DEUS E A REFORMA
PROTESTANTE
Durante longos anos, a
espiritualidade reformada teve como objetivo a exclusiva soberania
de Deus, idéia de João Calvino, dos principais reformadores do
século XVI, sobre a absoluta transcendência, e total alteridade de
Deus. Isto é: Deus é completamente diferente do homem. Os
reformadores Lutero e Calvino combatiam, dentro da Igreja, a
idéia vigente de um deus que só podia ser alcançado por
intermediação do homem e da Igreja. Assim, o Papa estaria no topo da
hierarquia da mesma, emanando autoridade de cima para baixo, até o
pároco local; o Papa era o soberano da Igreja e do povo cristão,
falava como igreja católica universal, estendendo sua palavra e
autoridade magisterial aos sacerdotes. Zwínglio, Lutero, Bucer,
Melanchton, entre outros, eram sacerdotes ordenados. Ambos,
papa e sacerdotes, reteriam uma credencial definitiva:
eram “Christos in persona”. Portanto, no exercício dos
sacramentos, batizando, celebrando o culto e a Ceia (eucaristia),
ouvindo confissões,
absolvendo, intercedendo, faziam com que Deus
estivesse presente em suas pessoas, diante do povo. Não eram mais
homens e igreja pecadores... eram procuradores com plenos poderes em
questões de fé e de culto.
Assim, os reformadores,
especialmente através de Calvino, refutam essa idéia do
aprisionamento de Deus a uma representatividade religiosa. Podemos entender, então, que
Deus é Outro, totalmente, inconfundivelmente, diferente do homem. Um
século depois, o protestantismo abandonava as confissões em que se
firmava, e aparecia o racionalismo dogmático (cf.Confissão de
Westminster), e já se instalava a
escolástica calvinista. O pensador Voltaire, quando
debochava dos esforços para se provar a existência de Deus, dizia:
“Se é verdade que o homem é imagem de Deus, também é verdade que
Deus é imagem do homem...”.
O pietismo evangélico, iniciante
nesse momento e dominante no Iluminismo, século das
"luzes" da razão, com afirmações claras do "teísmo" do
filósofo crente John Locke, por exemplo, e dos demais pensadores
cristãos, firmados na autonomia para se pensar sobre Deus (que
gerou modos individualistas para a afirmação teísta: "Deus é o 'meu'
deus"; Locke dizia que existiam duas pragas intoleráveis: o católico
dogmático, doutrinário, e o agnóstico que se negava a afirmar
sobre Deus, enquanto se esquecia de considerar o neo-escolasticismo
calvinista e luterano emergente).
O pietismo, por sua vez,
tornou Deus um deus pessoal, particular, individual. Faz possível
utilizar-se a figura de Deus como um deus-quebra-galho, no culto e
nas orações (Lc 18,9-14: o fariseu e o publicano ilustram a
hipocrisia do momento racionalista protestante, unido ao Iluminismo
filosófico que incentivava o individualismo e a autonomia para se
cuidar da revelação de Deus), desse modo, o crente pode reclamar
reconhecimento de santidade pessoal, ou se pode exigir santidade do
crente, enquanto o pietismo reage, em busca da religião sentimental-
emocional, religião do coração, como movimento religioso.
Reagia ao racionalismo teológico dogmático de então, preocupado
em provar a existência de Deus enquanto, também apoiado na autonomia
e no individualismo.
O deus neopentecostal recente
acompanha esse conceito pietista evangélico, numa linha mais
prática: ali, Deus é desafiado a todo momento em responder às
orações, aos sacrifícios espirituais e materiais, em favor de quem
se disponha a comprar bênçãos e graças ou subir no status
religioso. A razão religiosa, autonomia da sabedoria humana, induz a
afirmar que Deus é vaidoso, comerciante e, além de tudo, necessita
ser bajulado com presentes e agrados, para abençoar e agraciar o
fiel com bens materiais, físicos, e agrados espirituais. E
finalmente dar a paga pela graça da ascensão e status social.
Dentro da igreja ou além dela.
E no entanto cristãos
protestantes, a partir da herança deixada pelos
reformadores nunca se cansam de afirmar a gratuidade divina, e
de proclamar a soberania de Deus, no seu modo de ser e no modo de
agir: não é possível manipular Deus, fazê-lo vender graça e
misericórdia. No ser de
Deus, analisando-o com boa compreensão, encontramos uma distância
infinita entre Deus e as criaturas. Deus é tudo que a criatura não
é. No agir, Deus tudo cria, independentemente, por prazer de criar,
razão pela qual não há nem cooperação nem liberdade de ação na
criatura para impor necessidades a Deus. Deus reconcilia homens e
mulheres consigo vindo até eles, e não o contrário. É Deus que vem
ao encontro deles. Para salvá-los, inclusive da presunção do
conhecimento de Deus revelado naturalmente, como queriam Kant,
Locke, Hegel e depois Shleirmacher, liberal, autonomista e
pietista. Foi Karl Barth quem os desmascarou: o deus
filosófico e o deus da religião não falam de Deus, aquele da fé
apostólica transmitida desde Israel.
OS REFORMADORES ENSINARAM QUE SÓ A
GRAÇA PODE PERDOAR A GANÂNCIA E TODO ESFORÇO PARA SUBJUGAR O DEUS
REVELADO
Os reformadores disseram: só
Jesus Cristo, por si mesmo, nos justifica. Isto é: só Jesus pode
dizer: "Pai, perdoa-os porque não sabem o que fazem...". O que nos ensinaram os
reformadores protestantes, então? Com simplicidade: Deus não
é um ídolo terreno projetado materialmente em papel, pedra, ouro ou
qualquer outro material. Nem é um projeto político, religioso,
espiritual, ou qualquer outra coisa. A oração do verdadeiro crente é
feita a um Deus totalmente Outro, diferente de nós, transcendente,
imutável, infinito, inominável, indescreitível, como dizia Karl
Barth.
Deus que conhece o homem, porque
também se humanizou em Jesus Cristo, e por isso não se impressiona
com aqueles que oram repetindo elogios inúteis, a Deus, enquanto
clamam por santidade, nem com aqueles que dão esmolas para serem
visto pelos homens, na busca de elevar seu status
espiritual. Deus não se deixa comprar pela falsa confissão:
“Senhor, Senhor...obrigado porque não sou como os pecadores”;
não se curva diante das reivindicações e exigências exorcistas
daqueles que, acreditando-se instrumentos divinos, nunca aprenderam
a orar como os que vivem a vida de fé em esperança de
transformações, reconhecendo os pecados que são os nossos, inclusive
a presunção e concepção humana dominadas pelas ambições da
razão, da inteligência, do conhecimento, da espiritualidade e do
esforço humano, de
subir até Deus com seus esforços de santidade e avivamento
espiritual.
São tentações que afastam da comunhão
com o Pai, enquanto nos ensinam a prática do “toma-lá-dá-cá”. Com
Deus isso não funciona. A gratuidade de Deus é inexplicável, sem
exigência de retribuição. É isso que aprendemos de Lutero e Calvino,
quanto à gratuidade de Deus: “O justo viverá pela fé”! Tão somente
pela fé. Mas que fé? Certamente a fé de que seremos
salvos. E salvos de quê?, por quê?, para quê?
As respostas poderiam ser estas: a fé
nos salva de nós mesmos, da ganância, do egoísmo, e de todas as
interferências e esforços para subjugar Deus às nossas necessidades
pessoais, oportunistas que somos, prontos a pagar pela Graça, ou
dispostos a exigir retribuição pela dedicação e sempre
dispostos a recorrer a um deus-quebra-galho, enquanto nos esquivamos
das responsabilidades e do testemunho que devemos dar na vida de fé.
A fé tem segredos, abismos e perigos de desvios. Certamente,
com fé, orar é o gemido para que o Senhor nos livre do mal.
Inclusive da presunção e arrogância. Antes, porém, devemos orar com
fé, para termos a fé que o Senhor nos ensinou, quando nos dirigimos
ao Pai: "seja feita a tua vontade, assim na terra como no
céu".
A RECOMPENSA DA SALVAÇÃO É A PAZ
INDESCRITÍVEL DA COMUNHÃO COM
DEUS
Lutero dizia: "Por melhor que
seja a nossa vida (aos olhos dos homens), nada nos autoriza a
reivindicar recompensa de tua parte. Na tua presença não há quem
possa gloriar-se de qualquer mérito”. Deparamo-nos sempre com o
“diante de ti”, expressão que, sem negar diferenças relativas entre
os valores humanos, indica a medida absoluta aplicável nas relações
entre os homens e o Mestre
soberano.
O efeito do contato com Deus,
simultâneo e complementar: trata de uma paz indescritível. A
gratidão traz paz!, acrescenta Lutero: na comunhão com Deus o
crente sente-se envolto pela misericórdia, pela bondade infinita,
pelo amor incompreensível (que não merecemos) de Deus. O
crente se reconhece objeto da graça. Apesar de indigno, é
tratado como o filho pródigo na casa de seu pai que, conquanto
conheça muito bem a miséria de seu filho, não o rejeita, antes o
recebe para dentro de casa e cuida de sua recuperação (Lc 15,11-32).
Todos somos filhos e filhas pródigos, que esbanjam as riquezas da
vida de fé. Jogando seus bens fora, homens e mulheres prostituem-se,
corrompem-se, até perderem tudo. Os bens da vida de fé, por gratidão
a Deus, são os valores dos nossos relacionamentos, a
transmissão da fé, no
cuidado com o outro e a outra, na luta por dignidade humana,
por garantias de justiça em todos os níveis: na igreja, na política,
nas relações sociais, comerciais, e tudo que cabe à dignidade
humana no reconhecimento da salvação gratuita originada em Jesus
Cristo.
O crente, portanto, vê-se não só
aquinhoado de dádivas, mas também inteiramente nas mãos de Deus,
apesar de ser o que é: totalmente Outro. Dessa certeza nasce a
grande esperança de que Deus, sem bajulação, completará, em sua
onipotência, a obra que ele mesmo iniciou: todos os dias, precisamos
ser salvos de nós mesmos, de nossa presunção, do egoísmo, da
ganância, do esforço para rebaixar o Deus de Israel um
"deus-quebra-galho" a nosso serviço. “...Seja feita a tua
vontade, na terra como no céu”. Oremos a oração que Jesus ensinou. E
também demos graças aos reformadores, os quais, dentro do princípio
protestante, nos ensinaram sobre a vida de fé comprometida com a
comunidade do povo que Deus elegeu e
ama.