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16o. Domingo do Tempo Comum Ano "A" LECIONÁRIO LITÚRGICO
Gênesis
28,10-19a. – Certamente, há Deus neste
lugar Salmo
139,1-12;23-24 –
Tu me
conheces como justo e simultaneamente pecador... Romanos
8,12-25 – Se somos filhos, somos herdeiros de
Deus Mateus 13,
24-43 – Deixem crescer o joio e o trigo até a
colheita...
ERVAS
DANINHAS NA PORTA DO PARAÍSO Jacó, que roubara a primogenitura do
irmão, consegue a bênção do pai, Isaque, após ter enganado Esaú (Gen
28,10). Jacó foge do irmão que poderia matá-lo, pelo roubo da
primogenitura. O texto descreve o deslocamento de Beer-Sheva para Haran.
Trata-se, como se observa na tradução dos termos, de um lugar para outro
lugar. Logo depois, Jacó “depara-se com ‘o lugar’ e lá se deita, porque
caía o sol ”. A construção hebraica é inusitada: “va-ifgá
ba-makon”, quer dizer: foi pego, atraído, seduzido,
pelo sagrado do lugar. Que
lugar é esse? O texto não esclarece, o contexto não ajuda. Mas a noção do ‘lugar’ torna-se o
drama concreto. Jacó não está simplesmente ‘num lugar’, mas ‘neste lugar’
(“bá
makon há-hú”). É aqui que Jacó tem seu famoso sonho,
no qual vê uma escada, e por ela subindo e descendo anjos, do céu.
Quando desperta, lemos: “Acordou
Jacó de seu sono e disse: Certamente ‘há Deus neste lugar’ e eu não o
‘penetrava’”. André Chouraqui, teólogo judeu interessado também na
exegese do Segundo Testamento, traduz o verbo “yadá” tanto no sentido de
‘saber’ como no de ‘penetrar’. Esse entendimento bíblico da palavra
‘penetrar’ equivale a conhecer uma mulher penetrando-a. Um acesso fantástico a dimensões e
memórias ancestrais. E um reconhecimento do mundo criador, através do
mergulho no útero matricial donde tudo se origina. Em seu momento de crise
Jacó “penetra” no lugar onde as intenções de Deus se revelam. Busca o
fundamento de tudo, o útero criador de todas as coisas, e encontrando-o
compreende:“quão terrível é este lugar! O lugar é nada menos que a casa de
Deus, sua habitação, porta do céu!”. Concordo, mas não sei quem
escreveu... Em Jacó também se cumpre o duplo movimento,
saindo do espaço doméstico, penetrando o espaço interior profundo dos
grandes sonhos da humanidade (cf. Luther King Jr.: “eu tenho um
sonho...”). “Bet-el” (porta do céu) é o
contrário de “Bab-el” (portal dos deuses).
Na Bíblia Hebraica, “Bet-el” é um centro de
expansão para os quatro pontos cardeais da Terra, no olhar de Abraão:
“em ti será bendita toda a tua descendência...”. Jacó, na verdade, agora, não
foge do irmão. Ao contrário, Jacó caminha para Deus, quer entender suas
intenções (Shöekel, Bíblia do Peregrino,
Paulus). A
humanidade quer ir sempre atrás da vida, da felicidade, da liberdade, dos
grandes sonhos. Sonhar com justiça social, inclusão, dignidade e bens
sociais ao alcance de todos, amplo bem-estar social, vida plena e
abundante, faz parte do que anseiam homens e mulheres, onde quer que
estejam. O sonho é alguma coisa que não se pode tirar de ninguém. Escravos
sonham a liberdade. Oprimidos pela violência das sociedades injustas,
dominados culturalmente e explorados pelas estruturas de poder, sonham com
a libertação. Na vida de fé, um cristão permanece em situação teológica.
Observa as intenções libertárias de Deus. Quer o êxodo bíblico. Sonha com
as transformações, observa as possibilidades de um mundo novo e
reconciliado.
O
egoísmo do ser humano, porém, frustra os esforços para alcançar a utopia.
Confiar no Espírito, como Paulo ensina, ajuda a sair do subjetivismo
oportunista, individualista, para se poder encontrar realmente a plenitude
de vida, que todos aspiramos, certamente. O fundamentalismo religioso, que
também está dentro de nossas igrejas, e de nós mesmos, confundindo jovens
e maduros com falsos rasgos de modernidade eclesiástica e administrativa,
é um contínuo contratempo para a colheita da boa semente semeada. A
cizânia que cresce no meio do trigo mistura-se, mas terá de ser separada
no tempo próprio. Não prevalecerá no campo de
centeio. De
onde surge a cizânia? Onde se semeia a discórdia? Temos a paciência do
tempo para deixá-la crescer e esperança para confiar na conversão da
cizânia em trigo bom para nosso povo e nossas comunidades? Lembrando Jacó,
como reconheceremos que a Igreja é o lugar de Deus e porta para os “céus”,
todos os céus, formas de bem-estar disponíveis desde a economia, e na
participação dos bens sociais? E, também, a partir da paz espiritual, o
que se fará para alcançar
dignidade, direitos humanos, cidadania, como o hebreu Mateus identificou o
Reino dos Céus? Como reconheceremos na Igreja o lugar sagrado no qual se
vê que o Reino de Deus é o lugar onde se realizam sonhos impossíveis? Que
o reinado de Deus traz os céus que todos
almejamos? Uma
comunidade profética, socialmente diaconal, ecumênica e unida, como parte
da construção de uma nova humanidade, proposta no Evangelho, muitas vezes
necessita forjar seus princípios de fé e organização desde o que é pequeno
e simples (cf.: o grão de mostarda e o fermento; a parábola do grão de
mostarda e a do fermento completam-se entre si, e falam do crescimento do
mal dentro do atual reino visível de Deus [Lc 13,18-21], representando ao
mesmo tempo a enorme dimensão do ser humano, quando quer dominar a outrem.
No reinado de Deus dever-se-á estar atento à cizânia. A ação do Reino dos
Céus na história, no jeito judaico que Mateus tem de identificar o Reino
de Deus, exige tal atenção. Mas com simplicidade, como já disseram muitos
homens e mulheres de fé, com grandiosidade e expressões significativas de
solidariedade. Na diaconia, serviço para com os demais, e com a sociedade
inteira, desde a comunidade eclesial básica, na comunhão e na construção
de uma fraternidade humana que entrelaça o amor e a justiça. Imaginamos
Jaime Wright, gigante do protestantismo ecumênico, como alguém obediente
aos pensamentos conformados com os sistemas de pensar, ou um servidor
dedicado à justiça de Deus? E Gandhi? E Luther King Jr.? A desobediência
civil, e também religiosa, marcou essas vidas, enquanto voltadas para a
libertação de consciências dominadas por sistemas de pensar coniventes com
a injustiça. As parábolas do
evangelho de hoje têm uma mensagem que deve chegar a todos os fiéis e a
todos os seres humanos: devemos tomar a consciência de não querer o
impossível (que é pretender que haja semeadura sem a presença do mal,
expressa na primeira das parábolas do evangelho de Mateus). A mensagem de
Jesus, por meio das parábolas, se revela àqueles que o buscam, trazendo
ensinamentos do passado, da herança de fé. O Reino de Deus é apresentado
para nós, no evangelho de Mateus, como uma comunidade de trigo e de
cizânia, de justos e de
pecadores. Melhor ainda: uma comunidade de pessoas às vezes justas e
outras tantas vezes pecadoras. Lutero diria: simul peccator et justus:
ao
mesmo tempo justos e pecadores. Hoje, como nos tempos de Jesus
e durante toda a história da humanidade, costumamos dividir e “organizar”
aparentemente a igreja local ou nacional com critérios que consideramos
corretos: bons e maus devem estar separados e colocados em extremos
opostos. Esta opinião, dividir entre “bons” e “maus”, era freqüentemente
aceita por grupos no tempo de Jesus (fariseus e essênios = legalistas e
rigoristas religiosos). Da mesma forma, era opinião aceita por grupos
ideológicos, econômicos e políticos (por herodianos, saduceus e zelotes;
por governistas, poderosos economicamente e revolucionários radicais).
Pois todos eles se viam como adversários, inclusive aqueles que não
pensavam, ou não acreditavam, ou não opinavam, segundo os mesmos critérios
citados. Uma radicalidade com critérios de justiça deve ser sempre maior,
e sem exclusão. Jesus mostra que é
necessário abrir a mente e o coração para acolher com esperança, não
passivamente ou com indiferença, àqueles que aparecem diante de nós como
diferentes. Exatamente o contrário do que ensinam exclusivistas,
homófobos, propositistas, intolerantes, violentos doutrinários. Não
podemos ignorar que, na parábola da cizânia, a presença do mal permanece
na história de todos nós. Reconhece Jesus, a presença do inimigo que
semeia a cizânia no campo plantado com boa semente. Quer chamar a atenção
para que não se busque extirpar o mal com afã, com garra inútil, ou com
intolerância. Especialmente dentro de nossas comunidades particulares. A
mensagem é esta: é possível confundir a semente boa com a semente má. Fogo
amigo, como se diz na arte da política, prejudica as melhores causas.
Muitas vezes, dividir a humanidade entre bons e boníssimos, maus e
malíssimos, oferecendo-se o prêmio de salvação para os primeiros e a
condenação para os segundos, confunde-nos ainda mais. Isso pode trazer,
por equívoco, prejuízos irreparáveis às comunidades de fé.
Imitar a estrutura do pensamento imperante, sobre o poder dominador, lutando-se equivocadamente por um "poder" que não é dado a ninguém; copiando-se o que oculta a grandiosidade do Reino de Deus; construindo-se projetos eclesiásticos onde não se promovem os valores do Reino, em primeiro lugar, é confundir a semente boa com a semente má. A noção do 'lugar' torna-se o drama concreto da Igreja, no sentido que o Evangelho poderia dar à ‘casa real de Deus’. A casa que não está 'num lugar', mas 'neste lugar'. Certamente 'há Deus neste lugar', neste mundo sagrado, nesta terra profana, devastada e corrompida. Clamando por salvação e libertação, exigindo transformações urgentes. O sonho da igreja apostólica e profética não acabou! Propositistas, adaptadores ideológicos de eclesiologias importadas, pragmáticas, exigentes de resultados numéricos, imediatamente, enganam-se, enquanto procuram enganar-nos sobre sua compreensão do lugar de Deus neste mundo. Fiéis ao evangelho de Jesus, contudo, toleram a cizânia, enquanto aguardam a ação de Deus. A missão provém de Deus, e não das falsas urgências e escolhas humanas. O Deus de Jacó é o Deus que “age em um lugar sagrado”: “quão terrível é este lugar”! O lugar é nada menos que a casa de Deus, sua habitação é o mundo. Esse lugar deverá ter uma porta para todos os céus. É preciso que a Igreja compreenda o lugar sagrado onde Deus está presente, e se entregue aos sonhos libertadores que estavam em sua fundação.
Texto: Derval Dasilio [LEIA MAIS SOBRE O AUTOR]
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