17o.DOMINGO DO TEMPO COMUM

Ano "C"

Oséias 11,2-10 – Oravam por deuses estranhos, pecavam                          Salmo 85 –  Favoreceste-nos, perdoaste os pecados solidários do teu povo Colossenses 2,6-11 (16-19)   Em Cristo, todos os tesouros da oração         Lucas 11,1-13 –  Pai nosso, vem estar conosco...

-------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------ABANDONAR A AUTOSUFICIÊNCIA E ORAR

 

A oração faz parte da vida do povo israelita. Os salmos eram recitados na liturgia do Templo como na sinagoga e nas devoções diárias. Tradição das mais antigas desse povo. Os piedosos voltavam seu espírito a Deus várias vezes ao dia. Jesus aprendeu, com o seu povo e sua tradição de orar. Como bom israelita, aprendeu a orar e rezar na família e na sinagoga. Em seu ministério, sua oração adquire uma particularidade: sua proximidade a Deus, “seu Abba” (Paizinho). Lucas o descreve em oração várias ocasiões (3,21; 5,16; 6,12; 9,29). Alguns exegetas reconhecem em Lucas a mais fiel da oração do Pai Nosso, que é a mais breve. Do aramaico passou para o grego e assim Lucas a incluiu em sua narração.  Pedimos muitas coisas, mas o pão de cada dia empolga. Sem ganância, sim, porque Deus proverá. Como o Maná do deserto, o pão de cada dia é um dom maravilhoso da misericórdia de Deus. Com este pedido do pão quotidiano estamos querendo pedir que nos livre do desemprego, ou do custo alto dos alimentos e das demais coisas necessárias à sobrevivência, e das inundações e secas que acabam com os cultivos, e dos monopólicos agrícolas que impedem os camponeses de terem terra e fazer suas colheitas; emprego para o chefe de família que precisa manter a família, ajuda para as mães adolescentes abandonadas; proteção para os idosos abandonados. Todos os dias necessitamos do Pai Nosso, por isso precisamos pedir, em todos os dias. Pedimos também pelo perdão dos nossos pecados. Pecados estruturais, quando solidários com sistemas opressivos, exploradores do trabalho e da força dos homens. O perdão é uma arte que se consegue com infinitos exercícios. Santo Agostinho ensina que Deus não escuta a oração que algumas pessoas fazem, porque antes não perdoam àqueles que os ofenderam, ou porque não pediram perdão ao Senhor pelos seus próprios pecados. Sem pedir desculpas pelos pecados da conivência com dominadores e exploradores, como queremos que Deus nos conceda as bem-aventuranças que lhe estamos suplicando? É uma recordação muito oportuna para que não nos venha a ocorrer jamais a mentirosa idéia de crer-nos como companheiros de Jesus, se não somos capazes de responder à sua pergunta: “Quando me vistes”?  (Mt 25,37-39). Deus põe uma condição para perdoar-nos: não podemos obter perdão do céu, se não perdoamos aqui na terra. “No dia do Juízo não terás desculpas: serás julgado como julgaste os outros. Condenar-te-ão porque não quiseste perdoar aos demais, e te absolverão se souberes perdoar sempre” (Cipriano).

 

Entre os pais apostólicos, Tertuliano dizia que o Pai Nosso é o resumo de todo o evangelho. E Cipriano afirma que ao Pai Nosso não falta nada para ser uma oração completa. Paulo dirá: “E vocês não receberam um Espírito de escravos para recair no medo, mas receberam um Espírito de filhos adotivos, por meio do qual clamamos: Abba! Pai!” (Rm 8,15). Deus não está distante, é próximo. Muito próximo. Ninguém é órfão. Ninguém está desamparado; todos somos filhos do Pai mais cuidadoso. E se temos um mesmo Pai, somos todos filhos dele, portanto, devemos nos reconhecer e amar-nos como irmãos. “Se lhe chamamos de Pai, amemos-lhe como um bom Pai e não sejamos faltosos de carinho para com Ele”, disse Orígenes. Pois Deus é um pai que conhece muito bem tudo de que seus filhos precisam e tem alegria  em ajudá-los e sente enorme satisfação cada vez que pode socorrer-lhes. Ensinavam os pais apostólicos, na igreja pós-bíblica: Ele nos ajuda não porque nós somos bons, mas porque Ele é bom e tem generosos sentimentos. Talvez não nos atreveríamos a chamar a Deus, nosso Pai, se Jesus não nos tivesse ensinado a chamá-lo assim(Derval Dasilio: pesquisa no Serviço Bíblico Latino-Americano). 

 

Lucas 1l.1-l3 - Estamos acostumados a repetir regularmente a oração dominical em nossa liturgia. Ela foi ensinada por Jesus a pedido dos discípulos (v. 1), pois João Batista havia ensinado algum modelo de oração também aos seus discípulos. Temos aqui em Lucas, o texto mais curto e, provavelmente, o mais antigo da oração dominical. Não se trata simplesmente de uma forma fixa, mas de um verdadeiro modelo que deve reger nossa comunhão com Deus.

 

A versão de Lucas é menor que a de Mt 6.9-13, apresentando cinco pedidos em vez de sete. A oração é dirigida a Deus “Pai” (Abba). Não o pai distante, mas o pai íntimo, paizinho. Nessa aproximação, é importante reconhecer primeiramente a distância entre nós e Deus, sua superioridade e magnitude. Esse é o significado do reconhecimento da “santidade do nome de Deus”. Santidade aqui tem a ver com a separação e a diferença em relação ao que é comum e ordinário. É certo que Deus está presente conosco em todos os momentos e que sua glória enche a terra. Mas exatamente por isso, Ele é diferente ou, no sentido religioso, “santo”.

 

A expressão “Reino” designa o reinado ou a soberania eterna de Deus sobre a criação, o universo, a história e as nossas vidas. Clamar pela vinda do Reino indica a expectativa para que a vontade graciosa de Deus se manifeste na história mas também a nossa disposição para conhecermos e vivermos as implicações desse Reino. Segue-se uma petição sobre o alimento diário. A súplica: “O pão nosso epiousion (acima e além da substância”)... dá-nos hoje”, merece destaque. A palavra grega “epiousion” traz o substantivo “ousia” (“substância”). Num nível mais profundo, trata-se de uma substância superior a qualquer outra. Diga-se de passagem, a palavra “ousia” (substância) aparece no Credo Niceno (Nota: O Credo Niceno-Constantinopolitano [450 d.C.], ou o Ícone/Símbolo da Fé, é uma declaração de fé cristã que é aceita entre Católicos, Ortodoxos e Protestantes; pela Igreja Anglicana, pela Igreja Reformada-Presbiteriana, pela Luterana, entre as principais igrejas protestantes. Tem a ver com o Primeiro Concílio de Nicéia  [325], no qual foi adaptado, e com o Primeiro Concílio de Constantinopla [381], onde foi aceita uma versão revisada. Por esse motivo pode ser referido especificamente como o Credo Niceno-Constantinopolitano para o distinguir tanto da versão de 325 como de versões posteriores que incluem a cláusula filioque, que foi o pretexto para o Cisma de 1054. Houve outros credos elaborados em reação a doutrinas que apareceram posteriormente, heresias, mas este, na sua revisão de 381 reafirma a doutrina apostólica da Trindade, indicando a natureza do Filho em relação ao Pai: “consubstancial com o Pai” [= da mesma substância]).

 

Na tradução do texto grego para o latim, o “epiousion” do Pai Nosso foi traduzido pelo latim quotidianum (de onde vem ‘“de cada dia”). Mas, alguns estudiosos sugerem que a palavra grega central – “ousion” (substância) deveria levar a tradução para outra expressão latina, a palavra supersubstantialem (substância fundamental, sem a qual ninguém vive). Naturalmente, essa “substância” fundamental e indispensável é necessária para o quotidiano e, por isso, a tradução “de cada dia” é também aceitável, desde que não percamos de vista o seu significado mais profundo.

 

Jesus ensina que o perdão que se pede a Deus deve estar condicionado à nossa disposição de também perdoar as pessoas que nos ofendem. É um eco de Eclo 28,2 (“perdoa a ofensa a teu próximo, e te perdoarão os pecados quando pedires”).

 

Após a oração temos uma ilustração incentivando-nos a clamar. Aqui o exemplo é retirado das relações de amizade e confiança (amigo e pai ilustram o caráter da relação pessoal com Deus). Somente um amigo muito insensível se negaria a auxiliar outro amigo na situação proposta por Jesus. Nesse caso, não seria propriamente um “amigo”, no máximo alguém “conhecido”. Ainda assim, Jesus estimula a pedir, dizendo que a insistência provocaria naquele a quem se solicita algo, um movimento de apoio. Afinal, quem pede confessa-se necessitado e dependente e se insiste é porque reconhece quem é a única pessoa que pode ajudá-la.

 

Todos nós enfrentamos problemas diversos e as vezes sentimos que nâo temos com quem contar. Jesus nesse trecho diz que temos, sim, com quem contar – o Deus Pai, em cuja porta batemos e insistimos, e ela sempre se abre. Quem, sendo pai ou mãe, negaria aos nossos filhos o melhor que temos para lhes oferecer? É assim que Cristo nos estimula a nos aproximarmos de Deus – com o coração confiante, pois estamos conversando com o nosso Pai. “Por isso, todo o que pede, recebe”. (Carlos Eduardo Calvani, Pão da Vida, Ano C, Próprio 12, p.210; anotações: Derval Dasilio).

 

Derval Dasilio

Pastor da Igreja Presbiteriana Unida

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