19o. Domingo do Tempo Comum 

Ano "A"

 

Gênesis 37,1-4;12-28 – Quando irmãos vendem irmãos...

Salmo 105,1-6;16-22   Entre os povos, fazei conhecidos os feitos do Senhor

Romanos 10,5-15 – Formosos são os pés dos que anunciam a salvação

Mateus 14,22-33 – Com fé, manda-me ir ao teu encontro, sobre as águas


SONHAR, MAS SONHAR O IMPOSSÍVEL...

 


Ao examinar estes textos, imediatamente lembrei-me do filme “Sonhos,” do cineasta  vn japonês Kurosawa, onde várias histórias são contadas. Sobre sonhos. Um deles deixou-me impressionado por toda vida: Um visitante de museu depara-se com um quadro de Van Gogh, não lembro o título, mas poderia ser “O Campo de Trigo”, tal a beleza. O observador, contemplando a pintura do mestre, sonha e entra virtualmente na realidade da paisagem de caminhos e trigais, “caminhando dentro do sonho”. Começa uma linda aventura. É preciso ver o filme, podem-se tirar várias conclusões, mas o que fica, mesmo, é a possibilidade de se ingressar na realidade dada através de um sonho. Nosso texto nos envia a um grande sonhador, José. Sua história não é nada romântica, senão uma tragédia em muitos atos, onde a traição de ideais familiais vai quebrar a confiança que mantém um grupo unido. Interessa à família de Deus. Interessa à sociedade humana. Metafísicos falam com freqüência na necessidade de uma abertura para o mundo, dirá Gaston Bachelard.  Abrir-se para o mundo objetivo, entrar no mundo objetivo. Longas caminhadas na direção de um mundo mais belo, mas também um mundo para quem quer enxergar a beleza. Na ética e na própria constituição do mundo.

 

Desse modo, o sonho torna-se cósmico, enquanto foge do fragor do mundo imediato. O mundo real é inquieto, incômodo. No mundo dos sonhos os homens e as mulheres têm asas, é neles que os poetas e os sonhadores e sonhadoras libertários querem ingressar. Há exigências com relação à realidade  inevitável. Existe nesse mundo a miséria, a violência, a desigualdade, a exploração do outro e da outra. O sonho, porém, introduz utopias libertárias contra toda forma de dominação, de opressão, de violência contra os demais. O sonho devolve-nos a confiança no mundo (Bachelard). José, traído, vendido como escravo, e finalmente ministro do Faraó, representa o grande salto do patriarcalismo pastoril para a economia agrícola exemplar, cumulativa, provisional: O sonho do possível, com a segurança do armazenamento de soluções para a sociedade inteira, sendo José um escravo-ministro em um sistema paganizado,  um servo de Deus decisivo para se manifestar a intervenção salvadora do Deus de Israel. O Deus de José age na história da humanidade porque quer salvá-la de todas as fomes, inclusive a fome de justiça econômica. Deus inspira e ampara José.

 

É falso o que o pietismo e o fundamentalismo bibliolatra ensinaram sobre José. Ensinamento no mínimo duvidoso, certamente primário e infantil. José sonha... os sonhos, na Bíblia, têm uma importância extraordinária, são muitos os exemplos. A questão de fundo refere-se ao sonho por justiça social entre as nações. Na cultura do povo bíblico, no Primeiro Testamento, os sonhos poderiam ser “oraculares”, premonições, talvez, de tragédias que possam ser evitadas. Mas podem expressar também desejos ocultos, ambíguos, obliquamente.

 

José não se identifica com um pretenso “rei”, na cultura pastoril de seu tempo. Não é próprio, mas o narrador quer justificar, talvez, o que o livro de Juízes ignora: Israel sonha com um rei! Quer alguém com autoridade para governar (1Reis 8;9;10). José, ao contrário de Davi, e diferentemente de Jonas – o profeta do falso exclusivismo do “povo eleito” –  que não aceita a salvação e a libertação dos pagãos, que passam pelas mesmas crises religiosas, econômicas, políticas e sociais, aceitará  ser um agente de transformação social e econômica ofertada a um povo pagão. Representa o amor, a salvação, a graça sem preço. O Deus de José, Deus da Bíblia, convida à fé e  à esperança de salvação.

 

Que novidades temos, desde José, sobre o mundo religioso povoado de necessidades falsas, “quebras-de-maldição”; “batalhas espirituais” (ver adiante: monstros espirituais do céu e do mar, em Mt 14,22-33); anti-teologias da prosperidade; “igreja-com-propósito” de a todo custo enriquecer, calcadas em doutrinas sobre o sacrifício e a contribuição dos fiéis seguidores das igrejas de mercado? José  não é um exemplo para essas igrejas. José tem a boa-nova de Deus, como afirmaria o apóstolo João: Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu Filho para a salvação do mundo (cf.João 3,16). A religião de mercado tem o “evangelho” da retribuição, da prosperidade, do sucesso, do “dar-se bem”, do “ter-sem-ser-e-aparecer”. Os homens e as mulheres “são salvos” pelo dinheiro que investem na igreja, pelo sucesso, pela oferta sacrificial, pela cura emocional das maldições de antepassados?

 

O segundo sonho de José salta do mundo agrícola para o universo estelar, algo de astrologia se destila num sonho. A crença de que povos e chefes têm no céu uma constelação que marca seu destino não é estranha à Bíblia Hebraica, nem ao Segundo Testamento (Nm 24,17 e Ap 12). Para José a salvação alcança o mundo.

 

JESUS DÁ FORÇA NAS LUTAS EM FAVOR DE UM MUNDO JUSTO

 

No Evangelho de Mateus (Mt 14,22-33), pode-se perguntar sobre o silêncio a respeito dos esmagamentos do mundo faminto de justiça, triturado nas exclusões e opressões. Deus realmente silencia diante das desigualdades e das injustiças? Os tripulantes do barco em perigo gritam por socorro. Precisam da manifestação de Deus (epifania). A tempestade, a noite escura, coisas que místicos e não-místicos experimentam, são perigos e silêncios insuportáveis. Jesus, presença simples de Deus entre os homens, compartilha nossos temores, medos, inseguranças, enquanto instila fé e segurança na ação de Deus. Jesus caminha sobre o mar, desprezando os riscos religiosos, mitológicos, da superstição determinista que cerca o homem e a mulher, o ser criado criado entregue ao fatalismo e à irreversibilidade do mal.

 

Os antigos consideravam o mar como o lugar onde habitavam monstros incontroláveis [no Primeiro Testamento, freqüentemente Yahweh é encontrado em luta primordial contra monstros draconianos, habitantes do mar,Yam, (Jó 3,8; Sl 74,14;Is 27,1: “Mas os perversos são como o mar agitado, que não se pode aquietar, cujas águas lançam de si lama e lodo”; Jeremias falou do castigo da Babilônia, o poder imperial de sua época, que dependia das nações as quais dominava: “Ó tu que habitas sobre muitas águas (mares), rica de tesouros! Chegou o teu fim, a medida da tua ganância” - 51:13); Yahweh se sobrepõe a yammú – um dos monstros do mar – em razão das condições precárias, injustiças desde os tempos primordiais, no mundo criado; a Bíblia Hebraica vai referir-se à necessidade de uma “uma nova criação” (Paulo usará certeiramente essa expressão: Romanos 8,18-25, e outras expressões do corpo paulino: uma escatologia comparável às referências do livro do Apocalipse, enquanto João consolidará essa teologia em outro momento; “o mar já não existe, mas sim um novo céu e uma nova terra” - 21,1-8 ; e a besta emergirá "do mar" - 13,1-10); sob contextos mitológicos, fundamentalistas preferem situar essas figuras, como é o caso do Leviatã, para identificar realidades do “mundo celestial”, espiritual, o “eon” de cima, literalmente. Com desenvoltura se fala do “diabo”, “satã”, “satanás”, e seus supostos disfarces.

 

Religiões iranianas  e orientais (cf. zoroastrismo, mazdeísmo, e suas crenças primordiais, dualistas; e suas cosmogonias, dominam o universo da superstição no ambiente cristão fundamentalista, e em outras religiões também fundamentalistas). A cosmogonia bíblica, contemporânea, original, porém, dará considerável importância aos monstros mitológicos que promovem o caos, ou que minimamente neles estão embutidos; a diferença está num aspecto iniludível: todas essas forças, sem excessão, são derrotadas pelo Filho do homem, e não há que se esperar, de Cristo, qualquer vitória a acrescentar-se sobre as forças do caos. Cristo reina acima de todos os poderes do mal].  Penso que o tema central, aqui, é uma alusão ao apoio da religião às forças cegas do caos. Inclusive sustentando a desordem religiosa característica de nosso dias, que parece crer no silêncio e na derrota e impotência de Deus; que o mal é irreversível; que, na terra terra, jamais poderemos nos libertar da presença de satanás e seus anjos decaídos.

 

Cristãos genuínos, que se dispõem a afirmar Jesus Cristo como Senhor da História, e senhor universal sobre as forças cegas do universo, o caos, o mal, não se deixam levar por concepções mitológicas, mas sim pela “Palavra criadora” de novas relações (hebr. Davar; greg. Logos). Deus está acima das superstições religiosas, dos mitos cósmicos conformistas que induzem ao fatalismo e ao quietismo, enquanto diminuem a figura do Cristo de Deus, impotente diante dos determinismos históricos. Deus apresenta-se em Jesus Cristo como libertador dos determinismos sociais, políticos, e até dos determinismos biológicos. É um conforto existencial indispensável para homens e mulheres, a presença de Jesus Cristo no cotidiano da religião não-conformista. Angustiados, inseguros, temerosos, não podemos exigir mais do que a certeza de um mundo transformado, na manifestação do Deus humanado, Jesus. Epifanias cósmicas, são sinalizadas no texto de Mateus: elementos naturais em revolta, noites escuras como breu, tempestades e vendavais, pavor a respeito da morte e da destruição, nossa vida atribulada, são compartilhadas por Jesus. E o cântico simples que nos ensinavam quando crianças: Com Cristo no barco, tudo vai muito bem, inspira a memória de nossas vidas nos caminhos difíceis que percorremos, peregrinando pelos mares da vida. O ensinamento essencial de Jesus aponta: Deus está no mesmo barco, conosco. Deus está ao lado dos que sofrem violência; dos que são excluídos do mundo privilegiado.  Debaixo de um silêncio sutil, somos chamados a buscar forças na fé e na confiança sobre os atos de Deus; somos convidados a lutar contra elementos adversos, e a caminhar sobre as ondas, como Jesus.

 

Nossas comunidades de fé, no texto seguinte, devem estar cônscias, no caminho sobre o mar revolto, e no seguimento de Jesus debaixo de tempestades, dentro da noite escura do mundo excludente, violento, desigual. No testemunho profético ou nas recentes Diaconias Sociais, Fóruns; Combate à Corrupção; Programas que envolvem Crianças e Jovens sob Risco de Crime, da Violência, do Racismo, do Sexismo, da Pedofilia e  da Prostituição Infanto-Juvenil; Programas de Tratamento de Doenças freqüentes ou endêmicas, e etc., os discípulos de Jesus devem estar conscientes das dificuldades que deverão enfrentar ao longo de todo o percurso.

 

No meu caminho, hoje de manhã, quando me dirigia ao barbeiro que cuida dos meus ralos cabelos brancos, assumidos nos meus 68 anos recentes, vi a catadora de lixo, alcoólica, talvez drogadita, morta, “atrapalhando o trânsito”, como dizia Chico Buarque: (“Morreu na contra-mão atrapalhando o tráfego”). Tomou uma cachaça no botequim, e caiu morta na rua estreita do bairro pobre. Mas, caminhar é preciso, diz o poeta. Thiago de Mello escrevia no exílio: “caminante al caminar se hace el camino”. Paulinho da Viola, magistral, canta: “não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar”. As ondas bravias, o mar encapelado, a noite escura da vida (Mt 14,22-33), se apresentam a cada passo como obstáculos que podem induzir à insegurança, ao desalento e ao medo do fracasso. Pior ainda: podem induzir-nos a acreditar num Deus silencioso, mas satisfeito na adoração interesseira da religiosidade dominante nos nossos dias.

 

A visão que a Bíblia nos oferece, hoje, convoca-nos a fazer uma revisão da vida de fé... ou será que preferiremos manter nossa visão religiosa do mundo, preocupados com afirmações sobre a irreversibilidade do mal, ou sobre a luta de “Deus e o diabo na terra do sol”, ou com as “Proezas de satanás na terra do leva-e-trás”, nesses filmes que retratam o universo da superstição religiosa no Nordeste brasileiro, impedimento às transformações sociais, de Glauber Rocha e Paulo Gil Soares? Devemos abrir nossos olhos e nossas mentes, porém. Jesus caminha por cima das águas bravias que escondem os monstros horripilantes da injustiça, do desrespeito aos direitos fundamentais do homem e da mulher, da fome e da violência. Ele sabe que nossas crenças religiosas e superstições sufocam a fé e a confiança na obra salvadora de Deus. Não é uma história boa para se contar para nossas crianças, grande parte delas vítimas da monstruosidade explícita no cotidiano da pobreza e da miséria. Esses monstros, longe de estarem escondidos nos mares profundos, permanecem à luz do dia como uma terrível ameaça contra o reinado de Deus.

 

Texto: Derval Dasilio

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