32o. Domingo do Tempo Comum

Ano "A" 

Josué 24,1-3a; 14-25 –  Juramento para uma Aliança bi-lateral

Salmo 78,1-7 –  Escuta, Israel, minhas instruções: começa um novo tempo

1Tessalonicenses 4, 13-18 – Deus trará de volta os que entraram no sono da morte.

Mateus 25, 1-13 – O  Reino chega sem mandar aviso

 

PARA NÃO SER BARRADO NO BAILE  DA VIDA

 

Profissões de fé! Isto é temático, nos compromissos para o estabelecimento de uma “nação” abençoada por Yahweh. Um diálogo enfático expressa a conseqüência desses compromissos: é impossível para Yahweh aceitar o panteão de divindades do mundo cananita no meio de Israel.  Os antecedentes são claramente colocados, em três etapas.  Tratam da “história da salvação”.  Mais que isso: história de uma libertação político-religiosa sem precedentes. O povo é libertado do Egito, libertado da escravidão cultural, econômica, religiosa.  O povo caminha pelo deserto, sem habitação ou referências ancestrais (é inútil evocar, aqui, os patriarcas...), a não ser as referências penitenciais. Sofre provação, à mercê das forças naturais, antes que culturais. Deus, Yahweh, faz uma Aliança. O povo entra em Canaã, sob esse acordo: Excluam de sua vida as divindades que comandam as escravidões (política, economia, religião),  e eu faço a minha parte!

 

De resto, é o de sempre. Dificuldades e mais dificuldades, Josué parece um líder sádico. Alguém que sente prazer em apontar o sofrimento. Primeiramente, fala de um Deus exclusivista, ciumento, apegado aos seus próprios atributos, os quais não compartilha com nenhuma outra divindade.  Oferece uma Aliança? Sim.  Mas há condições. Bênçãos e maldições tramitam lado a lado nesta caminhada. Como em Deuteronômio 30, o bem e o mal são colocados radicalmente lado a lado (cf. esta afirmação não pode ser vista no contexto do judaísmo formativo, envolvido com o “maniqueísmo” zoroástrico ou mazdeísta do mundo cultural persa, mais tarde). Josué insiste num “juramento” confessional. Algo bem diferente da referência a Moisés, que apresenta como testemunho e endosso o Código da Lei (Dt 31,28-29).  Atenção, pois. O povo é que testemunha esse compromisso, declarando: “Somos testemunhas!”. Feito o juramento, vem o imperativo: “Tirai, pois, do vosso meio, os deuses estranhos, e colocai-vos ao lado de Yahweh”!  Nada se aproxima da idéia exposta na “séfer-torah”, “o livro da lei”. Não se trata de uma lei gravada na pedra. Pode ser até uma lei da consciência, ou do coração, como queria Jeremias (31,31-34). Josué morreu aos cento e dez anos, e enquanto viveu, conclui o autor do livro: “Israel serviu o Senhor”. Uma incógnita no texto, porém: “Os ossos de Josué foram trazidos do Egito e sepultados em Siquém...”.  

 

                                                    SER RESSURRETO, PARTICIPANDO DA CAUSA DO CRISTO

 

Por sua vez Paulo, na Carta aos Tessalonicenses, tenta responder as dúvidas de alguns irmãos que chegaram recentemente à comunidade. Estes irmãos consideram-se desfavorecidos porque estariam ausentes da próxima vinda do Senhor. Paulo reafirma o ensinamento que recebeu: os que morreram em Jesus estarão presentes com Ele no último dia. Eles ressuscitarão em primeiro lugar e os que ficarem serão levados ao Senhor. Porque se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, Deus levará consigo aqueles que morreram em Jesus, pois para Paulo no batismo, expressão de conversão, submergimos na morte do Senhor para ressuscitar com Ele. Assim mesmo, os que morreram com Cristo ressuscitam com Ele porque participam do caminho, do seguimento, e da alegria por continuar sendo a Utopia de Deus, que chamamos Reino. Terreno difícil para distinguir o que é substância de fé – ou de nossa esperança - sem confundi-la com uma cosmologia ou mitologia do tempo e da cultura helenista que não era a bíblica. A cosmologia, ou representação da vida, e a morte na cultura da sociedade em que viveu o apóstolo, não conferem com o que compreendiam hebreus. A “alma cultural” de Israel transparece, no Novo Testamento. As idéias sobre a ressurreição dos mortos fundem-se na idéia da ressurreição do ser inteiro, completo, indivisível, como entendia o hebreu da Bíblia. A alma religiosa ou cultural refere-se ao modo de ser inteiro de um povo. A corrupção filosófica platônica, desde os quatro primeiros séculos do Cristianismo helênico, toma conta do povo cristão até os dias de hoje. Esquece o corpo ou os corpos humanos. Concretos, políticos, reais, existenciais. Trata da pessoa individualmente, e não como parte da sociedade, e como “alma imortal”. Pensa o corpo (e nos corpos) como prisão (prisões) da alma. Voltemos à Bíblia Hebraica. Alma (nephesh, no hebraico), corpo, sensações, percepções, sentimentos, são tudo uma coisa só, indivisível, inseparável. No Novo Testamento pode-se falar de “alma psicosomátíca” (corpo e alma interagindo no ser indivisível, inseparável, “nephesh” é  traduzida por “psiquê”.

 

                                                    DE PRONTIDÃO, O REINO IRROMPERÁ A QUALQUER MOMENTO!

 

Mateus traz a parábola das dez virgens, prudentes e imprudentes, que estavam esperando o noivo. Não diz a “seus noivos” ou “aos noivos”. “O noivo” designa Jesus mesmo (Mt 9,15). E recordemos que o Reino de Deus também é simbolizado como um banquete de casamento... 

 

A parábola ensina um final, uma “escatologia” da pessoa. Todos dependem do caminho que escolhem. Que, de alguma maneira, a morte é conseqüência da vida prudente ou imprudente que se leva. Há escolhas... Imprudentes são os que ouviram a mensagem de Jesus mas não o levam a sério. Prudentes são os que traduzem em sua vida a prática de Jesus e sua causa, e por isso entram para a festa do banquete do Reino. A parábola é uma séria advertência. “Vigiem, fiquem acordados, porque não se sabe o dia e nem a hora”. Não deixem que em nenhum momento se apague a lâmpada da fé, em esperança, porque qualquer momento pode ser o último. Fiquem atentos, porque a festa da vida tem lugar já, agora mesmo. O Reino está aqui. Acendam as lâmpadas com o azeite, da fé, da fraternidade, do cuidado, do serviço, da cooperação mútua. Corações assim cheios de luz permitirão viver a autêntica alegria da espera, aqui e agora. Os demais, os que vivem ao redor de nós, sentir-se-ão também iluminados, conhecerão também a alegria da presença do Noivo esperado. Jesus pede para que nunca falte azeite em nossas lâmpadas. Corações e mentes sempre iluminados.   

 

Certamente temos que aproveitar o momento presente para construir fraternidade, não para buscar de modo egoísta nosso próprio bem estar. As virgens imprudentes colocaram “outro azeite” em suas lâmpadas: o que serve para iluminar egoisticamente seus caminhos. Não puderam entrar na festa de casamento, não entraram no baile      (São semelhantes aos meninos que, assentados nas praças, clamam uns aos outros e dizem: Tocamos-vos flauta e não dançastes... - Lc 7:32a). E se tivessem entrado não teriam entendido absolutamente nada. Na festa da vida os que só olham por seu próprio interesse se aborrecem.  Não dançam e nem se alegram (Zwínglio Motta Dias). 

 

O reinado de Deus permanece na pauta dos que “esperam a festa da vida em esperança”. Governos arbitrários, reinados deste mundo, sempre dando vantagens aos ricos e poderosos, são marcados pelo uso da força e da violência. Política, economia, religião, estão engajadas nesse esforço. O reinado de Deus, porém, está marcado pela superação da violência, da miséria e da marginalização dos órfãos e viúvas deste mundo. Desprotegidos, despoderados, esquecidos de todos, são preferencialmente o alvo de Deus. O observador vigilante, como a virgem que espera pelo noivo, portanto, deve ter este duplo olhar: olhar para Deus e olhar para o que não goza dos direitos fundamentais da vida. Olhar para Deus é a fonte de toda libertação possível e o olhar para o excluído identifica onde há necessidades prioritárias. Olhando para Deus, diferencia-se o Reino de Deus dos reinos deste mundo. O Reino de Deus – ordem de justiça e da superação de toda opressão possível – ,  ao pretender olhar para o excluído e para o sistema gerador de opressão, como pressuposto de todo fazer teológico, reclama o engajamento do fiel na luta contra todo sofrimento humano, situado nas realidades cotidianas presentes, à vista de todos.

 

Na caminhada dos seguidores de Jesus e das comunidades, semelhante consciência está explicitada, por exemplo, no canto: “o Deus dos pobres, do povo sofredor, aqui nos reuniu pra cantar o seu louvor, pra nos dar esperança e contar com nossas mãos  na construção do reino, reino novo, povo irmão”. O livro do Êxodo, tanto quanto o de Josué, sendo este mais direto e incisivo, mostra um Deus que age na história dos homens e das mulheres como um Deus libertador: “Eu vi, eu vi a miséria do meu povo que está no Egito. Ouvi seu grito por causa de seus opressores; pois eu conheço as suas angústias. Por isso desci a fim de libertá-lo da mão dos egípcios e para fazê-lo subir desta terra para uma terra boa e vasta, terra que mana leite e mel” (Ex 3,7-8b). Essa tradição do Deus libertador se expressa na profissão de fé do povo libertado: “Eu sou teu Deus que te fez sair da terra do Egito, da casa da escravidão” (Ex 20,2). “Vocês vigiem, porque não sabem o dia e nem a hora”(Mt 25,13). Que hora? O momento novo da irrupção incontrolável do Reino. Não se trata de decisão de homens e mulheres, mas  de esperar, a qualquer momento, a intervenção de Deus. Paráfrase conclusiva. Tal como no êxodo da escravidão no Egito: Não deixem que em nenhum momento se apague a lâmpada da fé, em esperança, porque qualquer momento pode ser o último”.

 

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Derval Dasilio

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