27o. Domingo do
Tempo Comum Ano "A"
Êxodo 20,1-7 – Não terás outros
deuses... Salmo 19 – Os mandamentos do Senhor orientam a vida
Filipenses 4, 4-9 – O Deus da
paz. Mateus 21, 33-43 – Melhor é arrendar a
vinha à outros vinhateiros. JESUS CRISTO É A RESPOSTA. MAS, QUAL É A
PERGUNTA? Todos vimos a exposição diária, meses a fio, pela televisão, do
casal que jogou a filha pela janela, enquanto se omitia a estatística
macabra da violência doméstica, contra a criança, no Brasil. Segundo
informações de órgãos atuantes em defesa da criança, como forma de catarse
da sociedade bem-posta indignada a seu jeito, evidentemente hipócrita,
juristas, juízes, autoridades do judiciário, legistas, criminologistas,
antropólogos, passam sua sapiência jurídica, ou científica, para “saciar”
a fome de vingança social. Não falam o essencial: há 500 mil casos de
violência contra a criança, por ano. Estima-se. Não vem a público. A
metade chega ao conhecimento das autoridades através de hospitais e ambulatórios. Cinco por cento,
25 mil crianças são mortas por pais, parentes próximos, no âmbito
doméstico, todos os anos.
Neste domingo de eleições, como sempre, brasileiros e brasileiras
esquecer-se-ão disso? Saberemos na segunda-feira. A prudência convida ao
pessimismo. Cada vez mais descobrimos que a causa de Jesus, antes que abraçada
por cristãos de confissão, vem sendo interessante a quem, tantas vezes,
nada tem a ver com compromissos eclesiásticos, ou que leve
institucionalmente o nome “cristão” na fachada. Ao contrário, a
considerar-se a atuação da sociedade organizada, em defesa dos
despoderados, e da natureza, o que se observa mais freqüentemente é a
apatia, o distanciamento, a indiferença das igrejas cristãs em relação às
grandes lutas em favor das liberdades do homem e dos direitos sociais.
Predomina entre ortodoxos, evangélicos, neo-evangélicos, o esforço
individualista, a vontade de ascensão social a todo custo, passada aos
fiéis. Os púlpitos das igrejas ocupam-se da sustentação de doutrinas
abstratas do protestantismo racionalistas, citando Calvino e Lutero a
torto e a direito, infiel e impropriamente. Os reformadores protestantes
estiveram envolvidos profundamente em reformas sociais (cf.Richard
Shaull/Leonardo Boff). Dizer que Lutero e Calvino não tiveram influência
em atividades políticas e econômicas é até uma blasfêmia. Quem não lê a
história comete essas heresias. Exaltam-se as qualidades da vida do
convertido, dá-se um banho de alienação (alienus: estado de loucura,
afastamento da realidade) no maior rigor, enquanto se aguarda o céu
metafísico (que permanecerá abstrato, não-concreto, pela eternidade). Ou
se apontará o valor material, imediato, da prosperidade e do sucesso (que
é disso que o povo gosta!), na conversão. E das “vitórias” individuais do
seguidor de um Jesus imagético e indiferente ao sofrimento humano, porém,
“manso e suave” (o sofrimento com causa é substituído pelo hedonismo).
Jesus é a resposta, diz a mensagem. Mas, diria Gedeon Alencar, qual é
mesmo a pergunta? Ao relermos os ensinamentos das “dez palavras” (Ex 20,1-7), o
Decálogo, re-descobrimos as fontes de nossa fé num acontecimento histórico
onde recebemos as instruções para construir nosso próprio caminho, à parte
e inconformadamente com a idolatria reinante na cultura do nosso tempo.
[Os dez mandamentos estão contidos em 620 palavras/letras hebraicas
necessárias para escrevê-los; o judaísmo conserva os 613
mandamentos/palavras da Torah; acrescenta outras sete, conservados na
memória dos sábios intérpretes da Bíblia Hebraica]. Observando o cenário político nacional e internacional, reeleições
de prefeitos e vereadores corruptos (deu no jornal de minha cidade, com
base na justiça eleitoral: vereadores tiveram patrimônio aumentado em mil
por cento, desde a última eleição). E Bush arrisca tudo, diante da quebra
de bancos sustentadores da economia mundial... Mas a religião da
prosperidade individual vai muito bem, obrigado. Terá um número ainda
maior de representantes evangélicos, nestas eleições. O Rio de Janeiro,
tido como a cidade “mais evangélica” do Brasil, arma o palco da cultura
dos novos ídolos. As demais capitais brasileiras acompanham seu “deus”. Em
nome de Jesus! CONSELHOS BÍBLICOS EM TEMPOS DE ELEIÇÕES Aqui, Deus reclama, ciumento em relação à preferência idolátrica:
“Sou eu o Senhor que sou teu Deus, porque eu te libertei da servidão no
Egito” (Êxodo 20,1-4;7). Trata-se do direito de não ser confundido com
outras divindades, quaisquer que sejam. Este é o ciúme de quem exige o
reconhecimento e não admite a exclusão, do ponto de vista de quem observa
o henoteísmo vigente (cf.Os 13,4). Em resumo: Yahweh está dando o recado de que os
muitos deuses que pululam na fé israelita (e cristã, sem dúvida alguma!)
são inúteis, “têm corpos de ouro... mas os pés de barro (Dn 2,33-34); ...
não andam; ...tem ouvidos; ...mas não ouvem; tem olhos mas não vêem” (Jr
5,21-22). Não são eles que corrigem os nossos caminhos; não são eles que
oferecem, a quem se converte, perdão, reconciliação com as intenções de
Deus, amor e compaixão gratuitos. Na antiguidade, objetos também eram cultuados como divindades.
Hoje, nos estádios, na política, nos púlpitos e altares; nos palcos, nas
artes, nas ciências e na tecnologia, nunca aconteceu tanta “fé” nos
variegados ídolos disponíveis. Comportamentalistas falam da “religião no
balcão de negócios e na política partidária”. Perfeito. Quem poderá negar
a presença e a predominância dessas divindades nas salas de estar, nas
urnas eleitorais e nos altares transmudadas em lugar de adoração
consumista, capelas onde se cultua tudo que se oferece para
“ter-e-aparecer-e-se-dar-bem-a-qualquer-custo”? Não se pode conter a
invasão idolátrica? Roberto DaMatta diz sobre o Brasil de hoje: “Moramos
num país tropical e plural. Somos brasileiros... comemos feijoada, pato ao
tucupi, churrasco, tambaqui... Dançamos samba, e ainda rock, forró,
funk... somos cristãos. No entanto, não despregamos o olho das divindades
que vagueiam em outros domínios...”. Completam-se os pensamentos sobre o
que ocorre conosco. UM SÓ DEUS, CRÊM TAMBÉM OS DEMÓNIOS... O padre francês, Gabriel Maire, denunciava o crime organizado em
Vitória (ES) e cidades da região metropolitana. Envolvia policiais de alta
patente, juízes e desembargadores. E políticos da Assembléia Legislativa.
Foi assassinado em 1989. Minimisou-se a questão na imprensa televisiva ou
escrita, que recusava-se a publicar os fatos na essência. Graúdos
envolvidos, porém, obtinham páginas inteiras para desagravos. Grandes
empresas pagavam. O dinheiro do crime organizado financiava muita coisa. A
sociedade sentia-se beneficiada. E a polícia encontrava um bode
expiatório: um rapaz favelado foi descoberto, apontado como assaltante e
preso como assassino. Entrevistada, sua mulher, uma jovem grávida,
chorando, proferia estas palavras: “Fomos matar nosso único
defensor”.
Caco Barcelos, conhecido jornalista que se dedica à denúncia ou
demonstração do crime organizado, entrevistado, quando perguntado sobre a
violência dos dias de hoje, através dos grupos de extermínio, que atinge
diretamente e com exclusividade as classes mais pobres da sociedade, na
periferia das cidades, ou nos núcleos de miséria no coração das grandes
cidades, dizia: “Não tenho dúvidas de que, se a política de extermínio
atingisse a classe média alta, acabaria no dia seguinte”. E continua
insinuando que a imprensa é elitista, no geral, objetivando as classes
bem-postas socialmente; que juízes, desembargadores, e até autoridades do
alto escalão judiciário, ignoram os bolsões de miséria social em suas
necessidades de políticas públicas e aplicação de direitos fundamentais.
Estão prontas a aprovar o extermínio sistemático, milícias e os novos
nomes do antigo “esquadrão da morte”, no terreiro do “inimigo”. Lembra
também que a repressão policial e jurídica ao crime concentra-se nas
sub-sociedades marginais, enquanto desvia-se estrategicamente de objetivos
que “maculem” a imagem dos altos extratos (cf. parágrafo inicial). A
grande imprensa serve a quem paga. O banqueiro corrupto preso e algemado desperta indignação nas altas
esferas, ministros se manifestam em favor dos “direitos” de alguém em não
ser exposto publicamente entrando num camburão, cercado de policiais
armados até os dentes. Mas se ri do camelô que é apanhado publicamente na
contravenção, sofre violência. “Bem-feito”! O mesmo jornalista completava:
“Sinto falta disso, em meu trabalho. “Em reportagens de fôlego, sentia
falta de poder para dar espaço aos acusados pela sociedade dominante”.
Caco Barcelos amargou dezoito processos por causa de denúncias em defesa
da vida, reclamando direitos fundamentais a serem também estendidos aos
empobrecidos e despoderados. Enquanto isso as igrejas cristãs se calam...
Mas, quando se pronunciam, dizem: Não é conosco. Mas é conosco! Ou estamos
aqui para quê? Toda a vida e ministério de Jesus refletem compromisso com a vida,
e não com doutrinas religiosas. Suas ações e palavras convocam todos para
partilharem de sua vida nas novas realidades humanas, e da construção do
Reino de Deus; da acolhida aos excluídos e no anuncio da utopia de Deus,
que abre novos horizontes de esperança no coração dos cansados e
oprimidos; do cuidado com os esmagados, despoderados, pobres, enfermos.
Estes e outros sinais de solidariedade são manifestações da vontade do Pai
que envia Jesus para que seus filhos e filhas, em todo o universo, “tenham
vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). Os vinhateiros modernos,
assassinos dos profetas, da ortodoxia doutrinal ou do evangelicalismo
góspel, certamente não concordarão. Não restará ao dono da vinha senão
arrendar seu parreiral a outros cultivadores do Reino (disse Jesus: Eu sou
a videira, vós sois os ramos...). Os estranhos, diferentes, entregarão os
frutos no tempo devido, já que os tradicionais e “ortodoxos”, a serviço da
sociedade bem-posta, esquecidos de sua missão, desviam-se de seus deveres.
Sempre preocupados com a tal “reta doutrina”. Sempre com a caixa de
fósforos para acender fogueiras inquisitórias. Assim não
dá!
Texto: Derval Dasilio [LEIA MAIS SOBRE O AUTOR] www.derv.wordpress.com LECIONÁRIO REFORMADO
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