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20o. Domingo do Tempo Comum Ano "A" Gênesis 45, 1-15 –
Deus me enviou em
missão à frente de vós
Salmo 133 – Como é
agradável a unidade dos povos!
Romanos 11, 1-2a; 29-32 – Um remanescente sobrevive para
testemunhar ...
Mateus 15, (10-20); 21-28 – Jesus louva a fé dos que estão do lado de fora
AS
RAÍZES PODRES E OS FRUTOS INDIGESTOS DO
FUNDAMENTALISMO A
religião é um fenômeno antropológico extraordinário! Todas as religiões
têm começo e origem. Nos primórdios imemoriais, nas eras mais recentes, na Antiguidade
e até hoje, as narrativas sagradas, os rituais, as práticas morais, os
modos de organização, em cada grupo religioso, em toda parte e em todo
tempo, pré-histórico ou não, a religião nunca se dissocia dos meios de
produção econômica (João Décio Passos). Narrativas supra-históricas,
miraculosas, apontando prodígios, eventos divinos, transcendem à dinâmica
histórica enquanto colocam
homens e mulheres face a face com o transcendente. Este é um ponto.
O outro refere-se à institucionalização da religião, quando vai-se
racionalizar origens e fins.
O pentecostalismo, assim como as demais tendências cristãs, emergiu
da dinâmica histórica, desde Abraão, por exemplo. Se no primeiro momento
evoca sua origem primordial, no segundo desencadeia-se dentro do contexto
histórico. Se a teologia pentecostal fundamentalista prefere a narrativa
linear, atemporal e não histórica, são outros quinhentos. Quando a
narrativa é sacralizada (como ocorre no biblicismo fundamentalista,
excessivamente freqüente nas igrejas históricas), o resultado será
estruturado numa religião autoritária, com poder religioso especializado,
restrito a uma hierarquia, inteiramente montada na objetividade e
finalidade. A fé, elemento transcendente, é dispensável nesse momento.
A
pretensão de gerenciar o mundo em lugar de Deus traz também a marca do
cristianismo ocidental. Na mundialização do capitalismo econômico, e na
monocultura consumista que se impõe ao planeta, sofre-se, hoje dia, a
substituição do próprio Deus. Melhor, os favores de Deus são vendidos nos
templos transformados em mercados. Roger Garaudy, marxista convertido
ao cristianismo, faz a pergunta: “Dentro do cristianismo, o homem ainda
precisa de Deus”? Podemos perguntar mais: - Quanto custa o passe do
deus neopentecostal? Cristãos históricos se habilitam? Enquanto isso,
o homem declara-se como mestre e senhor da natureza, além de dominar
outros homens, e os continentes, através das ciências e da técnica. O
rosto do homem ocidental é visto no espelho dos cristãos pluralistas e no
surgimento de novas religiões, nas últimas décadas, (neo-evangélicos e
neopentecostais oferecem excelentes dados a essa pesquisa), sob a bandeira
do cristianismo religioso pós-moderno. O mesmo espírito mercador do mundo
dos negócios está aqui, na religião neo-evangélica. Neste mundo não se conhece uma
única proposta que não envolva sucesso financeiro pessoal (panacéia
salvacionista do mundo contemporâneo). E cristãos históricos aderem, sem
perguntar muito, às novas –
“pero muy viejas” – propostas mercantilistas na
igreja. A
religiosidade comum a todos os homens pode ser esboçada assim, porém,
brevemente. Contudo, a experiência de religião encontrada no Antigo
Testamento que se assenta e
chega até nós vai fugir do comum. O ambiente mesopotâmico, e depois
cananita, palestiniano, enseja uma abordagem diferenciada, notável por
isso mesmo. O israelita crê numa religião revelada, e não na religião
natural, fenomenológica, calcada em sentimentos diante do fascinante mundo
geográfico, astrológico, meteorológico. No segundo caso, os fenômenos
físicos ditam o ritmo dos acontecimentos. A experiência humana com a
procriação e a fertilidade; com os fenômenos naturais, é determinante. A
aflição sobre fenômenos sobre os quais não se possui nenhum controle, vida
nômade debaixo de céus estrelados contrapostos às tempestades noturnas,
medonhas, céus lampejados vivamente por raios intensos, exigiram uma
resposta do homem. Imaginemos uma árvore despedaçada por um raio, como
acontece ainda hoje em áreas rurais, quando um camponês recusa-se a tocar
na madeira carbonizada e exposta; acrescentemos, ainda, a observação de
ciclones, furacões, maremotos (Geoffrey Blainey). Como explicar um vulcão
em erupção, extensões de terra abaladas, tremendo, e em seguida rachadas
em grandes distâncias, num mundo limitado ao que um grupo de pessoas
conhecia (a terra que pisavam era a Terra toda...)? Pensemos no céu noturno, em
forma de cúpula, em estrelas cadentes, debaixo do qual as pessoas armavam
suas tendas. Como era intrigante a marcha regular das estrelas, os céus
cruzados periodicamente por tochas de fogo em alta velocidade, estrelas
cadentes, grandes rios lácteos correndo pelo céu, tapetes gigantescos de
estrelas estendidos nas noites limpas... Criaturas poderosas deveriam
viver no firmamento... Nasce a religião! Magos, videntes,
curandeiros, feiticeiros, conheciam esses mistérios. Tinham, portanto, as
chaves dos lugares sagrados, dos santuários, dos altares onde se fariam
sacrifícios. Podiam manipular a religião, por causa de seus atributos e
competências. A Bíblia Hebraica, contudo, não esquece nenhum detalhe a
respeito dessa religiosidade: condena-a. Mas o homem bíblico não é
diferente dos outros, denuncia imediatamente. A guinada na direção da
religião revelada, que ocorrerá gradativamente. O primeiro êxodo ocorrerá
com a introdução do monoteísmo ético, atribuído a Moisés. A
dessacralização da natureza atinge fragorosamente essa religião, de tal
maneira que nem o lugar do túmulo de Moisés poderá ser
conhecido, na posteridade (“E
ninguém soube, até hoje, o lugar de sua sepultura”: Dt 34:6 - Torah). Moisés morreu, mas morre
como um ser humano. Seus despojos não podem ser adorados, quem sabe
venerados, como relíquias. Uma grande verdade pode vir de rabinos
observantes do Midrash Lecav
Tov: “Para que jamais se mesclassem o domínio humano e o domínio
divino do Deus sobre o povo de Israel; para que não fossem embaçadas as
diferenças que transformam a religião, o meio, em objetivos, desfigurando
a própria religião”. Será que Edir Macedo, R.R.Soares, Robson Rodovalho,
Márcio Valadão, o casal Hernandes, leram sobre isso alguma vez, tirando
proveito invertidamente? São mestres respeitadíssimos no ambiente
neo-evangélico. Admirados em toda parte, faça-se justiça.
Os
surtos neo-evangélicos recentes, são contaminados por uma
estruturação clara em torno de um poder religioso especializado, restrito,
hierárquico, autoritário, objetivo. Os fiéis tramitam essencialmente no
ambiente urbano, marcado pelo anonimato, por relações indiretas; pela
massificação dos costumes, sem expressão de comunhão e de comunidade, em reação estrondosa às condições
sociais e econômicas. Nada de anormal que o lado de baixo da Linha do
Equador abrigue a nova religião neopentecostal em seu cenário. O
narcisismo e as desigualdades sociais, a dissolução da ética solidária e
da partilha, compõem o ambiente perfeito dessa coreografia. Deus, aqui,
além de assemelhar-se ao “deus ex
machina” da teatrologia
da Grécia Antiga, é bem
brasileiro: Deus é um serviçal; um “deus-quebra-galho”, como num
receituário doméstico, onde se encontrará todas as soluções possíveis para
alguém se dar bem na vida. Os ministros oram e ordenam à divindade, depois
das ofertas compulsórias: -"Fizemos a nossa parte, agora faças a
tua...". A
religião exposta na Bíblia Hebraica, e no Segundo Testamento, é
profundamente diferente. Deus
é respeitado em sua grandiosidade, o homem também é respeitado dentro do
princípio da decisão livre, não manipulada. Cada homem pode chegar a Deus através do
microcosmo e do macrocosmo, dirá o holandês H.Renkens (A Religião de
Israel). O homem está incluído numa graça geral, uma dádiva divina, pois é
como uma enciclopédia que alcança o universo inteiro; ele próprio é o “universo num grão de areia
”. É como “uma gota d’água
numa pétala de flor ” (Rubem Alves), no seu interior cabe o mundo
inteiro. Mas nem esse mundo pode contê-lo em si mesmo, tal a
transcendência do ser humano criado (Sl 8:4-5: que é o filho de Adão, para
que te lembres dele, e o filho do homem, para que o visites? Contudo,
pouco abaixo de um deus o fizeste; de glória e de honra o coroaste).
Consciente de si mesmo, o homem percebe seu direito à plenitude dos bens
sociais, enquanto possui consciência ética sobre a justiça, a partilha e a
solidariedade. As insaciáveis profundezas do seu próprio interior
tornam-no um ser inquieto, um peregrino sem um travesseiro para pousar a
cabeça, inconformado com possíveis limites (Lucas 9,58: “...As raposas têm
tocas e os pássaros têm ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde repousar
a cabeça”). Na voz de S.Paulo, esse testemunho interior será expressado
assim: “mostram-lhes a norma da lei gravada no seu coração,
testemunhando-lhes também a consciência e os seus pensamentos”, (Rm2,15).
A voz da consciência é dos mais notáveis indícios da religiosidade
bíblica, que se manifesta no testemunho exterior, nos compromissos com o
grande universo fora do homem: o macrocosmo não-manipulável. A religião
bíblica, então, passa a ser compreendida como uma “Religião da
Consciência”. Não é possível ficar em cima do
muro. LIÇÕES SOBRE A RELIGIÃO
EVANGÉLICA Uma mulher importuna oferece uma
grande lição, no evangelho deste domingo (Mateus 15, [10-20]; 21-28).
Humilde, submissa como um “cão” ao seu dono, reclama por dignidade. Jesus
pode restaurar-lhe a dignidade, ela crê, e elevar sua categoria de mulher
e de mãe, e de mulher pagã, duas vezes indigna diante do código religioso
vigente. Diz-lhe Jesus: sua fé removerá montanhas! O demônio da
incompreensão, da intolerância, da exclusão e do preconceito, sofre um golpe
mortal. O mal não é irreversível. A sorte está lançada, o Reino da
Salvação chegou para todos, não há correntes, amarras, prisões,
regulamentos, leis humanas, que a impeçam! Paulo, na mesma
linha, abandona os inúteis esforços por abrir Israel à esperança profética
e aceita a proposta dos crentes de outras nações que estão dispostas a
formar as novas comunidades abertas, ecumênicas e solidárias. O Povo
eleito deve fazer de sua existência um testemunho diuturno da Graça
libertadora das cadeias da opressão: “Se for santa a raiz, também os ramos
o serão” (Rm 11,16). A Salvação é dom de Deus. Também os de fora alcançarão a
plenitude de Deus. Pelo que se refere
à missão “evangelizadora” dos cristãos, sabemos que a letra do texto do
evangelho de hoje bem poderia nos induzir ao erro, pois a missão não está
centrada numa classe restrita de ovelhas, nem as de Israel, nem as do
cristianismo; nem muito menos as ovelhas “evangélicas” ou “católicas”
(Mateus 15,10-20; 21-28). A missão integral, como se enfatiza hoje,
atuante em todo campo da cultura humana, desde as expressões religiosas,
políticas e econômicas, rompe todas as fronteiras, só reconhece como
objetivo o reinado do Deus da vida. Mais que justiça moral, abstrata, da
pregação tradicional. A missão já não é e nem pode ser particularista,
como o fundamentalismo ensina, porque não dá para entendê-la senão como
“Missão de Deus pelo Reino da Paz e da Justiça”. A utopia do Reino de
Deus, o Deus da Vida, sempre nos conduzirá a um Deus plural em suas
manifestações; em suas revelações; em seus caminhos de libertação do
pensar que escraviza homens e mulheres em toda parte, neste
mundo. Nesse contexto de ruptura com o
Templo em decadência, melhor dizendo: a religião em decadência, e com a
elite que a manipulava, acontece o episódio da mulher cananéia. Jesus
havia se retirado para uma região estrangeira, não muito longe da
Galiléia. As fortes pressões do poder central impunham também fortes
limitações à sua atividade missionária. Sua obra em favor do pobre, fraco,
despoderado, enfermo e marginalizado, encontrava grande resistência,
inclusive dentre o povo simples e dentre seus próprios seguidores.
O exemplo da mulher cananéia é
um dos vários casos que aparecem no evangelho, ![]() Texto: Derval Dasilio [LEIA MAIS SOBRE O AUTOR] LECIONÁRIO REFORMADO ESPAÇO TEOLÓGICO ECUMÊNICO |