29º Domingo do Tempo Comum

Ano "A"

Êxodo 33,12-23 –  ... Não me confundam outros deuses

Salmo  99 – Só Deus é santo, e nada mais...

ITess 1,1-10 – A conversão implica em abandonar os ídolos de hoje

Mateus 22,15-22 – Uma questão sobre a economia excludente

 

O CONSUMISMO É A ÂNCORA DA GANÂNCIA

Vejamos como um hebreu pensaria sobre o assunto em pauta, o dinheiro e seus significados.  Nilton Bonder, rabino brasileiro, fala da tradição interpretativa judaica: “o conceito aparece em dois elementos distintos. ‘Mashal’ (significador) e ‘nim’shal’ (significante). Metaforicamente, pode-se dizer que a água está em sua forma oculta enquanto aparente num bloco de gelo. A água em estado líquido, porém, revela os elementos que a compõem. Colocado numa armadilha por espiões religiosos Jesus parecia não ter saída (Mateus 22,15-22): Que fazer com o dinheiro de “César”, moeda circulante? Quem o questionava trazia na palma da mão o ignominioso símbolo do poder econômico, e da ganância especulativa nas modernas bolsas de valores, por conseqüência. A efígie de Tibério, o imperador romano, na moeda que equivale ao dólar ou ao eurodólar atuais. Revolucionários contra o poder imperial,  radicais políticos (!?), cansados da dominação econômica, esperam uma resposta. Religiosos apáticos politicamente querem o mesmo. Suspense, chamem Hitchcok para filmar a cena! Vai fazê-lo, voltando do túmulo, anacronicamente. O mundo do dinheiro eletrônico comanda a sociedade humana. E a resposta cortante, sincera, é proferida.

[Nota: Por sua natureza o dinheiro é espúrio, sujo, num cartão bancário ou “em espécie”, "in catch", porque contaminado com os mais imundos pensamentos de poder econômico, nos sistemas de exploração e dominação das pessoas. O dinheiro deve voltar às mãos nojentas do dominador? Se este dinheiro se origina do poder que se desvia da finalidade da economia justa, “dai a César o que é de César”! Porque a Deus pertence a vida, a sustentação das pessoas; a ele se entrega o que lhe pertence, bens econômicos para mantê-la. Dinheiro! Solidariedade e partilha fazem parte da experiência de Deus, inclusive na economia. A prática tradicional, pseudobíblica, porém, prevalece: “Daí a César o que é de César..." e o que é de Deus também! John Stott não confirmava o que deduzo, enquanto referia-se a Lutero e seu comentário sobre esta passagem: “Lutero viu uma dupla existência: um reino divino e espiritual, o Reino de Deus; um reino secular e temporal, o reino do imperador. O primeiro à direita de Deus, o segundo à esquerda”! (Sermão do Monte, ABU, p.111)].

O “capital”, “reino do imperador”, se defende e incendeia platéias que discutem sobre economia essencial. Na Consulta “Pobreza, Riqueza e Ecologia”, organizada pelo Conselho Mundial de Igrejas (CMI), reunida na Guatemala, na semana passada, o presidente da Câmara do Agronegócio da Guatemala e empresário de agroquímicos, Carlos Zuñiga Fumagalli, afirmava: “O consumismo é a âncora para o desenvolvimento, e a pobreza não é um problema econômico, mas uma questão sobre qualidade de vida”, definiu. Certamente pensava em bens secundários, comida como parte do lazer, diversões, vestuário da moda, roupa de griffe, e turismo hoteleiro. Fumagalli não acredita em organismos que procuram organizar os pobres na defesa de seus direitos tenham alguma função para melhorar a economia: “Há muitos organismos que defendem os pobres, e o que mudou? Existem organismos indígenas que querem voltar a um modo de vida de 500 anos atrás. Isso não é possível. O indígena de hoje tem que ser um pequeno ou médio empresário. O uso de novas tecnologias é fundamental. Se quisermos viver apenas do cultivo do milho, como faziam os ancestrais, todos nós morreremos de fome”.

Participantes da Consulta do CMI denunciavam o agronegócio, o uso de agroquímicos sem controle, muitos deles proibidos nos paises onde são fabricados. Cutucavam a onça com vara curta... A Consulta, porém, teve como objetivo refletir acerca da estrutura internacional do mercado monetário que, com o apoio de líderes nacionais, submergiram países em dívidas que não conduziram a nenhuma melhora de vida da  população. Nem mesmo discutia-se o consumismo do luxo no qual se enterra a classe média. A “grande prejudicada” na crise atual (!). Mas que crise se enfrenta, mesmo? Não poder gastar em bens supérfluos, ou em regalias que só o alto poder aquisitivo pode contemplar, é “perda na qualidade de vida”, na economia dos privilegiados. Nesse caso...

                                    A DIGNIDADE HUMANA E O DINHEIRO DE CÉSAR

O evangelho de Jesus Cristo implica numa simultaneidade inaceitável: “Não  se pode servir a dois senhores, pois um será amado e outro desprezado...”. Jesus está respondendo com uma afirmação libertadora, e somente a compreendem os que não estão cegos pelo poder, pelo  dinheiro, pela ganância, pelo ódio e a injustiça. Contra isso, Irineu, pai da Igreja Antiga, pós-bíblica, usa uma expressão que pode ser ao mesmo tempo um paradigma de muitas radicalidades necessárias no testemunho cristão: “A glória de Deus é o homem vivente, a vida é uma visão (de beleza; de dignidade) de Deus”. A economia e o dinheiro do imperador, porém, tem outros objetivos.

O coração, a vida interior, utopias, esperanças particulares, desejos, são alguma coisa que “césar” algum nos pode pedir, embora se confundam no emaranhado de nossa existência  civil e cidadã. Facilmente cairemos no reducionismo que nos quer convencer de que sendo bons cidadãos e cidadãs, contribuintes que não sonegam seus deveres fiscais fazendários. Fazemos a nossa parte? Não fazemos! A dignidade da vida humana requer muito mais. Deus nos entregou essa vida como um dom de alto valor para a construção do seu Reino (cf.Kümmel, Síntese Teológica do NT; J.Jeremias, Teologia do NT; L.Goppelt, Teologia do NT). Este reinado não se mantém com impostos, dinheiro para o consumo irresponsável, obrigações fazendárias em cada produto consumido. Ao contrário, o Reino prima pela justiça e pela paz social (com habitação, com socialização da saúde e da escola, com direito ao trabalho, alimentação e lazer: vida digna para todos os membros da sociedade), de acordo com os parâmetros da fé que sustenta o Reino através dos que crêem: “O justo viverá pela fé”. Ou seja, o justo viverá em fidelidade ao Deus da vida. O justo confia na providência divina, não em milagres econômicos ou na Bolsa de Valores. 

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Derval Dasilio 

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