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18o. Domingo do Tempo Comum Ano "A"
Gênesis 32,22-31 – Vi Deus face a
face
Salmo 17,1-7 e 15 – Ouve, Senhor, a causa
justa...
Romanos 9,1-5 – Herança para a inclusão de
todos
Mateus 14, 13-21 – Todos comeram e ficaram
satisfeitos
NA BUSCA DA TERRA SEM MALES CEIA PARA INCLUSÃO DOS DESGRAÇADOS Uma idéia se levanta desse
recorte, na história da formação judaísta primitiva: os projetos humanos
não têm força suficiente, em si mesmos. É preciso lutar com Deus, e desse
embate marcas profundas resultarão (Gênesis 32,22-31). Este é um relato de
suma importância, ao mesmo tempo decisivo. Antes de tudo, denuncia que
Jacó vive num mundo politeísta, e seu Deus, Bet-El, é o Deus daquele
lugar. No entanto, arrisca-se num ato valente, no terreno dominado pelo
irmão Esaú, seu adversário (panim). A luta com Deus é impressionante (Os
12,31: “Deus em pessoa, um anjo...”), em tons misteriosos, Jacó vence, mas
sai com marcas profundas. A mistura dos textos “javista” e “elohista” traz
dificuldades na identificação do nome de Deus. Mas sabemos que El é o nome
mais importante entre os deuses cananitas, desde Abraão, nos lugares
freqüentados pelos patriarcas. Sempre trazem identificação prévia, esses
deuses. No relato da travessia do Jaboq (32,29), Deus é reconhecido entre
os nomes do Deus de Israel, tão somente. E não entre as divindades do
mundo pagão. Perguntam-se mutuamente pelo
nome, os dois personagens. Mas Deus recusa-se a dar o seu, que é o modo de
resguardar seu próprio mistério (Yahweh, “sou o que sou”, para Moisés;
mas, para Jacó é El-Shaddai, “Deus que conduziu os patriarcas”; no
entanto, os profetas deuteronômicos conheciam-no como há-elohim, “Deus
único”). Deus acaba por conceder a bênção a Jacó. Vários nomes vão sendo
explicados: Jaboc combina com Jacó e com ye´abeq=lutar; Israel=lutar com
Deus; Fanuel=rosto de Deus. A luta atravessa a noite e avança pela aurora.
É dia, ao final do combate (Shöekel). O sentido geral é de mistério, um
encontro secreto, como os de Moisés e de Elias (Ex 33,34; 1Rs 19). Desse
modo, o autor quer demonstrar que Deus estaria se revelando enquanto
também se esconde, ao mesmo tempo. 1. - Nos tempos antigos, nas
culturas mais remotas, a luta pode tomar características legendárias:
deuses tomam identidades humanas; heróis mitológicos têm proporções
físicas e forças sobre-humanas; um deus que luta com um homem está
limitado ao tempo das trevas, e quando o homem vence, usando de
artimanhas, arranca-lhe uma concessão. Um favor. Com exigências religiosas
– antes que épicas, talvez à semelhança deste relato bíblico –, é Deus
quem dobra o homem. Embora se permita ficar retido pelo homem. Deus mesmo
provoca, chamando à luta, à tenacidade, à busca incessante mesmo que
insatisfeita. É Deus que desafia o homem para abençoá-lo no final. O
personagem é um “ish” (homem, indivíduo), que mesmo na obscuridade, luta
em full-contact com Deus. Desse embate o peregrino se dirige rumo à “sua
terra prometida”. E o “homem” sai mancando, ferido mas de pé. A utopia do
novo mundo mapeia seu caminho. O homem deve sempre voltar-se
para a solidão com Deus, sugere o texto, e lutar de novo; deve insistir em
nova escuta do nome de Deus no meio da luta, como quem procura um personal
training, forçando-o a revelar-se com instruções estratégicas. Atualizando
seguidamente o nome que se pronuncia, limpamente, os desgastes são
evitados (como o abuso dos nomes de Deus no teísmo corroído da fé
evangélica iluminista, propositista, racionalizada, empírica, prática).
Então, Deus se pronuncia no mistério abscondito, lugar oculto ao
entendimento humano. Abençoa e se recolhe ao mistério calando-se
novamente. Jacó ouve a palavra, depois de
ter sentido aquele com o qual teve contato, e que já se deixou descobrir
presencialmente. É freqüente
no folclore de todas as culturas que o raiar da aurora quebre o encanto,
ou deixe impotente o personagem sobre-humano. De nome mudado para Israel,
Jacó chama aquele lugar de “Fanu-El” (onde se pode ver o rosto de Deus),
dizendo: “Vi Deus face a face e sobrevivi!”. Grande é o mistério da fé,
dirá a liturgia reformada que reconhece “a presença real do Senhor” na
mesa da comunhão (Calvino). O sol despontava quando ele atravessava Fanuel
(Gn32,32). A bênção de Deus, alvo para todo empreendimento de fé, é
alcançada ao raiar do dia,
depois da noite tenebrosa, depois da luta para que Deus se revele, e
participe das lutas humanas, pelos direitos, pela dignidade, em favor do
bem-estar para todos. Como na
canção: “Amanheceu, peguei a viola e fui viajar”... lutas em situações de risco, de
desproteção, faltando de garantias; lutas contra a morte, pela liberdade e
contra a opressão, onde quer que o homem esteja . Jacó é o símbolo bíblico do homem
que busca a Deus enquanto se empenha nas grandes lutas por um mundo novo.
A terra sem males nem dores do Apocalipse.
2. - A celebração da Ceia dos desgraçados na Igreja primitiva: fonte de inspiração do Reino de Deus (Mt 14, 13-21).
Junto a ela, outra fonte mais
direta é o relato da multiplicação dos pães de Eliseu (2Rs 4,42-44). Este
último texto fala do homem que traz pães ao profeta; que recebe a ordem de
alimentar numerosas pessoas. Mesmo sabendo da impossibilidade de cumprir
tal ordem, “distribui os pães aos gentios”. Mateus anota que depois da
comida “sobrou” alimento. Há, por conseguinte, uma insistência em mostrar
a “retirada” de Jesus do meio da multidão, que aparecerá novamente em
(15,21;16,4), semelhante ao distanciamento dos Magos com respeito a
Herodes (Mt 2,12). Esta atitude está ligada ao desprezo da multidão e de
Herodes pela atividade profética de Jesus e de João Batista. Por isso, com
as parábolas, concluiu-se o ensinamento para este auditório que é cego e
surdo, Jesus se afastou dali (v.13). Esta multiplicação está inserida numa
série de acontecimentos que manifestam o amor de Deus que triunfa sobre
todas as lutas e dificuldades. Daí o apelo do profeta do exílio, Dêutero
Isaías, que convida a buscar em Deus bebida e alimento (Is 55,1-3).
O fato de que Deus ofereça o seu
amor em forma de comida levará o evangelista a sublinhar o aspecto
eucarístico do episódio. Por outra parte, o v. 19b (“ergueu os olhos para
o céu e pronunciou a benção... partiu os pães, e os deu aos discípulos”)
equipara este acontecimento através das fórmulas utilizadas para a
consagração eucarística do pão (cf. Mt 26,20). Esta assimilação explica o
fato de não terem aparecido peixes ao longo do relato. Mateus põe em
evidência a função dos discípulos nesta primeira multiplicação. Bem mais
ativos que nos textos paralelos dos demais evangelistas, eles falam a
Jesus da situação da multidão (v. 15), e recebem a ordem de alimentá-la
(v. 16), e de se transformarem em mediadores privilegiados do pão que
Jesus destinou ao povo (v. 19c). Neste percurso, Jesus deve vencer a
resistência dos seus. O evangelista afirma que eles buscam a solução do
problema recorrendo ao costume comercial da época. Pensando na forma na
crença utilitarista, que só se pode satisfazer as necessidades humanas a
partir da atividade de mercado, comercializando-se a fé. Hoje, um
pensamento bem comum nas igrejas evangélicas e católicas.
Neste “comprar”, Jesus aponta um
novo caminho. Com a bênção sobre o pão, Jesus foge da esfera em que se
situam as leis da oferta e da procura. Pronunciando esta ação de graças
Jesus coloca o pão em relação direta com o Criador, como expressão de seu
amor. O ato de repartir significa colocar-se nesse âmbito de generosidade
divina, único meio para saciar a necessidade e a fome de Israel,
significado pelo número doze dos cestos que sobraram. Com o número de
cinco mil para indicar os que foram saciados se alude às comunidades
proféticas de Eliseu (2Rs 2,7), constituídas por cinqüenta homens. São
multiplicadas por cem, aqui, para indicar um número ilimitado. Como ocorre
na pergunta de Pedro sobre o perdão (perdoar setenta vezes sete,
infinitamente...) . Partilhar o pão é fruto da ação
do Espírito. Faz o homem e a mulher amadurecerem no seio da comunidade.
Dessa forma, a comunidade cristã é convidada a buscar a plenitude humana,
bem além das ofertas que se fazem no circuito da igreja de mercado.
Trata-se de constituir comunidades centradas na partilha, que encontram
sua expressão na mesa da comunhão eucarística. A Ceia do Senhor. Esta deve
readquirir seu sentido primitivo: a ceia é do Senhor, e não a santa ceia
da Igreja. Esta, uma ceia doutrinária, e excludente. Na ceia do Senhor,
inclusiva, a recepção do pão, originado no amor de Deus por sua criatura
por meio dos discípulos, deve chegar à multidão faminta do pão da
igualdade e da justiça: Jesus. Os seguidores de Jesus devem sentir-se profundamente comprometidos nesta
tarefa: “Cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças” foram servidos.
Mas este versículo (21) ressoa como uma bordoada nos defensores da
teologia feminista: mulheres e crianças não são relacionadas para a
comunhão do pão. A forma
androcêntrica de narrar é excludente. Como interpretar este fato? É palavra de Deus na instrução da eucaristia? O sexo masculino realmente vem em primeiro lugar no Reino dos Céus, considerando-se quem celebra e quem comunga na mesa da Ceia do Senhor? Uma oração de instrução no Partir do Pão faz-se necessária. Por todos os que padecem das fomes de inclusão e de justiça; desde os homens e as mulheres envolvidos nas lutas contra a morte, pela liberdade e contra a opressão, do corpo e das massas, onde quer que haja oprimidos, excluídos e carentes de dignidade. Uma súplica para os milhões de homens e mulheres que não têm, sequer, um pedaço de pão para comer, quanto mais justiça e dignidade. E uma exortação aos cristãos e cristãs que, por omissão deliberada, ou insensibilidade, negam-se a revisar a discriminação de gênero, na linguagem eclesiástica habitual, que falam da Ceia da igreja exclusiva (Santa Ceia?), sem considerar mulheres nos ministérios, e crianças comensais; e diferentes, por raça, cor ou opção sexual, incluídos pelo Senhor como componentes do infinito número de discriminados, oprimidos, esmagados, entre os “cinco mil”. À multidão, descrita pelo evangelista Mateus, não foi negado o pão da comunhão.
Texto: Derval Dasilio [LEIA MAIS SOBRE O AUTOR] LECIONÁRIO REFORMADO ESPAÇO TEOLÓGICO ECUMÊNICO |