33º (Penúltimo) Domingo do Tempo Comum

Ano "A" 

 

Juízes 4,1-7 – O memorial da escolha das doze tribos de Israel

Salmo 78,1-7   Para que as novas gerações conheçam a fé e a esperança

1Tessalonicenses 5,1-11O dia do Senhor ocorrerá inesperadamente

Mateus 25, 14-30 Parábola dos talentos

 

TRAGÉDIA SENSACIONALISTA NA TV

A nova ótica do mundo, em sua ênfase individualista e egoísta, premia o mundo competitivo, enquanto sufoca os sonhos de transformação social. Enquanto esconde os desafios ambientais (o planeta sistematicamente violentado e assassinado!). Camufla-se o que está acontecendo com a sociedade inteira com gritarias sobre quebra da bolsa, “vacas loucas”, febre aftosa, gripe das galinhas. A mídia televisiva colabora, faz um circo sobre seqüestro de adolescentes, estimulando outros assassinatos frente à telinha, enquanto o país pára e retrocede convidado a opinar sobre o direito de ter uma arma mortal em casa ou na gaveta do veículo que se dirige.

Interessa-nos o que ocorreu com Eloá, adolescente protagonista de uma morte anunciada, ajudada pela Tv Globo. Seu assassinato só não foi visto ao vivo porque as objetivas das câmeras não atravessam paredes de concreto.  Quem refletirá, agora, sobre os 2 milhões de reais que o advogado de Nayara, sobrevivente do seqüestro, pede de indenização por sua participação testemunhando o crime hediondo? Exige-se do Estado, enquanto os depoimentos originais são maquiados, inclusive informações sobre os momentos que antecederam ao assassinato de Eloá.  E o meio suicídio do jovem Lindemberg. O rosto da menina contratada com exclusividade pelo canal televisivo citado, devidamente glamourizado, sob script bem decorado, em nada lembrava a tragédia recente. Uma tragédia sensacionalista. Os esforços interligados, sensacionalismo e ocultação da verdade dos fatos, apresentam uma visibilidade estranha sobre o que acontece com a sociedade, no todo. A memória curta está do lado dos oportunistas e aproveitadores do drama alheio. A mídia encontrará outra menina para estimular a catarse social.  Eloá será esquecida em poucos dias.

VIVE-SE FURIOSAMENTE O CONSUMO DE TRAGÉDIAS, ESQUECENDO A PRINCIPAL.

Thomas Skidmore, brasilianista conceituado, que nos acostumamos a ler desde a ditadura militar, dizia no Roda Viva da TV Cultura, pouco tempo atrás: “Do jeito que as coisas vão, os historiadores terão pouca coisa para contar, no futuro próximo, mas os antropólogos e arqueólogos estarão bem interessados no que teria acontecido com uma sociedade tão promissora que se entregou ao projeto do Brasil... ”, referindo-se  ao desinteresse de hoje pela realidade visível, e os resultados das escavações arqueológicas no futuro, quando se analisarem os resultados políticos do que se produz hoje. Disse mais: “... a sociedade brasileira não está disposta a sacrificar-se pelo desenvolvimento  que alcançaria toda a população”. Kant escreveu, no século XVIII, a Crítica da Razão Pura. Combatia o racionalismo cristão do momento. Se estivesse vivo, teria que escrever outro libelo: uma Crítica à Insensatez Absoluta. Hoje.

Vive-se furiosamente em função do consumo, por um lado. Por outro, todos se esforçam em aparecer como pessoas bem-sucedidas. As palavras de ordem são eficiência, qualidade total, inteligência emocional, possuir bens aparentes e exibi-los como prova de “capacidade”. Ser indivíduos vencedores é estímulo quase inevitável, para uma geração inteira. Temos uma visão do mundo como se fora um supermercado. Tudo se vende e tudo se compra. As igrejas imitam supermercados... O shopping center possui o deslumbramento incrível do acessível, mas desnecessário. Outra menina, acho que não a matariam por isso, escrevia na internet: “Vocês já notaram como 10 reais é tão pouco no shopping, e tão ‘demais’ na hora do ofertório no  culto cristão”? Dentro da igreja, por outro lado, “a seleção natural do dinheiro”, da prosperidade, dá visibilidade aos bem-postos, bem-sucedidos, que ditam regras para o sucesso da legião de fracassados em contínuas competições. O futuro das igrejas evangélicas será construído com freqüentadores de shoppings que vêm aos cultos dominicais exibir seu sucesso e suas vitórias?

A RAÍNHA PERDEU 40 MILHÕES NA BOLSA. E DAÍ?

Que faremos com os que não podem competir, ou consumir os bens que são produzidos dentro da ótica hipermoderna da produção de bens de consumo e desprezo por bens sociais? Hoje, o Evangelho nos convida a ler “os sinais dos tempos” enquanto traçamos projetos de evangelização integral e integrada com as diaconias sociais que cuidam também da paz, da solidariedade, da discussão dos direitos negados, da cidadania, da ecologia humana. Sim, ecologia do homem, já que a questão do mundo natural apresenta-se em manifestações de morte ambiental explícita. Não tenho mais coragem de voltar à cidade interior onde cresci, e que meus pais ajudaram a fundar. Receio não suportar a paisagem destruída de minha infância. Uma cidade mais jovem que eu. Saudosismo? Não. Uma lamentação. Um esforço, como Proust, em busca do tempo perdido. A evangelização integrada à denúncia profética da destruição ambiental, da ausência de direitos fundamentais, da violência institucional e da própria sociedade encurralada pela problemática que não se quer ver, se entrelaçaria com as questões e exigências da proclamação da justiça, enquanto Jesus Cristo proclama o Reino de Deus? 

A parábola dos talentos é desafiadora, nesse contexto (Mt 2,14-30), muitos acham elementos para a defesa capitalista da competição livre, onde os derrotados são sepultados à beira do caminho.   No nosso entender, não se trata disso. Ela se constitui em alerta sobre a necessária vigilância, como a das “dez virgens” (cf. reflexão do domingo anterior), e principalmente um compromisso com a diaconia financeira que costumávamos chamar de “mordomia”. Mudou o sentido do termo, dirige-se ao usofruto de vantagens desonestas.  O contexto interpretativo do Evangelho é, na verdade, um incentivo ao compromisso, um elogio ao esforço empreendedor capaz de trazer rendimentos que permitirão multiplicar os recursos empregados na extensão do Reino. De que fala Mateus, senão na vinda futura do Filho do Homem para o juízo sobre a economia humana que nega os princípios da economia divina? A parábola elogia o trabalho, a efetividade, a inteligência nos ganhos justos, referindo-se a realidades terrestres do cotidiano de cada um, da sociedade e das nações.

Assim, a eficiência e a eficácia dependerão da aplicação dos resultados como objetivo primordial. Cabe-nos imaginar uma eficiência cristã distributiva, conseqüentemente. Quando o mesmo evangelho de Mateus também exorta: “nem todos que dizem Senhor, Senhor, entram no Reino... mas sim os que fazem a vontade do Pai”; ou: “Bem-aventurados os que escutam a Palavra e a põem em prática”. O mundo capitalista, entretanto, tem sua proposta pragmática: “todos que dobram os joelhos ao deus do capital, entram no reino celestial do consumismo”. 

Em outras palavras: confundimos a evangelização com as luzes do mercado de capitais, perguntamos se a bolsa quebra ou não quebra, se devemos preocupar-nos com trilhões de dólares virtuais que desaparecem na crise atual, apontando uma recessão mundial. Devem chamar atenção as propostas consumistas que se apresentam, e a necessidade do cuidado, da diaconia econômica dos bens e das riquezas dadas, e não que a rainha Elizabeth II perdeu 40 milhões de dólares no mercado de capitais. É urgente uma ética econômica mundial que aponte o único destinatário possível para a sobrevivência de todos. Trataremos, nesse caso, do cuidado com a humanidade toda, além do que está próximo, o ser humano oprimido pelas desigualdades. Trataremos da cooperação para a sustentabilidade do desenvolvimento integral. Acentuaremos a compaixão e a misericórdia para com os deserdados e excluídos no mundo inteiro, antes de qualquer coisa.  

Atender aos chamados para estarmos alertas a respeito dos sinais do Reino pode ser algo bem difícil nos tempos atuais. O espírito de competição, e não o de cooperação, e solidariedade, impera. Os homens e mulheres de nosso tempo têm medo de tudo. “Qualquer ameaça, como o terrorismo, o aquecimento global ou a gripe aviária, desperta uma neurose global”. Mas não se desperta consciência e responsabilidade social. Todos somos responsáveis por todos, ou esquecemos o que somos e rasgamos os certificados de batismo cristão. As elites egoístas da sociedade hipermoderna assumem sua ganância sem nenhum pudor, em toda parte. Mas não querem discutir as raízes sociais da violência. Lembramos Caco Barcelos, que nos informava recentemente da conivência dessa elite com o crime organizado. Igrejas também cristãs abrigam o crime organizado e protegem notórios corruptos

A lógica contemporânea valoriza o hiperconsumo, no entanto. “O que nos dá a sensação de progredir, de ser felizes, pelo menos momentaneamente, é comprar, comprar e comprar”, frase instilada à exaustão. A sociedade de hoje não se inspira em ideais superiores em termos de civilização. Movimenta-se no sentido de estabelecer a concorrência acirrada entre todos os indivíduos, sem objetivos finais claros. Não se move pela aspiração a um mundo melhor, mas pela ação mecânica da competição (Luc Ferry). Faz inveja ao “non sense” dos anos 20, o nihilismo do século passado. O tempo é de negação das ideologias e utopias, enquanto a afirmação capitalista do consumo toma um rosto diferente daquele que nos acostumáramos a combater em anos passados. É a face do tempo atual. Nenhum cirurgião plástico corrigirá suas imperfeições.                                                                                                                                                                        ______

Derval Dasilio

 

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