DA RESPONSABILIDADE DOS QUE CONDUZEM O POVO Richard Shaull disse: “a experiência do Espírito Santo como fonte de vida e esperança, com a presença e o poder do Cristo ressurreto, bem como o poder de uma renovação cotidiana, com garantia de vitória sobre as forças demoníacas que habitam o mundo, pode realizar-se aqui e agora. Através da vida, morte e ressurreição de Jesus, e o dom do Espírito Santo, a obra salvadora de Deus se manifesta como resposta imediata ao sofrimento, à dor e à fraqueza – o que possibilita a caminhada em direção à plenitude de vida com saúde, bem-estar material e social, e felicidade. O Espírito Santo está presente com poder em meio a tudo que faz o povo chorar e gritar, amar e odiar, sentir fome e abandono. E essa presença traz consigo a expectativa de verdadeiros milagres que operam mudanças repentinas, oferecendo uma solução (pentecostal) para cada situação de desespero – que homens e mulheres respondem com cânticos de louvor”.
Cuidamos, hoje, da responsabilidade dos
condutores do povo*. Um dos títulos dos profetas era “homem de Deus”. O
povo os estimava por isso, mas também os temiam, pois havia a crença de
que nada lhes era encoberto, conseqüentemente também os pecados das
pessoas, pelos quais merecemos os castigos de Deus. Ora, a morte, de todos
era o pior (vv. 18,20). Como “homem de Deus”, os profetas eram vistos como
tendo especiais dons carismáticos, entre os quais, além do poder da
palavra, o poder de operar milagres, particularmente de cura e até de
levantamento de mortos (Nota: ênfases do pentecostalismo religioso, hoje).
O episódio se situa num tempo de grave crise no país. Estamos no século IX
a.C. O reino de Israel, no norte, cuja capital era Samaria, está
mergulhado numa terrível luta entre a elite dominante e o povo camponês.
I Reis 17.17-24 - Acab é o rei, da dinastia
que havia organizado realmente o Estado e o estava “levando a ser como
todos os reinos vizinhos”. Como acontece nas cortes, seu casamento foi um
acordo político internacional com o reino de Tiro. Casou-se com a princesa
fenícia Jezabel, mulher forte e afirmativa, que passou a exercer grande
influência sobre o marido. Quando a Bíblia nos diz que foram introduzidos
no país os deuses fenícios (cf. 16.29-34), na verdade, como o texto já o
indica (vv.33-34), se trata de muito mais: a elite está adotando os
costumes estrangeiros, o rei se sente o dono do povo e a opressão já não
se sente julgada pela Lei de Deus. Isso é claro quando se mostra o profeta
como líder do povo camponês e porta-voz da oposição (cf. 18.1-19); na luta
entre Elias e os profetas de Baal, os “ideólogos” ou agentes de
comunicação para impor ao povo os projetos do Estado e da classe dominante
(cf. 18.20-46); na perseguição a morte, por parte da rainha, contra quem
permanecia fiel ao estilo de vida do povo de Deus (cf. 19.1-3,10, 14).
O texto é magistral ao nos indicar onde está
a solução. A vida reside no homem de Deus, em sua energia e em seu
testemunho. Ora, em ambiente tão difícil, de dominação e perseguição,
quando o medo paralisa as pessoas, e elas se escondem para salvar a pele
(cf. 18.7-15), a proposta do texto é chocante: é preciso identificar-se
com a coragem do homem de Deus. Só revive quem, de algum modo, renascer e
se tornar como ele. Não é por acaso que se trata da criança, símbolo do
início da vida (v. 19). A pobre viúva já tinha iniciado seus passos nessa
caminhada, ao acolher corajosamente o homem de Deus. É a partir dela, como
mãe geradora de vida, que a nova vida da criança pode chegar mediante a
presença e a inspiração profética. A história da viúva de Naim e de seu
filho é inspirada nesses contos a respeito da atividade dos antigos
profetas. É preciso que o jovem morto seja “tocado” pelo corpo vivo de
Jesus. Na carta aos Gálatas, é-nos apresentado o exemplo vivo de Paulo. Ele nos fala de sua nova
vida, “regenerado” pela escolha de Deus para o ministério universal entre
os povos, ele que havia sido “separado desde o seio de sua mãe”. Sua nova
vida surgia de um fato, parecido com o que se contava sobre Elias e
Eliseu: nele se operara uma nova identidade por sua identificaço com o
“Filho nele revelado” (Gl 1.16). Gálatas 1.11-24 - Lembramos que Paulo
responde às críticas feitas contra sua pregação inclusiva do Evangelho,
que retirava dos não-judeus a obrigatoriedade da circuncisão. O apóstolo
que radicalizar a discussão sobre o que é mesmo o Evangelho de Nosso
Senhor Jesus Cristo e para isso esclarece uma série de questões: a) O
Evangelho, com o qual foram evangelizados (euangélion to cauncelistén)
não é de inspiração humana, mesmo que inclusivo, mas trata-se de uma
revelação (apocalipseos) de Jesus Cristo (vv. 11-12). b) Trata-se
de uma missão encomendada pelo próprio Cristo e não por aconselhamento de
ninguém, mesmo daqueles tidos como autoridades da Igreja (vv. 17-18). c)
Tem como prova, publicamente reconhecida, a conversão do próprio apóstolo
que, de perseguidor e religioso destacado no judaísmo (de onde certamente
provinham os que queriam impor a circuncisão), transformou-se em
evangelizador (euangeliçétai) da fé que antes buscava destruir (vv.
13-14 e 23-24). A estrutura do texto mostra o argumento a ser
desconstruído e a razão que o leva a contestá-la, isto é, que o Evangelho
por ele anunciado é de inspiração humana, mas é, na verdade, revelação
de Jesus Cristo.
Lucas 7.11-17. O
Evangelho de hoje narra o episódio da ressuscitação do filho da viúva de
Naím. Há alguns aspectos importantes a ressaltar nessa narrativa. O morto
era filho único de uma viúva e já estava a caminho do sepulcro quando
Jesus se encontrou com o cortejo. Na tradição da cultura judaica, a mulher
não tinha nenhum prestígio. Sua existência e importância estavam ligadas
ao fato de ser casada com um homem judeu. Quando a mulher ficava viúva e
tinha algum filho homem, esse filho herdava do pai o “status” de chefe da
família e a viúva garantia assim segurança econômica, e seu “status” de
pertença à sociedade. Esta viúva perdeu a sua última chance de inclusão
social. Agora, sem o marido e sem o filho, ela
entraria na marginalidade e na exclusão. Esta é a razão pela qual Jesus se
compadece da situação dessa mulher. Ele sabe que o futuro dela sem o
marido e o filho será de muita humilhação, pobreza e
marginalidade. Outro aspecto importante da narrativa é o fato de que as pessoas que acompanhavam o cortejo, ao verem que o defunto havia ressuscitado, ficaram com medo, louvaram a Deus e proclamaram a Jesus como um grande profeta que estaria trazendo salvação ao povo. Aqui a atividade messiânica de Jesus começa a ser percebida. O povo que assiste ao milagre da ressurreição é tomado de um sentimento de êxtase: medo, alegria e salvação. A morte enfim foi vencida. Então, a morte era entendida como o fim de tudo e de todas as coisas. A morte tinha então um poder de domínio extraordinário no imaginário das pessoas. Jesus vence a morte ao ressuscitar o filho único da viúva. O império romano reinava utilizando a tortura e a crucificação como instrumentos de intimidação e subjugo dos povos dominados.
A religião
judaica legitimava uma cultura patriarcal onde uma viúva sem nenhum filho
homem estaria quase que condenada à morte social. Portanto, a ressurreição
vai contra dois princípios de domínio do povo, um no mundo religioso onde
a mulher nada valia e outro no campo político onde a morte pretendia calar
os insubordinados. A ressurreição do filho da viúva de Naim deu a Jesus
uma grande popularidade. Estava lançada a base da nova religião iniciada
por João Batista e fortalecida pelo movimento de Jesus – a religião que
esvazia o poder da morte e o poder de todos aqueles que utilizam a morte
para dominar os outros é substituída. A morte não tem mais poder, pois
agora, com Jesus, é possível a ressurreição, em todas as formas, quando se
faz necessária! --------- *Textos extraídos do Pão da Vida, Comentário ao Lecionário Anglicano, Próprio 2. Autores: Sebastião A.Gameleira;Humberto Maiztegui Gonçalves;Elias Lopes Vergara. Texto final: Derval Dasilio.
Derval Dasilio Pastor da Igreja Presbiteriana Unida Visite: www.paoquentediario.com.br |