21o. Domingo do Tempo Comum Ano "A" Êxodo 1,8-22;2,1-10 –Desde a escravidão, pobres atravessam
os desertos Salmo 124 – O Senhor salvou nossa alma das
escravidões Romanos 12,1-8 – Pretensões individualistas não cabem
na vida de fé Mateus 16, 13-20 – Multidão religiosa e discípulos querem subjugar a Jesus UM POBRE NÃO PEDE, EXIGE SEUS DIREITOS FUNDAMENTAIS
Um aluno nosso, dirigindo um estudo
bíblico, cita Karl Barth, que afirmara ser o Evangelho um apontamento
sobre a preferência de Jesus Cristo pelo pobre (Poverty, Against the
Stream, NY, Philosophical Library, 1954). A platéia de cristãos bem-postos
protesta imediatamente. E seguem-se as citações tradicionais: “os pobres,
sempre os tereis convosco”... “bem-aventurados os pobres de espírito”...,
etc., para universalizar a
mentira conversionista que fala de salvação abstrata, espiritual; de
pobreza e de miséria espiritual; pobreza “metafísica”. Não é bíblica, evidentemente.
Acompanhem-me, por favor. Recolhemos informações importantes, aqui, para a
continuidade patriarcal no Primeiro Testamento. Ao mesmo tempo, dados de
transição e de transformações econômico-sociais despontam sob a ótica do
narrador javista (Ex 1,8-22;2,1ss): “Eis que se levanta um novo rei sobre
o Egito, que não conhecera José”. O sabor épico, no contar da história de
José, um menino vendido, perseguido, ameaçado de morte, que enfim acaba
por encontrar uma posição privilegiada, destacada, numa nação poderosa,
não é incomum na literatura acádica contemporânea. Faz parte do folclore
do Antigo Oriente Médio. Os aspectos individuais, no entanto, são
relevantes: José encarna a “sabedoria” dos doutores, os hakamim, capazes de produzir
estratégias para a superação de obstáculos, como refletiam os rabinos chassídicos, pós-judaísmo
formativo. É falso o que o pietismo e o
fundamentalismo bibliolatra ensinaram sobre José. Ensinamento no mínimo
duvidoso, certamente primário e infantil. Colocar José como um varão
perfeito e virtuoso, que é premiado porque não se deita com a mulher de
Putifar, não é o essencial. A questão de fundo não é o erotismo reprimido
de José. Refere-se ao sonho por justiça social entre as nações, que está
na mente do narrador profético. Na cultura do povo bíblico, no Primeiro
Testamento, os sonhos poderiam ser “oraculares”, premonições, talvez, de
tragédias que possam ser evitadas, pela interpretação de sonhos. Mas podem
expressar também desejos ocultos, ambíguos, oblíquos. Sonhos de “poder”.
Os feixes, colocados em forma piramidal, onde os gravetos apóiam uns aos
outros, poderiam dar a entender uma escolha de quem ficará em destaque, no
grupo de onze feixes inclinados (posteriormente, contemporaneamente, o
narrador referir-se-ia às 12 tribos de Israel elegem um membro de Judá
para governar Israel; eis uma “interpretação realista”, literalmente).
Mas José não se identifica com um
pretenso “rei”, na cultura pastoril de seu tempo. Aqui, o narrador não
está dizendo que o sonho vem de Deus. Não é próprio, mas quer justificar,
talvez, o que o livro de Juízes ignora: Israel sonha com um rei! Quer
alguém com autoridade para governar (1Reis 8;9;10). Não importa o que um
pai profético, como Samuel, quer alertar: milícias guerreiras com o
concurso dos filhos de Israel, filhas concubinas para a corte (as quais,
como mercadorias de preço, seriam entregues ao rei... gratuitamente),
impostos severos, perda de direitos sobre a terra, que aumentariam a
legião de “órfãos e viúvas”, os pobres de Israel. José aceitará ser um
agente de transformação social e econômica ofertada a um povo pagão. Ao
contrário de Davi, e diferentemente de Jonas – o profeta do falso
exclusivismo do “povo eleito” –
que não aceita a salvação e a libertação dos pagãos, que passam
pelas mesmas crises por motivo de opressões religiosas, econômicas,
políticas e sociais. Representa José o amor, a salvação, a graça sem
preço. A reconciliação com os interesses de seu povo original. O Deus de
José, Deus da Bíblia, convida à fé no desenvolvimento sustentável e à
esperança de salvação. Trata-se da luta pela liberdade e, finalmente, pelo
esforço na direção da alforria. Sentido pleno da libertação.
Os hebreus (hapiru) que habitavam o norte do
Egito na forma de um grupo compacto, são apresentados hiperbolicamente,
numa linguagem de exageros, como um “grande” grupo. Na verdade, estariam
mais próximos de uma comunidade de testemunho da presença de Yahweh,
refletida em todo o Êxodo, ou representações de “êxodos”, na teologia
libertária, profética, que desponta no Primeiro Testamento. A rigor, o “anawin”, o pobre, é comunidade de
libertados/libertários, de Israel. Milton Schwantes ainda não publicou sua
dissertação doutoral no Brasil, pelo que sei. Das Recht der Armen, O Direito dos
Pobres. A tese aborda o conceito do pobre. O que é sociologicamente
o pobre, na Bíblia? Em que sentido ele tem “direitos”? O que quer dizer,
neste caso, “direito”? Perguntam ao teólogo. E ele responde: – “Direito,
no caso da cultura semita, também bíblica, significa aquilo que
corresponde a alguém que tem necessidade de obter coisas da sociedade”.
Por causa da “dignidade” (dignitatis), que é a melhor
tradução para os direitos fundamentais de todos, em nossa língua. O pobre tem, pois, o direito de
receber comida e uma terra da sociedade, seja para construir sua casa ou
para o cultivo de subsistência, na Bíblia. O direito é o de obter da
sociedade o apoio na necessidade e na crise, em meio aos parentes e à
comunidade. O termo “pobre” é usado no Antigo Testamento e na Bíblia toda
de modo diferente do que nós o usamos. Nós damos aos pobres o sentido de
“carentes” de esmolas! A Bíblia ignora esse sentido. Ela entende que o
pobre tem o direito de “reivindicar os direitos sociais” garantidos por
tradição remota O texto específico deste domingo esclarece: a perseguição dos escravos fugitivos irrompe e avançará em três ondas: 1) Politicamente, quando a onda da minoria vai alcançar a força das maiorias; 2) Estratégica e militarmente, com possibilidades levantadas do risco de companheiros transformarem-se numa “formação de quinta coluna”, traidora, aliados a estranhos, quanto à experiência original da causa do êxodo; juntando-se, na estrada, a desconhecedores dos princípios e das causas fundantes da nova caminhada do povo; 3) Economicamente, quando se tenta subjugar a mão-de-obra barata, ou gratuita, da escravidão. Fatos não reclamados, porém, no texto, envolve abusos no serviço das mulheres hebréias nas casas egípcias. Quer mesmo é ridicularizar o Faraó, zombando da lógica estúpida da exploração e da injustiça consentida culturalmente. Mais tarde, a literatura profética estabelece a condenação da escravidão de maneira exemplar. O trabalho(‘bd), cuja raiz hebraica significa “trabalho sem qualificação”, sob servidão, acentuando a indignidade do explorado, faz parte da nova concepção e conceito de liberdade, na teologia javista e profética (Cf. Milton Shwantes, Joaquim Beato, Shöeckel, G. vonRad, Rolf Rendentorf). O pobre (anawin) é vítima do Faraó e da sociedade que sustenta a política imperial. Os reis de Israel, e a sociedade dominante, no tempo do narrador javista, imitam o exemplo egípcio, nos sonhos imperialistas.
Mateus 16,13-20 – Temos uma análise a
fazer entre as pretensões de pessoas e grupos sedentos de poder e o
contraste entre as propostas para o seguimento do caminho de Jesus. Isto
fica patente neste episódio do evangelho de Mateus. Por volta da metade do
caminho, coincidindo exatamente com a “metade” do trabalho de formação dos
discípulos que estão sendo preparados para o anúncio do Reino de Deus, na
metade geográfica do caminho de Jerusalém. Jesus interroga seus seguidores
sobre o que assimilaram até ali. As respostas não surpreendem: uma parte
identifica-o com os profetas; outra reconhece-o como Messias e Filho de
Deus, nas palavras de Pedro. Mas um problema de fundo subsiste: tanto a
multidão quanto os discípulos querem subjugar a Jesus “impondo-lhe
definições” do que é ser profeta, ou sugerindo a maneira que deverá ser a
do Messias de Deus. Modelos que contrariam a vontade de Deus, enquanto
demonstram inconseqüência sobre o que lhes foi ensinado. A comunidade não
entendeu nada sobre a proposta de Jesus. Não se pode absolutizar Jesus, informa o Evangelho. A fé cristã é cristocêntrica? Ou perguntando pelo pior: a fé é “eclesiocêntrica” ou “religiocêntrica”, como muitos desejam? Onde está o miolo, a essência, depois de retiradas as camadas que envolvem a religiosidade cotidiana? Qual é o problema? É certo que as leituras de hoje mostram o quão imprescindíveis, certeiros, são os caminhos de Deus; quão insensatos, caducos, esquemáticos, doutrinários, são os caminhos que os homens constroem. No quadro, prefere-se a moldura e esquece-se quem é retratado. Jesus não é um Messias triunfalista, prepotente, impositivo, nacionalista exacerbado, apaixonado pela ideologia de algum grupo religioso ou de um partido político. Ele, na verdade, está a serviço das mais importantes e profundas causas humanas, que colocam em primeiro lugar a causa do pobre e seus direitos. Jesus é um profeta diferente dos que anunciam sua própria causa e a supremacia de sua própria religião. A “religião” de Jesus é justiça para com o pobre e oprimido; paz que resulta da observância do direito do pobre e do excluído; suas atitudes éticas apontam o oprimido, sem dignidade, desgraçado e desgarrado da fé e da esperança libertadora de Israel. Diferentemente, a religião que centraliza-se preferencialmente em si mesma difere da religião de Jesus. A religião do cuidado com o pobre, o “anawin”; o esmagado, oprimido, excluído, em toda parte neste mundo. ![]() Texto: Derval Dasilio [LEIA MAIS SOBRE O AUTOR] LECIONÁRIO REFORMADO ESPAÇO TEOLÓGICO ECUMÊNICO |