29o. Domingo do Tempo Comum
 
                                   Ano "C"      

Jeremias 31,27-34 – Virá o dia: porei minha lei no coração humano

Salmo 119,97-104 – Como amo a tua Lei, medito sobre ela dia e noite

2Timóteo 3,14- 4,5 –  A Escritura é útil para educar na justiça

Lucas 18,1-8 – Incomodem os que podem julgar!
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VERGONHA, NÃO HÁ MAIS INDIGNAÇÃO!

Alguma coisa acontece com o nosso texto: como é possível um final feliz em meio a tantos  acontecimentos nefastos, às vezes funestos, no cotidiano de todos nós? Há justiça para o político corrupto, ou para o líder religioso que acumula fortunas, aqui e em outras terras, ou em paraísos fiscais, do mesmo modo, que se esperaria justiça para o magistrado que atropela uma família inteira, matando as pessoas, no trânsito, enquanto aguardará licenciado o pronunciamento oficial, se vai ser processado ou não? Quantos vivem uma vida de martírio no meio de guerras étnicas, especialmente na África, como em Ruanda e Timor Leste, só para exemplificar algumas das muitas lutas internas, etnia contra etnia, resultantes da presença dos colonizadores que lá estiveram, sugaram suas riquezas, e depois se afastaram, como foi com belgas, holandeses, ingleses, portugueses, enquanto os nativos, por ódio racial  aos colaboradores passivos exterminam os próprios irmãos (cf. Hotel Rwanda, filme de 2004, dirigido por Terry George)? Quantos cristãos, judeus, muçulmanos, perguntam sobre o silêncio de Deus nos genocídios que intentam? Por que o Deus que conhecem não intervém neste mundo de desordem e injustiça legalizada, e ainda nem citamos que dois, dos 6,5 bilhões de habitantes deste planeta, vivem em permanente estado de miséria, fome, sujeitos a toda forma de atrocidades, abandono, em omissão incompreensível? Como compreender nosso papel, como cristãos que somos, num mundo onde se desmoronam valores relacionais, éticos, para vivermos uma vida de obediência a Deus? Nos damos conta da realidade esmagadora da insensibilidade, e da omissão? Ainda há cristãos indignados com a injustiça?

 

Um escritor conhecido, pastor pentecostal, teologicamente consciente, escrevia recentemente, esforçando-se por uma visão otimista sobre o que acontece no ambiente evangélico, completamente alheio ao que acontece, dispensando qualquer esforço profético de denúncia, ignorando as lutas sociais contra a exclusão, a fome, a miséria, a depredação ambiental; luta  por direitos humanos, cidadania, em favor da mulher, da criança, das etnias impedidas de exercerem seus direitos. O escritor aguça a ironia do momento de alienação:

 

"Tentarei ser otimista. Ando impressionado com o compromisso missionário da fantástica indústria da música gospel. Os empresários que caçam talentos realmente se preocupam em transformar seus artistas em verdadeiros adoradores. Os produtores não ambicionam lucros, mas sim mudar o Brasil e o mundo através da música de espiritualidade melosa. Cada dia fico mais admirado com os conteúdos dos sermões evangélicos. Noto que há uma grande preocupação, da parte da maioria dos pastores, em anunciar as boas novas do evangelho. A abundância dos expositores das verdades bíblicas torna esta pátria um celeiro de grandes tribunos. Que maravilha observar como os evangelistas nacionais são teológicos e como os teólogos são evangelistas. Há uma fartura de oradores do calibre de João Wesley, A.W. Tozer, Spurgeon e tantos outros grandes pregadores do passado (e que passado!).

 

“Causa admiração ver a igreja brasileira copiando os projetos de igrejas abastadas, norte-americanas, ‘com propósito’, de gerenciamento eclesiástico. Aprender administrar a igreja como fazem os pastores das mega-igrejas do norte é empolgante. Dá vontade de bater palmas quando se observa pequenas igrejas das periferias, paupérrimas, buscando imitar as ricas comunidades que administram ‘com propósito’, para chegarem ao topo não se sabe do que, entre as maiores igrejas do mundo. Existe muita criatividade nas igrejas legitimamente brasileiras. (...) Entendo a nobreza do silêncio de muitos pastores diante de pequenas bobagens que talvez risque um pouco a imagem das igrejas. Eles acreditam que ‘quando se está ganhando almas’, não é ruim mentir em nome de Deus”, manipular em nome de Jesus e extorquir em nome do Espírito Santo” (Ricardo Gondim, Eu creio, mas tenho dúvidas, Ultimato, 2007).

 

Lucas 18,1-8 – Há muitas leis no AT referentes às viúvas. Isso porque numa sociedade machista, as mulheres em geral dependiam inteiramente dos maridos e dos filhos. Uma viúva, se não contasse com o apoio da família, certamente padeceria necessidades. No próprio início da Igreja, os cristãos já se preocupavam com as viúvas dos helenistas. A viúva representa uma classe de pessoas que só têm a Deus por legítimo guardião. É um símbolo típico dos impotentes e oprimidos. Aqui no texto vemos uma viúva que, conhecendo seus direitos legais que estavam sendo violados, espera que um juiz a atenda. Observemos que ela não está pedindo nada absurdo. Apenas quer justiça e o que é seu, de direito.

 

O outro personagem é o juiz. Dele se diz que não temia a Deus nem respeitava os homens. O poder o embriagara de tal modo que ele parecia estar acima de todo direito e de toda justiça. Na literatura profética há várias acusações contra os juízes que sempre favoreciam aqueles que podiam pagar-lhes propinas ou subornar sentenças. Nada muito diferente do que vemos até hoje em nossa sociedade – o poder financeiro determinando o poder judiciário. A mulher está numa situação desesperadora. É uma viúva, sem dinheiro, que tem que lutar sozinha por seus direitos, que não tem amigos poderosos que intercedam por ela. Mas ela tem algo que jamais pode faltar à fé cristã: perseverança, teimosia, garra. Essa viúva bem poderia chamar-se “Maria”, aquela da música de Milton Nascimento: “É preciso ter força, é preciso ter garra, é preciso ter gana sempre”... quem traz no corpo essa marca possui a “estranha mania de ter fé na vida”. Naturalmente, o núcleo do texto quer fazer daquela viúva um exemplo para a Igreja perseguida e desesperada. Se as necessidades daquela mulher foram atendidas por um juiz iníquo (Carlos Eduardo Calvani, Pão da Vida, Ano “C”, CEA).

 

ORANDO E PENSANDO SOBRE A ORAÇÃO

 

Como se vê, em meio ao sofrimento da injustiça, para muitos crentes fica difícil compreender que orar, insistir, perseverar na fé, é algo muito importante para o Evangelho. A parábola da viúva insistente pode ajudar-nos a entender o papel do cristão e das igrejas, enquanto nos indicará como viver em oração desde a noite escura que impera neste mundo, especialmente quando se pode ver a injustiça estrutural, tornando muito difícil, muito duro, crer num Deus "fraco", sem poder para intervir nas realidades, fazendo justiça e vingando imediatamente o oprimido diante do opressor. Ao mesmo tempo, o ser humano se esconde dos semelhantes, e do próprio Deus. Porque sabe internamente de suas responsabilidades, consciente do rompimento de origem, sua própria escolha, sua própria definição do Bem e do Mal.

 

Dietrich Bonhoeffer apontava que a noção de igualdade, ou semelhança, com Deus se converteu em igualdade roubada: “Enquanto o ser humano como imagem de Deus vive exclusivamente de sua origem em Deus, o ser humano que se tornou igual a Deus esqueceu sua origem e se transformou em autocriador e juiz de si mesmo. O que Deus deu ao ser humano este quis ser agora por si mesmo. Na verdade, a dádiva consiste em sua origem. Com a origem, a dádiva se transforma. O ser humano como imagem de Deus vive da origem divina; o ser humano que se tornou igual a Deus, vive da origem própria. Com o roubo da origem, o ser humano incorporou um mistério divino – a Sagrada Escritura descreve este processo como o comer da fruta proibida – no qual ele perece. Sabe, agora, o que é bom e o que é mau. Pode julgar seus próprios atos:

 

“Não que tivesse enriquecido, com isso, o conhecimento que tinha até então com um novo saber; antes, a noção do bem e do mal resulta numa inversão total do seu conhecimento, que até então era unicamente um conhecimento de Deus como sua origem. Sabendo do Bem e do Mal, sabe o que somente a Origem, Deus, pode e deve saber. O ser humano roubou de Deus este mistério, ao pretender ser ele mesmo origem (do mistério). Tornou-se como Deus, mas contra Deus. Eis o embuste da serpente. O ser humano sabe o que é bom e o que é mau. Mas, como ele não é a origem, como adquire este saber unicamente na separação da Origem, o bem e o mal que conhece não são o Bem e Mal de Deus, mas bem e mal contra Deus. O ser humano tornou-se igual a Deus, porém como antideus” (Dietrich Bonhoeffer, Ética, Sinodal).

 

Para suportar-se a si mesmo, vive em ocultação. Nietzsche referia-se a uma máscara: “Todo espírito profundo precisa de uma máscara”, que Bonhoeffer dizia não ser um simples disfarce, um modo de trapacear os outros, mas um sinal da divisão interna, profunda, alcançada na origem. Kant diria mais, que a vergonha humana, enquanto surpreendida na oração, anula-a. Talvez tenha se enganado, porque a oração verdadeira ocorre na intimidade, o quarto fechado é o seu lugar preferencial, no evangelho de Jesus. Mas pode ter acertado quanto à vergonha íntima da oração dissimulada. A insistência da viúva também corresponde à oração reivindicativa diante dos homens, os quais devem ceder, quando instados a fazer justiça. A oração é tudo, quando Deus olha e vê a iniqüidade, e observa o oprimido abandonado e sem solidariedade da parte dos seus próprios irmãos. Indignados, voltamos à Origem verdadeira. 

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                                                             Derval Dasilio

                                                   Pastor da Igreja Presbiteriana Unida    

                                                               

Blog: Derval Dasilio - Escritos http://derv.wordpress.com/