PÁSCOA – 4o. DOMINGO -  ANO “C”

 

Atos 9,36-43 – Pedro orou e curou Tabita

Salmo 23 –  O Senhor é meu Pastor!

Apocalipse 7,9-17 – Seu Pastor vos conduzira a fontes de águas vivas

João 10,22-30 – Deus dá sua vida aos homens através do Bom Pastor

 

 

O BOM PASTOR EVITA OS MATADOUROS DE OVELHAS

 

É um escândalo, esse Bom Pastor, porque toda a vida de Jesus é um juízo contra os que pensavam que Deus devia ajustar-se à “dogmática” religiosa. Ele não se adapta! Assim, pois, o que decide de um modo definitivo o sentido deste evangelho, cotejado com o Salmo 23, é a atitude que devemos ter ante a verdade que Jesus propõe: quem se encontra para valer, com Ele, “veste a camisa” do Reino de Deus, encontra-se com Deus custe o que custar, enquanto confia sem reservas nos cuidados do Bom Pastor. Se Ele, Jesus,  escuta nossas súplicas, Deus faz o mesmo. Se Ele dá a vida por nós, isso é o que faz Deus por nós. Não estamos ante uma ficção com estas palavras. Algo concreto se apresenta: estamos  diante do “Doador da Vida”, que também se dá para “manter a Vida”. O Bom Pastor dá a vida pelas suas ovelhas! A cruz não é sofrimento inútil. A parte mais difícil, porém, continua sendo as renúncias necessárias e a entrega total à Causa do Bom Pastor! (cf. Jo 10, 3).  Jesus conhece os problemas da suas ovelhas. Mesmo quando elas seguem falsários e arremedos substitutivos que pretendem, na verdade, levá-las ao matadouro.

 

O bom pastor continua cuidando de suas ovelhas, busca a ovelha ferida, trata de seus machucados. Busca a que se extraviou, chama-a docemente ao caminho certo. Trata-a sempre com doçura e com voz carinhosa. Em regiões desérticas como na Palestina bíblica, a vida ou a morte do rebanho dependia do cuidado do pastor. Levar as ovelhas para campos  verdes da primavera, ou para a vegetação seca comestível no verão, e alimentá-las, é sua função. Especialmente quanto às sobras da ceifa já realizada nos campos próximos das vilas e cidades.  Nas noites escuras o pastor deve cuidar do rebanho, pois feras do deserto, e eventualmente salteadores, rondam e podem atacá-lo. O pastor deve estar vigilante, escutar cada pequeno ruído e manter-se em posição de defesa ou ataque, se necessário for. Dá-lhes segurança ao atravessarem depressões profundas, nos terrenos difíceis ou nos caminhos cheios de pedras soltas e perigosas onde as ovelhas possam resvalar.  Sabe a exata distância  entre os oásis; conhece as fontes de água onde se pode permanecer para se refazerem as forças... Tudo isso pertence ao cuidado, ao desvelo e à prudência de todo pastor não mercenário (cf. Jo 10, 12-13; Zc 11, 15), no exemplo do salmista e poeta.

 

O pastor é um companheiro. Ele liga seu destino ao destino do rebanho. Sofre a mesma sede, a mesma fome, padece sob as perseguições ferozes. É solidário, mesmo com  sol ardente durante o dia e frio intenso durante a noite. Cansa-se com as ovelhas ao caminhar pela areia, debaixo de sol escaldante e sobre pedras. Corre os riscos de agressão pelas feras, ou ferido e até morto pelos ladrões escondidos à beira da estrada. O pastor é diferente do mercenário ou do ajudante contratado, dá a sua vida pelas ovelhas (cf. Jo 10, 15). Ele mantém uma relação de afeto profundo com as ovelhas. Elas o amam: “Conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas me conhecem” e “elas seguem o pastor porque conhecem a sua voz”  (10, 4.27). As ovelhas sentem o bater cadenciado do cajado no chão ou nas pedras. Estão protegidas e cuidadas. Sabem disso (L.Boff).

 

Apocalipse 7,9-17 – O Cordeiro será seu Pastor, vos conduzira a fontes de águas vivas... A visão deste domingo, seguindo o livro de Apocalipse, não é elitista nem exclusivista. É litúrgica, porque corresponde ao mundo simbólico, mas reúne todos os homens, todas as raças, línguas e lugares. São todos os que viveram e lutaram por um mundo melhor, como fez Jesus Cristo. Os vestidos brancos e a palma da mão exposta denotam vida depois da morte violenta, como a própria vitória do Senhor ressuscitado. Se em sua vida cada um pôde lutar por uma causa pessoal, João, o iluminado de Patmos, vê agora que todos vivem em comunhão, proclamando e louvando a Causa do Senhor Jesus Cristo como a sua própria causa. Não terão mais fome, nem sede, e todos beberão da fonte de água viva. Tudo isso é a revelação da Ressurreição dos fiéis. Isso é o que nos espera depois da morte, por isso vale a pena lutar aqui pela Causa de Jesus. Os apóstolos não anunciavam uma ressurreição histórica: tudo parecia terminado na  crucificação. Dispersaram-se e quiseram esquecer o acontecido, ao que parece. Como se faz com um pesadelo. Mas ocorreu algo... uma experiência nova. Sentiram que Ele estava vivo. Invadiu-lhes uma certeza estranha: que Deus era a cara de Jesus. Deus está em Jesus. Deus respalda a Causa do Crucificado. “Deus estava em Cristo”, dissera Paulo.

 

João 10,22-30 – Sempre se considerou  o Bom Pastor motivo do evangelho do dia deste domingo. Fala das ovelhas, retomando o começo de João 10,1-10. O texto do Apocalipse que se lê, hoje, também aponta este simbolismo. Está situado no marco da festa da dedicação do Templo de Jerusalém, onde Jesus se encontra, e lhe chegam perguntas sobre se é verdadeiramente o Messias. Jesus, aparentemente, não quer contestar essa pergunta capciosa, em realidade não desvia a questão. Ele fala numa linguagem mais viva, mais radical, em consonância com a forma de entender o messianismo sob enfoque diferente dos judeus religiosos.  O pastor está se dirigindo aos “gentios”, entende João.

 

Os israelitas nunca esperaram um Messias que sofresse, e que fosse, portanto, capaz de dar a vida como Jesus se empenha em fazê-lo, como está no evangelho de João. Nem observaram com atenção o Servo Sofredor do Segundo Isaías. Para eles, é preciso desmontar uma concepção  “equivocada”  de messianismo: um rei poderoso que se imporá pela força das armas. E assim se nos permite descobrir a opção radical por Jesus. O verdadeiro Messias é capaz  de dar “a vida pelas ovelhas”,  o mesmo que dizer: dar a vida pelo povo, este muitas vezes referido como “ovelhas desgarradas”, na Bíblia. Jesus sendo “um com o Pai”, é uma provocação teológica, sem dúvida. Temos que reconhecer que o Jesus histórico não falou assim, da forma como faz João; Jesus nem sequer falava de si mesmo. Sempre falava de Deus e do Reino. Dizer que “o Pai e eu somos um” extrapola, é alta cristología!, sem dúvida alguma. Mas é verdade que Jesus nos revelou o Verdadeiro Deus, mais dirá João, e é isso o que  discutem os adversários da fé.

 

Mas nem tudo  são flores para os pastores que se transmudam em lobos. Platão entendia que o “pastor” humano, o governante, é um esboço (schema) do pastor divino, e deve governar com o senso de justiça, equidade e benevolência própria do Ser divino. Por esta razão se entende porque, segundo o profeta Isaías, Deus chama Ciro, rei pagão da Pérsia, de “meu pastor”. Porque cuidou do bem-estar do povo judeu exilado, permitindo que regressasse à Palestina e reconstituísse o Templo (Is 42, 28). Há, no entanto, uma nota de grande realismo, aqui. Quando se faz referência aos soberanos e reis hebreus como pastores, predominam críticas severas e ressaltam-se os traços negativos dos governantes. O profeta Isaías, por exemplo, os chama de "cachorros que têm enorme apetite, nunca se fartam, pastores que não sabem discernir... cada um visa ao próprio lucro, sem limites” (Is 56, 11-12).

 

Mais implacável que todos é o profeta Ezequiel. Todo o capítulo 34 do livro de Ezequiel é uma peça acusatória contra os pastores de Israel, “que se apascentam a si mesmos” (v. 2). Em discurso direto o profeta os invectiva: “Bebeis o leite das ovelhas, vestis sua lã e sacrificais os animais gordos... Não fortalecestes a ovelha doente nem enfaixastes a ovelha quebrada. Não trouxestes de volta a ovelha extraviada, não procurastes a ovelha perdida, mas as dominastes com dureza e brutalidade” (vv. 4-5), (L. Boff, O Senhor é meu Pastor, Sextante,2004).

 

A crítica é dura, sempre, aos pastores de Israel. Perverteram a natureza do pastor, que é de apascentar as ovelhas. Eles se apascentam a si mesmos, em vez das ove1has, com arrogância e desfaçatez (Ez 34, 2.8.16). Conseqüentemente as ovelhas dispersam e se tornam vítimas da pilhagem, e de animais selvagens (Ez 34, 8; Jr 10, 21; 23, 3; 50, 6). O castigo virá sobre eles: “Gemei, pastores, e gritai. Revolvei-vos no pó, chefes do rebanho! Sereis dispersados e caireis como vasos preciosos; não há refúgio para os pastores nem escapatória para os chefes do rebanho” (Jr 25, 34-35; Zc 11, 16-17). Esses textos parecem descrever situações atuais. Como se pode avaliar, biblicamente, a figura do pastor suscita arquétipos ancestrais ligados ao cuidado, à acolhida, à segurança, à confiança. Pastores entregues a valores inversos sempre são denunciados. Os profetas da Bíblia não dão mole para os que se corrompem. Serve-nos o exemplo?

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Derval Dasilio

Pastor da Igreja Presbiteriana Unida

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