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                  10o.DOMINGO DO TEMPO COMUM  - Ano “C” 

1Reis 17,8-16 (17-24) – A opressão solidária das elites

Salmo 146 – O Senhor faz justiça ao oprimido.

Gálatas 1,11-24 – A liberdade do Espírito, em Cristo.

Lucas 7, 11-17 –  Ressuscitar é impedir a exclusão.

                  DA RESPONSABILIDADE DOS QUE CONDUZEM O POVO

 

Richard Shaull disse: “a experiência do Espírito Santo como fonte de vida e esperança, com a presença e o poder do Cristo ressurreto, bem como o poder de uma renovação cotidiana, com garantia de vitória sobre as forças demoníacas que habitam o mundo, pode realizar-se aqui e agora. Através da vida, morte e ressurreição de Jesus, e o dom do Espírito Santo, a obra salvadora de Deus se manifesta como resposta imediata ao sofrimento, à dor e à fraqueza – o que possibilita a caminhada em direção à plenitude de vida com saúde, bem-estar material e social, e felicidade. O Espírito Santo está presente com poder em meio a tudo que faz o povo chorar e gritar, amar e odiar, sentir fome e abandono. E essa presença traz consigo a expectativa de verdadeiros milagres que operam mudanças repentinas, oferecendo uma solução (pentecostal) para cada situação de desespero – que homens e mulheres respondem com cânticos de louvor”.

 

Cuidamos, hoje, da responsabilidade dos condutores do povo*. Um dos títulos dos profetas era “homem de Deus”. O povo os estimava por isso, mas também os temiam, pois havia a crença de que nada lhes era encoberto, conseqüentemente também os pecados das pessoas, pelos quais merecemos os castigos de Deus. Ora, a morte, de todos era o pior (vv. 18,20). Como “homem de Deus”, os profetas eram vistos como tendo especiais dons carismáticos, entre os quais, além do poder da palavra, o poder de operar milagres, particularmente de cura e até de levantamento de mortos (Nota: ênfases do pentecostalismo religioso, hoje). O episódio se situa num tempo de grave crise no país. Estamos no século IX a.C. O reino de Israel, no norte, cuja capital era Samaria, está mergulhado numa terrível luta entre a elite dominante e o povo camponês.

 

I Reis 17.17-24 - Acab é o rei, da dinastia que havia organizado realmente o Estado e o estava “levando a ser como todos os reinos vizinhos”. Como acontece nas cortes, seu casamento foi um acordo político internacional com o reino de Tiro. Casou-se com a princesa fenícia Jezabel, mulher forte e afirmativa, que passou a exercer grande influência sobre o marido. Quando a Bíblia nos diz que foram introduzidos no país os deuses fenícios (cf. 16.29-34), na verdade, como o texto já o indica (vv.33-34), se trata de muito mais: a elite está adotando os costumes estrangeiros, o rei se sente o dono do povo e a opressão já não se sente julgada pela Lei de Deus. Isso é claro quando se mostra o profeta como líder do povo camponês e porta-voz da oposição (cf. 18.1-19); na luta entre Elias e os profetas de Baal, os “ideólogos” ou agentes de comunicação para impor ao povo os projetos do Estado e da classe dominante (cf. 18.20-46); na perseguição a morte, por parte da rainha, contra quem permanecia fiel ao estilo de vida do povo de Deus (cf. 19.1-3,10, 14).

 

O texto é magistral ao nos indicar onde está a solução. A vida reside no homem de Deus, em sua energia e em seu testemunho. Ora, em ambiente tão difícil, de dominação e perseguição, quando o medo paralisa as pessoas, e elas se escondem para salvar a pele (cf. 18.7-15), a proposta do texto é chocante: é preciso identificar-se com a coragem do homem de Deus. Só revive quem, de algum modo, renascer e se tornar como ele. Não é por acaso que se trata da criança, símbolo do início da vida (v. 19). A pobre viúva já tinha iniciado seus passos nessa caminhada, ao acolher corajosamente o homem de Deus. É a partir dela, como mãe geradora de vida, que a nova vida da criança pode chegar mediante a presença e a inspiração profética. A história da viúva de Naim e de seu filho é inspirada nesses contos a respeito da atividade dos antigos profetas. É preciso que o jovem morto seja “tocado” pelo corpo vivo de Jesus. Na carta aos Gálatas, é-nos apresentado o exemplo vivo de  Paulo. Ele nos fala de sua nova vida, “regenerado” pela escolha de Deus para o ministério universal entre os povos, ele que havia sido “separado desde o seio de sua mãe”. Sua nova vida surgia de um fato, parecido com o que se contava sobre Elias e Eliseu: nele se operara uma nova identidade por sua identificaço com o “Filho nele revelado” (Gl 1.16).

 

Gálatas 1.11-24 - Lembramos que Paulo responde às críticas feitas contra sua pregação inclusiva do Evangelho, que retirava dos não-judeus a obrigatoriedade da circuncisão. O apóstolo que radicalizar a discussão sobre o que é mesmo o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo e para isso esclarece uma série de questões: a) O Evangelho, com o qual foram evangelizados (euangélion to cauncelistén) não é de inspiração humana, mesmo que inclusivo, mas trata-se de uma revelação (apocalipseos) de Jesus Cristo (vv. 11-12). b) Trata-se de uma missão encomendada pelo próprio Cristo e não por aconselhamento de ninguém, mesmo daqueles tidos como autoridades da Igreja (vv. 17-18). c) Tem como prova, publicamente reconhecida, a conversão do próprio apóstolo que, de perseguidor e religioso destacado no judaísmo (de onde certamente provinham os que queriam impor a circuncisão), transformou-se em evangelizador (euangeliçétai) da fé que antes buscava destruir (vv. 13-14 e 23-24). A estrutura do texto mostra o argumento a ser desconstruído e a razão que o leva a contestá-la, isto é, que o Evangelho por ele anunciado é de inspiração humana, mas é, na verdade, revelação de Jesus Cristo.  

 

Lucas 7.11-17. O Evangelho de hoje narra o episódio da ressuscitação do filho da viúva de Naím. Há alguns aspectos importantes a ressaltar nessa narrativa. O morto era filho único de uma viúva e já estava a caminho do sepulcro quando Jesus se encontrou com o cortejo. Na tradição da cultura judaica, a mulher não tinha nenhum prestígio. Sua existência e importância estavam ligadas ao fato de ser casada com um homem judeu. Quando a mulher ficava viúva e tinha algum filho homem, esse filho herdava do pai o “status” de chefe da família e a viúva garantia assim segurança econômica, e seu “status” de pertença à sociedade. Esta viúva perdeu a sua última chance de inclusão social. Agora, sem o marido e sem o filho, ela entraria na marginalidade e na exclusão. Esta é a razão pela qual Jesus se compadece da situação dessa mulher. Ele sabe que o futuro dela sem o marido e o filho será de muita humilhação, pobreza e marginalidade.

 

Outro aspecto importante da narrativa é o fato de que as pessoas que acompanhavam o cortejo, ao verem que o defunto havia ressuscitado, ficaram com medo, louvaram a Deus e proclamaram a Jesus como um grande profeta que estaria trazendo salvação ao povo. Aqui a atividade messiânica de Jesus começa a ser percebida. O povo que assiste ao milagre da ressurreição é tomado de um sentimento de êxtase: medo, alegria e salvação. A morte enfim foi vencida. Então, a morte era entendida como o fim de tudo e de todas as coisas. A morte tinha então um poder de domínio extraordinário no imaginário das pessoas. Jesus vence a morte ao ressuscitar o filho único da viúva. O império romano reinava utilizando a tortura e a crucificação como instrumentos de intimidação e subjugo dos povos dominados.

 

A religião judaica legitimava uma cultura patriarcal onde uma viúva sem nenhum filho homem estaria quase que condenada à morte social. Portanto, a ressurreição vai contra dois princípios de domínio do povo, um no mundo religioso onde a mulher nada valia e outro no campo político onde a morte pretendia calar os insubordinados. A ressurreição do filho da viúva de Naim deu a Jesus uma grande popularidade. Estava lançada a base da nova religião iniciada por João Batista e fortalecida pelo movimento de Jesus – a religião que esvazia o poder da morte e o poder de todos aqueles que utilizam a morte para dominar os outros é substituída. A morte não tem mais poder, pois agora, com Jesus, é possível a ressurreição, em todas as formas, quando se faz necessária!

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*Textos extraídos do Pão da Vida, Comentário ao Lecionário Anglicano, Próprio 2. Autores: Sebastião A.Gameleira;Humberto Maiztegui Gonçalves;Elias Lopes Vergara. Texto final: Derval Dasilio.

 

                                                       Derval Dasilio

                                        Pastor da Igreja Presbiteriana Unida

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