9o.Domingo do Tempo Comum

 

            Ano "A"       

     

                          Gênesis 6,9-22 – Noé, um caso de fé e obediência à justiça           

           Salmo 131 – Não corro atrás da propaganda consumista      

                      Romanos 3,22-28.-“Justificado pela fé sem obras ou prática da lei”

                 Mateus 7,21-29 - A casa construída sobre a rocha ou sobre areia

 

 

UM CAUSO BÍBLICO: NOÉ, A TROMBA D’ÁGUA E A IRRESPONSABILIDADE 

 

       Fala-se, hoje em dia, que há um retorno significativo de forças eclipsadas,  desde a ética protestante, evidentemente quando pensamos em Max Weber e sua análise do puritanismo calvinista, no que se refere à ética do trabalho e da produção, visando acima de tudo a acumulação do capital.  Avançam a longos passos o cuidado excessivo com o corpo, por exemplo. A palavra de ordem é ter um corpo “turbinado”, artificial ou através de meios clínicos ou cirúrgicos. Com a palavra as academias de ginástica e as clínicas de modelagem estética. Nesse ritmo, marcado pela superficialidade, salvarão o mundo. Autoridades do alto escalão fazem propaganda do “botox”, o presidente aparece facialmente rejuvenescido, atrizes presentes na mídia televisiva alardeiam a modelagem estética...

Enfim, o hedonismo desregrado é explicado, agora, como hedonismo prudente! Trata-se da saúde física com muito afinco, porém externamente, para não fugir à regra. Tecnologias destinadas à forma física, medicina alternativa, alimentos e produtos dietéticos, técnicas orientais de relaxamento, produtos cosméticos em profusão, alimentos “light” e embalagens biodegradáveis, cruzadas anti-tabagismo, esportes leves e progressivos, “of-road”, “on-street”, mostram que uma forma individualista do cuidado suplanta de longe os interesses sobre o cuidado essencial com a sociedade humana, em seu todo. No modo de pensar “pós-moderno”, aspirações ao bem-viver confortavelmente são presas do consumismo contemporâneo do lazer, do tipo “comamos e bebamos porque amanhã morreremos”.  

Dos 6,5 bilhões de habitantes do planeta Terra, cerca de 2 bilhões vivem em estado de pobreza e de fome. Menos de 1/6 dos habitantes desse planeta gozam vantagens das novas tecnologias medicinais, alimentares, habitacionais. Qualquer diagnóstico, neste e noutros sentidos, mostram o quanto a sociedade mundial contemporânea foge de suas responsabilidades sociais. Desastres sísmicos e metereológicos comparam-se à irresponsabilidade e corrupção humanas, na Bíblia (cf. Gênesis e Apocalipse). Dilúvio (hebr: “mabbul”) é também um modo no qual se arrasa uma geração inteira. Só no século XX, experimentamos esse fenômeno em duas guerras mundiais, enquanto estivemos à beira de uma hecatombe nuclear universal. A corrupção moral da sociedade humana, na totalidade, do ponto de vista bíblico, tão somente, faz com que Deus “se arrependa” momentaneamente de ter criado o homem. Tratamos aqui do pecado da irresponsabilidade social, pecado estrutural, no sentido de que outros dependem das atitudes de indignação e combate à irresponsabilidade coletiva e corrupção no meio humano (R.Feuillet).  

Noé fez exatamente o que Deus lhe havia prescrito, tem fé na salvação e na justiça; (Hb 11,7: Noé, divinamente avisado do que ainda não se via, e tomado de temor religioso, construiu uma arca para salvar sua família). A arca é como um santuário, mas é também a “casa/abrigo/símbolo” do homem obediente a Deus. O micro-cosmo da salvação está representado ali: a arca tem três andares, como se descrevia o universo na antiguidade. Deus fez com Noé o que faz com a humanidade inteira, por sua própria iniciativa: uma Aliança, um pacto de Salvação unilateral, que não permitirá a destruição de sua própria obra (Gn 6,22). Deus não desanimou, enquanto retoma seu trabalho de reconstrução do mundo.  

Mesmo a contragosto, o Deus bíblico castiga a humanidade social e estruturalmente culpada com o Dilúvio, enquanto a mesma evoca direitos a uma falsa liberdade, sem respeito e sem cuidado com seus semelhantes (desumanização). O castigo chega onde não existe solidariedade ou cuidado pela Criação. Em síntese, o homem e a mulher desprezam a justiça. Pecam, em razão de sua injustiça. O “caso Noé” difere completamente de outras situações narradas, a partir dos mitos babilônicos e suas divindades, as quais se comportam muito mal, constituindo-se elas próprias um mau exemplo para a humanidade. Não se julgam responsáveis pelo mundo criado. 

Culpa individual e culpa coletiva se mesclam (Westermann). Acontece que os pecados dos indivíduos refletem os sistemas de pensar embutidos na história humana. É inegável que a  intimidade dos indivíduos humanos é avaliada em relação a uma espiritualidade na qual a experiência de Deus vai determinar a transgressão. Nas proximidades da era cristã, antes dos apóstolos de Jesus, no judaísmo formativo, a partir do século IV a.C., os judeus já refletiam profundamente sobre a má inclinação e a deformação da natureza humana. E o quanto essa deformação (pecado) impregnava uma sociedade inteira, estruturalmente. Noé seria meramente um símbolo de obediência a Deus? Sua fé é religiosa ou simplesmente teológica?

Uma vez mais nos enganaremos, se pensamos que alguma obra humana, como a prática religiosa, constitui abrigo moral diante da impiedade dos homens (Gn 6,9-22). Noé, não por seus méritos, é agraciado pela escolha e eleição de Deus. Tem fé e obedece, enquanto sofre toda sorte de deboche e abuso de consciência. A “arca”, construída na obediência, abriga a criação de Deus, enquanto a Bíblia Hebraica anuncia a vitória dos descendentes do primeiro casal sobre as forças do mal. O espírito religioso da narrativa bíblica do Dilúvio é infinitamente adiantado em relação a outras tradições babilônicas, e fenícias, que falam de deuses briguentos que resolvem aniquilar a humanidade por simples capricho. A possibilidade de divinização da natureza também existe, ali.  

Textos pré-bíblicos referem-se a potências cósmicas comandando as estações e os fenômenos climáticos. O Gênesis, na Bíblia Hebraica, porém, só reconhece uma inteligência e uma força superior aos homens e semideuses: Deus! O Deus dos hebreus ignora o politeísmo religioso. O centro de gravidade do texto bíblico sobre o Dilúvio é a obediência, a fé e a justiça de Deus. A realidade social, sob exigências da “ética divina da justiça”.  Fé, liberdade e justiça são referenciais indispensáveis, do ponto de vista bíblico original (R.deVaux).

É uma perfeita bobagem julgar as cidades e hecatombes mitológicas como Sodoma e Gomorra, e o Dilúvio, quanto a possíveis licenciosidades sexuais e imoralidades explícitas. O quadro do conjunto se refere à justiça ética, exclusão social, violência sistemática aos direitos fundamentais do homem e da mulher. “A violência contra e entre os meninos e meninas, e a violência contra a mulher têm origem em padrões culturais, em que o poder é exercido pelo homem adulto. Além disso, a sexualidade precoce e os casos de gravidez prematura constituem outros desafios à educação ética enfocados sobre relações afetivas, como respeito, tolerância, empatia e reconciliação”, diziam representantes da Rede Global de Religiões pela Infância (GNRC- sigla inglesa), reunidos recentemente no Japão. Acrescentavam: 

“Não se pode equiparar as palavras pobreza e violência, no entanto. Embora a pobreza crie grandes possibilidades para que os jovens se tornem pessoas violentas, a maior parte dos pobres sofre a violência de sua pobreza sem responder com violência à sociedade dos bem-postos economicamente”. Sofrem, lutam, e esperam por melhores dias, pois não podem dar-se ao luxo de perder a esperança e este resquício de esperança é um espaço privilegiado para o trabalho das igrejas, das organizações, dos cristãos, que se expressam em diaconias, e em grupos de pressão na direção de políticas sociais adequadas ao momento onde a ruína das instâncias éticas se evidencia. O trabalho na promoção dos direitos fundamentais, uma educação de qualidade, eticamente, representariam alguma coisa semelhante à construção da arca de Noé. [Blog Derval Dasilio - Escritos: www.derv.wordpress.com ].

 

Mateus 7,21-27: Para ilustrar a obediência e o que significa pôr em prática a vontade do Pai, Jesus usa a imagem da construção da casa: “um homem prudente constrói a casa sobre a rocha, de modo que nem chuva nem enxurradas nem ventos conseguem derrubá-la. O homem insensato, sem juízo, constrói sobre a areia, e chuva, enxurradas e ventos, dilúvios, trazem ruína total para a casa” (vv. 24-27: Em Israel, a casa (oikos) é a base da organização humana; o mundo, a sociedade e a própria comunidade constituem “a casa do homem” (oikumene).     

Quem diz seguir a Jesus, mas permanece nas palavras, com belas orações, que não passam à prática da justiça, é como um homem estúpido que constrói uma casa com fundamento sobre a areia, sem nenhuma segurança e solidez. [A Bíblia Hebraica refere-se à casa do homem, incialmente, como um jardim (Gn 2,18-14), uma descrição do ecossistema inicial.  Ali, há uma convivência harmoniosa entre o ser-homem e a ser-mulher, e entre os animais. Os animais, as plantas, o meio-ambiente, foram feitos especialmente para o bem-estar humano, enquanto agradável aos olhos e bom para alimentá-los (animais e homens). Nos capítulo seguinte do Gênesis (3,1-5; 13-15 e 18), a casa virou palco de conflito entre homens e mulheres, animais e plantas: a terra produzirá também cardos e abrolhos. A casa mudou, depois do “pecado”. Torna-se um campo de batalha, a harmonia  transforma-se em descompasso, desencontro. Prevalecem os mal-entendidos (Günther Wolff)].                         

 Estes versículos são as palavras finais de Jesus no grande Sermão da Montanha (caps. 5-7). Jesus se dirige aos discípulos e às multidões anunciando a felicidade dos pobres que buscam e constroem a libertação, a felicidade futura dos que sofrem no presente para que a justiça de Deus se instaure no mundo. Obedecer a Deus é “pôr em prática a vontade do Pai” (vv. 21-23). Jesus diz que nem todo aquele que demonstra religiosidade, professando a fé nele como “Senhor” (esta era a principal profissão de fé em Jesus das primeiras comunidades do movimento de Jesus), entrará no Reino do Céu (= reinado de Deus). Não basta dizer-se seguidor de Jesus para entrar e participar do Reino. Homem prudente é o que constrói sobre a rocha (vv. 24-27).

                                                                                                      

A imagem da chuva, enxurradas e ventos, evocam o Dilúvio e remetem ao juízo de Deus (cf. Gn 6,9-22; Ez 13,9-14; Is 28,16-17; 30,30). Durante esta vida os seguidores de Jesus enfrentarão dificuldades, se a “casa” for construída sobre a areia. Mesmo porque um seguimento somente de palavras é muito cômodo (Chico Anísio: “Palavras são palavras, nada mais que palavras...”). Jesus está falando aqui de um acerto de contas final, quando a casa já estará construída e quando nos apresentaremos a ele com nossa vida, que é uma casa que acabou de se construir. Quem construiu na areia, sem expressar a fé em Jesus em ações de justiça, verá a ruína completa de sua casa. Quer dizer, de sua vida. Não precisamos esperar uma “tromba d’água”, um dilúvio, um tzunami, maremoto, chuva, enxurrada e vento, para construir uma vida de justiça. Construir relações de justiça desde já é começar a lançar fundamentos firmes para a vida de fé alicerçada na rocha da vontade de Deus, assim como Jesus ensinou, com palavras e ações (José Bortolini, Roteiros Homiléticos).  

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Texto: Rev.Derval Dasilio

Lecionário: Revda. Izaura Márcia Venerano 

Site Pão Quente Diário:

www.paoquentediario.com.br

Atos 2,1-21 (ou Números 11,24-25) – Diziam: estão embriagados!

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