30o. Domingo do Tempo Comum
 
                                   Ano "C"      

Joel 2,26-32 – Deus responde à oração de quem se envergonha...

Salmo 65 –  Nossas faltas são muito mais que nossas justificativas

2Timóteo 4,6-8 –  De pouco servem sacrifícios espirituais ou corporais...

Lucas 18,9-14 –  É verdadeira a oração do pecador contrito

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                         É EFICAZ A ORAÇÃO A UM DEUS-QUEBRA-O-GALHO?

 

Durante longos anos, a teologia de Karl Barth teve como objetivo a soberania de Deus, idéia de Calvino, dos principais reformadores do século XVI, sobre a absoluta transcendência, e total alteridade de Deus. O liberalismo teológico, séc.XIX, degradara Deus a um ser qualquer, que a razão podia manipular facilmente. O pietismo tornou-o um deus pessoal, particular, individual. Faz possível utilizar a figura de Deus como um deus-quebra-galho, deus-ex-machina. O deus neopentecostal recente acompanha esse conceito: ali, Deus é desafiado a todo momento a responder às orações e sacrifícios espirituais e materiais. E Karl Barth nunca se cansa de proclamar a soberania de Deus, no ser e no agir. No ser, há uma distância infinita entre Deus e as criaturas, Ele é tudo que a criatura não é. No agir, Deus tudo cria, independentemente, por prazer de criar, razão pela qual não há nem cooperação nem liberdade de ação na criatura para impor necessidades a Deus. Deus reconcilia o homem consigo vindo até ele, e não o contrário.

 

Precisamos, também, lembrar que o Reino é de Deus e não do homem. O esforço humano na direção de sua própria justificação, por suas obras, quais sejam, não significam nada, na vida de fé, finalmente. Escreveu, Barth, certa vez: “Deus é Deus, sendo totalmente diverso de qualquer realidade humana, inclusive diverso da cultura e da religião do homem”. Expressões religiosas não confirmam qualquer semelhança humana com Deus, porque Deus não cultua a si mesmo através de nós. Nem louvor, nem adoração, nem oração, nos justificam. Bajulação não nos justifica. Disse também, K.Barth: “Nunca deixes de afirmar: Deus é Deus! Mas não te contentes em pregá-lo, aprende a afirmar que ‘Deus é Deus em si mesmo, por si mesmo, com precisão teológica’. Ou seja, com toda a exultação que acompanha essa proclamação”.

 

Com base no conceito de Deus como totalmente outro, diverso da concepção humana, Barth constrói uma teologia inteiramente dominada pela preocupação de deter as ambições da razão, da inteligência, do conhecimento, da espiritualidade humana, de subir até Deus.  Porém, sua teologia é cristocêntrica: Jesus Cristo é a única Palavra de Deus, enquanto homem e como homem, humanizado. O reino da vida e da liberdade está na liberdade diante de Deus em Jesus Cristo. O homem, quando ora, os danos da natureza humana refletem o fato de origem, porque o homem pecou e peca, trai e abandona a Deus, separa-se do projeto de Deus, desconhece as intenções divinas. 

 

Assim, a reconciliação possível, com Deus, só pode ocorrer na confissão autêntica que reconhece sua diferença de Deus. Mas não como uma abstração religiosa ou teológica, e sim como uma dádiva que recebemos de Deus pela Palavra suficiente de Cristo, único que pode conduzir à reconciliação, que salva e liberta toda criatura. Não é uma recompensa ou uma medalha de “honra ao mérito” que ganhamos porque cumprimos à risca certas determinações que fazem parte da dedicação do seguidor de Cristo. Aliás, o viver cristão é carregar a cruz de cada dia (Mt 16,21-27: “...quem quiser me seguir, tome a sua cruz e siga-me”). É fácil?

 

Lucas 18,9-14 – Comenta Carlos E.Calvani: Estamos diante de outra parábola (Nota: O fariseu e o publicano...). O cenário é o Templo. Segundo a maioria dos comentaristas bíblicos, não se trata de um momento de devoção particular, mas de adoração coletiva. Todos os dias havia sacrifícios no Templo pela manhã e à tarde, com grande número de participantes que depois iam para seus afazeres diários ou para seu descanso noturno. Os personagens também são representativos: um fariseu (membro de um grupo religioso que zelava muito pelo rigoroso cumprimento das leis) e um publicano (colaborador do Império Romano, classe freqüentemente acusada de corrupção e traição aos interesses nacionais).

 

O fariseu, em um gesto de superioridade religiosa, coloca-se à parte dos demais adoradores. É importante destacar um fato aqui – tudo o que o fariseu diz a respeito de si mesmo na oração era verdade. Um fariseu certamente não mentiria perante Deus em oração. Fariseus realmente praticavam aqueles exercícios devocionais mencionados e eram muito fiéis na prática do dízimo. Isso lhes servia como garantia de auto-justificação. E conforme a introdução da parábola, esse é o tema central: a justiça pessoal (ou a santidade) perante Deus. As frases do fariseu, porém, muito mais do que uma oração, serviam como um admoestação a outros. Sua “oração”, afinal de contas, era um ato de auto-propaganda, de ensoberbecimento. Não há nenhuma palavra de gratidão ou nenhum reconhecimento de culpa, em sua oração.

 

Já o publicano reconhecia o quão afastado estava dos padrões religiosos. Ele sobrevivia das taxas abusivas cobradas dos pobres e colaborava com o Império opressor. Mas há algo que faz diferença: ele estava quebrantado. Queria reconciliar-se com Deus, e por isso clama para que aquele sacrifício fosse propício a ele, que o sacrifício do altar lhe atingisse, lavasse suas culpas e seus erros. Conforme Jesus, os dois homens voltaram do templo diferentes: o fariseu, do mesmo modo, feliz na auto-complacência de seus deveres cumpridos. Feliz, mas não justificado. O publicano, sim, reconhecendo todas as suas limitações, desceu justificado, porque confiou unicamente no sacrifício expiatório.

 

A diferença mais significativa inserida por Jesus nessa parábola reside no fato de que, na concepção farisaica, Deus deve justificar o que já é “justo”, o que pratica as obras religiosas recomendadas. Mas Jesus ensina, ao contrário: Deus não justifica o justo, e sim o pecador.

 

A justiça pessoal é uma dádiva que recebemos de Deus pelo sacrifício expiatório completo e suficiente de Cristo na cruz. Não é uma recompensa ou uma medalha de “honra ao mérito” que ganhamos porque cumprimos à risca certas determinações religiosas (Calvani, C.Eduardo, Pão da Vida, CEA, 2006).

 

Se os pecados são nossos, as tentações também o são. Carlos Queiroz (Ser é o bastante, Ultimato, 2002), informa: Tudo indica então que as tentações de prestígio, fama, ter e poder, e tantas outras, são resultado das interações humanas, são decorrentes de uma conjuntura, de um emaranhado de sistemas e convivências que todos nós fomos responsáveis em construir. De maneira que, se alguém é tentado, é tentado também por uma ambiência da qual toda a comunidade é responsável. Lutero disse: Simul justus et peccator, o homem é, se justificado por Cristo, ao mesmo tempo, justo e pecador. Feita essa constatação, o homem deve remover qualquer dúvida de que se salvará por si mesmo. Se acontecer de ele pecar, e temer pela salvação, deve se recordar de que Jesus Cristo já remiu de antemão todos os nossos pecados.

 

Há modos e sistemas de pensar escravizantes. Portanto, Jesus nos ensina a orar pelas tentações que são nossas, e não dele: “...e não nos deixes cair em tentação...” (Lc 11,2-4). Nesses termos, orar é a intercessão íntima, profunda, comprometida com a superação da crise de tentação da comunidade em recorer a um deus-quebra-galho. A comunidade tem seus segredos, abismos e perigos.  Orar é o gemido para que o Senhor nos livre do mal, porque se este ferir um membro do corpo, todos os outros membros sofrerão com ele. Porventura sofremos com a dor da mulher excluída, violentada; da criança sem-teto, sem-terra, do índio roubado e exterminado? Do irmão ou da irmã que não conseguiu resistir à tentação, quando fomos instrumentos de insinuação e sedução? Por que não tomamos conhecimento das doenças sociais que atingem muitos, consumismo compulsivo, alcoolismo, sexaholismo, jogo, drogadição leve ou pesada, e oramos quebrantados pelas nossas culpas e comprometimentos?

 

É essencial reconhecer que o Deus a quem oramos é “nosso”, e nunca o “meu Deus pessoal”, que me faz ignorar os outros e as outras. Eles têm acesso a Deus como eu. Deus é Pai, tem filhos e filhas, mas é, acima de tudo, Pai que está no céu. Na linguagem de Mateus, o céu é tudo que não temos: plenitude de bem-estar (social, político, religioso), dignidade. O céu é um convite aos homens e mulheres para completarem a sua experiência de Deus. Viver com Deus, no céu, viver a vida em plenitude, esgotando-a até a última gota.

 

Deus não é um ídolo terreno projetado materialmente em pedra, ouro ou qualquer outro material. Nem é um projeto político, religioso, espiritual, ou qualquer outra coisa, diria Paul Tillich (Coragem de Ser, Sinodal). A oração é feita a um Deus totalmente Outro, diferente de nós, como dizia Karl Barth, transcendente, imutável, infinito, inominável,  que conhece, porque também se humanizou em Jesus Cristo, e por isso não se impressiona com aqueles que oram repetindo palavras, nem com aqueles que dão esmolas para serem visto pelos homens. Não se deixa comprar pela falsa confissão: “Senhor, Senhor...”; não se curva diante das reivindicações e exigências exorcistas daqueles que,  achando-se com a “autoridade” de quem profetiza, “expelindo demônios ou fazendo milagres”, acreditando-se instrumentos divinos, nunca aprenderam a orar como os que vivem a vida de fé, reconhecendo os pecados que são os nossos, inclusive a presunção e concepção humana, dominada pelas ambições da razão, da inteligência, do conhecimento, da espiritualidade humana, de subir até Deus. São tentações que afastam da comunhão com o Pai.

 

Deus não é manipulável, um pai que se possa chantagear com falsa devoção, ou que aceita pressões para conceder prosperidade com sacrifícios, ou que venda sua misericórdia (xáris, hesed) nos super-mercados religiosos, mega-templos, igrejas-com-propósito. Não é um deus ex machina, deus-quebra-galho, como se divulga tanto em nossos cultos e estudos dominicais. Deus é totalmente Outro, independente, indescritível, suficiente em si mesmo. Sacrifícios não o compram, nem mesmo o culto colorido, emocional, gospel. Deus é inconfundível, difere de quaisquer dos ídolos vendáveis de nosso tempo.

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                                                             Derval Dasilio

                                                   Pastor da Igreja Presbiteriana Unida    

                                                               

Blog: Derval Dasilio - Escritos http://derv.wordpress.com/