28o. Domingo do Tempo Comum
 
                                   Ano "C"      

Jeremias 29,1-4;7 – Procurai a paz da cidade, rogai por ela

Salmo 66, 1-12 – Reconhecidos da salvação, vinde e contai

2Timóteo 2,8-15 – A graça de Deus se manifestou para todos!

Lucas 17, 11-19 – Quem é puro? O religioso aparente, ou por obrigação?

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    É PRECISO UM ATESTADO DE SAÚDE SOCIAL PARA A INCLUSÃO RELIGIOSA?

 

Esta página estranha, referente às comunidades que exigem atestado de saúde moral para aceitar conversos à fé do Cristo de Deus, é chocante, já decorridos 2 mil anos desde que o Deus humanizado ingressou neste mundo de misérias, conflitos, preconceitos, intolerância, exclusão. O evangelho demonstra que o que aconteceu com o leproso, um dos símbolos da exclusão social em Israel, pegou mal para os irmãos na fé que Jesus e os apóstolos professavam: dos dez leprosos, nove eram da religião judaita e um samaritano – equivalente hoje um “macumbeiro”, umbandista, candobleísta, ou qualquer afro-religioso professante de alguma religião ancestral, é o que aceita participar da vida de fé, abraçando o movimento de Jesus em favor do reinado de Deus. O leproso, além de tudo “samaritano” (os dois valem como adjetivo negativo de qualidades religiosas, ou de descredenciado para a vida social, não nos esqueçamos), duplamente desqualificado, quando percebeu que estava curado voltou louvando a Deus aos gritos e se jogou aos pés de Jesus, lhe agradecendo.

 

Colocar-se aos pés de Jesus é uma postura do discípulo que está disposto a aprender sobre a vida de fé. Os outros nove, que eram judeus, demonstraram com seu comportamento que se esqueceram de Deus, que foram mal orientados para a vida religiosa – curados, comportar-se-ão como os “puros”, os “santos”, “pietistas”, da religiãos de origem, compartilhando das mesmas regras de exclusão. Por isto não voltaram para agradecer. Poderíamos perguntar também se nossas comunidades, “igrejas evangélicas”, têm a mesma disposição, bem como o direito de excluir aqueles que Jesus Cristo cura, acolhe e incluiu. Mesmo depois de “curadas” e salvas por Jesus Cristo. Acrescentaríamos: perguntando se comunhão com Cristo dependeria da comunhão com a igreja, das regras sociais vigentes, implícitas na religião, ou se igrejas têm alguma autoridade para separar quem Jesus chamou e juntou à sua comunidade.

 

Quando o Evangelho coloca Jesus diante da fragilidade humana, vemos que ele percebe sua própria fragilidade, humanizado como está.  Ele se faz um de nós em tudo, esvazia-se e se expõe a tudo, esgota-se nas fraquezas de todos nós, acaba pregado num pau simbólico, na forma pagã da crucificação, enquanto é negado como religioso de ética exemplar pelos mesmo irmãos de fé religiosa. O que mostra o Evangelho: Deus se compadece de nós, vem ao encontro das nossas fraquezas, preconceitos, intolerâncias, e traz a salvação exatamente no momento em que desconhece as nossas imperfeições humanas e entra de cabeça nas realidades.

 

Ainda recentemente escrevíamos aqui sobre um exemplo, a questão da homossexualidade. Um assunto entrelaçado de confusões e preconceitos antes que de tratamento cristão sobre excluídos, segundo a proposta inclusiva do Senhor Jesus Cristo. A ética do Ressuscitado nos fará observar os problemas de nosso tempo: irmãos com a síndrome de down, irmãos alcoólatras, drogaditos, sexoaólicos, jogadores, consumistas compulsivos, socialmente enfermos, ao lado de garotas de programa, prostitutas (ou trabalhadoras do sexo), reivindicando a participação da vida de fé?

 

Como se denunciava existir na igreja de Corinto, os repelimos imaginamos freqüentadores de cultos pagãos à fertilidade, dados à prostituição cultual? Por que, também, não os colocamos lado a lado, sentados nos mesmos bancos nas celebrações, no culto e na vida regular das igrejas, com blasfemos, bígamos, incestuosos, sexualmente imorais, bem-postos arrogantes, patrões que exploram empregados negando-lhes direitos sociais e trabalhistas; homens públicos, políticos, corruptos, defraudadores, sonegadores de impostos? Imaginamos que o apóstolo Paulo dirigia-se aos que estavam dentro da igreja de pecadores e pecadoras da cidade de Corinto? Quem disse que o apóstolo se dirigia para a comunidade externa, a sociedade de Corinto? Ou que não se dirigia aos cristãos daquela igreja?

 

Assim, evocaremos, todos e todas, os pecados que nos tornariam “inabilitados” para a vida de fé, inclusive aqueles constantes em “listas paulinas”, a partir das cartas aos cristãos coríntios e os demais, das igrejas gentílicas (cf. as epístolas e também Atos dos Apóstolos): violentos, mentirosos, impudicos, idólatras, adúlteros, depravados, travestis, gays, dragqueens, transformistas, transexuais, efeminados, sodomitas; ladrões, corruptos em todos os níveis, gananciosos, avarentos, banqueiros agiotas, bêbados, injuriosos, participando do culto, impondo-lhes restrição à comunhão? Ou, silenciosamente nos declararíamos incapazes de reprovar os outros, levando em conta nossos próprios pecados, inclusive o preconceito e a intolerância, uma vez que as Escrituras, no Evangelho do Cristo de Deus, não definem graus de pecados, ou qualificam pecadores? Disse Jesus, ainda mais: “Quem não tiver pecado, que atire a primeira pedra”.

 

Lucas 17, 11-19 – Entre samaritanos e judeus – habitantes do centro e sul de Israel, respectivamente - havia uma antiga inimizade, uma forte rivalidade que remontava ao ano de 721 a.C. quando o imperador Sargón II tomou militarmente a cidade de Samaria e deportou para a Assíria a mão de obra qualificada, povoando a região conquistada com colonos assírios, como relata o segundo livro dos Reis (c. 17). No decorrer dos tempos estes se uniram com seu sangue à população da Samaria, dando origem a uma raça mista que, naturalmente, mesclou também as crenças. “Quem come pão com um samaritano é como quem come carne de porco (animal proibido na dieta judia, em razão de sua ‘impureza’)”, diz a Mishnah (Shab 8.10). A palavra “samaritano” constituía uma grave injúria na boca de um judeu (equivale a dizer, entre cristãos: xingamentos impronunciáveis, gay ou lésbica, prostituto, prostituta, e do ponto de vista do culto candobleísta, umbandista, espírita, e outros xingamentos preconceituosos do dia-a-dia, no cotidiano cristão).

 

Segundo João 8,48 os dirigentes dizem a Jesus em forma de pergunta: Não temos razão em dizer que “tu és um samaritano” e que tu estás louco? Esta era a situação nos tempos de Jesus, judeu de nascimento, como encontramos no texto de hoje. Os leprosos viviam fora das cidades.  Se habitavam na cidade, residiam em guetos, e conviviam com tribos, patotas, isolados do restante da população, não podendo entrar em contato com os demais, nem assistir às cerimônias religiosas. O livro do Levítico prescreve como haviam de se comportar. “Aquele que foi declarado enfermo de infecção cutânea andará com farrapos e despenteado, com a barba escondida e gritando: Impuro, Impuro! Enquanto durar a infecção continuará impuro. Viverá separado e terá sua morada fora do acampamento” (Lv 13, 45-46). O conceito de lepra na Bíblia se distancia muito da concepção moderna que a medicina dá a esta palavra, tratando-se em muitos casos de enfermidades curáveis da pele. Atenção, pois, sobre os "leprosos" sociais e sobre os "leprosos" do diagnóstico religioso.

 

Jesus, ao ver os leprosos, acolhe, cura e envia-os para se apresentarem aos sacerdotes de plantão, guardiões da comunidade religiosa, cuja função, entre outras, era em princípio a de diagnosticar certas enfermidades, que, por ser contagiosas, exigiam que o enfermo se retirasse da vida pública e do culto. O mesmo que dizer: excluídos até serem purificados com a cura. Uma vez curados, deviam se apresentar ao sacerdote para que lhes desse uma espécie de certificado de cura que lhe permitisse se reintegrar na sociedade.  Mas o relato evangélico não termina com a cura dos dez leprosos, pois constata que um deles, precisamente um “samaritano”, voltou para agradecer a Jesus. 

 

Urge reconhecermos que a salvação chega preferencialmente aos rejeitados da sociedade em que vivemos, os desfavorecidos da vida. Essa fé parte da certeza que Deus Criador ama todas as suas criaturas e nada rejeita daquilo que fez. Aquele que é criado diferente não deverá ser rejeitado pelos homens, uma vez que foi radicalmente aceito e amado por Deus. Deus comunica sua bondade inclusiva no amor aos “pequeninos” e àqueles que parecem nada valer aos olhos humanos. E Jesus exige de nós atitudes concretas de inclusão. E disse também a quem o tinha convidado: “Quando ofereceres um almoço ou jantar, não convides teus amigos, nem teus irmãos, nem teus parentes, nem teus vizinhos ricos. Pois estes podem te convidar por sua vez, e isto já será a tua recompensa. Pelo contrário, quando deres um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos, os cegos! Então serás feliz, pois estes não têm como te retribuir! Receberás a recompensa na ressurreição dos justos” (Lc 14,12-14).

 

Jesus oferece o critério fundamental para todos os relacionamentos entre as pessoas humanas. Trata-se do novo mandamento: “Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros” (Jo 13,34). Precisamos amar as pessoas excluídas pela sociedade da mesma forma como Jesus as amou e nos amou. Ele esvaziou-se de sua divindade para vir ao nosso encontro. Nós também devemos esvaziar-nos de auto-suficiência, da religiosidade exigente de santificação exterior. Ele assumiu nossa fragilidade; nós também devemos assumir a fragilidade das pessoas discriminadas. Ele se fez servo de todos; nós também devemos servir os irmãos. Foi obediente ao Pai até o fim; nós também devemos amar sem preconceito, sem reservas, sem nos omitir quanto à exclusão social. Ele fez dos menores, dos fragilizados socialmente, seus companheiros, protagonistas da salvação, e deu-lhes liberdade e autonomia para a vida de fé.

 

Devemos respeitar às vítimas do preconceito e da discriminação, e valorizar suas capacidades. Sua autonomia inclui o direito de exercer opções sociais, opções sexuais, opções religiosas, opções filosóficas e ideológicas. Jesus também respeitou os que não aceitaram seu projeto de salvação e de inclusão no Reino de Deus, como os nove “leprosos” da passagem que nos coube comentar no dia de hoje. Parece que sua preferência foi esquecer  sua cura e salvação, voltando à comunidade original, enquanto reassumiam seus preconceitos e intolerâncias. Desprezando Jesus, mesmo assim não foram impedidos de retornarem às regras da exclusão, como agentes, esquecidos de que foram elas que os tornaram vítimas, um dia, do preconceito, da intolerância e da exclusão.

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                                                 Derval Dasilio

                              Pastor da Igreja Presbiteriana Unida    

                                                               

Blog: Derval Dasilio - Escritos http://derv.wordpress.com/