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              20o.DOMINGO DO TEMPO COMUM  
 
                                   Ano "C

Isaías 5,1-7   Deus amou Judá e Israel, um dia...

Salmo 80,1-2;8-19 – Quando gritavas sob opressão eu te libertei

Hebreus 11,29 -12,2 – Ninguém, no entanto, logrou a realização da promessa

Lucas 12,49-59 – Jesus veio para dividir o bloco dos conformados                

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                              QUE  SALVAÇÃO PROPÕEM OS ESPÍRITOS PERVERTIDOS?

 

As comunidades de Lucas apresentam um novo rosto, diferente do das comunidades da Judéia, da Samaria e da Galiléia, de cunho mais rural. São comunidades urbanas. No evangelho de Lucas, a palavra grega pólis (= “cidade-Estado” na Grécia antiga) aparece 40 vezes; em Mateus, 26; e em Marcos, 8. Lucas não quer complicar ainda mais a situação dos cristãos que já estavam sendo perseguidos quando a primeira parte da sua obra fora escrita. Ele demonstra simpatia pelos romanos ao dar a  entender aos mesmo que eles ignoravam o que estava por trás de tudo. Melhor infiltrar-se do que confrontar-se com força muitíssimo superior. Lucas é intransigente em face da opressão econômica e quanto à exigência ética do cristianismo, mas, para fazê-la prevalecer, não se nega ao diálogo cultural e político, a fim de canalizar para o Bem a força histórica do Mal. Lucas percebeu, como mais tarde Paulo Freire, que "a melhor forma de amar os opressores é tirar das mãos deles as estruturas da opressão".

 

Nos outros evangelhos sinóticos, o ensinamento é realizado, predominantemente, com base em imagens da natureza, do campo e do trabalho rural (cf. ovelhas, videira, semente, semeador, pastor, etc.). No livro dos Atos essas imagens não aparecem. Isso dá a entender que são comunidades mais urbanas. De fato, no livro dos Atos dos Apóstolos, a palavra cidade aparece 42 vezes. Há um contraste que aparece sobretudo em Lucas: de um lado os pobres, famintos, perseguidos, aflitos (Lc 6,20-23) e do outro, os ricos (Lc 12,16-21) que se banqueteiam sem tomar conhecimento da miséria na sociedade (Lc 16,19-31), e nem se diga que não eram bons religiosos... Para as comunidades lucanas era importante “não dar murro em ponta de faca”.

 

As comunidades nas quais há cristãos continuam ligadas às instituições do Império Romano (Lc 7,1-10). Toda essa tensão já se experimentava nas comunidades paulinas, décadas antes. Jesus fala a partir da experiência comum dos homens e das mulheres. Na Palestina, o vento que vem do mar (ocidente) traz chuva, ao passo que o vento que vem do deserto (sul) traz calor. Todos sabem disso. E, principalmente as autoridades religiosas, deveriam saber reconhecer os sinais da chegada do Reino através das palavras e dos atos libertários de Jesus. Não, Jesus não é apenas um subversivo que veio fazer uma revolução política, econômica e social. Ele fez muito mais que isso: subverteu todos os valores criados pela ideologia da abundância, do poder, da riqueza e do prestígio – colocando em seu lugar os valores da fraternidade e da partilha, que geram liberdade e vida para todos.

 

Qualquer um pode constatar que esse é o reino da justiça, o Reino de Deus. Por isso as pessoas não devem ficar esperando que os bem-postos e os poderosos lhes tragam a salvação. Não importa que sejam representados nos projetos da política, da economia, ou da religião propositista. As pessoas devem aprender "por si mesmas" (12,57), que só o projeto de Jesus poderá libertá-las da escravidão e da morte, para uma missão diaconal de serviço ao mundo (Cf. João 3,16: Deus amou o mundo!, e não somente os seguidores de Jesus, ou modernamente, na comunidade lucana: os  cristãos”). O Reino de justiça alcança a política, a economia, a religião, com a qual não sonham os falsos profetas a serviço dos sistemas opressores camuflados pela religião submissa (ls 6,I4; Sl 1l; Ez 13,10-16). 

 

Isaías 5,1-7 – Precisamos entender que o Primeiro Isaías também viveu dentro de um contexto histórico com muitos problemas econômicos, sociais, políticos e religiosos, em nível nacional e internacional. Trabalhando no Templo, no centro do sistema, essa situação e seus reflexos na sobrevivência da nação judaica, na casa davídica e na vida do povo, atingiram o coração do profeta e o levaram a dizer qual era a sua compreensão da "Palavra de Deus" naquele momento. Para facilitar o entendimento da palavra profética, divide-se o período histórico da atuação do Proto Isaías em quatro etapas. Nesta divisão seguimos as informações contidas no capítulo 1,1: “Visão de Isaías, filho de Amós, sobre Judá e Jerusalém, no tempo de Ozias, Joatão, Acaz e Ezequias, reis de Judá” (1,1). Após levantarmos alguns dados da realidade econômica, social, política e religiosa da época, procuraremos ver qual a mensagem do profeta diante de tal situação.

 

O primeiro capítulo, ‘tempo de prosperidade”, está situado no período histórico dos governos de Ozias e Joatão (740-736 a.C.). Nesse momento Judá vive um tempo de independência, prosperidade e paz. No segundo capítulo trabalha-se a época do reinado de Acaz (736-716 a.C.). O enfoque mais forte é a Guerra Siro-Efraimita (735-734 a.C.). Os primeiros anos do governo de Ezequias são tratados no terceiro capítulo, cujo tema é o movimento anti-assírio (727-711 a.C.). Dando seqüência a essa situação de guerra, temos no quarto capítulo o cerco de Jerusalém, que corresponde à segunda parte do governo de Ezequias (705-701 a.C.). Aqui se encontra a situação de guerra e a quase destruição de Jerusalém. No quinto capítulo procuramos nos aproximar da pessoa de Isaías e contemplar mais de perto seu relacionamento com Deus e com o povo (Shigeyuki Nakanose).

 

Lucas 12,49-59 – A “divisão” das famílias da fé israelita é comum na tradição profética, que a denuncia freqüentemente. A “divisão” é uma característica da tribulação do fim dos tempos (Miquéias 7,6; Ageu 2,22; Malaquias 3,24). Jesus voltará a falar sobre isto em Lucas 2l,l6 e a partir de 12,54 a l3,9. Uma série de ensinamentos sobre a urgência da conversão: um apelo a discernir os sinais presentes (vv. 54-56), uma parábola sobre a necessidade de pôr em ordem a própria alma antes do julgamento (vv. 57-59), um comentário sobre os fatos de atualidade que convidam à conversão (13,l-5). Uma parábola sobre o último prazo concedido para dar frutos segue-se à perícope em questão (Lc 13,6-9). (TEB).

 

“Ó espíritos pervertidos (cf. 6,42), literalmente hipócritas, saibam reconhecer os aspectos desse tempo, das realidades terrenas e das inclinações espirituais”, “da terra e do céu”. Lucas fala desse tempo, o tempo de Jesus, que é fácil de ser reconhecido, pois os sinais são claros (722; 11,20). O ponto de vista aqui é diferente do que se verifica em Mateus, onde esta parábola serve para se expor o dever da compaixão fraterna. Aqui se insiste na urgência de reconciliação antes do julgamento. Este matiz escatológico aproxima-se mais, sem dúvida, da intenção primeira da parábola. Duas declarações paralelas de Jesus tiram a lição dos acontecimentos trágicos recentes relativos a Jerusalém (os escritos de Lucas são datados, com aproximação, de 85 d.C.).

 

Muitos pensam que Jesus veio para misturar preto com branco, transformando tudo em cinza, gris, nebulosidade, mistério... mas é justamente o contrário. Ele, em si mesmo, é “um sinal de contradição” (2,34). Com toda clareza, veio para produzir o julgamento. Não que ele julgue. Na verdade ele é o espelho que revela o que cada um é. Diante dele as pessoas compreendem o que estão vivendo, cai a ficha, e se dividem (ler João 3,16-21). O fogo é o fogo do Espírito, que fará a comunidade dos seus seguidores continuar o que Jesus começou (cf.Atos 2,8). Isso só será possível quando, através da morte, Jesus terminar a sua missão (levar ao compromisso com a causa de Deus). O testemunho de Jesus mostrará plenamente o que é o projeto de Deus e o que são os projetos diabólicos ao redor da realidade humana, a partir da política, da economia, da religião, e forçará a uma decisão. Decisão que provocará divisões até nas relações mais íntimas (Pesquisa:Tradução Ecumênica da Bíblia, Ivo Storniolo e Gilvander L.Moreira;Texto final: Derval Dasilio).

  

Derval Dasilio

       Pastor da Igreja Presbiteriana Unida    

                                                               

Blog: Derval Dasilio - Escritos http://derv.wordpress.com/