3º Domingo do Tempo Comum – Ano “C”


 

         Neemias 8, 2-4a. 5-6. 8-10 – Leram ao povo o livro da Lei.
       Salmo 19 (+ João 6, 63c) – Tuas palavras são espírito e vida.
       1Coríntios 12, 12-30 – Todos são membros do corpo de Cristo.   
       Lucas 1, 1-4; 4, 14-21 – Hoje se cumpre a Escritura.  
 

Conforme o Livro de Neemias, houve uma leitura pública e solene do livro da lei de Deus, a que nós, cristãos, chamamos de Pentateuco e os judeus, “Torá”, Lei. Estamos no fim do século V a.C., faz pouco tempo que os judeus regressaram do exílio na Babilônia e a duras penas conseguiram reconstruir o templo, as muralhas e suas próprias casas.

Além disso, enfrentam a hostilidade de muitos vizinhos invejosos a que os imperadores persas permitiram regressar. Faz-lhes falta com urgência uma norma de vida, uma espécie de “constituição” por meio do qual possam reger-se em todos os aspectos da vida pessoal, social e religiosa. Esdras, um líder carismático, respeitado por todos e considerado levita e escriba, quer dizer, sacerdote e mestre, dá-lhes essa lei, essa constituição de que necessitam, proclamando solenemente, diante de todo o povo reunido, a santa Lei de Deus. Já vimos como respondeu o povo: comprometendo-se a cumpri-la e a guardá-la, chorando suas infidelidades. Por instâncias de seus líderes, celebram uma festa nacional: a festa da promulgação da Lei divina. Desde aquela data remota, quatrocentos anos antes de Jesus Cristo, até hoje, os judeus ordenam suas vidas segundo os mandamentos da Torá ou Pentateuco.

[*Nota importante: Na realidade, há uma corrupção marcante nessa passagem do “Javismo” (religião com ênfase profética, desde Elias...) para o “Judaísmo” (sécs. V e IV a.C.); a Lei é que predomina, a Torah vem para o segundo plano, no todo, funcionando como reforço para a ênfase legalista, que o Thalmud consagraria, incluindo códigos complementares com prescrições “apócrifas”, como o mishinah, no ethos religioso da recente religião, e que chega a Jesus e os Apóstolos; o intérprete não entenderá a religião criticada por Jesus, o judaísmo contemporâneo, sem entender as “reformas”, de Josias – VII século – e a de Esdras e Nehemias, século VI. Um bom paralelo pode ser o que o evangelicalismo fez com o protestantismo! O judaísmo thalmúdico foi construído desde o III séc. a.C. ao II d.C.].

Lucas 4, 14-21 era considerado um texto sem importância na vida prática da nossa comunidade cristã, até uns cinqüenta anos; um texto esquecido, como tantos outros que hoje nos parecem fundamentais. Foi a teologia latino-americana que o colocou em relevo como texto capital. Lucas o põe no início da vida pública de Jesus. Pode ser que não corresponda ao que aconteceu realmente no princípio (João de fato coloca outras passagens como começo de seu evangelho, em seu significado. Ou seja, talvez não tenham ocorrido coisas assim, nessa ordem, nem é possível sabê-lo historicamente, mas Lucas tem razão quando situa esta cena em seu evangelho como um início programático que contém em germe já toda a sua missão de Jesus Cristo).

Sem dúvida, Jesus teve que "interpretar" muitas vezes sua própria vida com estes textos proféticos de Isaías. Parece óbvio que Jesus viu sua vida como o cumprimento, prolongamento daquele anúncio profético da “Boa Nova para os pobres”. A missão de Jesus é o anúncio da Boa Nova da Libertação. A “evangelização” (“eu” = boa; “angelo” = nova, notícia) não é mais que uma forma da libertação, a “libertação pela palavra”.

As aplicações para a pregação são muitas, e bastante diretas:

A missão cristã, hoje, continuando a missão de Jesus, deve ser: “continuação da missão de Deus”, no sentido literal e direto. Ser cristão, com efeito, será “viver e lutar pela Causa de Jesus Cristo”[salvação, libertação, inclusão no Reino de Deus], sentir-se chamado a proclamar a Boa Nova da Libertação, entendendo-se em sua literalidade mais matérial também: a “Boa Nova” tem que ser “boa” e tem que ser “notícia”. Não se pode substituir semanticamente pelo “catecismo” ou pela “doutrina”. Jesus não veio ensinar “a doutrina”; sua “evangelização” não foi uma catequese eclesiástico-pastoral...

A missão de Jesus não pode pretender ser neutra, “de centro”, “para todos, sem distinção”, não inclinada nem para os ricos nem para os pobres... como pretendem os que confundem a Igreja com uma espécie de antecipação piedosa da Cruz Vermelha. O pior que se poderia dizer do Evangelho é que seja neutro, que não se manifeste, que não opte pelos pobres (fracos, sem-poder, triturados, esmagados pelos sistemas de pensar vigentes). A pior ideologia seria a que defende o Evangelho como neutro e indiferente aos problemas humanos, sociais, econômicos e políticos, porque se referiria somente ao “espiritual”.

Pode ser bom recordar uma vez mais: Jesus está longe da beneficência e do assistencialismo..., em primeira instância. Não se trata de “fazer caridade” aos pobres, mas de inaugurar a nova ordem integral, a única que permite falar de uma libertação real... É importante dar-se conta de que muitas vezes quando se fala da opção “preferencial” pelos pobres se está claramente com uma mentalidade assistencial, paternalista, muito distanciada do espírito de Lucas 4, 14ss.

A palavra evangelizadora ou é ativa e concreta na prática da salvação e da libertação, ou é anti-evangelizadora. A palavra evangelizadora não é palavra de teoria abstrata. É uma palavra que se refere à realidade e a confronta com o projeto de Deus. “Evangelizar é libertar pela palavra” (Nolan). Uma palavra que não entra na história, que não se pronuncia, que se mantém acima dela ou nas nuvens, que não mobiliza, não sacode, não provoca solidariedade (nem suscita inimigos). Não é herdeira da “paixão” do Filho de Deus. [*Nota: Sempre se deverá perguntar, também:a) “salvar a quem?, b) salvar de quem?, c) salvar para quê?”; o intérprete deve estar atento à hermenêutica salvacionista, fundamentalmente neognóstica: – o “conhecimento de Jesus é o bastante”, que exclui a salvação do corpo e dos corpos em favor de uma dicotomia, ou tricotomia inaceitável biblicamente].

 

* Pesquisa e adaptação e notas: Derval Dasilio. Fonte: Serviço Bíblico Latino-Americano
 
[O responsável pelos textos deste site* estará em recesso durante as próximas semanas; todos os textos bíblicos semanais/dominicais que serão publicados, porém, conferem com o Lecionário do Manual do Culto, Pendão Real/IPI, Brasil; Retiramos os comentários das seguintes fontes: Isedet-Instituto Universitário-Argentina; Servicio Bíblico Latinoamericano/Agenda Latinoamericana/ Selah – Red de Liturgia CLAI].
 
 

 

 
 

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