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9o.Domingo do Tempo Comum Ano "A"
Salmo 131 – Não corro atrás da propaganda
consumista
Romanos 3,22-28.-“Justificado pela fé sem obras ou prática da
lei” Mateus 7,21-29 - A casa construída sobre a rocha ou sobre areia
UM CAUSO BÍBLICO: NOÉ, A TROMBA D’ÁGUA E A IRRESPONSABILIDADE
Fala-se, hoje em dia, que há um retorno significativo de forças
eclipsadas, desde a ética
protestante, evidentemente quando pensamos Enfim, o hedonismo
desregrado é explicado, agora, como hedonismo prudente! Trata-se da saúde
física com muito afinco, porém externamente, para não fugir à regra.
Tecnologias destinadas à forma física, medicina alternativa, alimentos e
produtos dietéticos, técnicas orientais de relaxamento, produtos
cosméticos em profusão, alimentos “light” e embalagens
biodegradáveis, cruzadas anti-tabagismo, esportes leves e progressivos,
“of-road”, “on-street”, mostram que uma forma
individualista do cuidado suplanta de longe os interesses sobre o cuidado
essencial com a sociedade humana, em seu todo. No modo de pensar “pós-moderno”,
aspirações ao bem-viver confortavelmente são presas do consumismo
contemporâneo do lazer, do tipo “comamos e bebamos porque amanhã
morreremos”. Dos 6,5 bilhões de
habitantes do planeta Terra, cerca de 2 bilhões vivem em estado de pobreza
e de fome. Menos de 1/6 dos habitantes desse planeta gozam vantagens das
novas tecnologias medicinais, alimentares, habitacionais. Qualquer
diagnóstico, neste e noutros sentidos, mostram o quanto a sociedade
mundial contemporânea foge de suas responsabilidades sociais. Desastres
sísmicos e metereológicos comparam-se à irresponsabilidade e corrupção
humanas, na Bíblia (cf. Gênesis e Apocalipse). Dilúvio (hebr: “mabbul”) é também um modo
no qual se arrasa uma geração inteira. Só no século XX, experimentamos
esse fenômeno em duas guerras mundiais, enquanto estivemos à beira de uma
hecatombe nuclear universal. A corrupção moral da sociedade humana, na
totalidade, do ponto de vista bíblico, tão somente, faz com que Deus “se
arrependa” momentaneamente de ter criado o homem. Tratamos aqui do pecado
da irresponsabilidade social, pecado estrutural, no sentido de que outros
dependem das atitudes de indignação e combate à irresponsabilidade
coletiva e corrupção no meio humano (R.Feuillet). Noé fez exatamente o
que Deus lhe havia prescrito, tem fé na salvação e na justiça; (Hb 11,7:
Noé, divinamente avisado do que ainda não se via, e tomado de temor
religioso, construiu uma arca para salvar sua família). A arca é como um
santuário, mas é também a “casa/abrigo/símbolo” do homem obediente a Deus.
O micro-cosmo da salvação está representado ali: a arca tem três andares,
como se descrevia o universo na antiguidade. Deus fez com Noé o que faz
com a humanidade inteira, por sua própria iniciativa: uma Aliança, um
pacto de Salvação unilateral, que não permitirá a destruição de sua
própria obra (Gn 6,22). Deus não desanimou, enquanto retoma seu trabalho
de reconstrução do mundo. Mesmo a contragosto,
o Deus bíblico castiga a humanidade social e estruturalmente culpada com o
Dilúvio, enquanto a mesma evoca direitos a uma falsa liberdade, sem
respeito e sem cuidado com seus semelhantes (desumanização). O castigo
chega onde não existe solidariedade ou cuidado pela Criação. Em síntese, o
homem e a mulher desprezam a justiça. Pecam, em razão de sua injustiça. O
“caso Noé” difere completamente de outras situações narradas, a partir dos
mitos babilônicos e suas divindades, as quais se comportam muito mal,
constituindo-se elas próprias um mau exemplo para a humanidade. Não se
julgam responsáveis pelo mundo criado. Culpa individual e culpa coletiva se mesclam (Westermann). Acontece que os pecados dos indivíduos refletem os sistemas de pensar embutidos na história humana. É inegável que a intimidade dos indivíduos humanos é avaliada em relação a uma espiritualidade na qual a experiência de Deus vai determinar a transgressão. Nas proximidades da era cristã, antes dos apóstolos de Jesus, no judaísmo formativo, a partir do século IV a.C., os judeus já refletiam profundamente sobre a má inclinação e a deformação da natureza humana. E o quanto essa deformação (pecado) impregnava uma sociedade inteira, estruturalmente. Noé seria meramente um símbolo de obediência a Deus? Sua fé é religiosa ou simplesmente teológica? Uma vez mais nos
enganaremos, se pensamos que alguma obra humana, como a prática religiosa,
constitui abrigo moral diante da impiedade dos homens (Gn 6,9-22). Noé,
não por seus méritos, é agraciado pela escolha e eleição de Deus. Tem fé e
obedece, enquanto sofre toda sorte de deboche e abuso de consciência. A
“arca”, construída na obediência, abriga a criação de Deus, enquanto a
Bíblia Hebraica anuncia a vitória dos descendentes do primeiro casal sobre
as forças do mal. O espírito religioso da narrativa bíblica do Dilúvio é
infinitamente adiantado em relação a outras tradições babilônicas, e
fenícias, que falam de deuses briguentos que resolvem aniquilar a
humanidade por simples capricho. A possibilidade de divinização da
natureza também existe, ali. Textos pré-bíblicos
referem-se a potências cósmicas comandando as estações e os fenômenos
climáticos. O Gênesis, na Bíblia Hebraica, porém, só reconhece uma
inteligência e uma força superior aos homens e semideuses: Deus! O Deus
dos hebreus ignora o politeísmo religioso. O centro de gravidade do texto
bíblico sobre o Dilúvio é a obediência, a fé e a justiça de Deus. A
realidade social, sob exigências da “ética divina da justiça”. Fé, liberdade e justiça são
referenciais indispensáveis, do ponto de vista bíblico original
(R.deVaux). É uma perfeita
bobagem julgar as cidades e hecatombes mitológicas como Sodoma e Gomorra,
e o Dilúvio, quanto a possíveis licenciosidades sexuais e imoralidades
explícitas. O quadro do conjunto se refere à justiça ética, exclusão
social, violência sistemática aos direitos fundamentais do homem e da
mulher. “A violência contra e entre os meninos e meninas, e a violência
contra a mulher têm origem em padrões culturais, em que o poder é exercido
pelo homem adulto. Além disso, a sexualidade precoce e os casos de
gravidez prematura constituem outros desafios à educação ética enfocados
sobre relações afetivas, como respeito, tolerância, empatia e
reconciliação”, diziam representantes da Rede Global de Religiões pela
Infância (GNRC- sigla inglesa), reunidos recentemente no Japão.
Acrescentavam: “Não se pode
equiparar as palavras pobreza e violência, no entanto. Embora a pobreza
crie grandes possibilidades para que os jovens se tornem pessoas
violentas, a maior parte dos pobres sofre a violência de sua pobreza sem
responder com violência à sociedade dos bem-postos economicamente”.
Sofrem, lutam, e esperam por melhores dias, pois não podem dar-se ao luxo
de perder a esperança e este resquício de esperança é um espaço
privilegiado para o trabalho das igrejas, das organizações, dos cristãos,
que se expressam em diaconias, e em grupos de pressão na direção de
políticas sociais adequadas ao momento onde a ruína das instâncias éticas
se evidencia. O trabalho na promoção dos direitos fundamentais, uma
educação de qualidade, eticamente, representariam alguma coisa semelhante
à construção da arca de Noé. [Blog Derval
Dasilio - Escritos: www.derv.wordpress.com ]. Mateus
7,21-27: Para ilustrar a obediência e o que significa pôr em
prática a vontade do Pai, Jesus usa a imagem da construção da casa: “um
homem prudente constrói a casa sobre a rocha, de modo que nem chuva nem
enxurradas nem ventos conseguem derrubá-la. O homem insensato, sem juízo,
constrói sobre a areia, e chuva, enxurradas e ventos, dilúvios, trazem
ruína total para a casa” (vv. 24-27: Em Israel, a casa (oikos) é a base da organização
humana; o mundo, a sociedade e a própria comunidade constituem “a casa do
homem” (oikumene). Quem
diz seguir a Jesus, mas permanece nas palavras, com belas orações, que não
passam à prática da justiça, é como um homem estúpido que constrói uma
casa com fundamento sobre a areia, sem nenhuma segurança e solidez. [A
Bíblia Hebraica refere-se à casa do homem, incialmente, como um jardim (Gn
2,18-14), uma descrição do ecossistema inicial. Ali, há uma convivência harmoniosa
entre o ser-homem e a ser-mulher, e entre os animais. Os animais, as
plantas, o meio-ambiente, foram feitos especialmente para o bem-estar
humano, enquanto agradável aos olhos e bom para alimentá-los (animais e
homens). Nos capítulo seguinte do Gênesis (3,1-5; 13-15 e 18), a casa
virou palco de conflito entre homens e mulheres, animais e plantas: a terra produzirá também cardos e
abrolhos. A casa mudou, depois do “pecado”. Torna-se um campo de
batalha, a harmonia transforma-se em descompasso,
desencontro. Prevalecem os mal-entendidos (Günther Wolff)].
A imagem da chuva,
enxurradas e ventos, evocam o Dilúvio e remetem ao juízo de Deus (cf. Gn
6,9-22; Ez 13,9-14; Is 28,16-17; 30,30). Durante esta vida os seguidores
de Jesus enfrentarão dificuldades, se a “casa” for construída sobre a
areia. Mesmo porque um seguimento somente de palavras é muito cômodo
(Chico Anísio: “Palavras são palavras, nada mais que palavras...”). Jesus
está falando aqui de um acerto de contas final, quando a casa já estará
construída e quando nos apresentaremos a ele com nossa vida, que é uma
casa que acabou de se construir. Quem construiu na areia, sem expressar a
fé em Jesus em ações de justiça, verá a ruína completa de sua casa. Quer
dizer, de sua vida. Não precisamos esperar uma “tromba d’água”, um
dilúvio, um tzunami, maremoto,
chuva, enxurrada e vento, para construir uma vida de justiça. Construir
relações de justiça desde já é começar a lançar fundamentos firmes para a
vida de fé alicerçada na rocha da vontade de Deus, assim como Jesus
ensinou, com palavras e ações (José Bortolini, Roteiros Homiléticos). -------- Lecionário: Revda. Izaura Márcia Venerano Site Pão Quente Diário: Atos 2,1-21 (ou Números 11,24-25) – Diziam: estão
embriagados! sob |