2o.DOMINGO DA QUARESMA – ANO "C"
Gênesis 15, 5-12.17-18
– Deus faz aliança com
Abraão, o crente.
SalmoSl 27 – O Senhor é
minha luz e minha salvação, a quem
temerei?
Filipenses 3, 20 – 4, 1
- Cristo nos assemelhará a seu corpo
glorioso.
Lucas 9, 28b-36 –
Mestre, é bom estarmos aqui.
O texto de Gênesis
pertence a uma unidade que tem duas partes muito distintas: a primeira,
vv. 1-6, sobre a promessa de um filho e de descendência; a segunda, vv.
7-21, sobre a promessa da terra. O texto apresentado hoje pela Liturgia dá
ensejo a uma certa confusão já que nele encontramos a conclusão da
primeira, e parte da segunda. Muitos estudiosos se têm perguntado pela
antigüidade do texto, hoje parece concordarem que, embora muito material
seja antigo, há também elementos mais próximos (como por exemplo
semelhanças com o Segundo Isaías). Inclusive, os primeiros defensores da
teoria sobre as fontes do Pentateuco afirmavam que descobrir as fontes
deste texto era muito difícil, senão
impossível.
A primeira parte (vv.
1-6) nos mostra a promessa de Deus (v. 1), a objeção de Abraão (vv. 2-3),
a resposta de Deus em forma de sinal (vv. 4-5: v. 4, negação à objeção; v.
5, sinal no céu), aceitação de Abraão (v. 6). Como vemos, a Liturgia
somente incorpora o sinal e a aceitação
final.
A segunda parte (vv.
7-21) apresenta uma nova promessa (v. 7), objeção (v. 8), sinal
apresentado como um voto (vv. 9-17: v. 9: apresentação; vv. 10-11, vv.
12-16, parêntese histórico; v. 17, realização), confirmação da aliança
(vv. 18-21: v. 18, apresentação; v. 19-21, explicação histórica). A
Liturgia omitiu os textos com referência histórica, ficando só como
promessa genérica.
Certamente, os textos
históricos omitidos ajudam a mostrar como Israel viu sua posse da terra e
inclusive para considerá-lo como um texto construído em circunstâncias
provavelmente nas quais parecia que a terra podia estar a ponto de
perder-se, ou também já perdida e pretendendo alimentar a esperança.
O paralelo entre 15, 7 e
do Levítico 25, 38, mudando Egito por “Ur dos Caldeus”, certamente torna
possível esta última interpretação: não se deve esquecer que os Caldeus
eram os habitantes da Babilônia nos tempos do Exílio; encontramo-los pela
primeira vez no séc. XIX a.C. ao sul da Babilônia, vizinhos dos arameus.
São vítimas do apogeu assírio e os enfrentam, logrando finalmente o trono
babilônico na época da queda de Jerusalém (587 a.C.); sua influência
parece ter sobrevivido à queda da Babilônia, ainda durante o período persa
e logo depois, grego. Mas, como é evidente, certamente estamos muito longe
da época de Abraão.
É evidente que se refere
aos tempos do redator e não aos tempos do que é narrado. Parece, então,
que a velha fórmula do Deus que liberta do Egito é utilizada para fazer
referência ao Deus que liberta dos Caldeus, e o povo – descendente de
Abraão – é convidado a crer que a antiga promessa continua viva e vigente;
os paralelos com o discípulo de Isaías confirmam esta
leitura.
A lista de animais
parece ser uma apresentação de todos os que podiam ser oferecidos em
sacrifício. Contudo, temos que ter presente um texto paralelo que se
encontra em Jeremias 34, 18-19 (cf. v. 13), em que Israel passa pelo meio
de um bezerro partido em dois, mas como não foi fiel à aliança que
contraiu nesse gesto, será repelido por Deus. Neste caso, quem passa pelo
meio dos animais cortados (e as aves não cortadas) é o próprio Javé; mas
como Deus não pode ser visto, isso acontece entre trevas, e o que se pode
observar são os sinais: o fogo, a fumaça. Lá, é Deus quem oferece a
assinatura, a “firma” (como quem assina um contrato) uma espécie de
garantia de fidelidade de que Abraão possuirá a terra.
Não é de todo correta a
tradução de berit como aliança neste caso (v. 18) embora seja habitual, o
sentido parece mais popular, semelhante a um contrato, a uma solene
confirmação (por isso “assinatura” pode ser mais compreensível). Deus se
compromete com o que ele havia prometido e em seguida como que assina o
contrato, ao passar por meio dos animais na forma de
fogo.
O Salmo que nos é
proposto para resposta é um Salmo de confiança: A quem temerei? Como,
porém, desde o v. 7 o tom parece mudar, cogitou-se que são dois salmos,
unidos artificialmente, coisa que não parece provável. Há elementos que se
repetem nas duas partes: “minha salvação” (vv. 1 e 9), “contemplar a
beleza do Senhor” é paralelo de “gozar a felicidade do Senhor” (vv. 4 e
13), os adversários se “levantam contra” (vv. 3 e 12). A confiança dá
unidade a todo o texto. Toda a primeira parte recorre a imagens tiradas da
guerra para caracterizar os adversários; o orante está cercado e busca
proteção na elevação do Templo; contudo, é necessário ter clareza de que a
imagem bélica não significa que o conflito também o seja; a maneira
individual da oração o confirma.
A segunda parte parece
mais insegura: são freqüentes os imperativos e os pedidos: não me
escondas, não me repilas, não me abandones, não me entregues, escuta-me,
tem piedade de mim, responde-me, encaminha-me, guia-me. Parece que toda a
confiança manifestada na primeira parte se encontra aqui em crise. É
freqüente nas lamentações que, logo após manifestar-se tudo o que angustia
e é motivo da queixa, termine-se com uma expressão de confiança, neste
caso a ordem foi invertida.
A imagem bélica cede seu
lugar a outra, familiar: ainda que meu pai e minha mãe me abandonem (v.
10; cf. Isaías 49, 15) e a uma, judicial: levantam-se contra mim,
testemunhas falsas, acusadores violentos (v. 12); em especial, esta última
parece mais provavelmente a causa da angústia do orante. O v. 14 com novos
imperativos volta à confiança, esta sai vitoriosa. Alguns elementos fazem
pensar que o orante é alguém do templo (sacerdote ou levita) porque só ele
vive no templo, e alguns parágrafos parecem ser utilizados na Liturgia,
mas provavelmente também isso seja metafórico e o salmo seria também
próprio da oração pessoal.
A liturgia somente nos
propõe os versículos 1. 7-9 e 13-14 com o que se evita toda a imagem
bélica da primeira parte, ressaltando-se somente o aspecto de segurança e
confiança. Os vv. 7-9 parecem um diálogo entre o orante e Javé (busquem
meu rosto). Os temores expressos em 7-9 são substituídos confiadamente por
um “posto que”, já que confiei, “espero alegrar-me”. A confiança tem a
última palavra.
A Carta de Paulo ao
Filipenses tem uma série de pontos que mereceriam ser discutidos.
Assinalamos, contudo, que 3, 1 – 4, 1 parece ser uma unidade (ou talvez
até 4, 3 pela repetição do convite a ficarem alegres.). Na maior parte do
capítulo 3, Paulo alerta a comunidade contra os “cães”, “maus operários”,
“falsos circuncisos”, tudo parecendo ser uma ironia contra os grupos
judaizantes, quer dizer aqueles que pretendiam que os cristãos, para serem
verdadeiramente salvos, deveriam primeiro aceitar a circuncisão.
O tema é complicado:
quem seriam eles? Discute-se, mas parece terem sido grupos que exigiam que
os cristãos vindos do mundo não-judaico se tornassem primeiro judeus
(mediante a circuncisão) para poder gozar logo dos benefícios da salvação.
Podia ser para evitar conflitos: o judaísmo é uma religião lícita, as
novidades não são bem-vistas por alguns gregos; pode ser por fechamento
ante a novidade da parte dos “judaizantes”; pode ser por uma espécie de
idolatria da Lei, a circuncisão e a própria lei, postas quase ao mesmo
nível que Deus... a questão é que missionários itinerantes chegaram a
Filipos e insistiram na necessidade de judaizar-se pela circuncisão, e
deixar de ser “cães” (pagãos).
Paulo lhes diz que eles
é que são os incircuncisos, os cães, etc... Em seguida, apresenta uma
espécie de “curriculum” diante daqueles que o questionavam: ele tem tantas
ou mais razões para gloriar-se de ser judeu, mas não põe nisso sua
segurança, tudo isso ele o considera como esterco! e segue no caminho para
alcançar a Cristo. Estejamos onde estivermos, avancemos (3,
16).
Com um termo clássico
para apresentar uma nova unidade começa esta: “irmãos”. Convida a
comunidade a imitá-lo, o que é algo freqüente: como judeu que é, Paulo
sabe que os rabinos não somente pretendem ensinar “conteúdo”, mas um modo
de viver; o discípulo deve aprender a “caminhar”.
Mas não é a pessoa que
deve ser imitada, é o caminho. O caminho que acaba de apresentar, de
repulsa, de perda de tudo, É característico em Paulo apresentar-se ele
próprio, mas depois de deixar-nos muito claro que – como apóstolo – sua
vida mesma é uma vida crucificada. Ele “encarna” a cruz em sua vida, e por
isso está crucificado, o que é motivo de glória é sua fraqueza, “sua cruz”
(cf. 2ª Carta aos Coríntios 10-12). Se, em Filipenses 3, Paulo realiza uma
nova “apologia”, é se apresentando como o próprio “crucificado” que o faz.
Por isso, pode dizer que o imitem, “como eu imito a Cristo” acrescenta na
1ª Carta aos Coríntios 11,1. Não é sua vida, senão sua morte, poderíamos
dizer. O que conta é a cruz, que aparece como fraqueza e é “força de Deus”
(1ª Carta aos Coríntios 1, 24).
Por isso, os que põem
sua confiança em suas forças, em suas obras, em sua própria vida são os
“inimigos da cruz de Cristo”. Onde põem a confiança? No cumprimento, por
exemplo, das leis sobre os alimentos, ou na circuncisão, e com isso crêem
alcançar a Deus. Ironicamente, Paulo lhes diz que confundem os meios com
os fins, os alimentos existem em função do estômago, a circuncisão no
órgão sexual (“vergonha”) não pode ser objeto da
fé.
O que caminha conforme o
exemplo de Paulo é aquele que é “cidadão” do céu, para lá dirige seu
olhar, não para essas coisas “da terra”. A “cidadania” (o termo só aparece
aqui em todo o Novo Testamento) parece contradizer outras cidadanias
(lembrar que Atos dos Apóstolos apresenta Paulo como cidadão romano), é um
ser já de uma cidade à qual ainda não pertencemos plenamente, somos
peregrinos. A referência ao nosso “corpo” não deve ser entendida com
esquemas gregos (corpo e alma), mas pensando em nossa configuração com
Cristo que nos faz participantes da ressurreição.
A referência à cruz
serve para promover atitudes sociais contrapostas às dos judaizantes e sua
confiança em sua capacidade. Ao contrário, a cruz aparece como modelo de
uma sociedade alternativa que ajuda à unidade interna da comunidade. A
vida cristã tende para a libertação, e está em tensão entre uma libertação
e outra, entre a libertação que alcançamos pela cruz e a que nos virá pela
cidadania do céu que nos alcançará uma coroa de
glória.
O evangelho da
Transfiguração segundo a versão de Lucas propõe uma série de elementos que
é interessante ter em conta. Diferente dos textos de Mateus e de Marcos
fez que muitos se perguntassem se ele (Lucas) teve em seu poder uma fonte
própria, embora outros pensem que possivelmente as diferenças se devam
propriamente aos redatores do
evangelista.
Os elementos comuns são
conhecidos: Jesus anunciou que o esperam a rejeição e a morte. Nos outros
Sinóticos, Pedro se escandaliza e Jesus o compara a “Satanás” embora isto
seja omitido por Lucas. Jesus anuncia que quem quiser ser discípulo deve
carregar a cruz (“cada dia” acrescenta Lucas). Isso é muito duro, mas
acaba esclarecendo que “alguns dos que lá estavam... não morreriam até que
vissem” (Mateus acrescenta “ao Filho do homem vindo”) o Reino.
Precisamente, Jesus separa alguns e os faz “ver”. Assim acontece a
Transfiguração.
Há elementos que são
próprios de Lucas e são interessantes: Marcos e Mateus escreveram que se
tinham passado seis dias, mas Lucas escreve “oito” quando Jesus tomou os
três discípulos (Pedro, Tiago e João) e sobe “ao” monte (como se
soubéssemos qual era) para orar, o que é muito freqüente em Lucas.; o que
acontece dá-se enquanto orava, como conseqüência da oração.
Lucas acrescenta também
como algo importante o conteúdo da conversação entre Jesus, Moisés e
Elias. Fala do medo deles no meio da nuvem. Jesus é, além de “Filho”,
apresentado como “eleito”. Finalmente Lucas omite toda a relação entre
Elias e o Batista na descida do monte. É intrigante que este monte não
seja o monte Sião, lugar onde Deus se tinha outrora encontrado com seu
povo: a citação: este é meu filho remete ao Salmo 2 que, no versículo 6,
diz ter entronizado seu rei em Sião, seu monte
santo.
O convite à cruz é um
escândalo, e Jesus convida à superação dessa dificuldade. A transfiguração
aparece assim como um relâmpago no meio da escuridão. No meio da noite da
cruz, a transfiguração apresenta um esboço do que espera aos seguidores de
Jesus: a coisa não termina na cruz. Jesus é apresentado como “filho”, algo
que já sabemos desde seu batismo (3, 22) ou melhor desde sua infância (1,
32). Por sua vez, é interessante notar a diferença: no batismo, a frase do
céu se dirige a Jesus: tu és..., enquanto que agora se dirige à comunidade
representada nos discípulos: este é.... Mas, ao acrescentar escolhido,
Lucas nos recorda o Servo de Javé (cf. Isaías 42, 1), o servo anunciado
que sofre. É sabida a importância que a releitura dos cânticos do Servo
tiveram na comunidade cristã para referir-se a Jesus.
Finalmente, deve-se
destacar Jesus como o “profeta como Moisés” (cf. Deuteronômio), é a ele a
quem “escutarão”, como também recorda Pedro nos Atos dos Apóstolos 3, 22.
O que ocorre não é uma “metamorfose” mas o fato de que seu rosto fica
diferente, como havia ocorrido com Moisés (cf. Êxodo 34, 29s). O que não é
claro é por que se alude a Moisés e a Elias. Pensar que Elias aparece como
“profeta”, enquanto Moisés representa a lei é esquecer que Jesus é visto
como “profeta semelhante a Moisés”.
Lucas usa o texto com
ambos os personagens, mas omite o diálogo posterior onde o Batista é
comparado a Elias, provavelmente porque prefere comparar Jesus com Elias.
É interessante citar aqui um texto rabínico: “Johanán ben Zachaí disse:
Deus falou a Moisés: quando enviar o profeta Elias, ambos comparecerão
juntos”. Lucas, em troca, apresenta o diálogo dos dois personagens com
Jesus sobre sua “partida”, quer dizer sobre sua morte (cf. 9, 51; Atos dos
Apóstolos 13, 24), marcada pelo plano de Deus. A referência a Jerusalém é
muito importante no 3º evangelho já que ocupa um lugar central em sua
teologia histórico-geográfica. Ele todo aponta para a cidade e, a partir
dali, tudo acontece nos Atos dos
Apóstolos.
Vendo Moisés e Elias,
Pedro intervém, mas, “não sabe o que diz”, provavelmente Lucas tenha lido
a clássica incompreensão própria de Marcos pensando que é toda a Igreja
que deve ser reunida pelo Senhor, ou porque não se pode dar a Deus uma
morada...
A nuvem é um sinal da
presença divina e de sua glória (“viram a glória”, v. 32) e por isso
quando os discípulos entram na nuvem (somente Lucas assinala expressamente
que também eles ficam cobertos pela nuvem) se encheram de grande temor.
Não são simples espectadores, a nuvem é reunião dos discípulos em torno da
palavra de Deus, e unidos por sua vez com os personagens do céu numa
espécie de “comunhão dos santos”. Todavia, como no Getsêmani, o sono os
vence (22, 45-46), não são testemunhas do diálogo e somente depois da
ressurreição o compreenderão.
“Escutem-no” é a
chave da narrativa: para ficar próximo de Jesus não é necessário armar
tendas, mas escutá-lo, viver de sua palavra. A peregrinação não terminou,
estamos a caminho embora a transfiguração ilumine rapidamente o escândalo
da cruz anunciada; a Igreja em marcha para seu êxodo no céu, olha para o
monte, como Israel olhava para o Sinai em seu êxodo. De repente, tudo some
e encontramos a “Jesus sozinho”. Sem que se lhes tivesse sido proibido, os
discípulos guardam segredo sobre o acontecimento talvez porque, não o
havendo compreendido, tinham-no na conta de um
mistério.
Pesquisa: Serviço Bíblico
Latino-Americano.
Transcrição: Derval
Dasilio