27o. Domingo do Tempo Comum
 
                                   Ano "C"      

      Lamentações 1,1-6 – Sem fé, estavam como animais sem pasto

          Salmo 137 – Nos caminhos das angústias a fé faz-me viver

                 2Timóteo 1,1-14 –  Tenho a graça de servir a Deus

Lucas 17,5-10 –  Senhor, aumenta a nossa fé!

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Os apóstolos fazem um pedido muito importante: “aumenta a nossa fé”!  Isso porque a comunidade se reúne “graças a uma fé”, que significa compromisso com o programa de Deus, plenamente realizado na palavra e na ação de Jesus. Deus está determinado para salvar o mundo. Como aumentar um compromisso? Ou ele existe ou não existe. Jesus compara a fé com uma semente de mostarda, que é a menor de todas as sementes. Pois bem, diz Jesus: Se vocês tiverem uma “fé desse tamanhinho”, vocês já podem mandar uma amoreira se transplantar para o mar. Se levarmos em conta que as árvores não crescem no mar, entenderemos que quem tem um grãozinho de fé já pode fazer coisas que parecem impossíveis. “Não pensem que vocês têm méritos!” (17,7-10). A introdução também poderia ser introduzida por: “Vocês conseguem imaginar que se alguém de vocês...?” E a resposta seria: “Não. Isso é impensável!” Trata-se de um patrão sem recursos, o sujeito, pois tem um só empregado. Quem é que vai servir? Ele ou o empregado? É claro que o empregado. Precisa o patrão agradecer ao empregado pelo serviço? Claro que não, pois o empregado fez o que devia fazer, e nada mais.

 

A parábola pode chocar, parece justificar a escravidão. Mas Jesus não pretende isso. Ele quer apenas usar um fato da vida, para mostrar que os cristãos são servos de Deus, e que o serviço a Deus não deve ser concebido como fonte de méritos: “Somos empregados sem méritos; fizemos o que devíamos fazer”...  Como digerir isso? Basta nos lembrarmos de que servir à vontade de Deus não é ir contra a vontade nossa, pois a vontade de Deus é a nossa vontade mais profunda. Em outras palavras, servir ao que Deus quer é servir ao que nós mesmos queremos. Deus quer justiça? Quer dignidade para homens e mulheres? Quer pontes sobre os abismos sociais? Servir a Deus é compartilhar do seu querer. Quem ainda não descobriu isso, ainda não conhece o Deus verdadeiro, porque ele é a fonte da liberdade e da vida plena, inteira, sem que nada falte àqueles de quem Deus está cuidando de suprir. Servir a Deus é encontrar essa liberdade e vida que tanto procuramos. E isso mereceria um prêmio especial? Nem Deus, que tudo faz, exige retribuição à graça que concede (Ivo Storniolo, O Evangelho de Lucas, Paulus, 1992).

 

Lidando com a teologia, somos obrigados a conceituar a fé, e perguntamos: - De que fé falamos? Para quê serve a fé? No Novo Testamento, a fé paulina (que os reformadores protestantes consagraram: sola fides) a justificação, pelo perdão dos pecados dos quais somos julgados, só é alcançada pela “fé”.  Não há obra humana, religiosa, missionária, espiritual, sacrificial, capaz de nos absolver pelos pecados cometidos: Não há um homem justo, não há sequer um,  (Rom.3,10, Sl 143 e 14,1-6),  e entendemos que jamais o homem será julgado inocente, justificado, por qualquer de suas obras.  O princípio da justificação, para Paulo, é a fidelidade a Deus. Ponto final.  Não é de retribuição que se fala aqui, mas de compromisso e voluntariado. Servos fiéis cumprem sua obrigação com espontaneidade.

 

Mas do que está falando Lucas, a que fé se refere, quando coloca na boca dos apóstolos a expressão: ...aumenta a nossa fé...? Certamente é o discurso confessional da Igreja inicial, igreja dos apóstolos. Atos prolonga a pregação sobre o Reino de Deus, como está implícito em todo o evangelho lucano. Não há salvação fora da invocação de Jesus como Senhor. Somente aceitando a Jesus como Senhor é que os homens podem salvar-se. A fé constitui-se como kérygma da comunidade que se forma em torno da mensagem de Jesus e do testemunho dos apóstolos (At 2,14-41). Mas a aplicação do nome “Senhor” não podia ter sido feita por Pedro em Jerusalém. Pois o nome que corresponde a Senhor em aramaico é o nome divino Yahweh que ninguém podia pronunciar. Pedro não podia ter usado o equivalente aramaico de Senhor. A invocação do nome de Senhor faz sentido para quem lê a Bíblia grega. No mundo grego os cristãos começaram a aplicar o nome Kyrios ao próprio Jesus ressuscitado, estimulados sobretudo pelo Sl 110,1. Este título tinha mais significado  para os gregos do que os títulos da tradição sinótica, seguramente enraizada na cultura particular de Israel. Colocava Jesus ao lado de Deus, numa aclamação única feita aos dois. Equivale a dizer que o Deus é o próprio Cristo.

 

Nos grandes discursos de testemunho da fé apostólica Lucas começa sempre com o anúncio de Jesus pela memória da sua vida terrestre e do seu ministério de enviado do Pai (Comblin, Atos dos Apóstolos, Vozes, 2001). A vida de Jesus é um argumento no debate entre judeus cristãos e não-cristãos. A vida de Jesus foi um apelo de reconhecimento de Yahweh, ao seu povo. Os sinais de Jesus mostravam que Deus estava com ele. Os filhos de Israel deviam ter entendido o apelo que seu Deus lhes dirigia. A não compreensão da vida de Jesus preparava de certo modo a rejeição de Jesus pelo seu povo. A não recepção de Jesus durante a sua pregação já é um primeiro motivo para a conversão. Para um fariseu que acredita na ressurreição no fim dos tempos, o texto do Salmo 16 podia valer para qualquer judeu piedoso: “eles não serão abandonados na região dos mortos” e não conhecerão a corrupção definitiva (que é não ressuscitar para a nova vida, vida plena, para o resto da eternidade).

 

A Escritura confirma o testemunho, mas não o substitui. A fé consiste não simplesmente em acreditar na Escritura (que bibliolatras fundamentalistas, acompanhando os fariseus, também o fazem), e sim em acreditar no testemunho dos apóstolos. A Escritura está subordinada ao testemunho dos apóstolos, não à letra morta da Lei. A palavra viva aplica e concretiza a letra da Bíblia (heb.=davar; gr.=logos). A Bíblia intervém nas mãos e nas citações dos apóstolos, mas a fé não tem por fonte a Bíblia diretamente. O cristianismo não é religião do livro em primeiro lugar e sim religião do testemunho. Da Palavra! Se usamos o conceito de “fé bíblica”,  deveremos ter o cuidado de dizer de que fé falamos. Pois a ressurreição de Jesus é comunicada pelo testemunho e somente a título de confirmação pela Bíblia. A Bíblia não narra a ressurreição de Jesus. A ressurreição histórica não é objeto de narração, mas de testemunho. Depois da proclamação da ressurreição de Jesus vem a proclamação da sua exaltação. Lucas separou os dois momentos entre ressurreição e ascensão. Conseqüentemente o testemunho tem que desdobrar-se para envolver ambos os aspectos. A ascensão foi a exaltação de Jesus. Pela “exaltação” Jesus é colocado na condição de Filho do Pai. Senta-se à direita do Pai, conforme diz o texto clássico de Salmo 110,1,  fundamental em todas as tradições cristãs. Aqui, em Lucas e Atos, o Espírito intervém no discurso por causa da circunstância. Mas o Espírito não é objeto próprio do testemunho. Pois o Espírito é visível e sensível. O Espírito é ponto de partida, um fogo comunicador incontrolável; um incêndio nas consciências. Não há necessidade de dar testemunho dele! O pentecostes bíblico, da igreja cristã, é um acontecimento único da pentecostalidade da Igreja (presença permanente do Espírito). Mas a ressurreição e a exaltação de Jesus são invisíveis e exigem, para tanto, um testemunho: “Senhor, aumenta a nossa fé”!

 

Essa petição tem como o pano de fundo a estória do Lázaro e o rico insensível e, também, o aviso contra o perigo de escandalizar os pequeninos na fé, a exortação para perdoar sempre (ver vv. 1-4). Na caminhada cristã há armadilhas para o pecado, escreveu Sumio Taktsu. (Pão da Vida, CEA, 2006). A “advertência”, no caso, é dirigida aos que pretendem “conhecer” mais do que outros. Um alerta para a gnose do momento: os pequeninos são aqueles que se encontram atrás da figura da ovelha perdida, do filho esbanjador, da moeda perdida, Lázaro e o rico insensível que almeja a vida eterna.

 

v. 5 – Diante do que ouviram de Jesus, os apóstolos sentiram-se frágeis e pediram-lhe que acrescentasse mais fé ao que já tinham. E a resposta foi abrupta. A fé não é uma coisa a ser quantificada para mais ou para menos. É uma relação de confiança com o que Deus faz em Jesus. É abertura ao poder de Deus: Arranca-te daí e planta-te no mar. Não se faz uma coisa como plantar uma árvore, no mar. Então, a confiança nesse poder realiza as coisas além da expectativa normal das pessoas.

 

vv. 7-9 – O foco de atenção vai em outra direção. É outra parábola. Os discípulos fazem o trabalho do Senhor por amor, realizam o que deles se espera. Há algo de humor: Quem vai dizer ao seu escravo: eu preparei para vocês o jantar? Quem vai agradecer a quem fez o que deveria ter sido feito? Espera-se que os ouvintes respondam: ninguém! É assim que o mundo está organizado! Para quem é sensível à questão do relacionamento entre o Evangelho e as instituições iníquas, o não-questionamento da existência da “escravatura” na parábola é um tanto perturbador. No entanto o Novo Testamento nos apresenta o Senhor identificando-se com os escravos, servos e até invertendo os papéis (12.35ss; 37; 22.25,27).

 

 v. 10 – É possível que Jesus tenha dito essas palavras aos ricos fariseus que tinham servos ou escravos. Se vocês agem com o humor acima, como podem esperar a recompensa por fazer o que se deve fazer? Aos discípulos Jesus estaria dizendo: tomem cuidado com o fermento dos fariseus, não sejam contaminados, não ajam como eles. Com essa nova imagem do ser humano, a figura de quem serve ao Senhor estaria dizendo que a vida realmente rica é aquela que se considera dom surpreendente de Deus, e que Deus não nos deve nada. Há convergência entre as três leituras em torno da confiança na fidelidade de Deus e da fidelidade da proclamação da Boa Nova de que as pessoas e a Igreja têm sua verdadeira existência no relacionamento de confiança na promessa de Deus em Jesus Cristo.

 

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                                                 Derval Dasilio

                              Pastor da Igreja Presbiteriana Unida    

                                                               

Blog: Derval Dasilio - Escritos http://derv.wordpress.com/