O BOM PASTOR EVITA OS MATADOUROS DE
OVELHAS
É
um escândalo, esse Bom Pastor, porque toda a vida de Jesus é um juízo
contra os que pensavam que Deus devia ajustar-se à “dogmática” religiosa.
Ele não se adapta! Assim, pois, o que decide de um modo definitivo o
sentido deste evangelho, cotejado com o Salmo 23, é a atitude que devemos
ter ante a verdade que Jesus propõe: quem se encontra para valer, com Ele,
“veste a camisa” do Reino de Deus, encontra-se com Deus custe o que
custar, enquanto confia sem reservas nos cuidados do Bom Pastor. Se Ele,
Jesus, escuta nossas
súplicas, Deus faz o mesmo. Se Ele dá a vida por nós, isso é o que faz
Deus por nós. Não estamos ante uma ficção com estas palavras. Algo
concreto se apresenta: estamos
diante do “Doador da Vida”, que também se dá para “manter a Vida”.
O Bom Pastor dá a vida pelas suas ovelhas! A cruz não é sofrimento inútil.
A parte mais difícil, porém, continua sendo as renúncias necessárias e a
entrega total à Causa do Bom Pastor! (cf. Jo 10, 3). Jesus conhece os problemas da suas
ovelhas. Mesmo quando elas seguem falsários e arremedos substitutivos que
pretendem, na verdade, levá-las ao matadouro.
O bom pastor continua cuidando de suas ovelhas,
busca a ovelha ferida, trata de seus machucados. Busca a que se extraviou,
chama-a docemente ao caminho certo. Trata-a sempre com doçura e com voz
carinhosa. Em regiões desérticas como na Palestina bíblica, a vida ou a
morte do rebanho dependia do cuidado do pastor. Levar as ovelhas para
campos verdes da primavera,
ou para a vegetação seca comestível no verão, e alimentá-las, é sua
função. Especialmente quanto às sobras da ceifa já realizada nos campos
próximos das vilas e cidades.
Nas noites escuras o pastor deve cuidar do rebanho, pois feras do
deserto, e eventualmente salteadores, rondam e podem atacá-lo. O pastor
deve estar vigilante, escutar cada pequeno ruído e manter-se em posição de
defesa ou ataque, se necessário for. Dá-lhes segurança ao atravessarem
depressões profundas, nos terrenos difíceis ou nos caminhos cheios de
pedras soltas e perigosas onde as ovelhas possam resvalar. Sabe a exata distância entre os oásis; conhece as fontes
de água onde se pode permanecer para se refazerem as forças... Tudo isso
pertence ao cuidado, ao desvelo e à prudência de todo pastor não
mercenário (cf. Jo 10, 12-13; Zc 11, 15), no exemplo do salmista e poeta.
O pastor é um companheiro. Ele liga seu destino ao
destino do rebanho. Sofre a mesma sede, a mesma fome, padece sob as
perseguições ferozes. É solidário, mesmo com sol ardente durante o dia e frio
intenso durante a noite. Cansa-se com as ovelhas ao caminhar pela areia,
debaixo de sol escaldante e sobre pedras. Corre os riscos de agressão
pelas feras, ou ferido e até morto pelos ladrões escondidos à beira da
estrada. O pastor é diferente do mercenário ou do ajudante contratado, dá
a sua vida pelas ovelhas (cf. Jo 10, 15). Ele mantém uma relação de afeto
profundo com as ovelhas. Elas o amam: “Conheço as minhas ovelhas e as
minhas ovelhas me conhecem” e “elas seguem o pastor porque conhecem
a sua voz” (10, 4.27). As
ovelhas sentem o bater cadenciado do cajado no chão ou nas pedras. Estão
protegidas e cuidadas. Sabem disso (L.Boff).
Apocalipse 7,9-17 – O Cordeiro será seu Pastor,
vos conduzira a fontes de águas vivas... A visão deste domingo,
seguindo o livro de Apocalipse, não é elitista nem exclusivista. É
litúrgica, porque corresponde ao mundo simbólico, mas reúne todos os
homens, todas as raças, línguas e lugares. São todos os que viveram e
lutaram por um mundo melhor, como fez Jesus Cristo. Os vestidos brancos e
a palma da mão exposta denotam vida depois da morte violenta, como a
própria vitória do Senhor ressuscitado. Se em sua vida cada um pôde lutar
por uma causa pessoal, João, o iluminado de Patmos, vê agora que todos
vivem em comunhão, proclamando e louvando a Causa do Senhor Jesus Cristo
como a sua própria causa. Não terão mais fome, nem sede, e todos beberão
da fonte de água viva. Tudo isso é a revelação da Ressurreição dos fiéis.
Isso é o que nos espera depois da morte, por isso vale a pena lutar aqui
pela Causa de Jesus. Os apóstolos não anunciavam uma ressurreição
histórica: tudo parecia terminado na
crucificação. Dispersaram-se e quiseram esquecer o acontecido, ao
que parece. Como se faz com um pesadelo. Mas ocorreu algo... uma
experiência nova. Sentiram que Ele estava vivo. Invadiu-lhes uma certeza
estranha: que Deus era a cara de Jesus. Deus está em Jesus. Deus respalda
a Causa do Crucificado. “Deus estava em Cristo”, dissera Paulo.
João 10,22-30 – Sempre se considerou o Bom Pastor motivo do evangelho
do dia deste domingo. Fala das ovelhas, retomando o começo de João
10,1-10. O texto do Apocalipse que se lê, hoje, também aponta este
simbolismo. Está situado no marco da festa da dedicação do Templo de
Jerusalém, onde Jesus se encontra, e lhe chegam perguntas sobre se é
verdadeiramente o Messias. Jesus, aparentemente, não quer contestar essa
pergunta capciosa, em realidade não desvia a questão. Ele fala numa
linguagem mais viva, mais radical, em consonância com a forma de entender
o messianismo sob enfoque diferente dos judeus religiosos. O pastor está se dirigindo aos
“gentios”, entende João.
Os israelitas nunca esperaram um Messias que
sofresse, e que fosse, portanto, capaz de dar a vida como Jesus se empenha
em fazê-lo, como está no evangelho de João. Nem observaram com atenção o
Servo Sofredor do Segundo Isaías. Para eles, é preciso desmontar uma
concepção “equivocada” de messianismo: um rei poderoso
que se imporá pela força das armas. E assim se nos permite descobrir a
opção radical por Jesus. O verdadeiro Messias é capaz de dar “a vida pelas
ovelhas”, o mesmo que dizer:
dar a vida pelo povo, este muitas vezes referido como “ovelhas
desgarradas”, na Bíblia. Jesus sendo “um com o Pai”, é uma provocação
teológica, sem dúvida. Temos que reconhecer que o Jesus histórico não
falou assim, da forma como faz João; Jesus nem sequer falava de si mesmo.
Sempre falava de Deus e do Reino. Dizer que “o Pai e eu somos um”
extrapola, é alta cristología!, sem dúvida alguma. Mas é verdade que Jesus
nos revelou o Verdadeiro Deus, mais dirá João, e é isso o que discutem os adversários da
fé.
Mas nem tudo
são flores para os pastores que se transmudam em lobos. Platão
entendia que o “pastor” humano, o governante, é um esboço (schema)
do pastor divino, e deve governar com o senso de justiça, equidade e
benevolência própria do Ser divino. Por esta razão se entende porque,
segundo o profeta Isaías, Deus chama Ciro, rei pagão da Pérsia, de “meu
pastor”. Porque cuidou do bem-estar do povo judeu exilado, permitindo que
regressasse à Palestina e reconstituísse o Templo (Is 42, 28). Há, no
entanto, uma nota de grande realismo, aqui. Quando se faz referência aos
soberanos e reis hebreus como pastores, predominam críticas severas e
ressaltam-se os traços negativos dos governantes. O profeta Isaías, por
exemplo, os chama de "cachorros que têm enorme apetite, nunca se
fartam, pastores que não sabem discernir... cada um visa ao próprio lucro,
sem limites” (Is 56, 11-12).
Mais implacável que todos é o profeta Ezequiel.
Todo o capítulo 34 do livro de Ezequiel é uma peça acusatória contra os
pastores de Israel, “que se apascentam a si mesmos” (v. 2). Em
discurso direto o profeta os invectiva: “Bebeis o leite das ovelhas,
vestis sua lã e sacrificais os animais gordos... Não fortalecestes a
ovelha doente nem enfaixastes a ovelha quebrada. Não trouxestes de volta a
ovelha extraviada, não procurastes a ovelha perdida, mas as dominastes com
dureza e brutalidade” (vv. 4-5), (L. Boff, O Senhor é meu Pastor,
Sextante,2004).
A crítica é dura, sempre, aos pastores de Israel.
Perverteram a natureza do pastor, que é de apascentar as ovelhas. Eles se
apascentam a si mesmos, em vez das ove1has, com arrogância e desfaçatez
(Ez 34, 2.8.16). Conseqüentemente as ovelhas dispersam e se tornam vítimas
da pilhagem, e de animais selvagens (Ez 34, 8; Jr 10, 21; 23, 3; 50, 6). O
castigo virá sobre eles: “Gemei, pastores, e gritai. Revolvei-vos no
pó, chefes do rebanho! Sereis dispersados e caireis como vasos preciosos;
não há refúgio para os pastores nem escapatória para os chefes do
rebanho” (Jr 25, 34-35; Zc 11, 16-17). Esses textos parecem descrever
situações atuais. Como se pode avaliar, biblicamente, a figura do pastor
suscita arquétipos ancestrais ligados ao cuidado, à acolhida, à segurança,
à confiança. Pastores entregues a valores inversos sempre são denunciados.
Os profetas da Bíblia não dão mole para os que se corrompem. Serve-nos o
exemplo?
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