|
17o. Domingo do Tempo Comum Ano "A" LECIONÁRIO LITÚRGICO Gênesis 29,15-28 – Um bom discernimento comporta bons frutos Salmo 128 – Do trabalho de tuas mãos
comerás... Romanos 8,28-30 –
Ele nos predestinou para sermos conformes a imagem de seu
Filho Mateus 13, 44-52
– Ele vende todos os seus
bens e obtem aquele campo
POR UMA ECONOMIA SEM DEMÊNCIA
Em
consideração aos cristãos desse momento, convida-se a uma valorização
adequada das diversas ofertas que nos são feitas ao longo da vida.
Fazer-se discípulo de Cristo significa, então, assumir uma tarefa, a mesma
tarefa de Cristo. O letrado é o perito na Escritura. Graças ao
magistério de Cristo esse letrado pode renovar todas as suas concepções e
levá-las à verdade plena. É preciso aprender a lição dos simples,
desarmados, sem segundas intenções, em favor da consciência solidária, do
empenho, do cuidado com os outros, num mundo onde o de cima pisa no de
baixo; o rico ignora o pobre; o forte esgana o fraco; o “adiantado” se
distancia do atrasado, o desenvolvido do subdesenvolvido; o
bem-sucedido do fracassado. A prosperidade, o sucesso, os
resultados numéricos, são realidades distantes da abertura de salvação e
libertação oferecidas gratuitamente por Deus, na profunda intuição do
Reino. Nilton Bonder deveria interessar-nos, como pensador judeu que busca
a síntese do pensamento rabínico quando aborda as questões do “bolso” (kissóh), até diante das formas
complexas, do esforço cultural de explicar o desastre ecológico à luz da
escatologia apocalíptica preferencial; de uma hecatombe sob o juízo de
Deus, antes que uma escatologia que aponta um mundo novo.
Precisamos lembrar que o
Apocalipse bíblico começa imediatamente demonstrando a derrota dos
monstros da destruição pelo Filho de Deus, e termina expondo um mundo
novo, redimido, sem males nem dores. Quem excluirá de suas considerações o
quanto o mundo criado depende de uma economia ecossistemática, de uma
teologia holista que reúna todas as formas de conhecimentos exigentes de
políticas adequadas, e intervenções de salvação da natureza ameaçada pelo
"homo demens" que está em todos nós, como sugere a empolgada e
consistente teóloga Sherron Kay George (agora brasileira naturalizada!),
enquanto cita Leonardo Boff abundantemente? No atacado, o problema do
dinheiro é vital para a salvação do mundo criado, meta do Reino de Deus.
No varejo, a questão se resumirá, apressadamente, no “kossóh, kissóh vê-kaassóh”: "Uma pessoa se faz conhecida
através do copo, do bolso e de sua ira...”, nos lembrará Nilton Bonder do
povo judeu em sua sabedoria inestimável. E Zeca Baleiro, poeta cantor
maravilhoso, dirá, advertindo seus ouvintes gananciosos: “Você rasga meus poemas, mas nunca vi
você rasgar dinheiro dos outros”. O primeiro texto trata das paixões e
dos enganos na economia do cotidiano (Gn 29,15-28). Labão propõe um
preço para os serviços de Jacó. Este, amando e desejando Raquel, responde
com o desatino da paixão: quer essa mulher. O paralelismo tipológico
remete-nos também para Moisés (Ex 2,16-22), o que reforça a idéia de que
não se trata de acentuar uma história romântica, quando Moisés toma a
filha do sacerdote Jetro (Ragüel, BP), Séfora, depois de
servi-lo como pastor, e não como sacerdote. Trata-se da incorporação ao
povo que o acolhe, após a fuga depois do ato violento contra o egípcio.
Moisés é um “ger”,
um hebreu forasteiro, recebido na família que habita Jacó está diante de uma
situação semelhante, reclama do costume que atribui o direito de casamento
da primogênita (bekirah), astuciosamente
alegada por Labão, que submeterá Jacó aos usos do lugar. O jogo quase
ingênuo das palavras, no entanto, permitirá um melhor entendimento sobre a
humilhação de Raquel, estéril, e a exaltação da fecundidade de Lia. Numa,
a limitação. Noutra, a prosperidade garantida. Os nomes sugerem
interpretações nas duas tradições, “javista” ou “elohista”, presentes
nesse recorte: “ra´a” é ver; “shamah” é ouvir, perceber,
atender o pedido. E “gad”
evoca a sorte, “asher”
remete à felicidade: estado de graça, como nos salmos, bem-aventurança, na
exposição do Evangelho (TEB, pp.62-63). Só no capítulo seguinte
se entenderá porque é necessária a desforra de Jacó: Labão cede à
reivindicação do futuro genro, num jogo econômico calculado: Jacó não quer
pagamento imediato, mas a
participação dos lucros, sabe canalizar a sorte a seu favor. Trabalha com
dedicação, ganha a confiança do sogro e vence sua hostilidade. E um pouco
mais, a esperteza de Jacó vai favorecê-lo também juridicamente, mas não o
bastante para evitar um conflito maior que o obriga a fugir. As duas
filhas vão denunciar a ganância do pai, que as tratou como estranhas,
vendendo-as para amealhar os lucros da venda das duas. É daí que se origina Judá,
“yadah”, e no
trocadilho “yehudah”, a quem retrocede o
autor, e essa fonte do Primeiro Testamento puxa descaradamente a brasa
para a tribo real de Judá, séculos depois (os registros, na maioria, datam
do VI século). É hora de sair dessa terra (como Abraão). O melhor resultado é que Jacó está
livre, e suas mulheres
dispostas a abandonar a casa paterna e seguir o
marido. Nos
relatos em consideração, neste domingo litúrgico, convida-se a uma
valorização adequada das diversas ofertas que nos são feitas ao longo da
vida (Mt 13,44-52. É
inegável que nos dias de hoje a idolatria do dinheiro, o desejo compulsivo
de ter posses eclesiásticas e controle de multidões, e bem materiais, se
misturam com a compulsão das igrejas-de-resultado, onde os números e as
quantidades se sobrepõem à qualidade dos fiéis comungantes, de maneira
alarmante. Este fenômeno faz com que as comunidades cristãs deixem de ser
espaços de comunhão, de testemunho profético e diaconal para se
converterem em lugares onde se cultivam rivalidades, partidarismo, altares
de adoração do consumo, muitas vezes disfarçados em resultados
superficiais. Tudo isso obscurece a mensagem bíblica de libertação. Em
tantos casos, igrejas passam a cultivar a idolatria aos mestres do
púlpito; o brilhareco espetaculoso do “gospel pentecostalista”; a
transformação dos altares em palcos; espetáculos litúrgicos onde
interessam exclusivamente a emoção e a prosperidade nos números, antes que
o aprofundamento da vida em comunhão, do espírito solidário, e da
capacidade e de indignar-se e de inconformar-se com a corrupção dos
homens, em todo tempo e em todo lugar; na necessidade de anunciar
verdadeiramente o Reino dos Céus aos oprimidos da terra, todos os “céus”,
como Mateus inspira. Nelas o Reino se compara
a um tesouro escondido e a uma pérola de grande valor. A pessoa que
compreendeu o seu valor está disposta a renunciar a tudo com o fim de
adquirir essa pérola e este tesouro. Vale a pena vender tudo para comprar
este sumo bem da própria vida. Igualmente, a existência desta pérola induz
o comerciante vender tudo para poder adquiri-la. O consumo passou a ser
uma forma de articular o prazer na lógica do mercado. Ou seja, não estamos
mais, com antes, utilizando o sexo, por exemplo, para vender mercadorias.
O próprio sexo, hoje, é uma mercadoria valiosa. Traduzido em termos mais
simples, isto quer dizer que os prazeres do consumo não são mais algo da
vida privada, da intimidade, do segredo pessoal não sujeito ao escrutínio
público. Tudo se apresenta no comércio de excitação, enquanto o sucesso se
tornou um “emblema”, um “brasão” dos indivíduos considerados
“bem-sucedidos” econômica e socialmente (Jurandyr Costa
Freire). Trazemos isso pra dentro da
igreja, de forma descarada e
vergonhosa. Se observarmos com
atenção, tudo que é dito sobre a obtenção do prazer aponta para pessoas
ricas, jovens, bonitas, famosas, “inteligentes”... No fundo,
o mercado não vende um produto qualquer. O mercado vende pessoas. E
neo-evangélicos sabem disso muito bem, quando passam a vender, na inversão
bíblica, a fé na prosperidade; a esperança do sucesso, e aparecer a
qualquer custo; e o amor ao dinheiro acima de tudo. Especialmente no
perfil do bom pregador evangélico ou neopentecostal admirado na mídia, ou
adorado, ou imitado nos altares das igrejas históricas, ou evangélicas
mais recentes... Uma situação bem erótica, ou auto-erótica, creio eu.
Crentes tornam-se voyeurs. Eros e tânatos são envolvidos (prazer
e morte). Dessa forma, uma renúncia até à dignidade do ministério,
inclusive, para alguém transformar-se em possuidor deste bem tão precioso
que é a condução pastoral do povo de Deus, entregando-o a um mercado
duvidoso de graças e bem-aventuranças, é alarmante. E
imoral. Em comum com as outras parábolas, aqui, a ação empreendida pelo homem e pelo comerciante é radical: trata-se de “vender tudo” que se tem para “obter” (egorasen, no original) o bem desejado O dom gratuito de Deus. Numa sociedade que conhece muito bem a atividade febril do comércio e do consumo, convida-se a descobrir o valor único do Reino dos céus, superior a outras realidades, não disponíveis nas vitrines dos hipermercados. Nem nas bancas e bilhetes do "jogo-do-bicho". Uma pérola preciosa, a Graça de nosso senhor Jesus Cristo. O Reino de Deus não se avalia através de instrumentos com os quais se analisam os gananciosos reinos da terra. Esta insistência deixa bem claro que a resposta esperada por Jesus não admite concessões aos recentes perfís evangélicos adotados: adornados com pérolas falsas, graça barata, comprada em qualquer botequim. E as igrejas, passam a assemelhar-se a "essas mulheres que, por uma coisa a toa, só dizem sim", ostentando jóias falsas (parafraseando Chico Buarque, com um pedido de perdão às mulheres da vida).
Texto: Derval Dasilio [LEIA MAIS SOBRE O AUTOR]
|