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11o.DOMINGO DO TEMPO COMUM Ano "C"
1Reis 21, 1-10 (11-14) – Profecia contra a prepotência
econômica
Salmo 5,1-8 – Acode, Senhor, os meus gemidos contra a arrogância dos
poderosos! Gálatas 2,15-21 – Injustiça das leis que oprimemLucas 7.36-50 – Perdão pelos pecados impostos estruturalmente... ----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
GRAÇA E PERDÃO PARA DÍVIDAS INJUSTAS
Perdão e amor
são inseparáveis no mistério da reconciliação. Em nosso texto encontramos
um enorme contraste: uma mulher “pecadora” e um fariseu. Os fariseus eram
peritos em catalogar pecados. Ela é chamada “mulher da cidade”. Em outras
palavras, “mulher da rua”, ou “mulher da vida”, uma prostituta. Mas ela
trazia algo para Jesus: um frasco de perfume. Talvez um tipo de óleo
afrodisíaco usado em suas atividade sexuais. E Jesus não recusou! Isso
causou tremendo escândalo entre os fariseus. Jesus percebe e pergunta ao
fariseu: “quando um credor perdoa duas pessoas que lhe devem valores
diferentes (500 reais ou 50 reais), qual dessas lhe será mais grato? Quem
terá mais amor”? E o fariseu responde acertadamente: “aquele ao
qual mais foi perdoado” Lucas 7.36-50. E Jesus lhe disse: “muito
bem”! Se atentarmos bem para o texto,
veremos que a mulher não pede perdão a Jesus. Na verdade, Jesus diz que
aquela mulher já fora perdoada. Sua declaração no v. 47 é de algo que já
aconteceu: “seus numerosos pecados lhe estão perdoados” (BJ); ou
“os seus pecados tão numerosos foram perdoados” (TEB), “os
muitos pecados que ela cometeu estão perdoados” (Pastoral) ou conforme
traduz muito bem a BLH: “o grande amor que ela mostrou prova que os
seus muitos pecados já foram
perdoados”. O perdão que
aquela mulher já havia recebido produziu amor em seu coração. O perdão é
sempre fonte de amor porque não atua com base no que possamos oferecer em
troca. Diante de Deus, nada podemos oferecer para comprar-lhe o
perdão. Gratuitamenteo, porém, o perdão é ofertado, por Jesus. Por
isso a lógica do Evangelho é diferente da nossa lógica. Quando alguém nos
ofende ou quando ofendemos alguém, o perdão humano geralmente vem
acompanhado de condições e, geralmente a pessoa perdoada nessas condições
vê nascer em seu coração um sentimento de humilhação, revolta e ódio, ao
invés de amor. Mas o perdão oferecido por Jesus sempre produz
amor. Enquanto nos sentirmos rejeitados por Deus, não poderemos amá-lo. Deus aparecerá sempre como um poder opressor que outorga leis de acordo com seu prazer, que julga de acordo com seus mandamentos e que condena de acordo com sua vontade. O perdão é maior experiência que alguém pode ter. Isso não acontece freqüentemente, mas quando acontece, ela decide e transforma tudo. O ministério cristão, de quem recebeu o perdão libertador, não consiste em acusar ainda mais as pessoas de seus pecados. É antes, anúncio de um escândalo: a oferta de um perdão que não opera nas leis da barganha e da troca. Somente esse é o perdão capaz de transformar vidas, porque somente esse faz nascer o amor e nos traz a paz (Carlos Eduardo Calvani, Pão da Vida- Ano C, CEA, 2006). Gálatas 2.11-21 - Esta
carta é escrita em meio a um enorme conflito na igreja inicial. De um lado
temos um “cristianismo com uma forte tendência judaizante e de outro, um
cristianismo gentílico” (portanto livre da tradição legalista do judaísmo
bíblico). De um lado temos a exigência da fé em Cristo, como única
condição para a salvação. De outro, encontramos cristãos dizendo que sem a
prática da circuncisão ninguém pode ser salvo. Afinal quem estará com a
verdade? É diante destes problemas que Paulo escreve. Sua intenção era
demonstrar que ninguém precisava ser circuncidado para pertencer ao povo
da aliança. Neste texto percebemos que há pelo menos três coisas
impossíveis, quando este tipo de questão volta à baila: é impossível
uma religiosidade livre de condicionamentos pessoais ou sociais (v.
11). O texto começa com um confronto entre duas
pessoas que seriam os legítimos representantes da igreja. A questão era o
que fazer sobre a questão da circuncisão dos não-cristãos, Paulo assume
uma postura bem mais aberta, mas resiste à tentação de desqualificar Pedro
diante da comunidade em função do que acreditava, mas em função do que
fazia. É possível que em nossas comunidades também encontremos pessoas que
vivam em posições antagônicas sobre vários assuntos. Em segundo lugar,
devemos compreender que é impossível a justificação pelas obras
(v. 16). Paulo passa a tratar do tema da “justificação”. inicia
dizendo que “o homem não é justificado por obras da lei”. Para Paulo, o
que tornaria alguém “justo” diante de Deus jamais seria algo que tenha a
ver com a guarda de algum dia, a prática da circuncisão ou seus hábitos
alimentares. Finalmente, somos instruídos a perceber que é impossível
um cristianismo sem cruz (v. 19). Ora, afirmar que a lei não pode
mais ser o parâmetro de medida sobre nosso relacionamento para com Deus
não é a mesma coisa que dizer que não temos mais qualquer exigência em
nossa vida. De acordo com o pensamento de Paulo, se nós fomos
“crucificados com Cristo”, então estamos mortos segundo a lei. A lei não
pode mais atingir, acusar, punir, uma vez morto segundo a lei. Antes de
incentivar uma postura legalista em nossas comunidades, ou seja, uma
postura que procure “sinais externos de santidade” no que fazemos, comemos
ou vestimos, precisamos incentivar a prática de uma vida pautada pelos
valores do Reino (Jorge Aquino, Pão da Vida- Ano C, CEA,
2006). 1Reis
21, 1-10 (11-14) - É preciso entender o contexto do escritor
deuteronomista, aqui. Trata-se de uma identificação histórico-profética da
exploração e extermínio de quem se coloca no caminho dos interesses de
poderosos as quais manipulam a política a seu favor. Em todos os tempos.
Nabote, assassinado por Acabe para a obtenção da desapropriação de seu
vinhedo, é símbolo emblemático da falta de escrúpulo econômico do
capitalismo. Os livros dos Reis juntos abrangem acontecimentos que cobrem
um período de mais de quatrocentos anos, desde a subida do rei Salomão ao
trono (971 a.C.: 1Rs 1) até as regalias recebidas pelo rei Jeconias
durante o exílio dos israelitas na Babilônia (561 a.C.: 2Rs 25,27-30). Se
o livro dos Juízes pode ser chamado de “laboratório” do historiador
deuteronomista, com toda a razão os livros dos Reis podem, por sua vez,
ser chamados de “canteiros de obras” da análise deuteronomista (Ivo
Storniolo). Os fatos estão situados no fim do período da monarquia, então
decadente e em vias de total extinção. Experimentavam-se as conseqüências
de regimes opressivos, que negam direitos e produzem violações de direitos
de toda ordem, especialmente contra os fracos e sem poder político, que o
historiador procura avaliar criticamente a partir da fé em
Yahweh, seguindo os parâmetros da aliança expressos no livro do
Deuteronômio. Trata-se também de leis e do perdão de dívidas injustas
imputadas a inocentes, aqui. Existe a
nostalgia do governo anfictiônico, tribal, conciliar. O que os juízes eram
no sistema tribal, os profetas são agora dentro do “Sistema Tributarista”.
O sistema dos reis: não há desenvolvimento, há tributação para tudo,
beneficiando a economia agregada, ou atrelada aos interesses da corte.
Poderíamos dizer que, consciente ou inconscientemente, os profetas são os
guardiães atentos da consciência popular, principalmente da memória
campesina e tribal. Entendemos então por que junto com o primeiro rei
surge também o primeiro profeta, e quando desaparecem os “reis”
desaparecem também os profetas propriamente ditos. O profeta é o vigilante
do sistema injusto,ambíguo e perigoso. Sempre está atento para denunciar
publicamente os seus desmandos. Assim, o profeta é o articulador
permanente da resistência, contra a prepotência, exploração e opressão da
cidade (idolatria). Vista
por esse ângulo, a atividade profética sempre está a favor do
produtor independente, pequeno ou micro-empresário, e do cidadão oprimido
e contra as estruturas opressoras – economia, política e
ideologia – da cidade/governo (como é Brasília para nós). A essa altura
podemos entender melhor as fórmulas usadas pelos profetas: – “assim
diz Yahweh”; “oráculo de Yahweh”, bem como a ousadia deles em
empenhar o nome de Yahweh em toda a sua atividade de denúncia.
Eles tinham como pano de fundo de toda a sua atividade produtiva o ideal
da fé em Yahweh, que dera forma e consistência ao Sistema Tribal
de governo, cooperativo e solidário. Tendo em vísta esse horizonte,
erguiam alto as suas críticas indignadas ao sistema vigente de exploração
do trabalho e a opressão das elites beneficiadas, consumista, geradora e
sustentadora da desigualdade. O poder político e a riqueza de uma minoria
privilegiada, bem-postos às custas do enfraquecimento e empobrecimento da
maioria do povo, é motivo para a indignação profética. Nabote é o pequeno
produtor perseguido e exterminado pelos interesses da corte idolátrica de
Israel.
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