![]() ![]() ![]() ![]() 13o.DOMINGO DO TEMPO COMUM Ano "C"
2Reis 2,1-2;6-14 – Eliseu é
vocacionado para a obra profética
Salmo 77,1-2;11-20 – Minha alma
está inquieta com a injustiça dos homens
Gálatas 5,1;13-25 – Somos vocacionados para ser verdadeiramente
livres Lucas 9,51-62 –Mão no arado, não olhar para trás! ----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
VOCACIONADOS PARA AS TAREFAS DO REINO NÃO OLHAM PARA TRÁS
Começa a longa caminhada das periferias para a metrópole, onde estão os centro de poder; da Galiléia para Jerusalém. É a parte mais original de Lucas, que lhe consagra dez capítulos (9,51-19,28), ao passo que Marcos apenas um e Mateus dois. O sentido da viagem é marcado pela idéia do fim da vida histórica de Jesus: “ser levado para o céu”, o que compreende sua morte, ressurreição e ascensão ao Pai. É a viagem da libertação, que tem seu ápice e significado em Lc 23,46. Para os discípulos trata-se de uma grande catequese que mostra como enfrentar as dificuldades (pedras e buracos, no caminho), e também como entender a vida no seguimento de Jesus. Não tem moleza! Também é importante notar que não basta anunciar e praticar o evangelho na periferia das situações. Comendo pelas beiradas. É preciso dirigir-se ao “centro”, para denunciar o poder e a riqueza de uma minoria que gera fraqueza, miséria e marginalização. E também denunciar o conformismo religioso, o fatalismo, a submissão aos determinismos políticos e sociais. É preciso ir fundo, ao miolo do furacão. Tomar a direção dos centros de decisão onde estão os poderes políticos, econômicos e religiosos. Não basta curar os sintomas. É preciso atacar as causas das doenças, os pecados das estruturas de dominação social (Ivo Storniolo).
Segundo G.Kümmel, uma das concepções fundamentais do judaísmo da época de Jesus era a de que o homem deve dar “meia-volta”, se quiser subsistir diante de Deus. Vem da literatura sapiencial a idéia de que corrigir o rumo, arrepender-se, adotar a conversão correta, por boa orientação, é essencial para se alcançar objetivos importantes. De modo que também Jesus, como condição para a entrada no reino de Deus, mencionou explicitamente o arrependimento (Mt 11.21s; Lc 16.29s). Se alguém, ao ouvir a respeito de acontecimentos desastrosos na comunidade, emitir o juízo de que as pessoas implicadas na desgraça são mais pecadoras que outras, não terá percebido que ele próprio é alguém que deve se arrepender, caso quiser evitar que lhe aconteça algo semelhante (Lc 13.1-5). Portanto, todos necessitam dar “meia-volta”, conforme as necessidades comunitárias. Uma igreja nacional ou uma igreja local estão em pé-de-igualdade diante da necessidade de reconsiderar seus caminhos. Por esta razão os discípulos de Jesus são enviados com a tarefa de pregar a necessidade de dar “meia-volta” (Mc 6.12).
O chamado à “meia-volta” não só é especialmente urgente pelo fato de estar relacionado à proclamação do iminente reino de Deus. Tal constatação também pode ser feita em relação à pregação de João Batista. Com esse chamado, porém, Jesus recoloca os seus ouvintes simultaneamente diante da definitiva vocação se para atender à vontade de Deus, assim como Ele pode pregá-la em contraposição à até então válida compreensão dos “antigos” (Mt 5.21ss). Jesus, portanto, exige que se decida pela “meia-volta”. A quem tem agora a missão de proclamar a vontade de Deus em toda sua plenitude, sob pena de comprometimento da causa, Jesus conclama a se arrependerem imediatamente: “Ninguém que, tendo posto a mão no arado, olha para trás, é apto para o reino de Deus” (Lc 9.62). O futuro Juiz vem agora ao encontro dos homens, através da vontade de Deus pregada por Jesus. Por meio da exigência de Deus anunciada por Jesus, o presente está relacionado de uma maneira singular com o iminente futuro da soberania de Deus sobre todas as coisas, inclusive sobre as questões de Justiça e Paz.
Lucas 9,51-62 – A primeira inicia-se como a seção anterior da Galiléia (Lc 4, 14-30) com a rejeição de Jesus, adiantamento do que acontecerá na páscoa. Três elementos são mais significativos: a decisão de ir a Jerusalém, o desprezo da aldeia da Samaria e a reação dos discípulos. O versículo inicial põe em sintonia o leitor com o motivo central da narrativa. A decisão de Jesus diante da proximidade de “ser elevado aos céus”, expressão que se aplica também à assunção de Elias (2 Rs 2, 9-11), a exaltação do servo sofredor (Is 42, 1) e a mesma ascensão de Jesus (At 1, 2-11). Sua vida pode ser vista como ascensão para a glorificação (Mc 16,19). A partir do ponto de vista vocacional, encontramos semelhanças na última história no evangelho. Enquanto que a primeira, no Antigo Testamento, deixa de lado figuras literárias significativas, a história do evangelho é formada por partes de outras duas histórias construídas a partir da clássica hipérbole tão comum nos discursos e ações de Jesus. Aquela desenvolve o tema a partir da disponibilidade e a conseguinte ruptura com a vida que o chamado trazia até o momento, enquanto que esta o faz a partir da urgência e exclusividade. Já analisamos anteriormente: a pobreza ou o lugar deserto, o serviço ao Reino e a adesão total, envolvem o tema central: “Pegar o arado e ir em frente, nunca olhar para trás”. Além disto temos que levar em conta que o incidente em Samaria acrescenta uma nova característica ao texto: o sofrimento (rejeição a Jesus na aldeia) e indiretamente a misericórdia (Jesus recusa a proposta dos discípulos: amaldiçoar quem não acolhe a proposta do Reino).
2Reis 2,1-2;6-14 – A descrição das vocações e da viagem de Jesus a Jerusalém tratam um tema comum, o seguimento, mesmo com linguagem diferente. Gerard von Rad dizia que uma boa teologia bíblica não deve simplesmente compreender o Novo Testamento como superação do Antigo Testamento, mas que o intérprete da Bíblia há de fazer esforço por se situar a partir do conceito na realidade cultural do texto. Neste caso se trata de narrações distintas que apresentam de formas diferentes algumas características do seguimento. Ainda que os investigadores distingam diferentes etapas na formação deste material, há influências do ciclo de Eliseu, trata-se de tradições muito antigas (do século IX a.C.), que posteriormente foram reelaboradas e inseridas em Reis por círculos deuteronomistas. A atividade do profeta Elias se desenvolve durante os reinados de Acab (871-852 a.C.). Amri, o pai de Acab havia estabelecido alianças com o rei de Tiro através do matrimônio de seu filho com Jezabel, filha do rei. Esta política orientada para contemporizar ameaças dos assírios fez com que aumentassem o culto e os círculos religiosos cananitas em Israel, inclusive com a introdução de divindades de suas religiões na corte. Elias se apresenta como campeão do javismo, é um profeta asceta perseguido (veste-se com um manto de pele e usa um cinto de couro), sem residência fixa (cf. Lc 9,58b: “o filho do homem não tem onde pousar a cabeça...”), não se refugia em santuários, caminha pelo deserto e pelas montanhas, Deus se revela a ele de maneira diferente, como se dizia das divindades no momento (alguns textos apresentam-no como o novo Moisés no Horeb). Eliseu dará continuidade ao seu ministério profético. Jesus o retoma, segue a tradição de Israel assumindo as conseqüências da fidelidade vocacional. |