Dia da Reforma Protestante Ano “A”

CALVINO -  UM VERDADEIRO PROTESTANTE

 

João Calvino era homem dotado com força letal contra a situação da Igreja imperial no século XVI, ao lado do gigante Martinho Lutero. Seu comportamento era pedante e afetado, infelizmente. Disseram alguns de seus biógrafos. Não houve confusão? Calvino era determinado, obsessivo, quanto à Reforma, batendo de frente, muitas vezes, com as ingerências propostas no momento. Calvinistas posteriores, ortodoxos e irremovíveis, doutrinários antes que determinados, imitam-no neste aspecto ou no outro? Essa afetação e pedantismo, creio, é muito mais o espelho conservador que a imagem memorial de um homem revolucionário, que teve coragem de enfrentar a caixa de vespas doutrinária que se impunha aos cristãos da época. Creio que os braços aleijados do conservantismo prevaleceram. Superam em presunção do domínio da verdade. Deformam o pensamento da Reforma. Calvino não simboliza conservantismo e anacronismo teológicos.

 

Na Inglaterra, século dezessete, sob os efeitos da Confissão de Westminster, sob o risco de ser sufocado, funda-se um presbiterianismo racionalista politicamente defensivo, porque presbiterianos eram relegados no Parlamento. Mas é o protestantismo escolástico do século seguinte à Reforma Protestante, empenhado que está na consolidação de doutrinas ortodoxas a respeito de Deus, do Homem e do Mundo, que trata de desfigurar a Reforma. E o próprio Calvino, e com ele o caráter revolucionário do grande reformador. A hermenêutica do momento é racionalista (séc.XVII). Antecede ao Iluminismo alemão (Aufklärung), que vai reagir, também, às presunções da verdade e autoridade doutrinais propostas ao protestantismo. No século dezessete o diálogo com a modernidade incipiente é adiado em favor de uma metafísica geral do conhecimento de Deus. Discutem-se doutrinas, afirmam-se questões onde a razão suplanta a fé. Busca-se uma teologia natural, onde o mundo se rende ao reconhecimento obrigatório da presença de Deus. Ou sucumbirá sem Deus. Calvino não está aqui. Absolutamente.

 

Muitos teólogos percorrem os caminhos neo-escolásticos na contra-mão da Modernidade. Servirão ao racionalismo fundamentalista protestante que chega no século XX. E serão vitoriosos. Reina o fundamentalismo travestido de protestantismo ortodoxo, em nosso meio. Nem Lutero, nem Calvino. Mas, sim, luteranismo e calvinismo ortodoxos. Vestem, ambos, a roupagem fundamentalista que enfeitaria as personagens da festa doutrinal evangélica do século XXI.  Dentro da Igreja Romana, sem declarar separação, mas afirmando a reforma eclesiástica, os reformadores lutavam por uma “eclesiologia reformada”, porém. Igreja reformada sempre se reformando (ecclesia reformata semper reformanda). Alguns teólogos já reclamavam a mesma coisa, com esta expressão, na pré-Reforma, Idade Média.

 

Como já acontecia (quase trezentos anos antes do neo-evangelicalismo), propõem-se o esquecimento do Calvino reformador, e suas idéias teocráticas sobre Igreja, Política e Economia (cf. Soberania de Deus sobre todas as coisas), assim como enterravam Lutero e suas teses principais: o sacerdócio universal de “todos” os crentes (lembremo-nos de que todos os reformadores, a exceção de Calvino, eram sacerdotes ordenados da Igreja); o perdão dos pecados humanos de modo  indistinto: “peca fortiter, crede fortius”, peca com audácia, porém, creia ainda mais firmemente na justificação através de Jesus Cristo, como escreveu ao atribulado colega Melanchton); a recusa do “pelagianismo prático” ou espiritual, que transitava desde a simonia aberta, indulgências para o perdão dos pecados, até a mortificação do corpo e da alma, com a mesma finalidade de auto justificação. Hoje, quando ser pobre ou necessitado é  equivalente a ser pecador, uma pessoa mal-sucedida, com dinheiro e autoflagelação, ou os dois juntos, propõe-se a mesma coisa como indulgência que chega aos céus pela intermediação neo-evangélica.   É a moda.

 

Calvino é um tanto isolado, em relação aos demais reformadores, como disse Lewis Munford (A Condição de Homem). Severo e apaixonado, porém, são atributos que devem ser creditados a Calvino, ao passo que Lutero se desmanchava em argumentações contemporizadoras, e contraditórias, às vezes, em várias situações, quando defendia absolutismos monárquicos, ao lado dos príncipes alemães. Calvino era metódico, sistemático, rigoroso, enquanto Lutero era empírico, talvez pragmático, enquanto pensava na Igreja de Deus e a Igreja dos homens (Igreja sociológica?). Custo a acreditar na afirmação de que Calvino era cartesiano antes de Descartes. Por ser anacrônica. Calvino é humanista, fruto do humanismo renascentista e não do racionalismo presbiteriano que o sucedeu. Estudou no mesmo colégio em que esteve Erasmo de Rotterdam,  embora não tivesse sido seu contemporâneo. Porque as raízes da Reforma, a essência da luta protestante, localizava-se na superação do escolasticismo medieval, metafísico, assim como buscava demolir a religiosidade popular quebrando as colunas da superstição que a sustentavam.  Dentro da própria Igreja.

 

Bem mais novo que Lutero, quando o reformador pregava a 95 teses nos portões da universidade de Wittenberg, Calvino contava com apenas oito anos de idade. Somente ao fim nas duas décadas seguintes entraria no cenário da Reforma Protestante, enquanto publica seus primeiros esboços eclesiológicos (Institutas da Religião Cristã). Mas, ambos tinham a consciência exata dos abusos da igreja monárquica que se imiscuía na condição civil na qualidade na qual se outorgava como Sacro Império Romano. E as correções, em ambos, se faziam necessárias. Com rigor.  Duvidando da Igreja orientada pelo “seu” papa (Calvino era católico!), propunha que o Estado levasse em conta o “governo de Deus”. Um Estado teocrático. Não o governo eclesiocêntrico comandado pelo Papa. Calvino diz “não” ao Sacro Império Romano, e “sim” à Igreja de Jesus Cristo. Esta é a essência do protestantismo calvinista.

 

Na Igreja, ainda católica romana, apontou a possibilidade apenas para quatro ministérios ordenados, excluindo o episcopalismo diversificado, desde o pároco, o bispo, o arcebispo, o cardeal e o papa. São estes: pastores, doutores (mestres na doutrina da fé), presbíteros e diáconos. E só, embora ainda seja muito... Introduziu a liturgia no vernáculo, localizou a disciplina moral eclesiástica a ser exercida num Consistório parlamentar, que garantia aos acusados amplo direito de defesa... em tese. Serveto, acusado de heresia, fora preso e julgado na França. Conseguira evadir-se da prisão e quando se dirigia para a Itália, através da Suíça, foi novamente preso em Genebra, julgado e condenado a morrer na fogueira, por decisão de um tribunal eclesiástico sob direção do próprio Calvino. A sentença foi cumprida em Champel, nas proximidades de Genebra, no dia 27 de outubro de 1553. Pisaram na bola. Julgaram um estrangeiro num tribunal religioso, exatamente como se fazia em Roma. Eis aí o resultado dos “consistórios”, das “constituições eclesiásticas”. Nenhuma diferença da inquisição curial de onde procede o católico fugitivo acusado de heresia que é João Calvino.

 

Lutero também carrega uma grave mancha, não menor que a de Calvino: escrevera contra os camponeses sem-terra e sem direitos, liderados por Thomaz Münzer, e os príncipes alemães cometeram um genocídio inominável, imperdoável, massacrando milhares de camponeses, apoiados em sua teologia negativa de direitos fundamentais e de socialização da economia, no momento.

 

Por volta do ano 2000, a Igreja Reformada/Presbiteriana pediu perdão, por Calvino, reconhecendo a injustiça contra Serveto. Mas devia pedir perdão contritamente, com arrependimento, pelos inúmeros tribunais presbiterianos organizados para queimar supostos hereges em toda parte (Inquisição sem Fogueiras, João Dias de Araújo). Mérito, porém, para a Academia de Genebra, que Calvino criou para que se discutissem suas idéias sobre a soberania de Deus, diaconias sociais, e etc.. O que veio depois de Calvino, especialmente a partir do protestantismo neo-escolástico do século XVII, que produziu, inclusive, a Confissão de Westminster (Karl Barth a renegava, por seu racionalismo doutrinário e outras posições escolásticas), baluarte do autoritarismo eclesiástico doutrinal, depois interpretado nos princípios fundamentalistas do famigerado “Cinco Pontos do Calvinismo”, conhecido como TULIP. Aqui nos deparamos com o sepultamento da Reforma, pretendido por muitos, inclusive avivalistas e fundamentalistas do pietismo norte-americano que ainda vigoram no presbiterianismo.

 

O grande e extraordinário reformador João Calvino (1509-1564), porém, levanta-se de sua sepultura no moderno presbiterianismo ecumênico. Declarara seu empenho em favor  da unidade da Igreja de Cristo. A grande, enorme, imensurável maioria presbiteriana e reformada, no mundo inteiro, cultiva essa memória em favor do Ecumenismo, desde o século XX.

 

  Derval Dasilio

Pastor da Igreja Presbiteriana Unida

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