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CRISTO - REI DO UNIVERSO Ezequiel
34,11-16 – Eu mesmo
procurarei minhas ovelhas Salmo
100 – Celebrai, todos os
moradores da terra Efésios
1,15-23- Ressuscitado, sento à direita do Pai, acima de todo principado
e potestades ... Mateus 25, 31-46 – Assentar-se-á em seu trono glorioso e separará uns dos outros A
condução de Deus, com justiça sobre os seres humanos, semelhante à relação
do pastor com suas ovelhas, inclui um discernimento sobre os atos humanos.
Por isso, Ezequiel (34,11-16), depois de ter
descrito detalhadamente o cuidado das “ovelhas perdidas, desgarradas,
feridas, enfermas...”, ameaça a "cordeiros" e "bodes" do mesmo
rebanho (Mt 25,32-33). Nesta perspectiva, o julgamento final é o
ápice da preocupação misericordiosa de Deus sobre todo ser humano que
padece. Prevalecerá a justiça! O Reino é também um tribunal, onde há o
julgamento das injustiças, das desigualdades mantidas para sustentar
privilégios econômicos e sociais.
Conscientes da limitação inevitável de toda linguagem teológica,
que, por sua mesma natureza, é analógica, simbólica, figurativa, cada vez
mais se vem insistindo que a palavra “reino” não seria a mais adequada
nesta altura da história, por não expressar já uma forma de organização
sócio-política desejável para os homens e mulheres de hoje. A
familiaridade com as democracias modernas e participativas evidencia cada
vez mais a dificuldade de falar de Deus (e de Cristo) como “rei”, e de seu
projeto escatológico como um “reino”. O Reino de Deus foi o centro da vida
de Jesus, o eixo de sua pregação, o motivo de seus milagres, a razão de
ser de sua fidelidade até a morte, a coroa da ressurreição. Agora, no
século XXI, como entenderemos o reinado de Jesus Cristo face aos governos
deste mundo? Que significado tem a justiça do Reino face ao mundo
globalizado? Cristo, Rei do Universo. Monarquias arcaicas, absolutismo,
são idéias que nos acompanham, dois séculos após a Revolução Francesa.
Esta imagem suscita
sentimentos de confiança no crente? Lembra o conceito de reino-monárquico?
Um reino não é hoje em dia a forma mais freqüente de organização
sócio-política. A maior parte dos países são repúblicas, de diferentes
tendências, e os reinos que persistem não são – em sua maior parte –
reinos em forma clássica, adaptados à mentalidade atual (por exemplo, a
monarquia “parlamentar”). Estas, no fundo negam a essência do que é um
“reino”. Por outro lado, cristãos imaginam a igreja como “agência de um
reino celestial”, e não poucas vezes assumem uma posição triunfalista,
imaginando que a visibilidade do Reino de Deus se faz na Igreja. A prática demonstra, na maioria
das vezes, o contrário. Isto
é, uma igreja tende a
ocultar o sentido do reinado
de Deus. Mesmo quando coloca na fachada do megatemplo o nome Reino de Deus. Jesus pregou
o Reino como centro da fé, e não um centro de poder econômico ou espiritual.
Derivados da proximidade de Deus, o reinado de Deus diz
respeito ao fiéis cristãos, e ao mundo em sua totalidade, especialmente no
sentido de um reinado, uma política divina que contradiz os parâmetros
humanos quanto à justiça, mesmo que centralizada em dogmas e doutrinas. Em
qualquer parte do Universo. A Igreja, por sua vez, centraliza-se a si
mesma, quanto às exigências da fé.
No Reino de Deus prevalece uma justiça diferente. A proteção dos
homens e das mulheres na caminhada terrena abre ao seu momento um tempo
terminal para a injustiça.
Toda a história humana dirige-se ao início de uma nova era, um novo
céu e uma nova terra (Ap.21). Esta se dirige a um momento de revelação
plena da soberania de Deus, que presumirá o triunfo do Reino de Deus e dos
crentes sobre a morte, em todas as suas expressões. Morte econômica, morte
social, morte religiosa, morte espiritual e cultural. O significado da
“justiça no reinado de Deus”, desta forma, chega a um de seus pontos
culminantes.
Que
tipo de justiça está em pauta? Até quando a humanidade poderá viver em paz
com tamanhas contradições, entre os reinados humanos e o reinado de Deus?
Nem a racionalidade, e nenhuma moralidade, poderá conviver indefinidamente
com tal situação. Mais de 6 bilhões e 500 milhões de homens, mulheres e
crianças, habitam um planeta de muitas desigualdades, que contradizem a
justiça do Reino de Deus. Por que há tantas diferenças, desigualdades, se
também há tanta riqueza potencialmente capaz de ser repartida? Como
explicar os privilégios no reinado dos mais ricos, dos que nunca se
mostram capazes de prover um mínimo de condições dignas de vida para os
habitantes na face da Terra, ou que jamais pensam em cooperação, face às
necessidades da solidariedade e da partilha? Em contrapartida, desde 1960, as
distâncias sociais se ampliaram. A polarização dos ricos se evidencia na
concentração da riqueza mundial nas mãos de apenas 358 multimilionários,
que detém, sozinhos, 85% da riqueza mundial. No outro extremo, 2,3 bilhões de
habitantes da terra constituem sem-terra, sem-habitação, sem-saúde,
sem-escola, sem tudo para o mínimo de dignidade. Um abismo profundo separa
ricos, bem-postos e pobres, no planeta
Terra. Denuncia-se o caráter intencional dos reinos deste
mundo. A riqueza é
distribuída de modo a exacerbar a tensão entre ricos e pobres,
determinando as premissas de guerra frontal de uns contra os outros, em
competição aberta. Batalha fadada a ser cruenta se não forem identificados
os diferentes parâmetros do trabalho humano para redistribuição da riqueza
no mundo (Domenico Masi). A conseqüência calculada da concentração de
renda, nas mãos de poucos, é uma desigualdade sem precedentes na história
da humanidade. Informa-nos Jung Mo Sung: “atualmente cerca de 1,3 bilhões
de pessoas ganham menos de um dólar por dia, no mundo. São pessoas que não
servem mais para modernos processos produtivos, nem são consumidoras.
Assim, elas acabam sendo vistas como um estorvo ao progresso e à vida de
bem-estar, (alto padrão de consumo), da população integrada no mercado”.
Nas palavras de Sung, “a apatia beira o cinismo, frente ao sofrimento de
tantos, que revela uma profunda crise espiritual e ética que atinge o
mundo de hoje”. No
caso brasileiro, devemos imaginar o Brasil, também, como um país injusto,
campeão em desigualdades sociais, governado desde sempre por uma elite
arrogante e corporativa. Esta identificação de Deus com a miséria humana
fica bem clara na grande descrição do juízo final que Mateus põe na boca
de Jesus: O reinado de Deus, tendo por “rei” Jesus, articula esta passagem em
quatro momentos: uma introdução-apresentação (vv.31-33), a sentença que
toca aos justos e sua motivação (vv.34-40) seguida daquela que concerne
aos ímpios (vv. 41-45), e uma breve conclusão que resume a sorte de uns e
outros (v.46). Na
introdução-apresentação se coloca o momento da vinda gloriosa do Filho que
envolve toda a existência, e ele reinará sobre todos: “diante dele se
reunirão todos os povos” (v.32). Ainda que todos se reúnam diante ele, o
acontecimento não afeta a cada um da mesma maneira. A vinda é ocasião do
exercício da função de discernimento do pastor que separa “as ovelhas das
cabras” e coloca cada uma destas categorias em diversa relação a respeito
do pastor: “as ovelhas à sua direita e as cabras à sua esquerda” (v.33).
Para
descrever ambas relações se utilizam termos tomados do espaço geográfico a
respeito da posição ocupada pelo rei, a constatação da desgraça ou
felicidade e os companheiros do futuro. A uns dirá “venham”, os proclamará
“benditos” e se lhes destinará a participação no Reino de Deus (v.34). Aos
outros, pelo contrário, dirá: “afastem-se”, os chamará “malditos” e
ordenará que vão “para o fogo eterno preparado para o diabo e seus anjos”
(v.41). No
Antigo Testamento a orientação da idéia de justiça é diferente daquela que
domina a sociedade moderna. Para ela é fundamental a convicção de que só
Yahweh “julga” aquele (ou aquilo) que é justo. O homem não é justo em si
mesmo, ele é justificado, isto é, declarado justo por Deus, e é esta
aprovação divina que ele procura acima de tudo. Mesmo nas relações humanas
a noção de justiça conserva o acento jurídico e forense (declarativo) :
“Ai dos que, por suborno, justificam o perverso, e ao justo negam
justiça!” (Is 5,22s). Nesta concepção Deus é representado primordialmente como
juiz, mas de modo algum como o juiz moderno, que apenas aplica o mais
equitativamente possível as disposições de um código, e sim como um rei da
Antiguidade, exercendo soberanamente seu direito de vida e morte sobre
súditos. Nada compreenderemos sobre a noção bíblica, e paulina em
particular, do justo e da justiça, sem recolocá-la nesta perspectiva
vétero-testamentária do rei-juiz. O justo, aqui, já não é o homem
virtuoso, ainda menos o homem interiormente transformado ou divinizado por
iniciação mística; ele é essencialmente o homem aprovado por seu Rei. Esta
aprovação tem dois matizes: pode ser aprovação explícita de vida do
súdito, mas também pode ser aprovação-libertação, livrando o súdito tanto
da opressão como da violência de seus inimigos, e da opressão de suas
faltas existenciais (Pierre Bonnard, Justo, Vocabulário Bíblico, ASTE).
Faltas pessoais, omissão, conivência, por motivo de serviço aos reinos
deste mundo, constituem a coloração da conivência, da indiferença, quando
não se consegue vislumbrar a verdadeira realeza de Cristo.
Pastor da Igreja Presbiteriana
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