32º Domingo do Tempo Comum
 
                                   Ano "C"    

Ageu 1,5b-2,9 – Minha é a prata e meu é ouro: meu povo

                             Salmo 98 – Os céus anunciam a justiça de Deus

      2Tessalonicenses 2,1-5;13-17 – Ninguém vos engane com tais objetos de culto

            Lucas 20, (9-19; 20-26)27-38 – Ressurreição: vida plena contra a morte

 

-----------------------------------------------------------------

                          APODERAM-SE DO QUE PERTENCE A DEUS

 

São importantes os antecedentes da perícope principal, do Evangelho deste domingo. As autoridades vão matar Jesus (20,9-19). Com a parábola dos vinhateiros assassinos Jesus mostra que está plenamente consciente do que está acontecendo e vai acontecer. Os “vinhateiros” são os chefes religiosos do povo (doutores da Lei, chefes políticos e dos sacerdotes). A missão deles, como compreendiam, era fazer o povo “produzir para Deus”, transformando a religião em mercado. Usavam o povo para o próprio proveito, matando todos aqueles que os criticavam. Por último, matam também o filho do “patrão”, que é Jesus. E o que vai acontecer? O que fará Deus? Arrancará o seu povo (a vinha, cf. Isaías 5,3-7) da mão desses vinhateiros e o entregará a outros administradores. De agora em diante o povo de Deus vai se reunir ao redor de Jesus. Este é a pedra principal de uma nova construção. A crítica direta às autoridades religiosas, e elas entenderam muito bem, atingiram-nas a ponto de quererem prender Jesus. Mas ainda não é o momento.

 

Entre Jesus e as autoridades está o povo, servindo de proteção e escudo (isto se reverterá posteriormente, no julgamento e na condenação de Jesus, quando este mesmo povo clamará: “matem-no”!). Novamente percebemos o conflito fundamental, que está entre a proposta do reinado de Deus e o comportamento das autoridades religiosas. Na raiz do conflito temos o fato de que essas autoridades tentam de todos os modos apoderar-se daquilo que pertence a Deus.

 

                      DINHEIRO USADO PARA MANIPULAR A GRAÇA

 

Outra armadilha. A moeda do tributo era um sinal da dominação romana (20,20-26). É lícito ou não pagar esse tributo? E se Jesus responde que sim, ficará desmoralizado como aliado do poder opressor. Se responde que não, será acusado de sedicioso e anarquista. O Templo é também o lugar onde o sistema fazendário tem sede. As autoridades do Templo estão encarregadas de repassarem aos romanos a parte que lhes cabe da arrecadação dos impostos. Pode-se indagar se o “dízimo”, imposto religioso remanescente do judaísmo formativo, está incluído. Há indicações de que também esse dinheiro era usado para melhorar relações entre o dominador e o dominado.  Mas Jesus escapa da armadilha.

 

A frase “dêem a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” revira totalmente a questão. Jesus reconhece que o Estado tem uma função, mas esta não é a de tomar posse do povo. O povo não deve ser considerado como mercadoria, seja nas mãos do Estado nacional, seja nas mãos do Estado estrangeiro. Trata-se de um dilema do qual não se possa escapar. Uma questão capciosa. Posto entre a espada e a parede, terá que fazer uma declaração que o comprometeria gravemente ante as autoridades romanas. De fato, o tema do tributo soará no processo perante Pilatos (Lc 23,2). O dilema da autoridade imperial romana se coloca no terreno econômico, que todos sentem, e não deixa saída. A adulação serve de entrada (Pr 6,24; 26,28). Podem insinuar que Jesus se apresente imparcial entre o povo judeu e o poder romano. Não devemos ver a imparcialidade de Jesus. Ao contrário, parece-nos claro que o mais importante se destaca: “o que é de Deus não pode ser manipulado pela religião ou pelo Estado”, parafrasearíamos.

 

Recorde-se a postura polêmica de Jeremias, profeta do Senhor, no assunto da submissão a Nabucodonosor (Jr 27). Jesus encontra uma saída engenhosa: pede que lhe mostrem a moeda do tributo. Eles levam na bolsa a moeda com a imagem em que há atributos divinos do odiado imperador Tibério. Usam-na; logo, reconhecem sua validez; guardam-na; portanto aceitam o regime que representa. Que tirem as conseqüências. Com isso lhes tapou a boca (Sl 62,12). Mas não basta, é preciso responder ao que não perguntam, à pergunta realmente importante, porque é o homem, em si, leva a imagem de Deus e a Deus pertence. O problema e a resposta orientam as primeiras comunidades cristãs em sua vida dentro do império, enquanto acusadas pelos judeus.

 

O povo pertence a Deus, e Deus o liberta para a vida em plenitude cultural, social, econômica e religiosa. Embora pertença a Deus, nem mesmo Deus toma posse dele ou o explora. Não exige bajulação religiosa, adoração interesseira, nem sacrifícios, senão justiça social (Mt 9,13; Os 6,6); Deus quer pontes sobre os abismos das desigualdades entre homens, mulheres, povos e raças. Deus faz as pessoas viverem, como povo e como cidadãos. É isso que o Estado deveria compreender. Sua função é salvaguardar a liberdade e a vida do povo. Contudo, quando o Estado compromete a liberdade e a vida do povo, ele perverte a sua função e se torna intrinsecamente mau.

 

                                   SÓ COM DEUS HÁ VIDA E PLENITUDE

 

Os saduceus, grandes proprietários de terras, formavam a elite dos sacerdotes(20,27-40). Não acreditavam na ressurreição, e propõem a Jesus um caso difícil, para mostrar que é absurdo crer na ressurreição. Jesus retifica a questão, mostrando que a vida da ressurreição não deve ser concebida como mera cópia da vida na dimensão presente. E os mortos ressuscitam? Referindo-se à célebre forma “Deus de Abraão, Deus de Isaac e Deus de Jacó”, Jesus mostra que, sendo Deus dos vivos e da Vida, também Abraão, Isaac e Jacó devem estar vivos com ele. Com efeito, o sentido de toda a criação é viver para Deus, e essa vida não conhece fim. Ruma para a plenitude, sempre. O que está com Deus está vivo para gozar a vida em abundância. 

 

Os saduceus queriam embaraçar Jesus fazendo perguntas a partir da prática do levirato (Dt 25.5-6). No livro do Deuteronômio está ordenado que, no caso de um irmão falecer sem descendência, é a obrigação de um irmão casar com a viúva para dar o nome à família. Se, nessa prática, uma viúva casar sucessivamente, de quem será a mulher na ressurreição? Jesus afirma a ressurreição (vv. 35-37), e mostra aos saduceus que as instituições pertencentes a esta ordem das coisas não continuarão pós-ressurreição. Em outras palavras, as instituições terrenas não continuarão no céu, que é o mundo da justiça plena. O mundo onde está presente o Reino de Deus. Todas as instituições e poderes são transitórios e provisórios, ainda.

 

A continuidade entre o agora e o então está em Deus e na sua graça. E Jesus faz excursão mais profunda no Pentateuco, lembrando-os do que Moisés disse a respeito de Deus como o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó. A ressurreição é contrastada, por isso, pela imposição da morte; pelos determinismos e fatalismos da cultura, da religião, da política corrompida, nos sistemas de pensar. A ressurreição é a dádiva da vida e vem de Deus. Assim, à luz da ressurreição, a vida é vista e vivida sob o poder da graça. (vv.34-35). Em Lucas a ênfase recai na expressão: “não podem mais morrer” com referência aos filhos da ressurreição (Cf.Bíblia do Peregrino, Shöekel; O Evangelho de Lucas, Ivo Storniolo;  Sumio Takatsu, Pão da Vida, Ano C).

  

----------------------------------------------------------------- 

                                                             Derval Dasilio

                                                   Pastor da Igreja Presbiteriana Unida    

                                                               

Blog: Derval Dasilio - Escritos http://derv.wordpress.com/ 

                                                  

 
 
 
 

         

Visite o site:
    
www.paoquentediario.com.br     
Blog:
http://derv.wordpress.com/

                        

    Coordenador:Ricardo Cesar Vasconcelos

                              Designer Eveline

                    Respeite os direitos autorais