Dia da Reforma Protestante – Ano “C”

Isaías 62,6-7;10-12 - Javé te desposará como a uma virgem 

Romanos 3,19-28 - Obra alguma nos justifica diante Dele!

Lucas 18,9-14 - Tem pidade de mim, pecador!

 

                              DEUS E A REFORMA PROTESTANTE

 

 

Durante longos anos, a espiritualidade reformada teve como objetivo a exclusiva soberania de Deus, idéia de João Calvino, dos principais reformadores do século XVI, sobre a absoluta transcendência, e total alteridade de Deus. Isto é: Deus é completamente diferente do homem. Os reformadores Lutero e Calvino combatiam, dentro da Igreja, a idéia vigente de um deus que só podia ser alcançado por intermediação do homem e da Igreja. Assim, o Papa estaria no topo da hierarquia da mesma, emanando autoridade de cima para baixo, até o pároco local; o Papa era o soberano da Igreja e do povo cristão, falava como igreja católica universal, estendendo sua palavra e autoridade magisterial aos sacerdotes. Zwínglio, Lutero, Bucer, Melanchton, entre outros, eram sacerdotes ordenados. Ambos, papa e sacerdotes,  reteriam uma credencial definitiva: eram “Christos in persona”. Portanto, no exercício dos sacramentos, batizando, celebrando o culto e a Ceia (eucaristia), ouvindo confissões,  absolvendo, intercedendo,  faziam com que Deus estivesse presente em suas pessoas, diante do povo. Não eram mais homens e igreja pecadores... eram procuradores com plenos poderes em questões de fé e de culto.

 

Assim, os reformadores, especialmente através de Calvino, refutam essa idéia do aprisionamento de Deus a uma representatividade religiosa. Podemos entender, então, que Deus é Outro, totalmente, inconfundivelmente, diferente do homem. Um século depois, o protestantismo abandonava as confissões em que se firmava, e aparecia o racionalismo dogmático (cf.Confissão de Westminster), e já se instalava a escolástica calvinista. O pensador Voltaire, quando debochava dos esforços para se provar a existência de Deus, dizia: “Se é verdade que o homem é imagem de Deus, também é verdade que Deus é imagem do homem...”. 

 

O pietismo evangélico, iniciante nesse momento e dominante no Iluminismo, século das "luzes" da razão, com afirmações claras do "teísmo" do filósofo crente John Locke, por exemplo, e dos demais pensadores cristãos, firmados na autonomia para se pensar sobre Deus (que gerou modos individualistas para a afirmação teísta: "Deus é o 'meu' deus"; Locke dizia que existiam duas pragas intoleráveis: o católico dogmático, doutrinário, e o agnóstico que se negava a afirmar sobre Deus, enquanto se esquecia de considerar o neo-escolasticismo calvinista e luterano emergente).

 

O pietismo, por sua vez, tornou Deus um deus pessoal, particular, individual. Faz possível utilizar-se a figura de Deus como um deus-quebra-galho, no culto e nas orações (Lc 18,9-14: o fariseu e o publicano ilustram a hipocrisia do momento racionalista protestante, unido ao Iluminismo filosófico que incentivava o individualismo e a autonomia para se cuidar da revelação de Deus), desse modo, o crente pode reclamar reconhecimento de santidade pessoal, ou se pode exigir santidade do crente, enquanto o pietismo reage, em busca da religião sentimental- emocional, religião do coração, como movimento religioso. Reagia ao racionalismo teológico dogmático de então, preocupado em provar a existência de Deus enquanto, também apoiado na autonomia e no individualismo.

 

O deus neopentecostal recente acompanha esse conceito pietista evangélico, numa linha mais prática: ali, Deus é desafiado a todo momento em responder às orações, aos sacrifícios espirituais e materiais, em favor de quem se disponha a comprar bênçãos e graças ou subir no status religioso. A razão religiosa, autonomia da sabedoria humana, induz a afirmar que Deus é vaidoso, comerciante e, além de tudo, necessita ser bajulado com presentes e agrados, para abençoar e agraciar o fiel com bens materiais, físicos, e agrados espirituais. E finalmente dar a paga pela graça da ascensão e status social. Dentro da igreja ou além dela.

  

E no entanto cristãos protestantes, a partir da herança deixada pelos reformadores nunca se cansam de afirmar a gratuidade divina, e de proclamar a soberania de Deus, no seu modo de ser e no modo de agir: não é possível manipular Deus, fazê-lo vender graça e misericórdia.  No ser de Deus, analisando-o com boa compreensão, encontramos uma distância infinita entre Deus e as criaturas. Deus é tudo que a criatura não é. No agir, Deus tudo cria, independentemente, por prazer de criar, razão pela qual não há nem cooperação nem liberdade de ação na criatura para impor necessidades a Deus. Deus reconcilia homens e mulheres consigo vindo até eles, e não o contrário. É Deus que vem ao encontro deles. Para salvá-los, inclusive da presunção do conhecimento de Deus revelado naturalmente, como queriam Kant, Locke, Hegel e depois Shleirmacher, liberal, autonomista e pietista.  Foi Karl Barth quem os desmascarou: o deus filosófico e o deus da religião não falam de Deus, aquele da fé apostólica transmitida desde Israel.

 

OS REFORMADORES ENSINARAM QUE SÓ A GRAÇA PODE PERDOAR A GANÂNCIA E TODO ESFORÇO PARA SUBJUGAR O DEUS REVELADO

 

Os reformadores disseram: só Jesus Cristo, por si mesmo, nos justifica. Isto é: só Jesus pode dizer: "Pai, perdoa-os porque não sabem o que fazem...".  O que nos ensinaram os reformadores protestantes, então? Com simplicidade: Deus não é um ídolo terreno projetado materialmente em papel, pedra, ouro ou qualquer outro material. Nem é um projeto político, religioso, espiritual, ou qualquer outra coisa. A oração do verdadeiro crente é feita a um Deus totalmente Outro, diferente de nós, transcendente, imutável, infinito, inominável, indescreitível, como dizia Karl Barth.

 

Deus que conhece o homem, porque também se humanizou em Jesus Cristo, e por isso não se impressiona com aqueles que oram repetindo elogios inúteis, a Deus, enquanto clamam por santidade, nem com aqueles que dão esmolas para serem visto pelos homens, na busca de elevar seu status espiritual. Deus não se deixa comprar pela falsa confissão: “Senhor, Senhor...obrigado porque não sou como os pecadores”; não se curva diante das reivindicações e exigências exorcistas daqueles que, acreditando-se instrumentos divinos, nunca aprenderam a orar como os que vivem a vida de fé em esperança de transformações, reconhecendo os pecados que são os nossos, inclusive a presunção e concepção humana dominadas pelas ambições da razão, da inteligência, do conhecimento, da espiritualidade e do esforço  humano, de subir até Deus com seus esforços de santidade e avivamento espiritual.

 

São tentações que afastam da comunhão com o Pai, enquanto nos ensinam a prática do “toma-lá-dá-cá”. Com Deus isso não funciona. A gratuidade de Deus é inexplicável, sem exigência de retribuição. É isso que aprendemos de Lutero e Calvino, quanto à gratuidade de Deus: “O justo viverá pela fé”! Tão somente pela fé.  Mas que fé? Certamente a fé de que seremos salvos.  E salvos de quê?, por quê?,  para quê?

 

As respostas poderiam ser estas: a fé nos salva de nós mesmos, da ganância, do egoísmo, e de todas as interferências e esforços para subjugar Deus às nossas necessidades pessoais, oportunistas que somos, prontos a pagar pela Graça, ou dispostos a exigir retribuição pela dedicação e sempre dispostos a recorrer a um deus-quebra-galho, enquanto nos esquivamos das responsabilidades e do testemunho que devemos dar na vida de fé. A fé tem segredos, abismos e perigos de desvios. Certamente,  com fé, orar é o gemido para que o Senhor nos livre do mal. Inclusive da presunção e arrogância. Antes, porém, devemos orar com fé, para termos a fé que o Senhor nos ensinou, quando nos dirigimos ao Pai: "seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu".

 

A RECOMPENSA DA SALVAÇÃO É A PAZ INDESCRITÍVEL DA COMUNHÃO COM DEUS

 

Lutero dizia: "Por melhor que seja a nossa vida (aos olhos dos homens), nada nos autoriza a reivindicar recompensa de tua parte. Na tua presença não há quem possa gloriar-se de qualquer mérito”. Deparamo-nos sempre com o “diante de ti”, expressão que, sem negar diferenças relativas entre os valores humanos, indica a medida absoluta aplicável nas relações entre os homens e o Mestre soberano.

 

O efeito do contato com Deus, simultâneo e complementar: trata de uma paz indescritível. A gratidão traz paz!, acrescenta Lutero: na comunhão com Deus o crente sente-se envolto pela misericórdia, pela bondade infinita, pelo amor incompreensível (que não merecemos) de Deus. O crente se reconhece objeto da graça. Apesar de indigno, é tratado como o filho pródigo na casa de seu pai que, conquanto conheça muito bem a miséria de seu filho, não o rejeita, antes o recebe para dentro de casa e cuida de sua recuperação (Lc 15,11-32). Todos somos filhos e filhas pródigos, que esbanjam as riquezas da vida de fé. Jogando seus bens fora, homens e mulheres prostituem-se, corrompem-se, até perderem tudo. Os bens da vida de fé, por gratidão a Deus, são os valores dos nossos relacionamentos, a transmissão da fé, no  cuidado com o outro e a outra, na luta por dignidade humana, por garantias de justiça em todos os níveis: na igreja, na política, nas relações sociais, comerciais,  e tudo que cabe à dignidade humana no reconhecimento da salvação gratuita originada em Jesus Cristo.

 

O crente, portanto, vê-se não só aquinhoado de dádivas, mas também inteiramente nas mãos de Deus, apesar de ser o que é: totalmente Outro. Dessa certeza nasce a grande esperança de que Deus, sem bajulação, completará, em sua onipotência, a obra que ele mesmo iniciou: todos os dias, precisamos ser salvos de nós mesmos, de nossa presunção, do egoísmo, da ganância, do esforço para rebaixar o Deus de Israel um "deus-quebra-galho" a nosso serviço.  “...Seja feita a tua vontade, na terra como no céu”. Oremos a oração que Jesus ensinou. E também demos graças aos reformadores, os quais, dentro do princípio protestante, nos ensinaram sobre a vida de fé comprometida com a comunidade do povo que Deus elegeu e ama.

 

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                                                  Derval Dasilio

                                 Pastor da Igreja Presbiteriana Unida

                                              

Comentário ao Lecionário

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