16o.DOMINGO DO TEMPO COMUM

Ano "C"

 

Amós 8,1-12 – A festa dos corrompidos será transformada em funeral...

Salmo 52 – Os justos haverão de ver e ouvir tudo

Colossenses 1,15-18 – Nele são reconciliadas todas as coisas

Lucas 10, 38-42 – Bem-aventurado o que ouve!

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       URGENTE!É PRECISO VER E OUVIR SOBRE OS ACONTECIMENTOS

 

Lucas nos apresenta finalmente um caso pertencente às tradições recebidas pelo evangelista no círculo de seus discípulos, especialmente as mulheres. Encontramo-nos diante de um quadro familiar no qual Jesus faz uma visita a amigas em sua casa. Elas, Marta e Maria, recebem-no em sua casa. Marta se multiplicava para tentar terminar o serviço para depois atender o hóspede, e Jesus a repreende porque anda inquieta “com tantas coisas”, tantos afazeres, na rotina diária de uma casa israelita. Marta não encontra a colaboração de ninguém. Sua irmã, com efeito, se assentou aos pés de Jesus e está ocupada completamente na escuta de sua palavra. Marta e Maria, irmãs de Lázaro, receberam o Senhor em sua casa...

 

São mulheres excluídas, consideradas impuras, porque menstruam; inadmissíveis no espaço público, e muitas vezes no religioso. Porque eram consideradas inferiores aos homens. E que não se fale da “tolerância” de Jesus, aqui. Se a intolerância for a postura masculina, que despreza as pessoas de sexo “diferente”, de valores "diferentes", ela é errada, desde o Evangelho. Jesus Cristo demonstrou acolhida, amor e compaixão em relação às mulheres excluídas e maltratadas de seu tempo. Lucas sugere que Maria tem uma atitude reflexiva para a libertação das mulheres das cadeias do preconceito e da discriminação, inclusive.

 

Uma cena familiar ao texto. Abraão sentado diante da tenda, recebendo a visita do Senhor. Abraão o recebe com hospitalidade. Deus o premia com a fecundidade de Sara (18,1-10); traços fundamentais caracterizam a passagem: a fé de Abraão ao reconhecer o Senhor. A hospitalidade com que se recebe o Senhor e a familiaridade de Deus com Abraão e sua família. É um belo exemplo da relação e acolhida de Deus pelo ser humano, únicas possíveis para se caminhar na vida.

 

Marta e Maria, quando Lucas aproveita uma vez mais para ressaltar o valor da escuta da Palavra de Deus (Shema Israel Adonai Elohenu Adonai Echad = Ouve, ó Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor –Deut. 6,4). Sem entrar na teoria do valor da contemplação sobre a ação, que quiseram ver nas duas atitudes opostas, neste fato. Há uma afirmação: é que para o Reino de Deus há o perigo das preocupações exclusivas pelas realidades imediatas. Ou melhor, pelas rotinas diárias que impedem a visão dos sinais e evidências da opressão. É preciso estar atento aos sinais dos tempos (Mc 13,14-27). Doenças sociais, grandes conflitos políticos, medo e sofrimento, refugiados, excluídos, racismo acentuado, intolerância, violência urbana, crime organizadíssimo, meio-ambiente contaminado por resíduos tóxicos, destruição contínua das florestas, e tanto mais... Coisas que clamam por uma ética libertadora, e não por julgamentos morais.

 

Por outro lado escutar a Palavra de Deus é tudo, menos uma coisa ocasional. O Mestre não aprova o empenho, a agitação, a dispersão, o andar em mil direções “da dona da casa”. Qual é, pois, o erro de Marta? O erro está no fato de não entender o que a chegada de Cristo significa, a grande ocasião que não se pode perder e, por conseguinte, a necessidade de sacrificar o “urgente” ao “importante”. Mas a falha do comportamento de Marta acaba servindo, sobretudo, para contrastar com a postura assumida pela irmã, ao menos.

 

Maria, frente a Jesus, prefere “receber Jesus”, Marta, pelo contrário, toma decididamente o caminho do dar, do agir; Maria se coloca no plano do ser, coloca a escuta em primeiro lugar.  Marta se precipita a “fazer”, no ativismo compulsório, e este “fazer” não parte de uma escuta atenta da palavra de Deus. Por conseguinte se torna um perigo de converter-se num estéril círculo vicioso. Marta se limita, apesar de todas as suas boas intenções, a acolher a Jesus em casa. Demonstra que sabe valorizar a hospitalidade. Mas Maria sabe  acolher Jesus, a Palavra, “dentro” do coração, ela acolhe o que vai transformar e salvar. Ela oferece hospitalidade no espaço interior, secreto, do coração. Espaço que foi disposto para ouvir e refletir.

 

Marta oferece coisas a Jesus, Maria se oferece para ouvir. Ela também pode ver e ouvir com o coração, quando se pode constatar a Grande Realidade salvadora, mesmo quando constatada  em pequenos fatos, pequenas realidades (J-Y Leloup). Quais são as demandas, as necessidades, os sonhos libertários que Marta intui? Se alguém tem fome, por um momento o pão pode satisfazer... Mas Jesus ainda dirá: “... aquele que come deste pão ainda terá fome”.

 

Segundo o julgamento de Jesus, Maria escolheu imediatamente “a melhor parte” (que, apesar das aparências, não é a mais cômoda: é mais fácil movimentar-se, repetir a rotina diária, do que refletir, “entender a palavra”!). Marta, desgraçadamente, que não quer que nada falte ao importante hóspede, pretende dar tudo, e deixa passar inconseqüentemente “a única coisa necessária”: ouvir as intenções de Deus (Shema Israel).  Marta reclama a Jesus, e não sabe o que ele quer. O problema é precisamente este: descobrir pouco a pouco o que Jesus quer falar. Dar a palavra à Palavra de Deus! Por isso é necessário parar, deixar o vai-e-vem e tirar tempo para escutar Jesus e compreender qual é realmente a vontade de Deus sobre a reorganização de seu projeto (Eis que faço novas todas as coisas... – Ap 21,5;  a libertação do povo do domínio da Babilônia foi descrita como uma renovação da vida - Is 43:18-19;Yahweh prometeu fazer as novas coisas por meio do seu Servo - Is 42:9; “E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas” - 2Cor 5:17)). Maria se coloca no eixo da questão: ouvir o que Jesus tem a dizer sobre a intervenção de Deus é a prioridade! Dirá Karl Barth: Deus vem ao encontro do homem (e da mulher, claro), para alcançá-lo em suas opressões; nas prisões; na sua passividade; no fatalismo; na capitulação face aos falsos determinismos, falsa irreversibilidade do mal.

 

Pelo seu caminho Jesus vai formando seguidores e atitudes indispensáveis para chegarem eles a ser verdadeiros discípulos. Uma dessas atitudes é a de escutar atenta e inteligentemente sua Palavra. Atitude que exige romper com o ritmo enlouquecido e interminável da vida cotidiana. Oferece-se para se pôr, serena e atentamente, aos pés de Jesus sobre as libertações possíveis. Esta eleição que aos olhos da eficiência pode parecer superficial e inútil, é condicio sine qua,  condição fundamental para alguém chegar a ser autêntico discípulo de Jesus. "Na verdade, na verdade vos digo que quem ouve a minha palavra, e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna, não será julgado (por não ouvir), mas passou da morte para a vida" (João 5:24). "O que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos, para que vós também tenhais comunhão conosco; e a nossa comunhão é com o Pai, e com seu Filho Jesus Cristo" (1João 1,3). Maria poderia endossar. Que mais deve ser dito?

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Derval Dasilio

Pastor da Igreja Presbiteriana Unida

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