova Humanidade, em preparo). Aos comentários, pois:

Josué (4.19-24) 5.9-12 - Alguns estudiosos do Antigo Testamento como Von Rad defendiam a tese de que Josué seria o sexto livro da primeira coleção de livros da Bíblia. Hoje a maior parte dos biblistas entende que Josué faz parte da Obra Historiográfica Deuteronomística (incluindo Jz; I e II Sm; I e II Rs). Esta coleção literária foi construída durante o exílio babilônico (587 a 538 a.C.) com a intenção de explicar a razão da desgraça de Judá com a destruição do Templo de Jerusalém e a deportação da sua elite política, econômica e militar (cf. II Rs 24). Então qual seria a função teológica do livro de Josué? O livro de Josué funciona como uma chave de interpretação para o resto da “Obra Historiográfica Deuteronomística”. Ele mostra de forma simples (às vezes até simplista), sempre dentro da ótica monárquica, que “se o povo e seus dirigentes são fiéis a Deus e mantém os princípios da Aliança serão sempre bem sucedidos em seus empreendimentos” (1.6-9).

Por outro lado se não se mantiverem fiéis à Aliança serão abandonados por Deus e cairão nas mãos dos seus inimigos (Os 7.2-5). Assim os tempos da monarquia de Israel em que houve grandeza dos seus reis foi porque foram fiéis e quando caíram em desgraça diante dos seus inimigos foi porque abandonaram a Aliança com Javé (como tenta demonstrar o resto da OHD). O texto deste domingo representa de várias formas a Aliança entre Yahweh e o povo de Israel (as doze tribos). As doze pedras sobre o Jordão teriam como conseqüência a revitalização da Aliança com o Deus Libertador (cf. 4.6-7 e 21-23). Nesta lógica a reafirmação memorial da Aliança seria a condição para vencer tanto os obstáculos naturais (rio Jordão) quanto os inimigos do povo libertado (cf. 5.1). Então a partir das pedras é exaltado o  grande símbolo da Aliança: a circuncisão (5.2-9) onde também se liga aliança com libertação (5.9) e encerrará com o terceiro grande símbolo da aliança que é a Páscoa, ou seja, a refunção que liberta feita dos produtos da terra libertada! (5.10-12). (Humberto Maiztegui Gonçalves, teólogo anglicano, biblista, clérigo da IEAB).

2Coríntios 5,16-21 -  É preciso prestar bastante atenção ao mundo religioso da época. Além dos cultos pagãos variados, e a influência dos mesmos sobre a pequena comunidade  a quem Paulo se dirigia, situações referentes ao papel dos senhores de escravos e dos próprios, dentro da igreja, causam motivos para um alerta. Logo, logo  aparece a questão da mulher, correlata.  Escravos e mulheres são membros inferiores da sociedade corintiana. A situação, comparada ao libelo libertário dirigido aos gálatas (... não pode haver judeu nem grego, nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher, porque todos sois um em Cristo), cf. Gl 3,28, comunidade da Ásia Menor, mais ao Oriente, quando ouvem o apóstolo, está diante de um fato paradoxal? Sem dúvida, a teologia depara-se com uma situação difícil: uma sociedade encara a questão de uma forma, a outra parece ignorar as semelhanças. A sociedade grega poderia compreender que novas marcas eram delineadas na sua história.  Deus, em seu meio, deixa pegadas. O Espírito nos faz observá-las: uma invocação filial se faz necessária. O Paínho, Abba, é a nova forma de invocação que se nos dá. Maturidade depois da infância, consciência depois da ignorância, liberdade depois da escravidão: esperança de uma herança transcendente (Bíblia do Peregrino, p.2797). Se alguém é cristão, é uma criatura nova (2Cor 5,17), esta afirmação também confere outra maneira para se completar o conceito condicional. Paulo pensa num mistério: como se realiza a reconciliação?  Como o cristãoe a cristã conciliam culturalmente a fé libertadora na sociedade de todos os homens e mulheres?

Os cristãos têm consciência dessas transformações em seu meio, uma vez que a igreja não se situa sociologicamente fora do ambiente cultural, jurídico, político, religioso, onde está? Ele sabe que o mistério da reconciliação não se limita às relações cercadas da comunidade, internamente.  A morte de Jesus Cristo é a chave do mistério, basta a morte de Jesus, a reconciliação está no Evangelho: Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, ... nos confiando a mensagem da reconciliação (2Cor 5,17). Os dois textos, dirigidos aos gálatas e aos coríntios, podem estar no mesmo eixo hermenêutico. Esta mensagem tem como centro a morte e a ressurreição de Jesus. Porém, sem separar-se as duas, como separou Mel Gibbson em seu horrível e sangrento filme, na visão fundamentalista do Cristo que não ressuscita “para que todos possam ressuscitar”. Paulo responde com a chave do mistério: Se Cristo não ressuscitou é fé não serve pra nada! (Derval Dasilio, teólogo, liturgo, clérigo da Igreja Presbiteriana Unida).

Lucas 15.11-32 - Colocar nome em um texto é complicado. Seja prosa ou poesia, o autor sofre para batizar sua criação. Parece que sempre escapa alguma coisa, uma ênfase, um significado nas palavras escolhidas para denominar a obra. Por isso, há títulos imensos que nem sempre dizem tudo e outros que com uma única palavra resumem uma longa história. Na obra de Jean-Paul Sartre, por exemplo, encontramos uma idéia fundamental da fenomenologia de Husserl: a intencionalidade, pequeno texto, com título quilométrico e Sursis, um romance de quase quatrocentas páginas. A parábola de hoje também sofre da síndrome do nome inadequado. Na tentativa de resolver o problema, nos últimos tempos, os biblistas alteraram seu nome: em vez de “parábola do filho pródigo”, como é muito conhecida, chamam-na de “parábola do pai amoroso”.

Uma boa mudança, mas não de todo suficiente. É certo que o último nome se aproxima muito mais do sentido proposto por Jesus. Até porque a palavra-chave desse texto está subsumida no título: “gratuidade”. O novo título só não é o ideal, porque, assim como na parábola dos trabalhadores na vinha (Mt 20.1-16), ela fala da gratuidade de um pai que ama, mas, sobretudo, da reação do filho que não entende esse amor gratuito. Material exclusivo de Lucas, ela é – ao lado das parábolas da ovelha perdida (vv. 4-7) e da moeda perdida (vv. 8-11) – uma resposta de Jesus à acusação dos doutores da Lei e fariseus de que acolhia pecadores e comia com eles (v. 2). Mas diferentemente das parábolas anteriores, esta tem um contraponto ao autor da ação amorosa: o filho mais velho, que se supõe, ele sim, merecedor das bênçãos do pai, e que rejeita o mais novo e tudo o que o pai fez por este. Ele estabelece um juízo de valor sobre o caçula e sobre o pai. E não abre mão dele. É o mesmo juízo condenatório que as lideranças judaicas tinham sobre a maior parte da população que não seguia a “reta doutrina” farisaica [cf. Rubem Alves, Religião e Repressão, Teológica/Loyola, 2003]. (Flávio Irala, teólogo, liturgo, músico, clérigo da IEAB).

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Texto final: Derval Dasilio

Créditos: Luis Alonso Shökel, Bíblia do Peregrino, Paulus, 2002;

Flávio Irala e Humberto Maiztegui Gonçalves, Pão da Vida – Comentário ao Lecionário Anglicano, Centro de Estudos Anglicanos, 2006

Obs: As obras citadas são facilmente adquíveis nas boas livrarias