23o.Domingo do Tempo Comum
 
                                   Ano "C"

Jeremias 18,1-11 – Convertei-vos, consertai os vossos caminhos

Salmo 139,1-6 (13-18) – Livre desde o ventre de minha mãe

Filemon: 1-21 Gerei Onésimo desde as algemas autoritárias

Lucas 14,25-33 – Rompam com o patriarcalismo-autoritário familiar. 

 

A FAMÍLIA: LEVANDO AS CAUSAS DE DEUS

A Igreja começou com o relacionamento interpessoal íntimo e intenso dos membros da família. “Tendo dado à família o caráter da comunidade cristã, os lares de seus membros proveram a atmosfera mais propícia, na qual eles puderam dar expressão aos laços que tinham em comum” (Robert Banks).  Para as Escrituras Sagradas, a família é um dos bens mais preciosos da humanidade. É difícil não concordar com essa afirmação, pois até mesmo não-religiosos, ou não-cristãos, pessoas que seguem outras religiões, também consideram a família como um lugar que assemelha-se a um ninho, onde todos se abrigam desde o nascimento. O primeiro e último amparo é encontrado no ambiente caloroso e aconchegante da família. Se imaginarmos que Deus é um grande inventor de coisas boas – por mim, considero que é assim mesmo – o projeto da família, desde o início, é como um laboratório do amor, do cuidado, da fraternidade e da solidariedade.  Os valores da vida, os sonhos na direção de Deus, são recebidos, reproduzidos e transmitidos pela família.

 

Se temos dificuldades em identificar nossas famílias no compartilhamento desse perfil  agradável, amoroso, respeitoso e carinhoso, devemos abrir nossos olhos para não identificarmos nossas famílias com os “projetos” humanos em desacordo com o que recebemos por herança desde a experiência de Deus, através da história social do povo bíblico.  Reconhecemos, sim, que nossas famílias recebem influências perversas, parecendo estar vivendo na contra-mão da história da fé. O ensino tradicional, no Primeiro  Testamento, no capítulo 18 do livro do Êxodo, fala do “Shemá, ó Israel”, que quer dizer “ouve Israel”: (19) Ouve agora a minha voz; eu te aconselharei, e seja Deus contigo:  sê tu pelo povo diante de Deus, e leva tu as causas a Deus;  (20) ensinar-lhes-ás os estatutos e as leis, e lhes mostrarás o caminho em que devem andar, e a obra que devem fazer.  (21) Além disto procurarás dentre todo o povo homens de capacidade, tementes a Deus, homens verazes, que aborreçam a avareza, e os porás sobre eles por chefes de mil, chefes de cem, chefes de cinqüenta e chefes de dez;  (22) e julguem eles o povo em todo o tempo.  Que a ti tragam toda causa grave, mas toda causa pequena eles mesmos a julguem; assim a ti mesmo te aliviarás da carga, e eles a levarão contigo. Se isto fizeres, e Deus to mandar, poderás então subsistir; assim também todo este povo irá em paz para o seu lugar. 

 

É urgente exercitar dentro da família o diálogo que nos libertará dos anti-valores divulgados na mídia, no trabalho (que não dá sentido de liberdade, produção coletiva, participação na construção social), na escola (que se concentra na educação para a esterilização sexual a pretexto de experiências inconseqüentes tornadas comuns), na economia (que aponta à submissão a interesses inconfessáveis do mundo capitalista), na política (que distorce direitos humanos, induz a irresponsabilidade para com a sociedade, enquanto mostra congressistas corporativos defendendo suas próprias causas, muitas vezes envolvidas pela corrupção que nunca termina), a partir dos interesses de terceiros.

 

São extremamente difusos, nebulosos, esses “valores”, ao entendimento cristão. Será que o que se vê nas novelas do horário nobre corresponde ao que nos ensinaram Jesus e seus apóstolos? Arregalamos os olhos, sorvemos as frases proferidas, enquanto admiramos a exibição das belas imagens, lindos corpos, maquiagens extraordinárias para consertar defeitos, mulheres “poderosas”, jovens turbinadas, moços musculosos... qual é o conceito mais comum da família dos nossos dias? O homem infiel, a mulher madura corrompida, a criança e os jovens contaminados pelo consumismo, idosos ensinando a desonestidade, fazem seus discursos modernos ajustados à moral do nosso tempo. Na novela, a mulher idosa quer controlar todo mundo, mata, corrompe, dissimula, destrói pessoas. No final, porém, se dá bem (se não for assim, não tem graça!). Vai viver na Europa com uma bela fortuna. De quebra leva o jovem sem escrúpulos que se prostitui para “se dar bem na vida”. Uma dupla perfeita, símbolo dos valores da sociedade atual. O valor supremo é “se dar bem a qualquer custo”. O autor da novela foi perfeito, na síntese. Conclui-se que, entre nós, a busca de sucesso a qualquer preço, a ganância desmedida e irrefreável, ensinada como moderna pedagogia, estão bem presentes e fazem a cabeça de jovens e adultos do nosso tempo?

 

Temos hoje uma discussão importantíssima sobre a família. O discipulado cristão, em exigências para os filhos da fé, exige mesmo o rompimento com a “família”, enquanto estrutura de domínio. Igrejas, tantas vezes apontadas como “famílias da fé”, defrontam-se com a necessidade de construção de uma alternativa de vida eclesiástica sem patriarcalismo, como a proposta por Jesus na comunidade de seguidores e seguidoras, discípulos e discípulas?

 

Não é romper com a família, mas com uma forma específica de ser família, aquela que acentua o patriarcalismo, o autoritarismo sócio-jurídico do “pátrio poder”. E em segundo plano, todas as demais pessoas do convívio familiar envolvidas com o padrão de submissão tradicional. A família padrão do patriarcalismo judeu, grego e romano. A exigência cristã tinha a ver com a transformação da própria vida. Tratava-se de mudar a forma de viver segundo a mentalidade do mundo dominador. Para os oprimidos pela violência intra-familiar sustentando valores pétreos, construídos pelo macho, que é guerreiro, administrador de bens, capataz do poder econômico, o sentido do que viviam correspondia ao que a ideologia dominante queria que vivessem, e também a religiosa, espalhada pelo Templo de Jerusalém e pelas culturas grega e romana. Os oprimidos no seio familiar encontravam outro sentido de vida, na proposta de Jesus. O que Jesus indica é romper com a tradição dominante (é preciso deixar pai e mãe...), e que o discípulo venha a assumir o sentido de vida para todos, mulheres, mães, filhos, filhas, como proposta para vivenciar o Reino de Deus. Lucas aponta que a primeira exigência no caminho discipular é romper com o modelo de organização familiar autoritário-patriarcal, antes de qualquer coisa.

 

Vincent Blanick desenvolve um excelente estudo, para o nosso interesse. Transcrevo-o: A Igreja Doméstica nos Escritos de Paulo (Paulus, 1994). Destaque: Paulo e a família da fé. A freqüência da terminologia da família e do lar em Paulo para a comunidade cristã é marcante. Ele dirige-se ou refere-se aos seus companheiros cristãos como “irmãos”, adelphos, 114 vezes, expressando o relacionamento básico que deveria ser a prática entre os fiéis (cf. esp. 1Cor 8,11.13; 15,58; Rm 15,14; Fl 2,25; 3,1; 4,1; C14,7; Fm 7). Ele usa “irmã”, adelphe, cinco vezes. O termo “irmão” pode ter algumas nuanças técnicas nas cerca de dez referências de Paulo aos seus colaboradores (Gl 1,2; 1Cor 1,1; 16,20; 2Cor 1,1; 2,13; 8,23; 9,3.5; Fl 2,25; Cl 1,2; 4,15). Em outras ocasiões Paulo descreve a si mesmo como pai para as comunidades. Ele exorta os tessalonicenses “como um pai a seus filhos” (1Ts 2,11), imagem que repete quando escreve aos coríntios (1Cor 4,14-15). Descreve Onésimo como “o filho que ele gerou na prisão” (Fm 10). Para Paulo, Timóteo é como “filho” (Fl 2,22).

 

Também vê a si mesmo como a “mãe grávida” que gera os gálatas (Gl 4,19; cf. 1Ts 2,7), imagem que não o impede de se referir à mãe de Rufo como “a mãe dele e minha” (Rm 16,13). Quando Paulo fala sobre “edificar” a comunidade (1Ts 5,11; 1Cor 8,1-10; 10,23; 14,3-5.12.17.26; 2Cor 10,8; 12,19; 13,10; Rm 14,19; 15,2), geralmente usa a palavra grega oiko dome, derivada da palavra grega para “casa” (oikos). Semelhantemente, dirige-se aos gálatas como “a família”(oi oikeioi) na fé (Gl 6,10). Ele mesmo é o “administrador", (oikonomos) dos mistérios de Deus (1Cor 4,1-2), empenhado na administração (oikonomia) do Evangelho, termos tomados da área dos negócios das famílias. Também a descrição de si mesmo como o “sábio arquiteto” (sophos architekton), assentando o alicerce da comunidade (1Cor 3,10-13), pertence a esse contexto lingüístico de construção de casas.

 

Tais terminologias têm raízes no Antigo Testamento e no judaísmo em que Paulo crescera. Israel era a “casa” ou “lar” (bet Yisrael, cf. Am 5,25; Jr 38,33), embora Israel nunca fosse chamado de “família de Deus”. Os israelitas eram “irmãos” (Lv 10,14; 19,17; Dt 15,3). O mestre da sabedoria freqüentemente falava aos discípulos como a “filhos” (Eclo 2,1; 3,12.17; 4,1; 6,18.24.32). A própria Sabedoria falava aos seus filhos (Eclo 4,11). Da mesma maneira, o supervisor essênio era um “pai” para seus “filhos”. A comunidade alternativa de Qumrã identificava-se como a “família da verdade, da santidade, da perfeição”, e seus membros eram “filhos da luz, da verdade, da justiça, dos céus”. A linguagem da família, de longe, como sentido, muito excede às palavras tomadas de cultos, religiões ou qualquer outra instituição para descrever o relacionamento interpessoal.

 

 

Derval Dasilio

       Pastor da Igreja Presbiteriana Unida    

                                                               

Blog: Derval Dasilio - Escritos http://derv.wordpress.com/