22o. Domingo do Tempo Comum 

Ano "A"

 


A RELIGIÃO QUE QUER ESQUECER AS ESCRAVIDÕES

 

Êxodo 3,1-15 – Eu sou o Deus dos patriarcas

Salmo 105, 1-6; 23-26 – Deus fez fecundo o seu povo/testemunha

Romanos 12,9-21 – Compartilhem solidariamente a necessidade dos outros

Mateus 6,21-28 - Quem perder sua vida por minha causa a salvará...

 

A fé de Israel, que mais tarde se tornará a fé cristã, é eminentemente uma religião do povo oprimido, pobre, que busca a sua libertação. Parece que os cristãos recentes esqueceram-se disso. Muitas vezes e de muitos modos na história se tentou domar essa fé (e se conseguiu, tantas outras...). O Deus libertador foi emudecido na religião interesseira, na adoração intimista, particular, individual, fazendo calar as aspirações mais profundas do pobre e do oprimido: liberdade e direitos fundamentais. As igrejas cristãs contemporâneas, desde o pietismo importado, parecem ter horror do pobre, do anawin, objeto principal do cuidado do Deus de Israel. Do mesmo modo com que se esmagava a religião profética, séculos mais tarde, o judaísmo formativo, desde o V século, tratava-se de esconder a religião libertária em favor da  religião da lei e dos preceitos.

 

Escravos, condenados à servidão, pobres, oprimidos, claramente o grupo libertado dominante no êxodo, não interessaria mais à religião que visava fortalecer o Templo, sede da dependência e da dominação religiosa. Os cristãos, herdeiros do êxodo mais remoto, aprenderam a lição de seu profeta fundante, Jesus Cristo, na luta contra a religião formatada, conformada, propositista, retributivista? Jesus é compreendido como reinaugurador da Aliança de Deus com o seu povo, como afirmaram os testemunhos apostólicos no Evangelho? Julgue você. Conseguiu-se manter na igreja cristã pós-bíblica um tipo de poder desligado de anseios libertários, graças ao desligamento entre a fé em Deus e o acontecimento histórico da libertação, do êxodo, inspirado e provocado por essa fé. Espiritualizou-se uma realidade concreta. A fé abstrata substituiu os anseios por libertação real, inteira, completa. A Aliança, como contrato bilateral entre Deus e seu povo, foi atirada num canto qualquer dos altares religiosos.  Quem ousa afirmar que entre os cristãos, mesmo os evangélicos, predomina a consciência da fé no “êxodo” bíblico?

 

1. No sistema egípcio, que fez brotar o desejo pelo êxodo libertário, toda a política do rei se baseava num precedente religioso: o faraó era considerado filho da divindade e, portanto, herdeiro de todo o país e outras regiões dominadas. Isso lhe garantia, por direito divino, uma supremacia total em termos políticos e econômicos. Dessa forma, o governo do faraó podia dispor à vontade tanto da terra como do povo, incluindo a força de trabalho e a produção. Com isso, o sistema tributário tornava-se arbitrário, abrindo as portas para o povo ser dominado e explorado. Com esse precedente político-religioso tal sistema tornava os camponeses agropecuaristas cada vez mais empobrecidos. Os hebreus, ainda denominados de apiru, porque progrediam nas terras férteis às margens do Nilo, além da exploração econômica da produção, eram também explorados na sua força de trabalho. Durante o período das cheias do Nilo, quando a agricultura ficava impraticável, a mão de obra disponível era requisitada pelo governo para grandes construções ou serviços públicos. Gratuitamente. Com o tempo, porém, essa requisição era feita não só no período das cheias, mas também na época de plantio e colheita, obrigando o povo a várias jornadas de trabalho. Isso empobreceu enormemente as populações assim situadas.

 

“Nós éramos escravos do faraó no Egito, mas Javé nos tirou do Egito com mão forte” (Dt 6,21). É assim que o povo de Deus não faz distinção entre a fé e a vida, na origem. As duas se interpenetram, a ponto do mesmo acontecimento ser o fundamento tanto de sua religião como de sua existência de fé, enquanto povo. Vemos, portanto, que o ato libertário de Deus sobre Israel torna-o povo. Um povo! Daí a importância do Êxodo em toda a Bíblia. Para a fé de Israel e para a fé do novo Israel de Deus. A liberdade é fundamental para um grupo humano realmente se tornar povo. Povo é um conjunto capaz de autodeterminar seu comportamento político, econômico e cultural. Sem liberdade, um povo não é capaz de organizar suas relações econômicas para a distribuição dos bens sociais; nem de criar suas próprias formas de relacionamento político para organizar a participação livre no arranjo social que interfere nas decisões de quem governa. O Êxodo não é apenas o relato de um fato passado. Nele encontramos o modelo inspirador, as virtudes desse Deus de Israel, e como uma gente lutou para encontrar seu espaço e se tornar povo. Ele continua aberto para todos os tempos e lugares onde exista o mesmo anseio libertário, na exortação apostólica: ( “Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo conquistado - da escravidão -, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” - 1Pd 2,9).  

 

2. A sarça ardente, a partir do vegetal comum, simples, humilde, que nada representa em nobreza, mas é portador da presença divina em seu símbolo mais importante: o fogo, elemento que não cessa de queimar, porque não precisa de combustível; não se consome, porque nada tem a expiar (Êxodo 3,1-15). Nenhum ou qualquer pecado ou culpa. O sinal oferecido por Deus é estranho, porque aparece aqui como um fechamento. O diálogo com Moisés apresenta um desígnio indiscutível, uma ordem: Deus vai libertar o povo oprimido, é ele que toma a iniciativa. Há, no entanto, um precedente importantíssimo evocado no compromisso com os patriarcas: Deus vai chamar à liberdade a gente esmagada pelo sistema inteiro, despoderada, oprimida, pobre e escravizada, e dirá “este é o meu povo”.

 

Aqui, muda-se o verbo hyh (ser, existir) para o substantivo yahweh (aquele que dá o ser, a vida; aquele que faz existir todas as coisas), um nome que pronunciado produz um som audível para os hebreus. Uma tradução qualquer, indefinida (“o que for”), não satisfaz. Porém, traduzida como "sou o que sou", presta-se à reflexão, primeiramente porque os conceitos de ser e existir (Jo 8,58; Ap 1,4) são essenciais para o reconhecimento na esfera da fé de Israel. Um ocidental, helênico, poderia dizer sobre o nome de Deus: "sou um ser absoluto". Mas, o que interessa realmente ao povo bíblico é essa identificação com o Deus revelado aos patriarcas, diante do que realmente importa, o enunciado de uma ordem perpétua: de agora em diante Yahweh será conhecido e identificado com o nome com o qual se apresentou (Is 42,8; 26,8). O livro do Êxodo, nos seus preâmbulos, parece querer ser testemunhado nos Evangelhos, quando Jesus ensina a orar: “Faça-se a sua vontade, na terra como nos céus” (Mt 5,5).

 

O convite a testemunhar fielmente é um martírio (marturéo= testemunhar), no Evangelho. Prescindir a vida profética, não manifestar a indignação pelo acontece ao nosso redor, nos exemplos diários de violência contra a sociedade humana; violência contra seguimentos étnicos, pelo racismo latente; violência contra a mulher e a criança, feridas em sua dignidade; violação dos direitos fundamentais das pessoas sejam elas quais forem, em quaisquer situações e  onde quer que estejam; violação do ambiente natural, enfim, nos deixa à mercê dos poderes da morte, em tantas manifestações (Mateus 6,21-28). A oposição, a perseguição, o rechaço, ao evangelho libertador do Senhor Jesus Cristo, de fato, nos deixa vulneráveis e muitas vezes nos leva ao martírio. É perigoso ser crente, sempre foi... A história do êxodo e da Aliança nos faz recordar esse fundamento.

 

  

Texto: Derval Dasilio

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