22o.DOMINGO DO TEMPO COMUM  
 
                                   Ano "C

Jeremias 2,4-13 – Que injustiça acharam em mim para me excluirem?

Salmo 81,1 (e 10-16) – Ah, se meu povo me escutasse!

Hebreus 13,1-8; 15-16 – Praticando a hospitalidade vocês acolhem anjos

Lucas 14,1(7-14)  –  Não procurem lugares de destaque...  

                                                       

-----------------------------------------------------------------------

 

                                O BANQUETE DOS DESERDADOS

 

Uma discussão sobre a ética cristã se interpõe, enquanto debatemos sobre a inclusão eucarística à luz do Evangelho. Um exemplo, a questão da homossexualidade é um assunto entrelaçado de confusões e preconceitos antes que de tratamento teológico sobre excluídos, segundo a proposta inclusiva do Senhor Jesus Cristo. Hoje, não se observam, irmãos bêbados contumazes, ou glutões e locupletados de alimentos, reivindicando a participação da mesa e do pão eucarístico? Como se denunciava existir na igreja de Corinto, imaginamos freqüentadores de cultos pagãos à fertilidade, blasfemos, bígamos, incestuosos, sexualmente imorais, bem-postos arrogantes, patrões que exploram empregados negando-lhes direitos sociais e trabalhistas; homens públicos, políticos, envolvidos com corrupção, defraudadores, sonegadores de impostos, nas celebrações? Se não se lhes nega a comunhão, quais seriam os critérios para negar a eucaristia aos excluídos? Critério sociológico-homofóbico? Critério teológico de eleição à vida de fé? Eles e elas são membros de nossas igrejas, refiro-me à listagem acima. Alguns são pastores, presbíteros e diáconos, professores na escola dominical. Quem os apontaria, se convidados na instrução para a celebração da comunhão?

 

Evocaremos, celebrantes e comungantes, para todos e todas, os pecados que nos tornariam “inabilitados” para a Eucaristia, inclusive aqueles constantes em “listas paulinas”, a partir das cartas aos cristãos coríntios e os demais, das igrejas gentílicas (cf. as epístolas e também Atos dos Apóstolos): violentos, mentirosos, impudicos, idólatras, adúlteros, depravados, travestis, gays, dragqueens, transformistas, transexuais, efeminados, sodomitas; ladrões, corruptos em todos os níveis, gananciosos, avarentos, banqueiros, agiotas, bêbados, injuriosos, participando da celebração, impondo-lhes restrição à comunhão? Ou, silenciosamente nos declararíamos incapazes de reprovar os outros, levando em conta nossos próprios pecados, inclusive o preconceito e a intolerância, uma vez que as Escrituras, no Novo Testamento, não definem graus de pecados, ou qualificam pecadores, para negar-lhes a comunhão? Quem se disporá, na instrução para a celebração da Santa Ceia, a indicar as condições de participação; a perguntar individualmente a cada um, se cometeu quaisquer dos pecados dos listados paulinamente, que supostamente tornariam alguém indigno da comunhão eucarística, incorrendo no perigo de esvaziar-se imediatamente a assembléia, e não restar nem comungantes ou celebrantes para o ritual prescrito? Nestas condições, o aviso “cada um examine-se a si mesmo”, honestamente, poderá ser crucial, se, de fato, como regra, for anunciado como pré-requisito à comunhão. 

 

A CEIA NUM TEMPO DE SALVAÇÃO

 

Lucas 14,1 (e 7-14) - A ceia, à qual os profetas convidam e que os apóstolos anunciam que está pronta, informa Joaquim Jeremias (As Parábolas de Jesus, Paulus, 1976), que os convidados desprezam e para a qual afluem os não convidados, e na qual só se deve participar com veste nupcial, é a “ceia do tempo da salvação”; a visitação dos hóspedes (v.11) é o juízo final, as “trevas exteriores” (v. 13) é o inferno (cf. Mt 8,12 ; 25,30 ). Em Mateus, portanto, nossa parábola transformou-se, num esboço da “história da salvação” desde o surgimento dos profetas no Antigo Testamento, através de reinterpretações alegóricas, passando-se pela destruição de Jerusalém até ao “juízo final”. Este esboço da história da salvação tenciona fundamentar a passagem da missão aos não familiarizados com as tradições religiosas dos judeus: “Israel não deu atenção à proposta escatológica de Jesus”.

 

Lucas mantém-se reservado diante da alegoria, porém. Nele encontram-se alguns traços alegóricos, mas não tão distanciados do original na mesma ênfase e larguesa de Mateus. Ele também pensou a ceia como o banquete do tempo da salvação, como demonstra a introdução em 14,15, e a expressão “minha ceia” completa o sentido (v.24). E já sabemos que para ele também a “cidade” é Israel e que a parábola simboliza o chamamento dos pagãos, ou dos estrangeiros. Pergunte-se, porém, já aqui, se estas alegorizações devam ser atribuídas ao próprio Lucas. Pelo menos a referência alegórica da “cidade”, em relação a Israel, e da “ceia”, comparando-a à “ceia do tempo da salvação”, eucaristia escatológica, não é obra dele. Mas como o mostra o acordo com Mateus, mais antiga dos dois evangelhos em questão, o próprio Jesus pronunciara a parábola. Estão de acordo? É claro, mas não como alegoria referente ao “banquete do tempo da salvação”. 

 

É PRECISO PAGAR INGRESSO PARA A PRÁTICA DO BEM?

 

Ali, em Mateus, a rejeição do convite por parte dos chefes de Israel recebe os devidos holofotes. Jesus sabe disso, e desafia: “A Lei permite ou não permite curar em dia de sábado”? Os devotos fariseus ficam em silêncio, embaraçados. Jesus cura o homem e explica que a vida humana está acima de qualquer outra coisa, até mesmo da instituição mais sagrada, como a do sábado. E os fariseus também sabiam disso. Só que não eram transparentes com o povo; ao contrário, deixavam-no inchado, espiritualmente doente, com a desculpa de servirem a Deus enquanto as prescrições são observadas: “Condutores cegos! que coais um mosquito e engolis um camelo. Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas interiormente estais cheios de hipocrisia e de iniqüidade” (Mt 23:24,28). Observando a competição pelos primeiros lugares, típica dos fariseus (cf. 20,46), Jesus retoma a sabedoria do povo (Pr 25,7), e dá um remédio aos inchados fariseus, acometidos de um surto legalista. Imaginemos a vergonha de ter que deixar o primeiro lugar e ir sentar-se no último... melhor ocupar o último lugar e, se for o caso, passar pela honra de ser depois convidado para o primeiro (Ivo Storniolo, Lucas, Paulus, 1992). Qual mais? Jesus desmascara a competitividade? Há em todos o desejo de sobrepujar os outros, “ficar por cima”, aparecer para gozar privilégios e mordomias, sem que ninguém tenha o direito de questionar? Muito menos se pergunta: quem paga o preço do exclusivismo e da exclusão? 

 

NÃO CONVIDE QUEM NÃO QUER SER CONVIDADO

 

No Reino da justiça, porém, a festa para a qual Deus convida a todos, quem oferece a honra dos primeiros lugares é o próprio Deus, e ele já determinou que esses lugares estão reservados aos pobres e humilhados, ao contrário do costume. Lucas faz uso da voz passiva, é para substituir o nome de Deus. Portanto, é um julgamento: a justiça de Deus consiste em se inverter aquilo que costumamos chamar “de direito, dignidade da autoridade convidada”. Certo, justo e louvável, para a maioria. Obedecer a praxe: “Manda quem pode, obedece quem é inteligente”. Dizem os gaúchos, nesses casos: “Quem está de fora não adianta granar o catete; quem não tem, não adianta querer...” O conselho que Jesus dá ao fariseu que o tinha convidado é outra inversão: não convide amigos, irmãos, parentes e ricos; convide pobres, aleijados, mancos, cegos. Os quatro primeiros são os convidados que podem retribuir o convite, ou que ficam obrigados a fazê-lo; os quatro últimos nada têm para retribuir. No primeiro caso temos uma relação comercial – tanto por tanto –, no segundo temos uma oferta de grutuidade. Nenhuma retribuição deve ser esperada. A prática do Bem acompanha a gratuidade divina, incondicional. Relembra, Lucas, o que escrevera (6,32-35), mostrando que o amor limitado e interesseiro não tem qualquer valor diante de Deus. Em troca, o amor gratuito empenha o próprio Deus a recompensar esse amor com a experiência da vida plena. Os pobres conhecem tudo isso. Quando recebem uma esmola, eles não se sentem obrigados a devolver (nem podem...). Os pobres só contam com Deus, estão sempre “com a barriga no espinhaço”. Os bem-postos, ao contrário, vêem-se obrigados à retribuição, de preferência à mesma altura.

 

FELIZES OS CONVIDADOS DE JESUS!

 

Esse banquete prefigura escatologicamente a refeição escriturística e se anuncia o banquete celeste (Shöekel, Evangelho Segundo São Lucas, in: Bíblia do Peregrino, Paulus, 2002). Há questões em pauta: quem são os convidados preferenciais? É constrangedora a oferta gratuita da comunhão incondicional, do ponto de vista social? Por que Jesus abre mão da inclusão eletiva original de Israel, questão teológica, em favor da inclusão preferencial dos deserdados? Pobres, aleijados, mancos, deficientes, cegos, configuram os alijados, tanto da sociedade civil (cidadãos improdutivos) como da sociedade religiosa (pobres são mal-sucedidos, não alcançaram a “retribuição implícita da vida consagrada”; deficientes, por causa do pecado dos pais, herança genética, pecadores, impossibilitados de orar no templo; excluídos da comunhão).

 

Os fariseus convidados vigiam Jesus para avaliá-lo, evidentemente sob o critério religoso regulamentar das observâncias (cf. Sl 37,32). O primeiro episódio reforça o tema da cura no sábado (13,10-17). A comparação do filho ou do boi caídos num poço (cf. Ex 21,33-34) torna mais aguda a situação. O interesse pelo animal ou o dever do Bem se sobrepõe à prescrição religiosa. O pai não precisa de permissão da religião para socorrer o filho. Para salvar alguém, Jesus reclama o mesmo critério. O segundo fala da inclusão dos marginalizados, econômica, social, eticamente. Dos deserdados socialmente.

 

Esses sentimentos não faltam na palavra de Jesus. Ele pergunta desafiando, comentando argumentando, sobre o que é maior. Ou seja: argumenta em favor da vida, do atendimento das necessidades vitais no cotidiano comum, no cuidado com os despojados de cidadania e deserdados dos bens sociais. Os discípulos de Jesus são desafiados a assumirem as mais escandalosas quebras protocolares para atenderem ao clamor da Graça quanto ao julgamento sobre a exclusão dos fracos, dos alijados física, ética e socialmente, a pretexto do convite interesseiro, mas negligente, em relação à sustentação do dom de Deus: a Vida. É o Apocalipse que dará o toque final da inclusão proposta por Jesus Cristo: “Felizes os convidados para o casamento do Cordeiro de Deus”(Ap.19,9).

 

Derval Dasilio

       Pastor da Igreja Presbiteriana Unida    

                                                               

Blog: Derval Dasilio - Escritos http://derv.wordpress.com/