21o.DOMINGO DO TEMPO COMUM  
 
                                   Ano "C

Jeremias 1,4-10 – Ele disse: Eu ponho minha palavra na boca do profeta

Salmo 71,1-6 –  Liberta-me, Senhor, com a tua justiça!

            Hebreus 12,18-29 – Realize em nós sua justiça, por Jesus                      Lucas 13,25–33 – Jesus e a religião da justiça              

                                               

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A PORTA DA JUSTIÇA É APERTADA!

 

Hoje, poderíamos falar do legalismo religioso enfrentado por Jesus Cristo, enquanto vigiado pelas autoridades religiosas de seu tempo: “Saíram pensando em matar Jesus…” (Mc 3,1-6), quando constataram a desobediência profética do Homem de Nazaré. Heróis nas lutas por libertação no século XX, como Mahatma Ghandi, Martin Luther King, Nelson Mandela, jamais teriam chance de fazer o que fizeram, se dependessem da aprovação oficial da igreja cristã, para não falar da fé fundamentalista e legalista de igrejas evangélicas. Já contei antes, porque ouvi de outro: Ghandi leu o Novo Testamento numa noite, quanto morava na África do Sul. Ao amanhecer, convicto de que encontrara orientação certa para sua causa em favor da Índia sob o colonialismo europeu, britânico, procurou uma igreja cristã. Deparou-se com uma igreja evangélica, dispôs-se a entrar. Imediatamente viu a observação numa placa, na porta do templo: “É proibida a entrada de cães e negros”. Nunca mais entrou numa igreja cristã, parece, embora impressionado pelo Evangelho. Não há notícias, da época, sobre qualquer apoio evangélico ou cristão à causa de Gandhi, exceto um pastor anglicano que o acompanhou por muitos anos, desde a África do Sul.

O legalismo sempre está próximo do preconceito e do exclusivismo, entre cristãos. A palavra “eqüidistância”, no entanto, é bem freqüente entre evangélicos, quando está em questão alguma luta libertária, em qualquer parte do mundo. Exceção para o mundo ecumênico. É bem conhecida a luta de Luther King com o evangelicalismo fundamentalista dos EUA, que o desaprovava e perseguia, em clara manifestação racista fundamentada supostamente em “ensinamentos bíblicos sobre diferenças raciais”, como diziam os cristãos que reagiam contra a cessão de direitos iguais para todos os cidadãos e cidadãs negros, a favor do apartheid que ainda existe na sociedade norte-americana (cf. Crash, filme, rot./dir. Paul Haggis). Nelson Mandela passou anos na prisão, em razão da defesa de causa semelhante, na África do Sul.

Onde está a Igreja ou o cristianismo oficial sob o legalismo evangélico ou protestante, nestas situações de opressão, discriminação e exclusão? Logo se declara eqüidistante, no mais das vezes. Quando não se omite inteiramente. Quantas vezes as igrejas estiveram ao lado das ditaduras, especialmente na América Latina, quando igrejas e organizações “cristãs” se diziam eqüidistantes, tratando de sufocar lideranças na resistência ao autoritarismo militar, denunciando irmãos ao aparelho repressor do Estado, como fizeram com o pastor Jaime Wright e seu irmão, presbítero Paulo Wright (este, preso, torturado e morto pela polícia política da ditadura militar que subjugou o Brasil por vinte um anos; Jaime Wright, pastor presbiteriano líder na luta pelos Direitos Humanos durante a ditadura militar, que morreu deprimido e desgostoso, alijado pela igreja a quem servira por décadas)? Os nomes são apenas alguns entre inúmeros exemplos na Igreja sob a ditadura militar, como os do presbítero Waldo César e do pastor Zwínglio M. Dias, inclusive. Não nos impressiona a posição sistemática, histórica, do protestantismo brasileiro em favor da repressão política e religiosa. Hoje, a luta das minorias sexuais, a integração indígena com indenizações cabíveis ao holocausto imposto, que dizimou, talvez, 3.500 milhões de nativos, fazem parte desse inconsciente preconceituoso que nos toma a todos. Inclusive na religião.

Lucas 13,25–33 – Jesus vai pouco a pouco se confrontando com a religião que oprime em vez de libertar. Sua proposta é o Reino de Deus, que tira o fardo das costas das gentes curvadas (13,10-17) e que age como nova semente e fermento, transformando a realidade (13,18-21). Contudo, a porta para o Reino é estreita, e consiste na prática da justiça (13,22-30), provocando a reação dos poderosos (13,31-33), e a manifestação repressiva da mídia subserviente, as quais se concentram na cidade que, em vez de produzir a religião que liberta, produz a “religião que mata” (13,34-35). Jesus tira o fardo das costas do povo (13,10-17).

 

Jesus desmascara a hipocrisia de uma religião que não só não liberta as pessoas dos seus fardos, mas também lhes impõe um fardo extra nas costas. Como? Um animal vale mais do que uma pessoa humana? Se o animal pode ser liberto em dia de sábado, por que não uma pessoa que se mata no trabalho a semana inteira durante a vida toda? O que pensar de uma religião que se apresenta como representante do Deus que liberta e dá a vida, mas que, na prática, escraviza e mata as pessoas, já escravas, esmagadas e mortas por sistemas políticos, econômicos, sociais, que lhes suga até a última gota de sangue e dignidade? Essa “religião” não estaria justamente a serviço desses sistemas? (Ivo Storniolo, O Evangelho de Lucas, Paulus).

 

Em lugar da religião que oprime e mata o espírito da liberdade, Jesus propõe o Reino que liberta e dá vida e liberdade. Mas como vem esse Reino? Através da imposição, no estilo das velhas religiões, feitos de exigências exorbitantes ou cobrando, através de preços variados, a “salvação”? De jeito nenhum. Vem como semente e fermento. É o sopro do Espírito da Vida, que vai penetrando e transformando tudo. A semente é pequenina, mas produz uma grande árvore, que abriga a todos com sua sombra e a todos alimenta com seus frutos. Também é um fermento que leveda a massa. Em outras palavras, no Reino de Deus a religião repousa em gestos libertadores que se alastram e transformam a realidade humana. O evento da liberdade ocorre no ambiente cultural da economia, da política, da religião.

 

Quem é que se salva? São poucos? São muitos? São aqueles que amam e praticam as regras religiosas? São aqueles que vivem piedosamente participando do culto? Jesus responde diretamente, aconselhando fazer “todo o possível para entrar pela porta estreita” (18,24). Que porta é essa? Conforme o que se diz logo em seguida, é a porta da conversão: “Afastem-se de mim, todos vocês que praticam injustiça” (13,27). A entrada no Reino, portanto, depende da prática da justiça. Sem ela nada tem sentido (nem regras religiosas, nem atos, nem celebrações religiosas). Com a justiça tudo tem sentido, porque a Palavra penetra e é pela ação que ela cria os meios e liberta (hebraico=davar e no grego logos), fazendo experimentar o verdadeiro sabor da vida e da liberdade.

 

São poucos ou são muitos os salvos? Quem sabe, mesmo que os templos estejam botando gente pelo ladrão? Mas Jesus, porém, deixa claro que são todos os que praticam a justiça que Deus quer, sejam eles pertencentes a uma religião originalmente libertária, como a de Israel,  (13,28); sejam eles gentes de quaisquer partes do mundo e de qualquer tempo da história, especialmente desde o cristianismo inicial. Deus e o Reino não têm fronteiras, e sua “religião”, o culto aceitável, só conhece uma exigência fundamental: a prática da justiça! É ela que provoca relações de eternidade (dimensão política da cultura religiosa) e de partilha (dimensão sócio-econômica), a fim de produzir um mundo novo, de liberdade e de vida.

 

 

Derval Dasilio

       Pastor da Igreja Presbiteriana Unida    

                                                               

Blog: Derval Dasilio - Escritos http://derv.wordpress.com/