24o. Domingo do
Tempo Comum Ano "A" Êxodo 14,19-31 – A liberdade é sempre risco, e não
segurança Salmo 114 (ou Ex 15)
– O povo de Deus libertou-se
de concepções pagãs Romanos 14,7-9 – Amar
ao próximo e viver para o
Senhor Mateus 18,21-35–
Devemos aprender a perdoar, aprendendo com
Deus
QUEM ABRE UMA COVA PARA OUTROS PODE CAIR NELA...
Pode-se afirmar, geralmente, que a vida eclesiástica leva sempre consigo certa dose de contradição, de oposição, agressividade e até de violência. Não é estranho, pois, que se reconheça esta violência entre grupos com interesses conflitantes que se considerem inimigos e, portanto, sintam-se ameaçados em seus interesses. Esta violência pode ser vista como elemento necessário, pelo menos potencialmente, em toda negociação. Mas não é necessária... Qualquer violência assume proporção destruidora quando nasce de uma “idéia fundamentalista sobre o equívoco moral de alguém ou de uma comunidade”. Ainda é possível sonhar com perdão e reconciliação num mundo violento, onde pessoas parecem estar sempre na ponta dos cascos, contra os outros ou as outras? Por que, na igreja, a sanha de vingança, ou retaliação, violência, sobrevive, e de vez em quando as labaredas se levantam das inquisições domésticas? Por que essa predileção por cortar cabeças de opositores? Por que tem gente sempre pronta a acender o fósforo para algum incêndio moralista na comunidade? Poderíamos formular alguns princípios fundamentais para a realização desta reconciliação: – O “perdão eclesiástico” não implica em claudicação diante da injustiça, nem a imposição da própria justiça, mas parte do desejo e do compromisso comum por uma justiça mais verdadeira. O perdão deve atingir tanto os sujeitos responsáveis pelo “pecado” quanto a realidade “pecadora”, que é assumida para ser transformada. A Igreja, por sua natureza sociológica, é humana e pecadora, poderia dizer Karl Barth. Quando aponta o pecado de outros e não olha para os seus próprios pecados (Mateus 7: 3-5: Hipócrita, tira primeira a trave do teu olho, e então verás como hás de tirar o argueiro do olho de teu irmão), ou de outras, reflete a insistência em permanecer “pecadora”. E é por isso que cristãos devem estar sempre dispostos a “perdoar o pecador, e perdoar-se a si mesmos, quando há possibilidade de reconhecimento do erro, e a "perdoar a realidade" que envolve o pecado de cada um. Libertar o pecador de sua culpa, curar a realidade de miséria moral que introduz o pecado, é imprescindível entre cristãos. O perdão entre grupos só é possível quando se funda não em posição de poder e de domínio, de ameaça ou de medo, mas em atitude de reconhecimento mútuo dos direitos do outro; de desinteresse por retaliação a quem, eventualmente, recebe quem sofreu alguma punição, mas foi acolhido, ou acolhida, com o desejo de servir melhor à comunidade inteira, servir ao bem comum, e de conquistar objetivos comuns de toda a igreja. Impedir a acolhida daquele ou daquela que foi por nós punida é uma absurdidade pagã inaceitável numa comunidade cristã. A comunidade de Mateus
deve resolver o problema que está afetando profundamente a vida de todos
(Mt 18,21-35). O perdão é um dom, uma graça que procede do amor e da
misericórdia de Deus (hesed/xáris). Há, porém, a
exigência de se abrir o coração, criar um espírito de conversão. Na comunidade se buscará a paz,
onde não reina a paz prevalecem as ofensas, o desejo de vingança e de
retaliação. Portanto, a reconciliação é imprescindível, sem restrições,
avançando na direção do perdão mútuo. As instâncias, nesse caso, são
definidas: primeiro em caráter pessoal; segundo, na forma deuteronômica
(Dt 19,15), com testemunhas. Na verdade, são intercessores, conciliadores,
apaziguadores, mediadores da reconciliação, e não depoentes jurídicos de
um processo condenatório de alguém. A última instância é o julgamento da
comunidade. Esse último ponto é paradoxal, talvez contraditório, porque se
sobrepõe à pergunta de Pedro (“perdoar quantas vezes?”),
respondida de maneira “matemática”,
se não “geométrica”: “te digo” - e Jesus usa o símbolo infinito –
“não sete, mas setenta vezes
sete”. Você não quer
perdoar? Então assuma sua posição pagã, gentílica, anticristã, parece
dizer o Evangelho. A ofensa toma, mais
adiante, um significado autoritário. Reserva-se, neste último exemplo
mateusino, uma demonstração de que o homem é alvo de uma imensa
misericórdia, destinatário da graça infinita e ilimitada (Sl 85,6: “Escuta minha súplica,
Senhor; dá atenção ao pedido da tua Graça”). O ensinamento simples e sem
rebuços, neste final, sobre o que devemos aprender com a misericórdia de
Deus (AT=hesed/NT=xáris), é aplicar a compaixão e a própria misericórdia
aprendida ao próximo devedor. Outros textos reforçam a necessidade de
termos piedade do outro; a necessidade de exercitarmos a compaixão (Pr
14,21; Sl 37,21 e 26, etc.), e não devemos esquecê-la, entre os muitos
deveres que não permitem a um cristão olvidar a necessidade do perdão e da
reconciliação acima de todos os julgamentos, represálias e retaliações,
que nos tentam sempre, quando somos ofendidos, ou quando ofendemos alguém.
“Pai, perdoa as nossas ofensas
assim como perdoamos a quem nos tem ofendido”. Foi assim que Jesus
ensinou-nos a orar.
Em todos os tempos, o coração do ser humano luta com sentimentos terríveis que envolvem ódio e a vingança. É difícil negar a vontade da represália, quando há ódio e rancor presos em nos corações. “Sentimento ilhado, louco e amordaçado”, teimoso, como na canção de Fagner, permanece no senso comum à procura de quem pague pelos erros da sociedade inteira. Os meios de comunicação não mentem, especialmente a televisão, mas selecionam e escolhem o que mostrar de pior para insuflar o medo e o ódio. Por que essa escolha recai quase sempre sobre os membros mais fracos da sociedade, quando se sabe que a violência doméstica contra a mulher e contra a criança, não está distante dos ambientes mais requintados dos bem-postos socialmente?
Um sábio do Primeiro
Testamento (Bíblia dos Setenta), Bem Sirac, escrevendo o livro
deuterocanônico Eclesiástico, duzentos anos antes dos evangelhos
neotestamentários, lembrado por Jesus, citado por Cypriano, o Mártir
(+250DC), também importantíssimo na literatura sapiencial
pós-testamentária, assinala que o pecador possuído pelo sentimento da ira
e da vingança, enfurecido, terá estes sentimentos voltados contra si
mesmo, se não se dispuser ao perdão e à reconciliação. Excelente terapia
espiritual: “Quem lança uma pedra
no ar, lança-a para cair na própria cabeça”; “quem abre uma cova, nela cairá, e
quem arma uma cilada nela será apanhado”; “o mal que o homem comete
retorna contra ele, sem que ele saiba donde veio...” (Eclo 27,
25;26;27). A harmonia dos dois testamentos traz grande proveito espiritual,
não resta dúvida.
Por que não se
observa que a corrupção no Congresso Nacional é uma forma tão ou mais
deletéria, porque violenta os direitos de dignidade de cada cidadão
enquanto estimula a corrupção no cotidiano de cada um [uma pesquisa da TV
Globo mostrava, nas CPIs que realizavam-se em 2005, o que 48% dos
entrevistados declaram: se tivessem oportunidade, fariam o mesmo que os
envolvidos no escândalo]? Por que o quê se mostra sobre a violência urbana
tem como cenário preferencial o lugar onde moram os empobrecidos,
desprotegidos e despoderados desta sociedade? Um psicanalista, enquanto
era entrevistado sobre a violência no trânsito de S.Paulo, dizia: “Talvez
seja preciso que encaremos o outro ser humano como tal, e não como um
inimigo...” Ódio, violência e vingança nunca foram instrumentos válidos
para resolver os grandes problemas humanos, em todos os
tempos. A dialética da violência ou ao terror, ou a frustração pela impotência, querendo combater a injustiça, pode provocar novo processo de injustiça. Acontece como se, a partir do momento em que se desencadeia a injustiça e a violência, por exemplo, como uma intervenção injustificada numa comunidade. Ou na da exclusão do diferente, ou mesmo do contraditório, agora classificado de rebelde. A verdade é que as situações eclesiásticas de reconciliação e de perdão são muito diversas, e nem em todas se dão as mesmas condições para a sua realização. É muito diferente a proposta quando se trata de divisão e até de violência entre exploradores e explorados, empresários e trabalhadores, grupos políticos e sindicatos. Êxodo 14,19-31 - A passagem do Mar Vermelho é a última batalha sem combate, a última fronteira. Um paradigma, na concepção israelita. Para nós, cristãos, um marco que assinala a passagem para a liberdade e a salvação. Yahweh julga como soberano. Não há nenhum combate, na verdade o povo assiste. Mas, depois, começa a brigar internamente, e a sentir saudade das panelas cheias da escravidão. Mas outros fatores despontam na narrativa: a liberdade é só risco; para ganhá-la é preciso enfrentar os perigos, e também defendê-la a todo custo. Os israelitas se sentem divididos entre a ânsia de liberdade e o desejo de segurança. A saudade das carnes e das “panelas cheias” lhes sobrevêm, a escravidão é sinônimo, também, de segurança social. Para o opressor e para o oprimido cego à liberdade. Vem a queixa:“saímos para morrer...passar fome e sede”? Aqui, a nuvem sobre a comunidade (kabod) desempenha um papel protetor de modo diferente, porém, trazendo segurança com grande densidade simbólica. Abre-se espaço para uma função nova para a escuridão: a nuvem escurece e imobiliza perseguidores no momento oportuno.
Uma igreja recém-liberta do autoritarismo eclesiástico, porém saudosa da servidão que perdura na opressão que quer sustentar em imitação do antigo opressor, poderia lembrar, em sua luta pela liberdade conquistada, essa simbologia profunda, ancestral, na vida nova em direção ao futuro libertador. As gerações que se sucederão, mantendo o espírito libertário, continuarão lutando contra o espírito do escravizado que deseja voltar à “segurança da opressão”. De fato, de barriga vazia, é sempre difícil lutar pela justiça. ------ [LEIA MAIS SOBRE O AUTOR]LECIONÁRIO REFORMADO ESPAÇO TEOLÓGICO ECUMÊNICO |