23o. Domingo do
Tempo Comum Ano "A"
Êxodo
12,1-14 – Instruções
gerais
para a libertação do
cativeiro Salmo 149 – Hora de
meter os reis na cadeia... Romanos
13,8-14 – O amor ajuda
crescimento das pessoas e das comunidades. Mateus 18,15-20 – A oferta de perdão também
convoca à retidão. - Numa
crônica bem pertinente, Rubem Alves refere-se ao jogo político. Na igreja
ou no Congresso Nacional, existem avenidas de poder, como num jogo de
xadrez. Mas com uma diferença essencial. Estigmatizar pessoas, grupos e
instituições, caluniar pessoas importantes no lado contrário dos
interesses de certos grupos, não costuma ser incomum, inclusive, na
comunidade de fé. Cheque mate, a partida está terminada. Será? No xadrez
essas avenidas são visíveis, claras, transparentes. Nos bastidores, porém,
prevalecem as negociações em meandros obscuros, ocultas na escuridão. O
tabuleiro é envolto em sombras, não importam as dúvidas a serem
esclarecidas, e sim esconder o mais possível a verdade, para que o jogo
termine empatado. No impasse, orientando as jogadas, será possibilitada a
vitória articulada de quem permanece nas sombras. Então, alterar e
tergiversar informações sobre notícias e fatos parece ser a regra
principal para se ganhar, no jogo do poder.
O
Evangelho de hoje indica se a ótica pervertida da frouxidão prevalece, ou
não (Mt 18,15-20). Disse, também, Jesus: "não será assim entre
vós!". A comunidade
cristã deve ser lugar de compromisso com a verdade, em primeiro lugar.
Nossas famílias e igrejas locais merecem orientação sobre os ensinamentos
de Cristo sobre a retidão. Inclusive em sintonia com as leis vigentes.
Absurdamente, agimos dentro da igreja como se fôssemos inatingíveis pelas
leis civis. E cultivamos corporativamente a impunidade. Mas para os
bem-postos, porque os fracos que erram via de regra vão sumariamente para
rua. Poucas vezes se ouve a advertência do jurista eclesiástico zeloso: cuidado com a justiça civil! Sem se esquecer, também, o que é ser justo, evangelicamente. Necessitamos de regras claras, antes de tudo, dentro da igreja (que é também sujeita às leis civis). A exigência é a da “não acomodação” ao mal que deforma a vida comunitária. Difamadores, caluniadores, mentirosos, homófobos, sexistas, impudicos, boquirrotos, detratores, depravados, agressores, violentos domésticos, ladrões, gananciosos, avarentos, agiotas, injuriosos, mereceriam, como acontece na maioria das vezes, a impunidade, ou vistas grossas? As comunidades serão lugares de perdão e de reconciliação, mas também lugares da verdade, sugere o Evangelho. Exigir respeito pelas pessoas que são prejudicadas, eventualmente, porém, sem credenciar e justificar quem erra, também é imprescindível. Impedir abusos torna-se obrigatório. Essa ética é um imperativo evangélico na busca da verdade e da justiça.
Esta passagem do Evangelho tem sido lembrada comumente como indicadora da correção fraterna. O texto não é ingênuo a ponto de ignorar os conflitos internos da comunidade mateusina dos anos 80 de nossa era, quase dois mil anos atrás. Este evangelho reflete a construção discipular de um grupo de testemunho experiente e conectado com a tradição conceitual veterotestamentária. Provavelmente influenciada pelo judaísmo formativo, e escritos extra bíblicos, como são o Thalmud, o Midrash, o Gemara, e outros. É uma página da catequese comunitária, indubitavelmente. Os comentários abordam questões sobre os pecados de todos nós, querem demonstrar que não são individuais, ou somente sujeitos de escolhas pessoais. De fato, demonstra a importância de cada situação individual no coletivo. As faltas graves refletem-se na estrutura social, além do grupo de fiéis. A comunidade, no entanto, é a primeira a sofrer, quando há pecado nas situações não ou mal resolvidas entre seus membros.
Recusar essa oferta é opção de quem erra, e que vai errar mais uma vez; e que necessitará de nova abordagem fraternal de correção, seguidamente. Não o desprezo ou o abandono do irmão (ou irmã) à própria sorte. Ganhar o irmão (ou irmã) para a comunhão, como Paulo já dissera, é o mais importante. Não devemos esquecer a recomendação de Jesus sobre o perdão ilimitado (Mt 18,21-27): "... perdoar setenta vezes sete", multiplicação ad infinito para o perdão.
A questão é salvar o transgressor? Sim. Mas não de se contemporizar ou solidarizar-se com ele. Condená-lo ou expulsá-lo da comunidade não lembra os ensinamentos nem as atitudes do Cristo de sua fé. Evidentemente. Os exemplos consecutivos mostram que os seguidores de Jesus, mesmo os que cometeram o pior dos pecados, devem ser perdoados. Este pecado sequer será lembrado para julgamento posterior. Assim, a oferta de perdão e reconciliação se sobrepõe a qualquer outra solução. Porém, nunca se excluirá a exigência, em nome da justiça: (“Eu, porém, vos digo que não resistais ao sujeito mau; mas a qualquer que te bater na face direita, oferece-lhe também a outra; e ao que quiser pleitear contigo, e tirar-te a túnica, larga-lhe também a capa; e, se qualquer te obrigar a caminhar mil passos, vai com ele dois mil” - Mt 5:39-41; e o contexto poderia ser complementado: “Mas não desista de exigir retidão e justiça”).
Antes de tudo, no Primeiro Testamento, uma primeira parte nas instruções gerais de Yahweh ao povo, referente á observância das cerimônias rituais da Páscoa, funciona como explicação histórica do rito (Êxodo 12,-1-14). Devemos considerar, nesse trecho, a importância do entrelaçamento do “shemah”, ensinamento sobre a vida em comunhão, à “pessah”, passagem para a nova ordem, e a Ceia do Senhor, o Partir do Pão, “euxaristein”, para entendermos melhor os conteúdos teológicos da comunhão nas instituições litúrgicas de Israel. Na Antiga e na Nova Aliança, no entanto, há muitas conjecturas e poucas certezas. A linguagem do Deuteronômio (as fontes mais freqüentes, no pentateuco, ou héxateuco, conforme a linha exegética, são J – javista; E – eloísta; D – deuteronomista e P – sacerdotalista) ajuda mais, o modo de inculcar um mandamento associado à catequese (shemah Israel = “ouve, ó Israel”, Dt 6.4). Trata-se de dar sentido à liturgia celebrada, organizando-se um memorial da saída do Egito e suas implicações com a liberdade da comunidade.
Tempo primaveril, estação do ressurgimento e vitalidade no campo; brotam flores; prenunciam-se novos frutos, sinais de ressurreição. É a esperança de um novo tempo. A Páscoa, no Oriente mediterrânico, ocorre na Primavera. Lembro-me do antigo hino: Já chegou a Primavera / com os seus matizes mil./ Lá se foi o frio inverno.../ hoje o céu é todo anil. Compreenderemos melhor, assim, o sentido da “pessah” (passagem da escravidão para a liberdade), no tempo abaixo do Equador. Aqui, a Primavera ainda é esperada. É Inverno. Paulo vai renovar essa tradição oriental em 1Cor 11, 23-24: “transmito o que recebi do Senhor: ...após ter dado graças, partiu o pão ...apresentando a taça de vinho, disse: este é o cálice da nova aliança no meu sangue”. A vida em comunhão é difícil, muitas vezes. Implica em sofrimento, e o principal deles talvez seja o esforço de reconciliação diária com o irmão que contraria as regras da vida de retidão que endossamos e nem as podemos explicar. Por que têm que ser obedecidas? Shemá Israel! Diante de nós estão escolhas que devemos fazer. A Bíblia parece dizer: "Ouve, ó Israel, o Senhor Nosso Deus é o único Senhor", a ser obedecido (Dt 6.4). “Favor não esquecer a retidão e justiça, Ele exige”. ------- Texto: Derval Dasilio
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