15o.DOMINGO DO TEMPO COMUM

Ano "C"

 

Amós 7,7-17 – O Senhor despreza a religião emparedade e sem misericórdia

Salmo 82 –  O Senhor faz justiça aos órfãos e os fracos             

Colossenses 1,1-14 –  Viver frutificando o bem, acima de tudo

Lucas 10,25-37 – Quem são os nossos próximos?

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                                  O PRÓXIMO, O DISTANTE E O IGNORADO

 

A mentalidade religiosa do tempo de Jesus, no judaísmo do qual participava, absorvida pelo legalismo, se converteu numa consciência fria, sem calor humano, à qual não importavam as necessidades nem os direitos do ser humano. Só se fazia o que permitia a estrutura legal e rejeitava o que era proibido por essa estrutura. O legalismo, imposto pela estrutura religiosa, era a norma oficial da moral do povo. Tinha-se chegado, por exemplo, a estabelecer, partindo da lei religiosa, que a lei do culto, leia-se como lei do templo ou da “igreja”, primava sobre qualquer lei. Este foi o contexto em que nasceu a parábola do bom samaritano: um homem necessitado de ajuda, caído no caminho, mais morto que vivo, sem direitos, violentado em sua dignidade de pessoa, é abandonado pelos cumpridores da lei (sacerdotes e levitas) e em troca é socorrido por um ilegal samaritano (que não tinha boas relações com os israelitas). Um “distante”, um estranho, passa a ser modelo oferecido ao religioso cristão.

 

Jesus fez uma proposta de verdadeira opção pelos direitos desse ser humano caído, condenado pelas estruturas sociais, políticas, econômicas e religiosas que parecem exclusivistas (estruturas que se encarregam de não respeitar os direitos das pessoas e não lhes permitem viver em liberdade e em autonomia. Jesus quer nos dizer que a solidariedade é um valor que é preciso antepor e não só à lei do culto, mas também à necessidade de uma ética do cuidado. Somente Lucas conservou para nós esta parábola no seu Evangelho. Jesus, por sua vez, devolve a pergunta para que o letrado religioso pesquise em sua especialidade. Ele encontrará a resposta na Lei... O religioso culto, citando de memória as Escrituras (Dt 6,5 e Lv 19,18), faz uma  síntese do conteúdo dos 613 preceitos religiosos (cerca de 430 negativos: não farás...) sobre como “amar a Deus e ao próximo”... Jesus aprova a resposta (a tradição teológica rabínica prevalecia, então: do Thalmud, do Midrash; derivado da palavra derash, este quer dizer procurar; e os comportamentos de conduta são conhecidos, então, com halakah), e Jesus responde de acordo com a Torah, como foi perguntado. O letrado interroga novamente, porque no Levítico o próximo é o israelita e no Deuteronômio este título está reservado unicamente para pessoas do meio... Jesus, em vez de discutir e entrar em desafios sem saídas procura não semear nova teorias e interpretações perante a lei antiga e sua prática, mas propõe uma parábola como exemplo vivo de quem é o próximo.

 

Quando dizemos que a descrição do samaritano é esplêndida, nesta parábola de Jesus, com referências a posses materiais – azeite, vinho, cavalgadura, dinheiro – para ajudar um pobre infortunado que se encontra pelo caminho, nos aproximamos de questões básicas: bem-postos religiosos, desprendimento, solidariedade da parte de quem tem, esforço pessoal no socorro dos enfraquecidos sob sistemas políticos e econômicos egoístas e injustos, e disponibilidade para assistir os despojados e violentados da sociedade humana. Trata-se de um mundo sem misericórdia, onde prevalece a sobrevivência dos mais fortes, econômica e politicamente.

 

Nenhum escritor do Segundo Testamento – salvo Tiago e este somente de maneira análoga (“a fé sem obras é morta”),  – põe maior ênfase na moderação com a qual o discípulo deve usar suas próprias riquezas materiais (Fitzmyr, cit.: Gilvander F. Moreira). Lucas apresenta um dos retratos da primeira comunidade cristã ideal: com propriedade comum e distribuição dos bens comunitariamente (At 2,44-45). Reafirmando suas fontes, revela posições muito intransigentes em relação à propriedade e ao uso de bens econômicos pelos ricos (Lucas escreve por volta de 85 d.C.). Mas elogia Barnabé, e outros bem-postos, que não mediram esforços para a sustentação das comunidades iniciais.  Mas Lucas, em sintonia com Marcos, repugna Judas por haver traído Jesus “por dinheiro” (Lc 22,5; cf. Mc 14,11). Aqui, noutro extremo, o dinheiro empregado para se fazer justiça, enquanto a misericórdia é exaltada. O dinheiro é “abençoado”, quando serve às necessidades do próximo.

 

No diálogo entre Jesus e um rico (Marcos dilui falando somente de “um certo rico” (Mc 10,17), Lucas, além de qualificar o interlocutor como um chefe, um bem-posto na sociedade (Lc 18,18), radicaliza a exigência: “Ainda uma coisa te falta”, e arremata a discussão com dois fortes imperativos: “Vende todas as coisas que tens e aos pobres” (Lc 18,22). Essa radicalização pode ser vista também em Lc 5,11, que fala do chamado dos quatro primeiros discípulos. Lucas afirma: “Deixando tudo eles o seguiram”, enquanto Mc 1,18 diz: “Deixando as redes, eles o seguiram”. Da fonte “Q” Lucas conserva máximas fortes também de alerta quanto aos bens. O que se deve dizer, entre as inúmeras e valiosas abordagens que esta parábola oferece, com todas essas citações é que a postura lucana em face das realidades materiais não é uma atitude inventada, mas funda suas raízes na pregação histórica de Jesus:  O samaritano deixa o semimorto protegido e cuidado. Vai embora, mas deixa marcas de bondade e solidariedade, e sai positivamente registrado para o resto dos tempos. O samaritano não deixou nome nem endereço. Soube a hora exata de entrar e de sair da vida do outro, entre os milhões de anônimos vítimas da violência (Gilvander F.Moreira). Lucas registrou.

 

Menos de 2% dos brasileiros são considerados ricos pelo IPEA. O mesmo órgão dirá que 75 dos 165 milhões de brasileiros vivem na referência da “linha de pobreza”, e abaixo desta linha, 25 milhões vivem na miséria. A fé cristã nos sugeriria que nos preocupássemos com isso? Vivendo como que em abrigos anti-aéreos, afastados da realidade, como se poderá saber da realidade que alimenta a violência existente? Talvez o evangelho nos avive a memória, quando nos lembrará da preocupação com a sorte dos outros, aqueles que devem ser considerados também como a verdadeira humanidade que mereceu a manifestação do cuidado de Deus para com os oprimidos, através de Jesus Cristo, e principalmente os atirados à beira da estrada, feridos de morte pela violência  dos sistemas que compõem o modo de ser das sociedades que geram e sustentam as desigualdades. Quem são os nossos próximos?

 

A discussão permanece: Quem é o meu próximo, mesmo quando distante das minhas tradições e da minha religião? Quem é próximo de quem, quando estamos do outro lado? Provavelmente, representaria uma imagem daquilo que a “primeira comunidade cristã” deveria ser (Atos caps. 42 a 47). Até que ponto ela corresponde à realidade concreta, é difícil saber. As referências circunstanciais a Barnabé, Ananias e Safira podem conter fatos históricos; mas, por outro lado, os atritos em torno da eucaristia em Corinto, a necessidade de se fazer coleta para os cristãos de Jerusalém, o problema do atendimento às viúvas em Jerusalém (Atos 6,1-7), a reclamação contra os ricos, da parte de Tiago, mostra que havia dificuldades a encarar, na igreja

 

A primeira dizia respeito à natureza da justiça de Deus no interior da comunidade cristã. Evidentemente, nos termos do Sermão do Monte, a justiça do Reino era uma justiça criativa e interpretativa, e não um sistema mecânico de atribuição de recompensas e castigos. A comunidade do agape dispensava a contabilidade meticulosa dos méritos ou deméritos de uma pessoa; antes, respondia com ilimitada generosidade à conversão ao amor. A medida que as comunidades foram se tranformando em órgãos legisladores, ou executares de leis, essa generosidade foi cedendo lugar a formas mais calculadas de justiça. Começam, assim, a surgir indagações no interior da Igreja Primitiva sobre a natureza do poder. A questão das qualificações de um bispo ou de um diácono, em 1Timóteo 3,1-13, por exemplo, revela uma etapa desse delicado processo. As conseqüências do auto-emparedamento  da Igreja são bem conhecidas, historicamente.

 

Na interpretação que Clemente (pai apostólico do II séc. depois de Cristo) deu a esse texto, em A salvação do homem rico, insiste-se que a riqueza não deve ser dissipada, mas posta a serviço dos que realmente necessitam dos seus frutos. “Como pode haver partilha se ninguém possui nada?”. Admitamos que, na época de Clemente, era impossível imaginar outra saída ao problema levantado por ele, ou seja, que o socorro ao pobre e desgraçado depende da capacidade de alguém que pode oferecer socorro, e quem tem essa capacidade são os ricos. Os desgraçados poderiam resolver seus problemas apenas compartilhando sua miséria?

 

O Novo Testamento é claro a respeito disso:“Meus irmãos, que adianta alguém dizer que tem fé se não dá prova disso? Será que essa fé pode salvá-la? Por exemplo, pode haver irmãos e irmãs que precisam de roupa, que não têm nada para comer”? (Tg 2,14-15). O grande desafio está nas ideologias recentes sobre propriedade, lucro, acúmulo de riqueza e consumismo inconseqüente, porque inútil para levantar as classes desfavorecidas da pobreza e da miséria, até mesmo dentro das comunidades cristãs. Questiona-se o conceito de igrejas pobres ou ricas. Se há solidariedade, evidentemente. Uma jovem nos indagava, na internet: Por quê 10 reais valem tão pouco no shoping  e são  “demais”, no ofertório, durante o culto? Esforcemo-nos para dormir, depois desta.

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Derval Dasilio                                                                                                                                         Pastor da Igreja Presbiteriana Unida

 

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