25o. Domingo do Tempo Comum 

Ano "A"

  

25º. DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO A

 

Êxodo 16,2-15 – É Deus que dá o pão, apesar das queixas de insuficiência...

Salmo 105,1-6;37-45 –  Com o pão do céu Deus saciou a fome do povo

Filipenses 1, 21-30 – Para mim, a graça é bastante (ponto final) 

Mateus 20, 1-16 – Estás com inveja porque dou sem exigir retribuição?

 

GRAÇA PARA OS DESPROTEGIDOS E EXCLUÍDOS

 

Aonde chegará a Graça de Jesus Cristo? O sofrimento humano se resolve com a “profissionalização” da graça de baixo preço? No púlpito evangélico conservador, inclusive, na pregação abstrata da salvação, ou no altar facultado às ofertas em dinheiro, dentro da mesma proposta de negação da graça e da misericórdia de Deus (hesed), Deus é dispensável, o dinheiro e o discurso abstrato sobre a graça, não. “Se Deus não abençoa o doador compulsório, perde o emprego, demito-O”, afirmava o pastor pentecostal propositista ao interessado numa "graça". Neo-evangélicos e protestantes ortodoxos históricos diferem muito pouco, nesse aspecto. Prefere-se a graça barata em todo lugar, para lembrar Dietrich Bonhoeffer. Transformações sociais, algo de custo elevado, não se pleiteará... porque é Graça de alto preço. Quem dispõe de lantejoulas não precisa de brilhantes verdadeiros... Os primeiros aplicam-se a um mercado massificado rendoso, o evangelho da prosperidade enche os templos com o consumo de lantejoulas, e está cumprida a missão de evangelização. Produção em esteiras de montagem... Os segundos preferem a propaganda de teologias doutrinárias abstratas sobre a “dispensação da graça e a dispensação da lei”. Estão proibidos falar de compromisso social dos crentes.

 

Recentemente o IBGE nos informava que, dos aproximamos de 190 milhões de habitantes, metade dos brasileiros e brasileiras vive abaixo, ou apenas um pouco acima, da “linha imaginária da pobreza”, inventada por economistas. O evangelho ensinado nesta parábola de Jesus é radical: fala de trabalho e da sociedade política, tremendamente devedora aos pobres e miseráveis, indigentes econômicos; aos mal-postos, desiguais, socialmente diferentes, componentes do déficit histórico que nos acompanha desde as colônias. Precisa-se muito mais que valores transcendentais e doutrinas metafísicas na pregação dos cristãos sobre a Graça, para se alcançar a realidade dos pobres, dos desvalidos, dos esmagados e dos socialmente excluídos.

 

Jesus, na “parábola dos trabalhadores descontententes” com o pagamento desproporcional recebido deixa claro o modo como Deus age, bem diferente de nossa mentalidade propositista e retributivista, à procura de resultados e recompensas proporcionais por “horas trabalhadas” (Mateus 20, 1-16). Seja em membresia expressiva da igreja, milhares, milhões, seja em contribuições financeiras, dízimos induzidos, coercitivos, sob projeções desnecessárias e mal justificadas (por que ser uma comunidade grande numericamente? Por que é necessário arrecadar dinheiro para expressar crescimento “espiritual”? Para dar salário de deputados aos pastores?). Diante da teologia do mérito, da prosperidade, da retribuição, no sistema religioso, a Teologia da Graça pregada por Jesus se opõe diretamente ao discurso desse momento. A graça e a  misericórdia de Deus se contrapõem à mentalidade religiosa judaica dos tempos de Jesus. A partir desta perspectiva de Jesus, que conta esta parábola, a salvação não se alcança por méritos próprios, proporcionais à “santidade” e à dedicação de alguém, no esforço objetivo por algum rendimento. A misericórdia de Deus é que nos concede a recompensa e reparação de nossas necessidades. O perdão dos pecados (nossos atrasos quanto ao serviço do Reino), é libertação e reconciliação sem mérito de nossa parte. 

        

O contexto da parábola resultou da controvérsia de Jesus com as autoridades judaicas por sua continua relação com pessoas de duvidosa reputação, publicanos e “pecadores” (prostitutas, doentes comuns e doentes mentais, deficientes de toda ordem, leprosos, estrangeiros de outras etnias, crianças, gentílicos e mulheres, sem lugar no templo; homossexuais e mulheres adúlteras eram punidos com a morte; a religião androcêntrica facultava ao macho o adultério sem punição). Aqui, a questão do trabalho e da remuneração digna iguala-se, na injustiça e no preconceito tradicionais para com o pobre socialmente improdutivo.

 

A parábola narrada por Jesus, parte de um fato real. O proprietário representa os bem-postos da sociedade que, com suas manobras impeditivas da aplicação da justiça. Haviam usurpado os trabalhadores do campo, sonegando meios para sua sustentação e de suas famílias. Aqui, os desempregados espoliados eram os que haviam perdido tudo e se vendiam por qualquer preço para sobreviverem. Por certo havia aqueles que constituem a clientela fixa do proprietário via de regra explorador do trabalho sub-remunerado. Isto é, eram sempre contratados. Havia, também, os que apareciam sempre na última hora trazendo consigo suas necessidades familiares. Os filhos precisam comer, vestir, viver. É uma questão de vida e de dignidade no trabalho (dignitatis = atribuição de direito).  O trabalho, mais que um simples meio de sustentação, é uma finalidade econômico-social onde ninguém deveria ser privado da participação construtiva da sociedade como um todo. Construção da vida.

 

A parábola também fala de salvação concreta, não de “salvação metafísica”, não só do “pecador” (a religião a que pertenciam Jesus e os apóstolos informa que pecador é o que não cumpre ou não pode cumprir a Lei). As questões do trabalho e da produção são uma realidade inescapável. Tratamos aqui, sem dúvida, da vontade de Deus, que “desce” até estas situações humanas (J.Jeremias). Há exigências verdadeiras, concretas e firmes, para a vida de fé, dos cristãos, respondendo ao evangelho, na pregação de Jesus. Jesus dá a conhecer o que ele espera de seus discípulos: “Aqueles que ouvem as minhas palavras e as põe em prática é semelhante ao homem prudente”(Mt 7,24). É também correto dizer que Mateus, judeu e cristão, cinqüenta anos depois de Jesus, deixa uma mensagem para “seus” cristãos, crentes de sua comunidade local, na paráfrase: “Jesus está profundamente identificado com seu tempo, quanto à cultura política e religiosa de seus dias. Não há grandes diferenças entre religiosos cristãos e religiosos do judaísmo. Poucos confiam em que a misericórdia de Deus alcança, em primeiro lugar, os pobres e  desprotegidos socialmente”.  Quem quiser desmentir a Bíblia, tem a palavra.

Derval Dasilio

Pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil

IPU: 30 ANOS DE EXISTÊNCIA ECUMÊNICA!   

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