19o.DOMINGO DO TEMPO COMUM  
 
                                   Ano "C"

 

Isaías 1,1; 10-20 – O povo perdeu a fé...

Salmo 50,1-8 – Escuta, meu povo, vós prostituístes a fé de Israel

Hebreus 11,1-2.8-19 – A fé ensina a insatisfação com esperanças imediatas

Lucas 12,32-48 – Vós também, ficai preparados!                     

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                              VIGILÂNCIA, COM FÉ E ESPERANÇA ACIMA DE TUDO

 

A fé ensina a não nos darmos por satisfeitos com os sucessos materiais e nem com esperanças imediatas. Igrejas cheias - mas de gente sem fé, sem esperança, avivadas, que entra pela porta da frente em ondas, sai pela porta dos fundos em multidões - denunciam as desconfianças sobre um cristianismo eclesiástico, sem fé na essência, falsificado na religião com propósito imediatista de sucesso a qualquer custo. Um cristianismo clonado da experiência inicial da igreja contaminada pelos judaizantes combatidos pelos apóstolos de Cristo também comparece. Nele não há lugar para Paulo e Lutero, pregadores da Graça salvadora.  Ingmar Bergman, cineasta imprescindível, faleceu.  Antes, porém, deixou obras primas inesquecíveis. Em Morangos Silvestres deixou essa afirmação instigante: “a fé é uma aflição dolorosa”. Para muitos, não é, no entanto.

 

O cristianismo simbólico dispensa a fé, e desconhece a esperança, envolvido que está com o propósito multitudinista, propositista, mas sem essência. Não é inclusivo; não considera a luta da mulher por direitos iguais; despreza as minorias sexuais e as alija da vida de fé; esquece das crianças sob forte risco social, condenadas à marginalização perpétua em relação à sociedade moderna. Esta, provida de recursos essenciais para sustentar a dignidade de seus membros (e todos se dizem cristãos, raras exceções...), ignora a pobreza e a miséria enquanto paga o preço da indiferença, através de consumistas compulsivos, drogaditos, alcolistas, sexoaólicos, workaólicos, no mesmo plano do abandono social que marca esse tempo. Jovens cristãos servem à alienação dos louvores gospel, pele tremida pela oração avivalista, enquanto ocupam altares, olhos revirados. O púlpito e a mesa da comunhão são substituídos por guitarras, microfones, auto-louvor, onde Deus já não comparece para consolar o seu povo, uma vez que foi expulso. Não há lugar para a oração e a pregação no novo culto.

 

Abraão acreditou até mesmo sob ameaça de morte. Sofreu os efeitos da esterilidade de Sara e a falta de descendência para a continuidade da missão que lhe fora entregue. Esta prova foi para ele a mais terrível, porque o patriarca se aproximava da morte sem ter recebido o presente da promessa. Aqui se torna realidade a última qualidade da fé: aceitar a morte sabendo que nada poderá fazer fracassar o desígnio de Deus. Mais que o sofrimento, a morte é o sinal por excelência da fé e da entrega incondicional a Deus. Abraão acreditou naquilo que está além da morte biológica, acreditou que lhe seria concedida uma posteridade, inclusive num corpo já declinante, porque lhe havia sido prometida descendência para a continuidade da fé. Esta fé também constitui o essencial da atitude de Cristo diante da cruz. Também ele se entregou ao Pai, e à realização do desígnio divino. Mas teve que amargar o fracasso total de seu empreendimento: para congregar seu povo, para a salvação da humanidade. Encontra-se isolado, por fim, mas confiando sempre que após a morte, a ressurreição esclarecerá tudo. Disse alguém sobre o tronco donde brotou o povo de Deus em todas as suas ramificações. Reconhecemo-lo na diversidade dos povos abraâmicos.


Lucas 12,32-48 - O evangelho apresenta algumas recomendações que têm relação com a parábola do domingo anterior, sobre o rico imprudente. Os exegetas diversificam, quanto à estrutura que está presente no texto, e não determinam as unidades que estão presentes na  composição. A atitude de confiança com a qual inicia o texto não deveria ser omitida: “não temas, meu pequeno rebanho, porque o meu Pai entregou-lhes o reino”. Esta exortação à confiança, ao estilo do Antigo Testamento, e que agrada Lucas, expressa a ternura e a proteção que Deus oferece a seu povo. Mas expressa também a auto-compreensão das primeiras comunidades conscientes de sua pequenez e impotência. Viviam, sem dúvida, a segurança da vitória futura do Reino. Pequenas igrejas, comunidades de testemunho, encontram inspiração nessa igreja ínfima, fraca, porém emulada pela fé e a esperança.

 

A bondade de Deus, seu amor sem medidas, nos presenteou o Reino. A partir daqui devemos entender a exortação seguintes: - Se o reino é dom, tudo o mais é supérfluo (bens materiais, paliativos políticos, sucesso eclesiástico, etc.). Recordemos os relatos de Lucas no livro dos Atos dos Apóstolos. Lucas convida à vigilância, consciente da ausência de seu Senhor, a uma comunidade que espera seu regresso. Mas não de maneira iminente como acontecia nas comunidades de Paulo (cf. 1Ts 4,5). A Igreja de Lucas sabe que vive os dias nos quais o homem acolhe ou rejeita de forma definitiva a salvação como um presente. Cristo veio, e há de vir, está acima da história, porém age na mesma, aqui e agora. A história atual, de fato é o tempo da Igreja, tempo de vigilância, de escuta, de olhos bem abertos para a realidade e os pecados estruturais do mundo onde deve testemunhar a presença salvadora de Jesus Cristo (Pesquisa no Serviço Bíblico Latino-Americano).

 

Isaías 1,1; 10-20 - Os israelitas, oprimidos no Egito, experimentaram que o Senhor era o seu salvador, na noite em que morreram os primogênitos dos egípcios. Por isso, aquela noite teve um significado transcendental para a história dos hebreus. Recordavam as promessas que Deus havia feito a seus pais, que desde então Israel foi um povo livre e consagrado ao Senhor. A primeira ceia do cordeiro serve de modelo ao que haveria de ser o centro da vida religiosa e cultural da futura igreja pascal. A participação num mesmo culto simbolizava a comunhão solidária de um povo num destino comum. Agora, porém, os israelitas perderam a fé (como os membros do povo futuro repetiriam). E por isso, por imediatismo, não praticam mais o direito e a justiça. Assim Isaías descreve a realidade dos seus primeiros anos de vida e de seu ministério profético:

 

“Como se transformou em prostituta a cidade fiel! Antes era cheia de direito, e nela morava a justiça; agora, está cheia de criminosos! A sua prata se tornou lixo, o seu vinho ficou aguado. Os seus chefes são bandidos, cúmplices de ladrões: todos eles gostam de suborno, correm atrás de presentes; não fazem justiça ao órfão, e a causa da viúva nem chega até eles. Pois bem! Ai de vocês! – oráculo do Senhor Javé dos exércitos, o Poderoso de Israel. Eu me vingarei dos meus inimigos e pedirei satisfação aos meus adversários. Voltarei a minha mão contra você, para limpá-la da sujeira com soda e tirar a impureza. Darei a você juízes como os de antes e conselheiros como os de antigamente. Então você se chamará cidade da justiça, cidade fiel”(Is 1,21-26).

 

Isaías lamenta a atual situação de Jerusalém, a cidade escolhida de Javé. Antes, estava “cheia de direito, e nela morava a justiça; agora, está cheia de criminosos”. Isso, na visão de Isaías, faz dela uma prostituta. A imagem é a do matrimônio corrompido. Jerusalém ou o povo é a mãe de família que gera e acolhe. É a esposa do Senhor, a quem deve fidelidade. Temos aqui um eco do profeta Oséias 2,21-22. Essa fidelidade consiste em administrar a cidade com justiça. Conforme diz o Salmo 122,5: “Aí estão os tribunais da justiça, no palácio de Davi”. O que nos dá a entender que a palavra do profeta se dirige aos governantes, primeiros responsáveis para que haja justiça no país. O profeta escreve a memória de um tempo em que Jerusalém cumpria fielmente sua missão de praticar o direito e a justiça. Representa, agora, uma escola de fé (cf.Shigeyuki Nakanose e Enilda de Paula Pedro, O Primeiro Isaías, Paulus).


Hebreus 11,1-2.8-19 –
Esse amplo capítulo sobre a fé contém uma definição da fé, uma série de personagens exemplares, com ou sem comentá-lo, e uma série de situações genéricas ou concretas. O sistema é do denominador comum: a fé, entendida à maneira do autor, assemelha e reúne a todos. Logicamente, o procedimento é um tanto reducionista; embora os casos se sucedem na mente do leitor, supondo que conheça os relatos bíblicos correspondentes. É provável que os ouvintes não os conhecessem com a perspectiva da fé. Era preciso reencontrar a fé, talvez. Pensaria o escritor bíblico.

 

O procedimento tem antecedentes no AT dêuterocanonico (Sb 10). Emprega como denominador comum a “sabedoria”, omitindo os nomes como que desafiando o leitor. Em versão mais ampla, o elogio dos antepassados, para glória de Deus (Eclo 44-50). Também o leitor moderno tende a enriquecer-se com a série de testemunhos em Hebreus 11, com a recordação dos relatos bíblicos no caminho da fé. A definição da fé não é tão clara quanto se poderia esperar. Contém dois substantivos que admitem interpretação objetiva ou subjetiva. Hypóstasis é a garantia oferecida ou a confiança experimentada; élegchos é a prova da promessa ou a esperança suscitada (Bíblia do Peregrino, Comentários Bíblicos, Paulus).

 

Por todo o contexto, parece preferível a interpretação subjetiva, pois se trata de atitudes fundamentais, provocadas e sustentadas por algo objetivo, isto é, a promessa de Deus. Dessa forma, a fé da qual o autor fala, exceto no primeiro artigo, se parece mais com a esperança. A fé de Abraão e dos patriarcas serve de exemplo. Para incentivar a perseverança na fé que traz a salvação, a carta aos Hebreus faz referência a uma série de testemunhas. Abraão, como os hebreus do século I, experimentou a imigração, a ruptura do meio familiar, e nacional, e a insegurança das pessoas desterradas ou desorientadas (cf. dissemos no início). Mas, nessas provas Abraão encontrou motivo para exercer um ato de fé na promessa de Deus. A fé cristã faz sentido com a presença de Abraão marcando a história da salvação (Fundo musical: Minha Fé, Mozart).

 

 

Derval Dasilio

       Pastor da Igreja Presbiteriana Unida    

                                                               

                 Blog: Derval Dasilio -
Escritos http://derv.wordpress.com/