30o. Domingo do Tempo Comum Ano "A" 30o DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO “A” Deuteronômio
34,1-12 – Moisés
teve autoridade para exigir obediência a
Deus Salmo
90,1-6;13-17 – Tudo passa rapidamente, o tempo
voa 1Tessalonisenses
2,1-8 – É imprescindível servir a
Deus... Mateus
22,34-40 – Amarás ao
Senhor teu Deus, e ao teu próximo como a ti
mesmo NÃO BASTA SABER
CONJUGAR O VERBO AMAR... Somos alertados no sentido de observar a linguagem da religião para distingui-la da linguagem da fé. Tarefa praticamente impossível, a não ser que o Espírito Santo nos ajude, diante do surto neoreligioso que nos acometeu nas últimas três décadas. O racionalismo fundamentalista encontrou a válvula de escape, considerando-se que o liberalismo teológico resolveu-se por si mesmo, quando descobria a religiosidade pietista/individualista/ amorosa/emocional/intimista, em Schleiermacher (1768-1834). Este valorizou os "sentimentos piedosos", dizendo que equivaliam ao senso de consciência absoluta de Deus. Quem se disporia a afirmar que o “fundamentalismo pietista e moralista, cultural e capitalista”, invadiu o Brasil com o protestantismo de missões, e nos brindou com um racionalismo metafísico religioso, “evangélico”, com instrumentações que transmudaram o pensamento evangélico original? Dá o que pensar, a religião sem amor que se prega, assim. Pietismo sem compaixão. O conversionismo moral e fundamentalista nada tem a ver com o Pietismo original. Quem concorda? Já em 1606, Johann Arndt,
Quando se opta por uma teologia que enfatiza o cuidado com os outros, via de regra, é comum surgirem resistências dos grupos ortodoxos (protestantes do racionalismo neo-escolásticos) e fundamentalistas, ao mesmo tempo. Assim foi com Walter Raushenbush, principal criador e articulador da Teologia do Evangelho Social, teólogo-pastor batista que soube conjugar adequadamente o amor a Deus e o amor aos homens, e ao mundo no início do século XX, nos EUA, mas que foi duramente criticado pela centralidade do cuidado e da misericórdia. Algo muito “moderno”, e já se refutava a Modernidade e o Liberalismo protestante. DEUS E A RELIGIÃO: POUCA COMPATIBILIDADE A religião fala da experiência humana com o sagrado, o mundo imediato que quer explicar-se diante do inusitado: a experiência de Deus na vida e na sociedade humana. A religião é um fenômeno antropológico extraordinário! Todas as religiões têm começo e origem. Nos primórdios imemoriais, nas eras mais recentes, na Antiguidade e até hoje, as narrativas sagradas, os rituais, as práticas morais, os modos de organização, em cada grupo religioso, em toda parte e em todo tempo, pré-histórico ou não, a religião se aproxima da transcendência humana. Narrativas supra-históricas, miraculosas, apontando prodígios, eventos divinos, transcendem à dinâmica histórica enquanto colocam homens e mulheres face a face com o mundo sagrado inexplicável, como já me referi recentemente. Esse conceito corre perigo, poderíamos apenas analisá-lo como manifestação cultural, expressão humana, de certo modo prisioneira do que a antropologia poderia dizer sobre uma religião estática e vendável (religião de mercado). Mas poderíamos buscar outro enfoque, como sendo o “suspiro do oprimido” (Rubem Alves), onde os sonhos de libertação se apresentam em utopias (ou, em grego: não; topos: lugar; utopia é lugar nenhum já visto pelo homem). Nesse caso, a experiência religiosa representa o sonho de estarmos ligados à experiência de Deus que dá sentido à vida. A vida faz sentido, com a religião. Então, Deus não é uma ilusão religiosa, como queria Feurbach, e depois Marx, e mais tarde Freud (O Futuro de uma Ilusão). O ascetismo do passado, o pietismo avivalista, moralista, trouxeram muitos problemas ao entendimento da espiritualidade de Jesus. Envolvidos com a ambigüidade, com ambivalências referentes à vida de fé, o “eu” humano perde-se na mortificação da carne, no mais das vezes. Porque se entendia que corpo e “carne” são a mesma coisa. Fonte de desejos espúrios e sentimentos inimigos do “espírito”. O verdadeiro “eu”, como poderia dizer Martin Buber, pensador judeu, exige bastante honestidade para conosco mesmos. A vida humana reflete uma realidade diferente, uma vez que nele estão contidas imagens reveladoras da essência humana, dos prazeres e desprazeres da vida. O amor é uma espécie de amigo invisível e imaginário através do qual o homem vê a si mesmo e o mundo em sua totalidade. A exclusividade ressurge sempre de um modo maravilhoso; e então o homem pode agir por amor, ajudar, curar, educar, elevar, salvar (Buber).
Amor é
responsabilidade de um “Eu” para com um “Tu”, nisto consiste a igualdade
daqueles que amam, igualdade que não pode consistir em um sentimento
qualquer. Igualdade que vai
do menor ao maior, do mais feliz e seguro, daquele cuja vida está
encerrada na vida de seres amados. Por se ter podido vencer o egoísmo
individualista e ousado algo inacreditável: amar. Assim, ele credita na
simples magia da vida, no serviço no universo, e lhe será esclarecido o
que significa cada espera, cada olhar da criatura, cada reclame de
cuidado, na direção do amor (cf. Martin Buber).
O FUNDAMENTALISMO LEGALISTA E A RELIGIÃO SEM
AMOR Mateus 22,34-40 - Talvez devamos perguntar, antes de tudo, sobre quem é o “próximo”. A palavra plesion deveria ter uma tradução mais adequada. Se a entendemos imediatamente como o “próximo”, perdemos a compreensão da referência por inteiro. J.Jeremias propõe que seja traduzida por “companheiro”. Assim, já é um conceito, um resultado hermenêutico da localização da palavra, por exemplo, em Lucas (10,25-37). Esta parábola é perfeita. Jesus está ensinando a seus discípulos o sentido da misericórdia. Ela se aplica aos estrangeiros, adversários religiosos e ideológicos, desprotegidos, desgraçados, enquanto recorda a obrigatoriedade de não esquecermos os “órfãos e as viúvas”, conforme a literatura profética do Primeiro Testamento. Símbolos dos desprotegidos socialmente. Na verdade, é o farisaísmo em conjunto que se aproxima de Jesus, representado por este jurista preocupado com um amor “legal”, segundo preceitos religiosos. Próprio de sua doutrina era a explicitação das exigências de Deus sobre a vida humana. Estas, para eles, não somente surgiam da Lei escrita, mas também das conseqüências que a tradição oral e o estudo fundamentalista haviam elaborado. No fundo, tratava-se de um esforço legítimo de traduzir para um ambiente diferente e tornar aí possível o cumprimento dos preceitos divinos surgidos em outra época e em outras circunstâncias da vida do povo. Dessa forma havia aumentado muito o número das prescrições (613). Havia 365 positivas (uma para cada dia do ano) e 248 negativas (correspondentes ao número de componentes do corpo humano). Diante desta multiplicidade a questão sobre a importância dos mandamentos, e sua hierarquização, era um ponto candente entre os rabinos do tempo de Jesus. Desta maneira, transcendendo toda casuística, Jesus considera a Lei como um todo que depende da dupla fidelidade mencionada. Esta é a perspectiva essencial de toda interpretação e sem ela não é possível a observância “da Lei e dos profetas” (v. 40). Assim a solução desta controvérsia com seus adversários remete cada ser humano ao mais profundo de sua resposta religiosa. O amor de Deus e o amor ao próximo concentrados na pessoa de Jesus, colocam-nos frente a Deus e a nossos semelhantes, e põe à prova nossa autenticidade religiosa. Em sua resposta, Jesus se remete primeiramente ao Deuteronômio (Dt 6,5), que cita ligeiramente mudado: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento”. João não perde a oportunidade: “Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele” (1João 4,16 ). Esta última faculdade ocupa o lugar de “com todas as tuas forças”, do texto citado. Com os três componentes se quer indicar respectivamente a interioridade do ser humano, seu élan vital, e o aspecto racional da interioridade humana. Trata-se, portanto, de situar a exigência do amor bem além de um sentimento, como direção de toda a vida da pessoa. Desde esta direção para Deus, fundamento de toda a existência, adquirem sentido todos os demais mandamentos. Entretanto, partindo do Levítico (19,18), Jesus coloca, a seguir, outra exigência igualmente importante para a orientação da vida: “Amarás ao teu próximo como a ti mesmo”.
Com esta resposta Jesus conecta intimamente o amor de Deus e o amor ao próximo. Sua originalidade não está no fato de enunciar os dois mandamentos, que encontramos em outras fontes da tradição judaica. O mais relevante consiste na equiparação de ambos e, sobretudo, porque os dois mandamentos encontram em Jesus de Nazaré o seu lugar próprio e sua última consistência. Em sua resposta, portanto, mais que uma explicitação de textos legais, Jesus coloca os seus adversários frente a duas pessoas: Deus e o próximo. Põe-se de novo, desta maneira, a má atuação dos religiosos que não foram capazes de ser fiéis a Deus e ao ser humano e que, por conseguinte, não foram capazes de criar, a partir daí, uma sociedade justa. ------ Derval Dasilio |