18o.DOMINGO DO TEMPO COMUM

Ano "C"

Oséias 11,1-11 – Meu povo é obstinadamente apóstata                      

Salmo  107, 1-9 (40) –  Alguns extraviaram-se por desertos afora

Colossenses 3,1-11 –  Fazei morrer em vós os maus desejos

Lucas 12,13-21 –  Meu Pai entregou-lhes o reino...

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NO REINO: MENOS “PATRÕES”, MAIS SERVIDORES...

 

Por que razão viver submissos ou dependentes de outros, para nos manifestarmos, ou para tomarmos iniciativas cristãs em favor do Reino de Deus? Por que não viver como “os do mundo”, sem nenhuma preocupação, vivendo de modo irresponsável? Por que Jesus nos recorda que “à hora que menos esperam, virá o Filho do Homem”. Este Filho do Homem chega “como um ladrão”, isto é, sem avisar, como um Senhor que volta para casa de noite, sem avisar que hora vai chegar; como um senhor que deixa um encarregado e pede contas, inesperadamente. Não devemos interpretar que o Senhor chega somente na hora de nossa morte, como insiste a pregação salvacionista sobre a escatologia do indivíduo. Cristo chega  em vários momentos de nossa vida. Chega nos acontecimentos, nas pessoas, nas coisas, em sua palavra escrita... Estamos vigilantes? Duas coisas que podemos concluir deste evangelho que acabamos de ler. A primeira: não ter medo. O amor de Deus dá consistência à nossa vida. Sem essa confiança básica, sem essa libertação do medo, não é fácil esperar, porque permanecemos prisioneiros de nossa própria busca de segurança. A segunda: “carregar poucas coisas”, o desejo incomensurável dos bens que atormentam a nossa vida e tiram nossa tranqüilidade, pressionam nosso coração. Quantos deixaram o Senhor passar por suas vidas e não são capazes de descobri-lo, pois seu coração está ocupado por outros desejos (onde está teu dinheiro, aí está o teu coração, como sugere o Evangelho...). A expectativa de alcançar tesouros e bens é bem ilustrada na parábola rabínica: “Um homem descobre um cofre enterrado. Manda desenterrá-lo. Ao abrir o cofre, uma surpresa: dentro, ainda pulsando, estava seu coração...”

 

Portanto a confiança em Deus, e o desprendimento, torna possível uma sadia e feliz espera vigilante. O evangelho de hoje nos apresenta algumas recomendações que têm relação com a parábola do rico imprudente. A atitude de confiança com a qual inicia o texto não deveria ser omitida “não temas, meu pequeno rebanho, porque o meu Pai entregou-vos o reino”. Esta exortação à confiança, ao estilo do Antigo Testamento e que agrada a Lucas, expressa a ternura e a proteção que Deus oferece a seu povo, mas expressa a auto-compreensão  das primeiras comunidades: conscientes de sua pequenez e impotência, viviam, sem dúvida, a segurança com Deus. A bondade de Deus, seu amor sem medidas, nos presenteou o Reino.

 

A partir daqui devemos entender as exortações seguintes. Se o reino é dom, tudo o mais é supérfluo (bens materiais). Recordemos os relatos dos Atos dos Apóstolos sobre a solidariedade nos bens repartidos. Lucas convida à vigilância, consciente da ausência de seu Senhor, a uma comunidade que espera seu regresso, mas não de maneira iminente como acontecia nas comunidades de Paulo (cf. 1Ts 4,5). A Igreja de Lucas sabe que vive nos últimos dias nos quais o homem acolhe ou rejeita de forma definitiva a salvação, aqui, como um presente. Cristo veio, e há de vir, está fora da História, porém age aqui e agora. O tempo da Igreja é tempo de vigilância.


Fitzmyer ilustra esta refinada concepção da História, aparecem várias recomendações que podem ser consideradas como os “retalhos de uma hipotética parábola”. O importante será descobrir em quais destas recomendações temos que esperar de maneira vigilante. A pregação histórica de Jesus tem estas máximas sobre a vigilância e a confiança. Agora, neste texto elas estão revestidas de caráter escatológico. O ponto chave está no imperativo: “estejam preparados”; ou seja, é preciso estarmos preparados hoje. Tarefas não faltarão. À luz de uma certeza sobre o futuro, fica determinado o presente. Esta é a compreensão da História em Lucas: “Hoje se cumpriu” (4,21), “está entre vós”(Lucas: 17,20-21) e “há de vir” (17,20). O Reino é ao mesmo tempo, presente e algo ainda por vir. Daqui a dupla atitude que se exige do cristão: desprendimento e vigilância.

 

É necessário se desprender dos cuidados e dos bens deste mundo, dando assim testemunho de que se buscam as “coisas do céu” (como Mateus aponta: coisas de Deus). A vigilância cristã é ensinada constantemente por Cristo (Mc 14,38; Mt 25,13). A vida do cristão deve ser toda ela uma preparação para o encontro com o Senhor. A morte que provoca tanto medo naquele que não crê, para o cristão é uma meditação: marca o fim da prova, um nascimento para a vida. A reconstrução a partir do encontro com Cristo conduz à Casa do Pai.

 

A intervenção de Pedro, demonstra que a exortação de Jesus sobre o significado de agir e perseverar na vigilância é, em primeiro lugar, referência aos que são “cabeças” da comunidade, ou melhor, para os que “estarão a serviço” da comunidade. A ressurreição à vida depende do modo como exercitarão este serviço. Adulto é aquele que assume a própria responsabilidade. É comum jogar a culpa nos outros, da situação que se vive. O avião cai, o presidente é responsável... Sempre julgamos que a culpa é dos outros, dos dirigentes, do governo, do tamanho, da falta de preparo, do sexo... estamos sempre à procura de culpados...

 

Uma forma de medir a maturidade também cristã é sabermos examinar-nos a nós mesmos sem pretextos e reconhecermos nossa própria parte de responsabilidade. O evangelho apresenta o cristão em atitude de vigilância e com a mentalidade de um administrador, não de dono! Só Deus é dono e Senhor. O mundo seria melhor se houvesse menos discussões e mais ação e trabalho? Provavelmente, assim, o mundo e as igrejas teriam necessidade de menos “patrões” e mais “servos”. Talvez possamos dizer... Jesus nos chama à atenção: reclamação e a crítica destrutiva não servem para nada, mas a humildade, quando a colocamos no centro de nossas relações, e trabalho, darão bom fruto. E esta é a primeira queixa de Jesus para com seus discípulos omissos.

 

O crente supera a insegurança que o mundo lhe oferece e vive com a certeza de que o espera: Deus e seu Reino. A vigilância é uma espera ativa e responsável, espera-se realizando as tarefas recomendadas. Levar uma vida vigilante, atenta e acordada, antenada, é muito importante, pois Deus é como o amigo que chega sem avisar. Hoje o evangelho nos convida a estar preparados e vigilantes. As leituras deste domingo nos convidam a recordar que o cristão vive a vida “na espera vigilante”. É um tema recorrente no evangelho observar os sinais dos tempos. (Pesquisa: Serviço Bíblico Latino-Americano).


 

Derval Dasilio

Pastor da Igreja Presbiteriana Unida

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