![]() ![]() ![]() ![]() 12o.DOMINGO DO TEMPO COMUM Ano "C"
1Reis 19,1-15a –
Elias é perseguido por causa dos sacerdotes infiéis
Salmos 42 e 43 – Ó Deus, pleiteia minha causa
contra a injustiça! Gálatas 3,23-29 –
Não reivindicar vida
digna é negar Jesus Cristo Lucas 8,26-39 – Jesus libertou oprimidos curando endemoninhados ----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
JESUS CUROU OPRIMIDOS POR DEMÔNIOS ESTRUTURAIS Não costuma ser bem recebido o
trabalho da teologia que reage à tendência legalista, regulamentar,
devolvendo à fé bíblica a discussão dos grandes temas referentes à justiça
de Yahweh; dos temas deuteronômicos e a ênfase do êxodo, escritos
proféticos que abordam o Jubileu e a libertação das opressões políticas; o
shalom (paz) que se traduz em bem-estar social, político e
econômico, segundo as propostas do Deus de Israel. No Segundo Testamento
os evangelhos virão enfatizar que o reinado de Deus também contraria
concepções religiosas, projetos humanos de curas e exorcismos sem
conversão e vida de fé, que quer construir a religião cujo esplendor se
refletiria no culto. A multidão extasiada vibra na adoração de deuses do
mercado religioso evangelical (Dn
2:31-35):
figura
simbólica enorme, cabeça de ouro puro, peito e braço de prata, ventre e
quadris de bronze, pernas de ferro, e pés de barro... Preocupadas com números e em
produzir conversões, venda de bênçãos e prestígio religioso, com máquinas
de calcular para quem entra, lideranças são incapazes de contabilizar os
que saem pelos fundos, pois não se ouve a mensagem transformadora do
Evangelho, enquanto falta comunhão verdadeira, vida de fé, solidariedade,
partilha. Em contraposição ao esforço pela afirmação da vida, por
transformações sociais, direitos fundamentais, cidadania, dignidade das
pessoas e dos povos, cuidado com o ser humano e com a Criação, vitórias
propositistas são anunciadas, sacrifícios financeiros em favor da religião
de mercado obteriam respostas imediatas, aqui e agora. Evidentemente, para
quem tem fé retributivista e não precisa da Graça de Deus, a qual poderia
ser comprada a preços variados. Como se entende nesse meio. Novas
indulgências! A fé em Jesus é representante
do pensamento sobre a vida que prevalece na Bíblia Hebraica e se estende
ao Segundo Testamento. O
israelita pensava que a vida normal não é simplesmente a existência, ou a
experiência humana individual. A vida é hayyîn, algo definido no
plural intenso da experiência em sociedade (R.Martin-Achard, Da Morte à
Ressurreição). Viver é mais do que "ser", nenhuma abstração cabe aqui, nem
racionalismos. Vida é sangue... o sangue é a alma do corpo, como o
Deuteronômio dirá (12,23). A vida se confunde também com o “fôlego”: no
momento da criação do ser-homem Yahweh soprou nas narinas do homem
“um fôlego de vida”. Adão (heb. Adam= humanidade coletiva), começa
a viver com o “alento” do Criador. A intensidade da vida é variável, de
momento para outro. Um enfermo mental ou um morto, são vidas debilitadas,
prejudicadas, porque incompletas, privadas de suas possibilidades humanas
(2Rs 8,8; 10; 14,20 e 1-7; Gn 25,30 e 32; Is 5,27). Despertar, curar,
ressuscitar, recuperar as faculdades de pensar, avaliar, julgar, dispor
novamente de toda capacidade, na oportunidade de vida plena oferecida por
Deus, aparece aos olhos do pensador israelita como um bem inestimável do
qual dependem todos os bens. Ou seja, a vida em igualdade de direitos e
gozo de privilégios em comum é a mais preciosa das bênçãos, nada é
superior a poder-se viver com toda dignidade (Pv 3,16). Dignidade é gozar de direitos
sociais, econômicos, jurídicos, por si mesmos. Lucas 8,26-39 - O
que é mais importante para o Evangelho de Deus, a Lei ou a Vida?
Assim como uma expulsão do demônio marcara o início da ação de Jesus no
meio do seu povo (4,31-37), o mesmo acontece em terras pagãs. Jesus
exorciza poderes alienantes da pessoa e da sociedade dentro e fora de
Israel. Jesus encontra um endemoninhado potencializado no mundo pagão,
possuído por uma “Legião”, nome que se dava a um
destacamento romano com cerca de 6.000 soldados. Um destacamento policial
pra ninguém botar defeito. Aliás, a dominação romana era o principal
demônio em toda a região, chefiando uma extensa casta demoníaca. Forças
políticas diabólicas, atuando na economia do povo. Também o ‘porco’
era considerado animal sagrado e um dos símbolos do poder romano.
Assim, a destruição de porcos,
afogados pela intervenção de Jesus, que exorciza poderes malignos
no ambiente humano, em todo lugar, simboliza também a libertação do jugo
da escravidão ao poder romano e de todas as “Romas” do mundo (Ivo
Storniolo). O endemoninhado vivia uma vida sub-humana,
ou completamente desumana, reduzido praticamente a um bicho: nu,
acorrentado e algemado, morando em lugares desertos e cemitérios. Sinal de
exclusão entre figuras do povo alienadas de si mesmas, vivendo como
“mortos-vivos”, evitadas ou ignoradas por todos, não trabalhando pelo bem
comum, não produzindo, não podendo sustentar-se nem à ninguém mais, não
ajudando e só “atrapalhando” a vida da comunidade, por causa das
perturbações que sofrem continuamente. Nem podendo reivindicar nada, por
estarem alijadas do meio humano, morando em verdadeiros cemitérios de
vivos aparentes, através do preconceito ou qualquer outra forma de
exclusão. Mas os “demônios” que habitam nas pessoas sempre sabem que Jesus
é o Messias enviado, “missionado” por Deus (cf. Lc 4,8.34.41). Sabem que
Jesus é mais forte que todo mal e pode derrotá-lo. Jesus veio para
recompor a vida, para libertar de todo tipo de mal.
No começo do evangelho de Marcos,
inclusive, logo após o chamado dos apóstolos, conta-se que Jesus
liberta um homem possuído por um espírito maligno. Terminando a descrição
do que acontecera naquele dia, diz Marcos: “Ele curou muitos que
estavam oprimidos por diversas doenças e expulsou muitos demônios”. E
não ficavam decepcionadas, as pessoas: eram acolhidos e curados; o mal que
os aprisionava era vencido. Assim, os evangelhos nos preparam para ver que
Jesus não decepciona ninguém. Jesus é aquele que derrota o mal,
especialmente o tipo de mal que opera dentro de nós, pelo conformismo.
Demônios que nos tornam escravos dos nossos próprios pecados, enquanto
apoiamos solidariamente, ou favorecemos pecados estruturais da sociedade
em que vivemos. As forças demoníacas estão sempre por perto, causariam
indignação se fôssemos conscientes das mesmas. Mas a força transformadora do evangelho de
Deus também muda a vida de criminosos, de drogados, de prostituídos, de
corrompidos, de gente que não pode conviver produtivamente na sociedade.
Essa libertação é necessária igualmente para aqueles que, cometendo
injustiças, deixando-se corromper pelo “jeitinho”, buscando privilégios
não-éticos, aliados das causas opressoras, discriminantes, que levam
tantos ao sofrimento ou mesmo à criminalidade “consentida” das
contravenções diárias. Sem exorcizar a realidade da
violência escondida, invisível, intra-familiar e intra-social, como
prevenir danos biográficos,
psicossociais, desde a infância, adolescência, juventude e maturidade das
pessoas? Drogas, violência, trabalho escravo disfarçado, subemprego,
prostituição adulta e infanto-juvenil, gravidez de adolescentes, AIDS,
mendicância, delinqüência, legislação repressiva para menores, antecipação
da maioridade penal, e outros, constituem ameaças severas para quem
precisa ser libertado? Gálatas 3,23-29 - Ao chegar a
Antioquia, Pedro participa ativamente da vida da comunidade. As pessoas
gostam de sua presença, sobretudo quando lhes recorda a vida de Jesus, ele
que foi testemunha ocular de quase tudo o que Jesus fez. Ora, antes de os
gálatas conhecerem a Lei, agora apresentada estranhamente por “cristãos”
do segundo momento, existia o Evangelho a ser considerado: “Gálatas
insensatos! Quem foi que os enfeitiçou? Vocês que tiveram diante
dos olhos uma descrição clara de Jesus crucificado! Respondam-me somente
uma coisa: foi por causa da observância da Lei que vocês
receberam o Espírito, ou foi porque vocês ouviram a mensagem da fé... foi
em vão que fizeram tantas experiências? Se é que foi em vão! Aquele que dá
a vocês o Espírito e realiza milagres entre vocês, será que ele o faz por
causa da observância da Lei, ou é porque vocês ouviram a
mensagem da fé”? (Gl 3,1-2;4-5 - BP). Isso aconteceu por ocasião da visita de
Pedro à comunidade de Antioquia. Aí se vivia a convicção de Paulo descrita
em Gl 3,28: “Não há mais diferença entre judeu e grego, entre escravo e
homem livre, entre homem e mulher, pois todos vocês são um só em Jesus
Cristo”. Pela fé em Jesus Cristo os excluídos começaram a fazer parte do povo de Deus, sem ter que passar pela circuncisão e pela observância da Lei religiosa. Os excluídos se tornam, pela fé, filhos de Abraão, desde a origem da fé, e herdeiros das promessas de liberdade (3,29). Isso quer dizer que a Lei não é mais necessária. Mais ainda: se for imposta como condição para se obter a vida nova, em vez de salvar, acabará impedindo a salvação. Quando a Lei, ou regulamentos religiosos, ocupam o primeiro lugar na vida das pessoas ou das comunidades, abre-se caminho para a escravidão e injustiça. Os cristãos não enveredam por caminhos sujeitos a perdas e danos irreparáveis à vida de fé. Para Paulo, negar a liberdade de reivindicar vida digna é negar Jesus Cristo, pois só ele é capaz de fazer viver na justiça e na liberdade.
Derval
Dasilio
|