3o.DOMINGO DA QUARESMA – ANO “C"
Isaías
55,1-9 –
Chamem por Deus enquanto ele está perto... afastem-se
dos maus
Salmo 63,1-8 – O Senhor é bondoso e compassivo
1Coríntios 10,1-6;10-12 – A vida do povo com Moisés no
deserto, exemplo para nós
Lucas 13,1-9 – Se vós não
vos converterdes, ireis morrer todos do mesmo
modo
Os
ouvintes, pecadores, têm a sua última oportunidade de dar fruto de
conversão para Deus (Isaías 55,1-9). Os israelitas são convidados, tanto
nas desgraças do dia a dia, como na palavra de Jesus, no Evangelho, a
escutar a voz de Deus que os convida à conversão. E com eles, também nós.
A reconstrução de Sião é muito importante para o povo. Jerusalém fora a
capital de Judá por 400 anos, (1000 até 587 a.C.) e
tornou-se um símbolo da identidade nacional. Sião
é a “capital da fé na libertação”. Mas, para que esse sonho se
torne realidade, é preciso organizar o povo. Qual o projeto da comunidade
do Segundo Isaías para a reconstrução de Jerusalém e do Estado nacional? O
primeiro passo é a conversão. Não basta a derrota do império babilônico, é
preciso libertar-se também da mentalidade do opressor: “Procurem
Yahaweh enquanto ele se deixa
encontrar; chamem por ele enquanto está perto. Que o ímpio deixe o seu
caminho e o homem maldoso mude os seus projetos. Cada um volte para
Yahaweh e ele terá compaixão; volte para o nosso Deus, pois ele perdoa com
generosidade” (55,6-7). Então, o povo toma consciência de seus atos e
decide mudar a realidade, para que o exílio nunca mais volte a acontecer.
Indubitavelmente, é um chamado à conversão. (Shigeyuki Nakanose/Enilda de
Paula Pedro, O Segundo Isaías, Paulus).
Salmo
63,1-8 (cot. Sl 103). Quem ora convida-se a si mesmo (minha alma) a
bendizer a Deus. Os “benefícios” têm a ver com a retribuição (a raiz
gml diz relação a isto), não se louva a justiça rígida, mas que vai
além do olhar dos méritos (como volta a recordá-lo nos vv. 8-10). Logo,
seguem uma série de particípios que se aplicam a Deus (vv. 3-6): que
perdoa, que cura, que livra, que coroa, que sacia, que renova. Pelo lado
negativo nos livra das culpas, enfermidades (que costumam ser vista como
conseqüência das culpas) e, portanto, da morte, positivamente nos concede
ternura, misericórdia, bem-aventuranças (hesed, rahamim). Tanto os
elementos negativos como os positivos têm como conclusão que eles nos
rejuvenescem.
Daí
se passa ao social, mais que pessoal: a justiça e a libertação, na
referência agora nacional a
Moisés e Israel (v.7). A idéia de que Yahweh é clemente e compassivo a
encontramos em Ex 34, 6; e Jl 2,13; Jn 4,2; Sl 86,15; 145,8 e Ne 9,17 com
conotações litúrgicas. Isto se expressa por comparações que como vimos – a
diferença da altura entre o céu e a terra – maiores que se possam pensar
(cf. Sl 36, 6, 57,11) que serve para mostrar como é grande o amor de Deus
(“como o céu é mais alto que a terra...” Is 55, 9; ver Jo 11, 8; 22,12). O
salmo se refere então a uma apresentação de Deus na história, tanto
pessoal como comunitária, em sua característica destituída de ternura
maternal, acentuando-se sua
paternidade, que deve levar
(imperativo) ao louvor constante, como condição. Prevalece aqui a concepção
patriarcal da paternidade divina.
1Coríntios
10,1-6;10-12 – A primeira carta aos Coríntios
apresenta muitas dificuldades quando pretendemos “situá-la”. O ambiente
histórico é difuso, influenciado por culturas e religiões da Ásia Menor e
da Europa. A leitura rasa, fundamentalista, ignora a ausência completa de
qualquer tradição judaica na comunidade. Corinto é uma cidade pagã, os
cristãos convertidos mantêm-se socialmente presos às formas culturais
dessa cidade cosmopolita. Há uma considerável diversidade religiosa
(comparemos com o mundo “cristianizado”). Entretanto, a frase “não quero
que ignorem” destaca o começo de uma nova unidade, como podemos constatar
no uso da palavra “irmãos”. A referência evidente aos acontecimentos do
deserto nos faz pensar que estamos diante de uma releitura do Antigo
Testamento, ou um breve sermão em chave evidentemente cristã: compara-se a
nuvem e a passagem do mar com o batismo, o maná e a água com a eucaristia,
e se recorda que estes acontecimentos ocorrem “na figura” (vv. 6,11) e que
não devem, os coríntios, repetir o mau que foi feito no deserto pelos
“nossos pais”.
O
discurso se desenvolve em forma de pares: nuvem/mar, alimento/bebida
espiritual, e pretende que “não façamos como eles fizeram” onde se
repetem, sempre aos pares, os verbos que caracterizam o comportamento
incorreto dos israelitas no deserto, Paulo pretende que os cristãos
evitem: cobiçar, fornicar, tentar, murmurar. No centro encontramos uma
atitude que se deve evitar, mas que não tem “par” correspondente, pelo contrário, é iluminada por um
texto bíblico: “não pratiquem a idolatria”; a referência é ao “bezerro de
ouro”, mas a citação remete à comida e à bebida, e aos costumes pagãos
preservados na igreja gentílica (como se observa ainda hoje: não
entendemos a diversidade cultural no Oriente e no Ocidente). Seguramente
Paulo podia ter escolhido outra citação melhor para aludir à idolatria,
mas ele faz referência à comida porque é isso que ele deseja mostrar.
Partindo deste aspecto ele passa à outra unidade, recordando “fujam da
idolatria” (10,14) para voltar à comida de carne oferecida aos ídolos, que
como vimos, é o marco da unidade. O fato é o coração do
relato.
Lucas
13,1-9: O acontecimento histórico é desconhecido. Foram propostos
diferentes fatos, mas nenhum coincide exatamente com este. É estranho que
Flávio Josefo não o tenha narrado, sabendo que ele era bem pouco amigo de
Pilatos. Entretanto o debate supõe um (ou dois) acontecimento(s)
ocorrido(s) realmente. A miscigenação, a participação dos galileus nos
sacrifícios cultuais, faz pensar na festa da Páscoa: nesta data Pilatos e
os peregrinos – e também os galileus, se encontram em Jerusalém, e os
leigos participam dos sacrifícios uma vez que devem levar para sua casa,
ou pelo caminho, o cordeiro para ser comido em família. O outro fato está
relacionado com as dezoito pessoas, se o primeiro é um incidente, este é
de ocasião, no primeiro há um crime, mas no segundo há um fato casual; o
comum de ambos são os mortos e a interpretação que os interlocutores de
Jesus fazem do fato. Da torre de Siloé sabemos de sua existência, e de sua
ampliação. Flávio Josefo narra a respeito da torre, mas não descreve
tampouco nenhum acidente deste tipo. Não sabemos se Lucas pode estar
relendo a queda de Jerusalém posterior a 70 depois de Cristo.
A
opinião teológica clássica estabelece uma estreita relação entre a
culpabilidade (cf. o Pai-Nosso de Lucas: diz “pecados” onde a fonte
dizia “dívidas”; estando em paralelo, não precisa de explicação,
compreende-se que, aqui,
“dívida” é o mesmo que “culpa”). Ao rejeitar esta imagem de Deus
Lucas apresenta uma divindade menos poderosa, porém mais misericordiosa e
terna (cf. comentário acima, sobre o salmo desta liturgia, referências a
hesed e
rahamin), um Deus de amor convida a considerar que a vida depende mais
do perdão de Deus do que de
atitudes exteriores em busca do mesmo.
Neste
aspecto, Jesus apresenta uma parábola. Freqüentemente fez-se interpretação
alegórica desse texto, a exemplo dos Pais Apostólicos (por exemplo, três
anos é referência à vida pública de Jesus, dado que Lucas nunca fala e
parece desconhecer). Sabemos que com muita freqüência Israel é comparada à
“videira”. Este é o exemplo mais evidente, mas não o único dentre muitos.
Isaías (5,1ss) também compara Israel com uma “figueira”
(cf. Jr 24, 1-10). É interessante que ambas as imagens se misturam.
Algumas vezes nos profetas (Jr 8,13; Os 9,10; Mq 7,1). Não é necessário
dizer que a videira representa Israel e que a figueira representa
Jerusalém, provavelmente o uso das duas imagens tem como intenção
simplesmente reforçar a idéia (cf. Mq 4,4). Que fique bem claro de quem se
está falando, é de Israel, não de pessoas ou indivíduos, no singular ou no
plural. Desse modo, pretende-se levar à “conversão” (metanoia), que
é o centro de toda unidade (cf. igreja, comunidade, conversão,
reconciliação, perdão, alcance hermenêutico: seguidores de Jesus,
historicamente, a “igreja” ainda estava por formar-se).
A
figueira não só deixa de produzir fruto, mas ocupa um lugar importante. O
agricultor repete o que já sabemos: foi colher e não encontrou frutos.
Entretanto acrescenta novos elementos: “há três anos repete a mesma busca
em vão, e então decide cortá-la”. A destruição aqui é imagem do juízo. O
surpreendente é a intercessão do vinhateiro (na Bíblia é comum que o
intercessor seja um subalterno; neste caso, o vinhateiro dirige-se ao dono
da vinha). Ele se ocupará de dar alimento e bebida à planta, enquanto
conduzirá o agricultor à última esperança. Neste caso mais um ano. Esta
será a última oportunidade da árvore produzir frutos, caso contrário, será
cortada. Como outras parábolas, o final permanece “aberto”; não sabemos se
a figueira deu ou não o fruto esperado, como também não sabemos se o filho
mais velho entrou na festa do pai quando regressou o filho mais novo
(parábola do filho pródigo). Como a parábola pretende levar a uma atitude,
são as atitudes que determinarão o final. Negativo ou positivo (Pesquisa
parcial: Serviço Bíblico Latino-Americano).
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Pesquisa, transcrições e texto final: Derval
Dasilio