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Atos 9,1-20 – Prendam os que invocavam o nome de Deus! Salmo 30 – Porventura o pó te louvará? Ap 5,11-14 – Proclamando o Cordeiro que tira o pecado do mundo. João 21,1-19 – Estava com eles, mas eles não o reconheciam...
HONESTAMENTE, O QUE SOBROU DA IGREJA DO NOVO TESTAMENTO?
A Igreja no interior do ambiente evangélico brasileiro tem merecido honestas e cáusticas referências, como é a descrição panorâmica do bispo anglicano Robinson Cavalcanti, quando expressa com crueza a realidade que as igrejas atravessam. Diz ele: “Constata-se, hoje, lamentavelmente, uma tendência claramente sectária, arrogante, iconoclasta e agressiva, dos grupos novos e independentes, na rejeição do passado e na rejeição dos outros. Nas últimas décadas consolidou-se entre nós o modelo fundamentalista, fortalecendo-se o espírito de intolerância” e até a ideologia consumista de ‘produtos’ da fé cristã, bem-vindos em muitas comunidades. Acrescento eu: a igreja tem-se tornado também um espaço de diversão e recreação religiosa. Exigem-se, inclusive, espetáculos e reality shows convincentes para os novos fins. Da inspiração fundamentalista, passamos também às idéias da recente religião evangelical brasileira, da cultura gospel; do pluralismo litúrgico exorcista que agrega elementos religiosos afro-brasileiros irreconciliáveis com o cristianismo tradicional (milagres carismáticos, curas, quebra-de-maldição, descarrego, invocação de demônios, caboclos, preto-velhos), mas que não espanta, ao contrario, concilia o que acontece há décadas.Enquanto isso, importa o neopentecostalismo dos EUA. Tudo ao mesmo tempo. Rodízio apimentado de eclesiologias estranhas. Essa é a Igreja de Cristo? É preciso observar que no campo religioso brasileiro, como salta à vista, a Igreja é cada vez mais pluralista e conflitiva nas mais diversas direções, mas é possível afirmar que, em que pesem as divergências históricas de origem, há também um legítimo espírito de unidade, embora restrito, no protestantismo histórico. Entre nós, as igrejas divergem ou convergem entre si em termos de suas relações, diretas ou indiretas, conscientes ou inconscientes, com a estrutura simbólica gerada pelas tendências da sociedade brasileira, cada vez mais envolvida com a mercantilização da vida eclesiástica. Para muitos, não resta dúvida, igreja é um (bom) negócio. É evidente que existem contradições de variados tipos opondo igrejas umas contra as outras. A Igreja, como expressão de fé apostólica, bíblica originalmente, é pouco testemunhada, sem dúvida, se comparada à igreja inicial. As “modernizações” propositistas, igreja-em-células, igreja-shopping-center, alertam-nos quanto à distância que existe entre a Igreja Apostólica de Atos e as miríades das expressões evangelicais contemporâneas. O vazio silencioso das igrejas históricas ortodoxas, ensimesmadas, comparado às igrejas (neo) pentecostais, extrovertidas, cheias e ruidosas, como denunciava R.Shaull, enquanto estudava as massas oprimidas do pentecostalismo e suas esperanças evangélicas, na Igreja do século XXI, é outra das muitas faces da Igreja no Brasil.
Quando constamos que o bispo Hernadez (Renascer em Cristo), R.R.Soares (Igreja Internacional da Graça), Robson Rodovalho (Sara Nossa Terra), saíram do presbiterianismo fundamentalista, não há mais surpresas (Ricardo Mariano, Neopentecostalismo, Loyola, 1999). Muitos ainda confundem a Igreja com o Reino de Deus, e a participação nos negócios políticos e religiosos deste mundo como uma obrigação não duvidosa. Perdemos a bandeira do protestantismo histórico: igreja reformada sempre se reformando. Falta um projeto que ultrapasse as meras mudanças nos indivíduos, conversão pessoal, e etc., como registrou Zwínglio M. Dias, citando R.Cavalcanti. (in: Protestantismo brasileiro: uma confusa arca de Noé - Ultimato/nº263). A pós-modernidade religiosa atinge a Igreja de Jesus Cristo em todos os flancos.
Bom, mas a igreja do Novo Testamento... a comunidade cristã primitiva, bíblica, se caracteriza por tentar explicitar, de forma concreta, os valores presentes no testemunho de vida de Jesus, o Cristo de Deus? Aos olhos de Lucas, sim. Foi uma comunidade inclusiva, onde todos compartilhavam de tudo. Por isso foi uma comunidade, pois vivia os valores essenciais do Reino e não os da sociedade onde se firmava a Igreja. Não foi por isso uma comunidade de costas para a realidade opressiva de seu tempo. Ao contrário, vivia na partilha da vida como expressão de testemunho da ressurreição do Cristo crucificado. O Deus de Jesus ressussitou-o, por isso todos têm a esperança de ressurreição. Especialmente da comunidade de seguidores do Cristo ressuscitado, e com ela o mundo que cultiva a morte (tanatos). Na medida em que todos tinham tudo em comum a ressurreição de Jesus ganhava realidade no meio da sociedade judaico-palestina, e da oikoumene helênica. Inclusão e solidariedade ativa foram, pois, as suas marcas. A Igreja estava aberta a todos, e não apenas aos judeus, acrescenta Zwínglio M. Dias.
Lucas quer vincular a sua comunidade com a comunidade primitiva de Jerusalém. Pois esta faz a ligação entre o judaísmo e as igrejas cristãs. Todas as comunidades prolongam e reproduzem de certo modo a comunidade de Jerusalém. Desse modo os judeus da não se sentem cortados do seu povo, o que aconteceria facilmente se estes se contentassem com a teologia de Paulo. Pois Paulo cortou relações com o judaísmo, mas tem esperança de reatar a comunicação, em algum momento. Ainda não existe a idéia de uma igreja universal, mas ela desponta. Ao contrário do que praticamente se impõe, na Igreja, são mais os serviços do que honras. Aliás, se há alguma honra é aquela conferida pelo Senhor da Igreja para representá-lo nos ministérios. Os ministros são profetas, mais que pessoas que exercem o mando (J. Comblin). O exercício do “poder” é negado, na Igreja ("se alguém quiser ser o primeiro, seja o último de todos e o servo de todos" Mc9,33-34). Lucas mostra “sua” comunidade inserida na história não da Igreja, mas da marcha acelerada da Palavra de Deus. Esta marcha da palavra é a última fase da história de Israel, a realização das promessas feitas por Deus por meio dos profetas antigos e das promessas renovadas por Jesus. O que interessa a Lucas é antes a fase de fundação das comunidades do que o seu funcionamento cotidiano, a fase de criação e não tanto a fase de consolidação. Não importa que em Samaria, na Judéia, em Jerusalém ou em Antioquia. O sentido dinâmico da Igreja, histórico, como movimento de chamamento e de reunião dos povos em Cristo, na Igreja, deve ser considerado com atenção em Atos dos Apóstolos.
João 21,1-14 – Este capítulo está transferindo a atenção dos ouvintes e leitores da narrativa dos que viram Jesus para uma experiência de vida. Os que não viram, mas crêem (20,29), são acolhidos com respetio. Isto é, a vida da Igreja em continuidade à missão recebida por Jesus. O Ressurreto se manifesta aos discípulos na pesca prodigiosa (vv. 2-8) e no diálogo na refeição com eles (v. 9ss). João insiste no sentido “alimento para as multidões” (Jo 6,1-11), a multidão necessita do alimento que sustenta a vida: “eu sou o pão da vida”... mas procura Jesus (...em verdade me procurais porque comestes dos pães e vos fartastes... trabalhai, no entanto, por outro tipo de comida, a que conduz à vida eterna – Jo 6,26-27). A narrativa, aqui, está cheia de símbolos vivos. Ela se assemelha à pescaria narrada em Lucas (5,11ss). Primeiramente, sua “epifania” (presença divina) não foi reconhecida (estava na praia e não era reconhecido...). Com a interpelação: “tendes alguma coisa a comer?... Lançai a rede...”, o discípulo amado foi levado a reconhecê-lo. Há uma relação com o acontecimento de Emaús (Lc 24,30: então, quando estavam à mesa, ...partiu o pão e deu-lhes; então se lhes abriram os olhos e o reconheceram). Um texto eucarístico, sem dúvida. Aponta a presença real de Jesus entre seus seguidores e a acolhida à mesa: dos abandonados, excluídos e oprimidos, sendo estes estreitamente associados à comunhão da mesa.
Essa narrativa, em primeiro lugar, está ligada com a ação pastoral da Igreja, ela ocorre com a presença do Cristo Ressuscitado. Estão aí sete discípulos (v. 2). O número sete simboliza totalidade. Eles representam a Igreja toda. João insistira na unidade da Igreja (Assim como me enviaste, eu os envio ao mundo ... Oro para que sejam um, como eu e tu, para que o mundo creia (Jo 17,18;21). Aí está a fonte inesgotável da missão da Igreja: reunir as pessoas para comer e beber com Jesus sendo alimentadas pela doação que nunca se esgota, e ter uma existência ética sob a perspectiva de um período marcado pelo “já” e o “ainda não” (Sumio Takatsu). É esta a Igreja a quem João se dirige. Uma Igreja honesta! É preciso conhecer esta Igreja entre diversidades teológicas e anti-teológicas no nosso tempo. Em que se parece com a Igreja que conhecemos hoje?
Derval Dasilio Pastor da Igreja Presbiteriana Unida
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