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14o.DOMINGO DO TEMPO COMUM Ano "C"
2Reis 5,1-14 – O profeta curou Naamã, não
prata e ouro Salmo 30 – Pela
tarde o pranto, pela manhã gritos de
alegria! Gálatas 6 (1-6); 7-16
– Que ninguém me
atormente... Lucas 10,1-12;16-20 – Sem vergonha de viver na alegria e com entusiasmo ----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
NÃO TER VERGONHA DE SER FELIZ O
que se deseja, no mais secreto do coração, como bem supremo é, de
fato, ser “feliz”? Aristóteles, o autor da Etica a Nicômaco, e
Jesus Ben Sirac, o autor do Eclesiástico, ensinaram que, afinal de
contas, todos queremos ser felizes, e a felicidade é o grande fim em si
mesmo, o grande desejo humano. Assim também dizia o salmista: “Qual o
homem que não ama sua vida, procurando ser feliz todos os dias...” (Sl
34,13). Antes de contrair a doença mortal da ganância, quando o homem
se sentia feliz, tranqüilo e seguro, sem honra e poder, nem pensava num
deus comercializável, que permite vender a graça como uma mercadoria num
balcão, como honra, prosperidade e poder, o salmista já dizia: A ira de
Yahweh dura um momento, e seu favor pela vida inteira. Pela tarde vem o pranto, e pela
manhã gritos de alegria (Sl 30,6). O mais alto ideal cristão está
aqui: a felicidade, a bem-aventurança eterna. A felicidade não se compra,
mas é sempre buscada. Como uma “ave peregrina” que pousa às vezes em nossa
janela, mas que escapa no momento exato em que queremos domesticá-la, como
nos lembra um ensinamento budista.
Damos muitas voltas pelo mundo: buscamos “ter”, “saber” e “poder”.
Contudo, através desses poderosos verbos auxiliares da propriedade, da
potência, da sabedoria, buscamos ser felizes (Luiz Carlos Susin).
Dificilmente alcançamos esse fim, no entanto. A manhã nunca chega, por
esses meios. O que
desejamos como ser-humano, homem ou mulher, não é o “ser em si mesmo”,
abstrato. O que queremos mesmo é sempre ser “felizes”. Concretamente. Dá
pra ser feliz num mundo sem compaixão? A felicidade está essencialmente
ligada à alegria e ao prazer, ao sentimento jubiloso de gozo, à plenitude
passageira mas profunda em que o prazer faz vibrar o humano na sensação
positiva da vida: o prazer de uma boa comida, não importa se churrasco,
muqueca capixaba, tambaqui, pato ao tucupi; o prazer de uma música, que
pode ser de Mozart, Debussy, Tom Jobim, Gonzaguinha, Pixinguinha. Lutero
dizia, feliz: “Faz escuro, mas eu canto”. Um “protestante” pode e deve ser
feliz com a música: “Não sou da opinião de que todas as artes devam ser
massacradas e desaparecer”, queixava-se do iconoclasta Zwínglio,
possivelmente, reformador suíço que proibira instrumentos musicais, arte e
paramentos litúrgicos no templo. A
felicidade está ligada ao prazer de um sorriso, inclusive, como o da
criança que brinca feliz com a areia sem pressentir que é, já, um esboço
do que vai ser o “homem (que) pode ver um mundo num grão de areia e um
céu numa flor silvestre, / segurar o infinito na palma da mão / e a
eternidade em uma hora”, como dizia William Blake. Tantos conteúdos da
“alegria de viver”! A ética mais rudimentar e mais sincera é a que envolve
o prazer como forma de ser feliz. Aí está a primeira liberdade e o
primeiro amor à vida, a primeira consciência da honestidade. Creio que
Kant poderia ter dito isso, se não disse. Haverá outras formas de se
expandir a felicidade, como, por exemplo, a felicidade de se dedicar, de
trabalhar, de aprender, de fazer alguém feliz e até de sofrer pela pessoa
amada. Mas são como degraus sobre esta estrutura básica do prazer, a
alegria primeira de viver. O mais alto ideal ético, o de viver em
comunhão, não dispensa, mas exige o prazer (Luiz Carlos Susin).
Saint-Exupéry dizia: “o maior prazer é o prazer de conviver”. A ética
começa e finaliza, portanto, no bem, no desejo do bem, na felicidade e no
prazer. Lucas
10.1-12, 16-20 – Em todo o evangelho de Lucas os personagens são possuídos
de uma estranha alegria. Para Lucas a vida é bela, e quem anda movido pelo
verdadeiro espírito de Deus cultiva alegria no coração, e entusiasmo. No
coração do evangelho de Lucas, desfecho das perícopes do cap. 15, podemos
concluir a centralidade da alegria de Jesus na missão de Deus
(sugxárete moi=alegrai-vos comigo... um sentimento de alegria que
gera festa pelo reencontro da ovelha, da moeda e do filho perdidos).
“Viver e
não ter a vergonha de ser feliz, cantar a beleza de ser um eterno
aprendiz...” (Gonzaguinha). A felicidade é uma característica do discípulo
de Jesus Cristo, segundo Lucas. A alegria perpassa todo o evangelho
de Lucas. Não é um tipo de felicidade como a que lembrava Vinícius de
Morais: “A felicidade do pobre parece / a grande ilusão do Carnaval. /A
gente trabalha o ano inteiro/ por um momento de sonho / pra fazer a
fantasia / de rei, de pirata ou jardineira,/pra tudo se acabar na
quarta-feira”. Aqui, em Lucas, em numerosas passagens, irrompe o
maravilhoso sentimento de alegria, sem frustração possível, gerando festa
e regozijo. O anjo anunciou que o nascimento de João Batista traria prazer
e alegria para muitos (Lc 1,14); quando Isabel ouviu a saudação de
Maria, a criança (que será João Batista) salta de alegria em seu ventre
(Lc 1,44). A Boa Notícia anunciada aos pastores gerou uma grande alegria
para todo o povo (Lc 2,10). Os setenta discípulos voltaram da missão
vibrando de alegria, pois constataram que até os “demônios” que
infestam a vida dos oprimidos, pensares sobre a religião e a sociedade que
servem ao mal, eram expulsos (Lc 10,17), mas foram corrigidos, em Lucas,
para que não se vangloriassem como exorcistas. Jesus os alertou: “Não
vos alegreis porque os espíritos se vos sujeitem; alegrai-vos antes por
estarem os vossos nomes escritos nos céus” (Lc 10,20). A luta continua
(Gilvander Luis Moreira). Em Atos dos Apóstolos, Lucas
continua batendo na mesma tecla: – a alegria acompanha missionários,
missionárias e o povo participante das comunidades, “perseverando
unânimes todos os dias no templo, e partindo o pão em casa, comiam juntos,
com alegria e singeleza de coração (At 2,46)”. Em Samaria, ao anúncio
do Evangelho e aos sinais realizados pelos(as) missionários(as), uma
grande alegria contagiou toda a cidade (At 8,8). Lucas arremata relatos
das tramas missionárias com um refrão: Os discípulos estavam cheios de
alegria e do Espírito Santo (At 13,52; 14,17; 15,3)”. O apóstolo
Paulo, segundo Lucas, cumpria com alegria sua missão (At 20,24). Ele subiu
a Jerusalém de cabeça erguida, feliz da vida, levando no coração uma
alegria que irradiava uma espiritualidade transcendente, acima de tudo.
Carlos Calvani concorda com esse comentário: Esta passagem “também nos
traz hoje um pedido de oração feito por ninguém menos que o próprio Senhor
Jesus: rogai, pois, ao Senhor da seara que envie trabalhadores para a
sua seara (v. 2b). O foco maior do texto gira em torno dessa dinâmica
de envio, urgência na proclamação do evangelho, o necessário
desprendimento para com os valores materiais, a confiança no Deus que nos
supre e nos sustenta e a alegria por participarmos desse glorioso
ministério”. E Calvani prossegue: “o capítulo 10 de Lucas é uma inserção
posterior feita pela comunidade, pois anteriormente Jesus já enviara os
doze com palavras semelhantes (cf 9,1-6). No capítulo 22, Jesus pergunta
aos doze: “quando vos enviei sem bolsa, alforje e sandálias,
faltou-vos, porventura, alguma coisa? Nada, disseram eles (22,35).
Provavelmente, trata-se aqui da compreensão atingida pela comunidade
lucana de que o ministério dos doze se estende a toda comunidade
representada no número “setenta” e representada pelo fenômeno dos
pregadores carismáticos itinerantes. “O
foco do texto é a aceitação ou a rejeição do evangelho. Os que são
enviados de dois em dois estarão vulneráveis como cordeiros no meio de
lobos e por isso não podem prender-se a valores materiais (bolsa, mochila
e sandálias, indicam uma certa segurança). O conteúdo da pregação do
evangelho aponta para necessidades perenes em todas as épocas: a
iniciativa da paz (v. 5); a cura de enfermidades atuais, sejam físicas ou
espirituais (v. 9a) e o anúncio do Reino (v. 9b). É sempre uma oferta
graciosa. Jamais pode ser empurrada à força nem distorcida com pregações
recheadas por sentimentalismos melosos, falsas promessas, um evangelho de
barganha ou terrorismo psíquico. Mais do que nunca precisamos aprender com
o texto de hoje, que toda comunidade participa do ministério apostólico
(fica longe a exploração emocional comum dos apelos conversionistas
coercitivos). Todos/as somos enviados/as” (Calvani, Carlos Eduardo, Pão da
Vida – Ano C, p.287, 2006). A
alegria deve ser celebrada, não de forma egoísta, mas envolvendo a
comunidade. Por isso, quando o pastor chega em casa, reúne amigos e
vizinhos, dizendo-lhes: alegrai-vos comigo, porque já achei a ovelha
perdida (Lc 15,6). Esse detalhe não aparece no evangelho de Mateus (Mt
18,13). A mulher, após encontrar a moeda perdida, convoca amigas e
vizinhas, dizendo: alegrai-vos comigo, porque achei a moeda perdida
(Lc 15,9). A validade e o poder do compromisso na reivindicação de Jesus,
não se limita, por essa razão, à situação única da geração contemporânea
de Jesus, mas está relacionada ao reconhecimento fiel da ação salvadora de
Deus, principiada na pessoa de Jesus e à espera de sua realização plena.
Não se exclui a alegria nessa espera (George Kümmel). O convite para
participar da alegria reaparece nos versículos 22 e 24, após a volta do
filho perdido e pródigo. Nas aplicações das parábolas, percebemos que
festa na terra sinaliza festa no céu, quando um pecador se converte. O tom
de alegria, fundamental na parábola da ovelha perdida e na da moeda
perdida, refere-se explicitamente ao próprio Deus nos versículos
conclusivos de ambos os relatos (Lc 15,7.10). A ética de Jesus, portanto, não
obstante ele anunciar a proximidade do reino de Deus, não pode ser
entendida como uma “ética de ínterim" e deve ser caracterizada mais
corretamente por "ética do tempo da graça” ou "ética da Nova Aliança".
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