26o. Domingo do Tempo Comum
 
                                   Ano "C"    
  

           Jeremias 32,1-3a, 6-15 – Direito ao resgate do melhor da fé ... 

Salmo 91,1-6;e 14-16 – Não compreendem que estão sendo imbecilizados

        1Timóteo 6,6-19 – Devia ser crime tirar a esperança dos jovens

               Lucas 16,19-31 – No fim, os miseráveis olharão de cima...

   

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                        COMO VIVER NUM MUNDO SEM COMPAIXÃO?

 

Uma festa para a massificação do consumo está em andamento, e ao mesmo tempo se exibe uma falsa privacidade. Sobram migalhas para os excluídos, mesmo quando ostentam celulares com mp3 e vídeos do youtube do Netinho ou outro qualquer. Ninguém pode mais concordar com Hegel, um filósofo muito interessante. É uma pena! Dizia que “a privacidade nos ajuda a viver num mundo sem compaixão”. Hoje, esse conceito não funciona mais, para muitos não há mais um mundo privado para reflexão. De que vale a privacidade num mundo assim? As casas são invadidas com todos os consentimentos possíveis, dos escalões mais altos do controle social aos chefes de família que não sabem mais dizer se chefiam ou são chefiados. A cultura utilitarista predomina, e como objetos comprados, descartáveis, do tipo “use e jogue fora”, os valores de uma ética de partilha e solidariedade são atirados no lixo sem o menor pudor.

 

Um mestre da linguagem simbólica, Witgenstein, filósofo de grande importância na pesquisa da linguagem, falava de testar a fidelidade de um jornal, por exemplo:“Deve-se ler vários jornais de uma só vez, examinando a mesma notícia”. Televisão e Internet são maravilhas do engenho humano, o problema, no entanto, são os valores veiculados em substituição aos valores tradicionais sobre amor, solidariedade, compaixão e cuidado com o outro e a outra. Tudo é substituído por idéias voyeuristas que incluem o ser humano como mercadoria barata, além de afirmar isoladamente a falta de importância dos indivíduos.

 

Karl Barth, considerado o maior teólogo da igreja cristã no século XX, calvinista, dizia em sua pregação: A Bíblia numa das mãos, o jornal na outra! Hoje, no século XXI, ele diria: um olho na Bíblia, outro na internet. O Orkut, que oferece uma comunicação extremamente superficial, onde uns poucos se esforçam por assegurar um mínimo de calor fraternal, é um exemplo disso. O grande valor da pesquisa interativa em tempo real, de fato, está em segundo plano, na internet. 

 

As relações humanas como meio de preservar valores essenciais para a sustentação da vida coletiva, no entanto, é substituída pelo sucesso individual. A voracidade pelo obsceno, a inveja, a ganância, o cinismo do “se dar bem”, com ou sem corrupção, tomam conta do cenário. Vivemos uma cultura sitiada pelo dinheiro, diz Jurandyr Freire, com exatidão. A própria expressão dessa frase irônica é admitida com cinismo, nesse assunto que não se quer discutir: “E daí, deixa de ser chato?” Alguns jovens, por outro caminho, nos perguntam. “E o que é que vocês, representantes do mundo maduro, adulto, têm para oferecer em lugar dessa realidade”? Têm razão, muita razão... um caminhão cheio de razões!

 

No Uruguai, ironicamente, uma prisão tem o nome de “Liberdade”, conta Eduardo Galeano. No Chile, nos subterrâneos da ditadura Pinochet, câmaras de tortura estiveram instaladas durante muito tempo com o nome “Colônia Dignidade”. Lembranças do tempo, como no Brasil, em que Vladimir Herzog, Paulo Wright, irmão de Jaime Wright, e muitos outros, conheciam os calabouços do autoritarismo, aprovado pela sociedade brasileira, e por religiosos católicos e protestantes, enquanto desapareciam nos porões da ditadura que dominou o país por vinte e um anos. Naquele momento, poucas décadas atrás, fórmulas de esterilização das consciências eram testadas nos porões do autoritarismo fascista. Hoje, “com açúcar e com afeto”, como diria Chico Buarque, máquinas para castrar e esterilizar as novas gerações estão na internet, e nos sites evangélicos, e no Orkut. Consciências artificiais,  virtuais, declarando-se “avivadas”, “com propósito de servir a Cristo”, como dizem, comandam o mundo consumista dentro das igrejas. Computadores são máquinas de mentir, substituindo ou complementando a televisão.

 

Uma geração inteira encontra-se dopada, quando esta se encarrega de veicular os “novos valores”, sem nenhum controle. Molho de tomate (katchup), hamburguer, são alimento e sangue dessa nova cultura. Evangélicos abraçam o gospel como religião emocional. São inaugurados bares e boates gospel, para o compartilhamento cultural do novo jeito de ser evangélico. Jovens de outras tendências, possivelmente não-religiosos, extasiados, adeptos confessos da cultura rock, marcam os costumes das novas gerações com piercings, tatuagens, uso “quase livre” de drogas estimulantes, para vários fins, como os comprimidos de ecxtasy. Vale tudo, enquanto se convidam os jovens para esquecer a História, as lutas pela democracia e pelas liberdades civis, e direitos fundamentais do homem e da mulher. O passado não interessa, o presente justifica tudo. Comamos e bebamos, porque amanhã morreremos.   

 

Os rapazes e as meninas de nosso tempo acham que os direitos humanos conquistados com luta e sangue, muitas vezes, nada significam? As realidades ao redor não perturbam, pois ninguém lhes contou a história das escravidões, das consciências oprimidas, das imposições da cultura do capital, do individualismo contra a socialização das conquistas e dos bens econômicos e culturais. Breve, como nos cursos de sobrevivência na selva, os ensinamentos de sobrevivência na cultura urbana terão seu lugar garantido, ao que parece. Daí a máxima: só os mais fortes sobreviverão. Quem viver verá. (Derval Dasilio: Sobre Lobos, Demônios e Anjos).

 

1Timóteo 6,6-19 – O texto de hoje parece uma carta bastante pessoal de um professor para seu mais dedicado discípulo. Nesta carta, cheia de orientações preciosas, o “pai na fé” procura ensinar “o caminho das pedras” para seu jovem discípulo. Ao ser colocada no fim da epístola, este trecho toma a feição de uma memorável despedida. O que o apóstolo oferece aqui são sugestões a um jovem discípulo

 

- A primeira sugestão ao jovem discípulo é para que ele organize uma estratégia de batalha (vv. 11-12). Usando uma linguagem própria daqueles que são próximos o suficiente para se envolverem na vida privada dos amigos, Paulo apresenta uma série de sugestões que mais se aproximam de uma estratégia de competição. Esta estratégia de guerra se funda em algumas ordens bem claras: “foge, combate, tome posse”. Essas três ordens são importantes porque formam um elo completo. A primeira delas é “foge”. Estranho ensinar um jovem a fugir. Aparentemente os jovens estão sempre prontos a enfrentar os inimigos, ou adversários, de frente, “olhando nos olhos”. Mas, para sermos sábios, é preciso às vezes dar um passo atrás a fim de dar dois passos à frente. Paulo está falando que seu discípulo, como homem de Deus, deve fugir daquilo que foi mencionado no fim do cap.5, ou seja, contendas, mentiras, busca do lucro, amor ao dinheiro, cobiça etc. O “tu, porém...” de Paulo foi bastante enfático e envolve a todos que desejam ser verdadeiros discípulos (Cuidado!Não te deixes cooptar...). A segunda ordem é “combate!”. “Combate o bom combate da fé!”. Esta frase invoca uma metáfora retirada dos esportes.

 

- A segunda sugestão ao jovem discípulo é para que ele persevere em guardar seu mandato. (vv. 13-14). Este texto é cheio de emoção e de seriedade. Nele, Paulo parece fazer menção ao batismo de Timóteo, ou seja, à “boa confissão perante muitas testemunhas” (v. 12b), para depois fazer referência à “boa confissão” que Cristo fez diante de Pilatos, para exortar seu discípulo a que mantenha o chamado que recebeu de Deus. Embora esta missão possa envolver perigo de vida, Timóteo deve sempre lembrar de dois fatos: primeiro de que Deus é aquele que preserva a vida de todas as coisas, ou seja, de que todos nós estamos nas mãos de Deus; e segundo, que o próprio Cristo teve que levar até as ultimas conseqüências seu discurso e sua pregação. A lição que Paulo está querendo ensinar ao seu discípulo é clara: uma vez que ele se identificou com Cristo pela fé, ao ser batizado.

 

- A terceira sugestão ao jovem discípulo é para que ele não perca a esperança da mente (vv. 15-16). É comum, aos jovens que se decepcionam com alguma coisa, perder definitivamente a esperança. Esta decepção acaba fazendo que o jovem entre em depressão e abandone os projetos originais. Paulo sabia que guardar o mandato, tendo como exemplo o próprio Cristo, não era tarefa fácil para qualquer pessoa, muito menos para um jovem discípulo (Timóteo teria pouco mais de 20 anos!). (Comentário: Jorge Aquino, Pão da Vida, Comentário ao Lecionário Anglicano, Ano C, CEA,2006).

 

Lucas 16,19-31 – A presente parábola está presente dentro de uma unidade literária, que compreende o capítulo 16, no qual o tema orientador é o uso das riquezas (cf. comentários do 15o.Dom. do TComum, Ano C). Trata-se aqui se de uma estória de um rico e de um pobre chamado Lázaro. A estória é apresentada em três atos. Duas personagens contrastantes aparecem no cenário. O contraste entre eles é grande e impressionante: de um lado há vestes caras e festas diárias e, de outro, úlcera e dependência humilhante. Lázaro come daquilo que é dado aos animais e esses animais considerados odiosos lhe fazem companhia. A cotação dos cães no AT pode ser percebida nos seguintes dizeres: “Como um cão que volta ao seu vômito, tal é o insensato que repete sua asneira” (Pv26.11; ver também Sl22.17-21; Mt 7.6 – “não deis aos cães o que é sagrado...”). E aqui aparecem sinais de inversão. No início o rico foi apresentado primeiro, conforme a expectativa convencional. Agora, após a morte, Lázaro vem primeiro. Enquanto ele é transladado ao seio de Abraão, o rico morre e é sepultado. Lázaro está no lugar de honra – o seio de Abraão, enquanto o rico simplesmente morreu e foi sepultado. Houve, assim, uma reviravolta, uma inversão. O rico foi colocado embaixo. Ele olha para o Lázaro acima dele. Então, houve começo de uma nova percepção. Agora, ele não está mais “por cima da carne seca”, como estava acostumado a olhar de cima para baixo (Sumio Takatsu; Adaptação e textos extraídos do Pão da Vida, Comentário ao Lecionário Anglicano, Ano C, CEA,2006: Derval Dasilio).

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                                                 Derval Dasilio

                              Pastor da Igreja Presbiteriana Unida    

                                                               

Blog: Derval Dasilio - Escritos http://derv.wordpress.com/